Um projeto fantástico da OSESP!!!
Sempre tive muita vontade de ir na Sala São Paulo, ver a orquestra sinfônica, na sua própria casa. Um sonho que guardava desde quando cheguei a São Paulo. E, enfim, no dia 19 de novembro de 2011, as 16:30 horas, depois de 8 anos e meio aqui na capital paulista, realizei-o.
E este projeto foi especialmente emocionante!
Compositores clássicos vivos (a grande maioria está morta, o que tem seu lado frustrante) apresentam suas obras, sendo que eles mesmos regem a orquestra.
Pra mim, saber que a pessoa que compôs aquela peça está ali, de pé, na frente dos músicos, coordenando a execução dos movimentos, foi realmente tocante!
As obras, como muitos clássicos modernos, são bastante complexas e desconstruídas.
Segue o programa:
Programa:
1) Leos Janácek (1854 – 1928) - O filho do Rabequeiro (1912) - 12 minutos
2) Thomas Adés (1971) – Asyla (1997) - 20 minutos
Pausa
3) Thomas Adés (1971) – Concentric Paths – Concerto Para Violinos, Op. 23 (2005) - 20 minutos
4) Thomas Adés (1971) – Polaris (Estréia Sul-americana) 2010 - 13 minutos
1) Como está escrito, a primeira música, não era do compositor que estava também regendo, por isso não vou comentar.
Mas as outras três sim.
2) Asyla
A Asyla é uma desconstrução total! Pra mim foi a mais difícil de sentir! Parece mesmo que a música nunca deslancha realmente. Há a introdução de instrumentos não convencionais na orquestra. É uma amórfica fusão de climas que caberiam totalmente como trilha para uma bela animação de suspense!
Neste link encontra-se a Asyla inteira:
Depois da louca Asyla, veio uma merecida pausa.
3) Concentric Paths
Uma obra dividida em três partes: I Rings, II Paths, III Rounds.
Durante seus 20 minutos, um homem se contorceu loucamente para dar vida ao um extraordinário solo de violino, como pode ser visto nesses dois links:
O primeiro contendo as duas primeiras partes da obra:
E este segundo contendo a terceira parte:
Foi intensamente aprisionador ver aquele sujeito totalmente tomado pela dificuldade da execução, provavelmente caminhando na fronteira máxima de sua técnica. Ele, inteiro, e até mais do que sua própria possibilidade de ser, era o total da própria música. Não restava espaço para deslizes ou grandes descansos, durante grande tempo da música. Era como se ele fosse escravo da beleza à qual se submetera voluntariamente. Restando àquele pobre ser, somente concentrar-se e seguir adiante, aprisionado ao seu instrumento e às linhas melódicas alucinantes que deveriam ser soadas naqueles minutos. Foi uma experiência muito louca!!!
4) Polaris
E por fim, a que mais me agradou: Polaris.
Pareceu-me o descanso final de todo o processo. Mas, nem por isso, soou como algo mesmo próximo dos clássicos clássicos.
Seguem dois vídeos com ela inteira:
Esta composição, composta em 2010, o que, para a música clássica e, hoje em dia, também para músicas de outros estilos, é bastante atual, tinha a proposta de apresentar um tema que seria multiplicado em cânone, vertendo todos os instrumentos (alguns até espalhados por outros pontos da sala de concerto) numa nuvem de frases que iria se avolumando e intensificando até chegar num ponto máximo. E foi isto!
Não sei se ela é uma composição dodecafônica, mas é bastante misturada.
Ao chegar neste ponto alto, toda a orquestra pára e o tema é INVERTIDO. Ou seja, o tema que deu início à música é tocado ao contrário e isto cria um novo clima que o autor foi desbravando, de maneira, novamente crescente até um novo ápice, onde todos os instrumentos estão totalmente frenéticos desenhando frases.
Após este novo clima, inicia-se a terceira parte que consiste em retomar o tema inicial, mas de uma maneira reorganizada, e mais estruturada, soando mais branda aos ouvidos sem, no entanto, se afastar demais do inicial, ao ponto de não se reconhecer o primeiro tema neste rearranjo. E daí sim a música segue até o fim, não de maneira totalmente harmoniosa, mas mais bela, sim!
Achei esta estrutura um bocado tocante, filosófica e atual!
Vejo o compositor clássico atual como o grande operário das revoluções na estética musical que ainda são possíveis atualmente. Não que isso terá grande alcance, a ponto de muitos (ou todos) tomarem contato com alguma obra clássica do século XXI e notar sua disponível inovação, mesmo após tantos séculos de compositores sublimes que esgarçaram os limites orquestrais até sua quase rebentação.
Na verdade não existe mais, muito bem estabelecida, a divisão clássico-popular. Mas, ainda sim, pelo fato dos compositores clássicos possuírem um método de trabalho mais minucioso e pormenorizado sobre todos os movimentos de suas obras, esta minúcia permite que os diversos caminhos das possibilidades criativas sejam, ainda hoje, mais percorridos que músicas feitas por outros métodos de composição. Não que o popular feito sobre partitura não possa chegar a isso também, mas que é que a partitura é, sublimemente, um instrumento de composição clássica, e o universo do clássico, que pertence muito mais do que outros estilos, a esta metodologia composicional, apresenta-se mais amplo, mais aberto e, ainda hoje, mais rico para as criações. Desta maneira, ele também se apresenta mais aberto para as inovações, mesmo se chamando: clássico.
E reiterado, os compositores clássicos são, novamente, os grandes operários das revoluções, que ainda são possíveis atualmente, na estética da música em geral.



0 comentários:
Postar um comentário