quinta-feira, 19 de março de 2015

A CRIANÇA MAIS DOCE DO MUNDO

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Foi vindo como uma espécie de dor muito funda, uma coisa extremamente intensa que parecia ser capaz de me esgarçar de dentro para fora.
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Mas era só um pequeno menino.
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A pureza daquele meu aluno era tão grande que ele foi, sem saber, me sufocando, me apertando, me comovendo, me aprimorando, me transformando, arrancando de mim qualquer vestígio de maldade e julgamento.
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Naquele momento, aquela criança e seus modos, suas brincadeiras, seu sorriso, sua inocência, foi marcando profundamente minha energia.
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Tudo naquele pequenino foi me puxando, foi me fazendo chorar, foi me tragando alguma dor boa de se limpar, algum pranto interior que se levantava, de dentro do meu coração, me empurrando pro banheiro porque eu precisava chorar aquilo que ali estava vivendo.
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O menino era a coisa mais linda que eu já tinha visto em toda minha vida e, naquele instante, eu queria que tudo aquilo fosse eterno, infinito, intocável.
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Sua voz, seu olhar, suas formas, a maneira como ele imitava um cachorro com asas, seu jeito de fazer bichinhos com as mãos, sua orelha caída por causa dos óculos que usa, o canto do olho inclinado para baixo que dá a ele uma doçura ainda maior junto daquilo tudo que é.
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Sua felicidade de voltar a aula de piano pela segunda vez, o fato de não ir tomar água porque queria ensaiar de novo as novas músicas, sua imaginação, seu desprendimento, sua leveza, o jeito de olhar para qualquer canto, seu empenho em fazer os exercícios, sua ansiedade.
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Sua ansiedade.
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Sua ansiedade, seu possível futuro desencaixe e uma pequena certeza minha de que ele ainda iria sofrer por ser como é.
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Ao mesmo tempo, brotava dentro de mim uma gigantesca vontade de protegê-lo de tudo, de levá-lo comigo, de poder mostrar os passos da vida, de dizer as coisas que ele deveria fazer, o que deveria evitar, poder estar por perto, acompanhar seu universo em desencanto, cuidar da abertura de seu coração frente as desventuras da vida e ir podendo confortá-lo no desenrolar do mínimo infinito.
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Amá-lo sem fim.
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Nada poderia machucá-lo. Aquela criança não poderia ser subvertida pela lógica horrorosa do mundo. As coisas não teriam o direito de arranhar seus sonhos, suas bochechas, seus óculos, seu sorriso, seu encanto, suas brincadeiras. O mundo não poderia esmagá-lo, subjugá-lo, determinar seu sofrimento, corroer seu aconchego, corroer sua alma.
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O menino pequeno brincando de imitar bichos na aula, o menino pequeno que se escondia debaixo das cadeiras e batia suas asas imaginárias e empinava feito um cavalo e mexia os dedos e falava coisas diversas e ficava ali ficando sorrindo sem saber de nada, sabendo de tudo que importa!
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E eu apenas estava ali, naquele canto, sentado no chão.
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Talvez um pouco da minha emoção viesse da certeza de que, se eu tivesse um filho, ele teria aquele biótipo, aquela forma. Não sei bem ao certo, mas isso fez sentido pra mim.
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Fiquei ali dando aula cansado, olhando uma partícula de Deus e pensando como um ser tão pequenino era capaz de, sem saber, me fazer chorar compulsivamente por sua pureza.
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Acho que, no fundo, aquela criança era um pouco eu mesmo.
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Mas seu nome é outro.
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Seu nome é Tiago, cinco anos, usa óculos, gordinho, brincalhão e extremamente doce.
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A CRIANÇA MAIS DOCE QUE EU JÁ PRESENCIEI EM TODA MINHA VIDA!!!
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E eu nem sequer tive coragem de lhe pedir um abraço...
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P.s: Acontecido hoje.
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sábado, 14 de março de 2015

Ifigênia em Tauris – Resenhas 2014


Mais uma das belas óperas montadas no Theatro São Pedro.
 
Um espaço menos suntuoso que o Municipal, mas que sempre preza pela qualidade do elenco, dos cenários, dos músicos.
 
Aliás, é mais gostoso ver ópera no São Pedro do que no Municipal.
 
O clima é menos formal, as cadeiras são mais largas, o povo bate palma no meio do espetáculo, o salão é menor, nunca se está realmente longe do palco.
 
A ópera foi montada em homenagem aos 300 anos de nascimento do compositor alemão Christoph Willibald Gluck (1714-1787).
 
Gluck foi responsável pela renovação da ópera no século XVIII.
 
A ópera havia se tornado, nessa época, uma forma vulgar de entreter o público, com os cantores interpretando as partituras cada qual a sua maneira, transformando as apresentações em grandes circos de exibicionismo vocal.
 
Gluck é responsável por fazer a ópera voltar as suas origens e valorizar novamente a figura do autor e do espetáculo como um conjunto de elementos previamente concebidos e ensaiados para funcionarem juntos.
 
O libreto é do francês Nicolas François Guillard.
 
Ifigênia em Tauris, que foi uma tragédia escrita pelo autor grego da antiguidade, Eurípedes, levou Gluck ao estrelato definitivo na capital francesa, sendo que a primeira montagem permaneceu em cartaz por mais de cinquenta anos.

 
 

La Mamma – Resenhas 2014

Peça divertida que ficou um longo período em cartaz no teatro Nair Belo do Shopping Frei Caneca.
 
A personagem principal, que dá nome a peça, interpretada por Rosi Campos, possui dois filhos com comportamentos totalmente diferentes: os gêmeos interpretados por Leonardo Miggiorin.
 
O gêmeo de comportamento mais correto é casado (noivo ou namorado) de uma boa moça de família (Débora Gomes), mas não consegue ter uma noite de sexo com ela que, pelo que me lembro, permanece virgem.
 
Planejando desencantar o rapaz, La Mama resolve pedir que seu outro filho, o vagabundo, faça as vezes de seu irmão a fim de que, pelos elogios da moça, ele ganhe mais confiança e consiga deslanchar em sua vida amorosa.
 
Ao final a trama tem algumas reviravoltas.
 
Achei o espetáculo muito divertido! Super bem humorado, tranquilo de se assistir, com boas piadas (como quando um dos gêmeos chama a Rosi Campos de “Mamusca” em referência ao personagem dela em “Da cor do pecado”) e um elenco vigoroso, se desdobrando em diversos personagens, do início ao fim!
 
 
Texto: André Roussin
Adaptação e Direção: Carlos Artur Thiré.
Elenco: Rosi Campos, Leonardo Miggiorin, Carlo Briani e Débora Gomez.
Permaneceu em cartaz de 02/08/2013 até 16/3/2014.
 
 
 

Mesmo se nada der certo – Resenhas 2014

Um filme delicioso, muito bem escrito e concebido, soando até mesmo um pouco despretensiosa, se é que uma obra cinematográfica, em toda sua complexidade de realização, pode realmente conter alguma intenção, ou não intenção, nesse sentido.
 
E é assim, por um dos acasos da vida que um homem e uma mulher se encontram num pequeno bar de Nova York.
 
Ela frustrada com seu namorado que, após alcançar sucesso musical, se vendeu a indústria fonográfica, caindo nas tentações carnais da fama.
 
Ele, antigo produtor de sucesso, busca algo novo e acredita que pode conseguir ganhar dinheiro novamente com algo de qualidade.
 
E é quando ambos estão no fundo de suas fossas individuais que o encontro inusitado acontece.
 
Ela canta uma de suas composições no pequeno bar do encontro e ele se sente comovido e impelido a convencê-la de que suas composições deveriam ser gravadas.
 
E daí eles partem para uma série de experimentos musicais que os levam a viver confusas e belas estórias por lugares diferentes da maior metrópole estadunidense.
 
Um filme muito leve, repleto de músicas gostosas, cenas bem humoradas, sutis, amalgamadas de uma felicidade simples, corriqueira, das coisas do dia-a-dia de todos ou cada um de nós.
 
Os dois atores principais estão muito bem nos papéis.
 
A simpaticíssima e supersensível Keira Knightley mais uma vez nos encanta com uma interpretação a flor-da-pele, com sutilezas que muito dizem sem usar uma única palavra!
 
Muito muito muito legal!!!
 
Como é gostoso quando alguns filmes e coisas levemente belas desse tipo  nos encontram no meio do imerso cotidiano de coisas que nos desgastam!!!
 
 

Noite de Reis – Unidos do Carnaval – Resenhas 2014

 
Uma peça muito interessante que esteve em cartaz no MUBE Nova Cultural no mês de Julho de 2014.
 
Recriam o famoso texto de William Shakespeare trazendo pro universo brasileiro atual, misturando o escracho do carnaval, as modernidades da internet e do celular, e mais alguns elementos mais tradicionais.
 
Um espetáculo que fez a plateia rir demais! Boas atuações e recursos de projeção completam a obra!
 

Nova Antologia do Conto Russo – Resenhas 2014

 
Uma obra enorme, com quase 650 páginas, lançada pela Editora 34 e que reúne contos da literatura russa de 1792 a 1998. São pequenas estórias que retratam diversos aspectos daquele país ao longo de alguns séculos, englobando assuntos dos mais diversos como: denuncia social, terror psicológico, narrativas de viagens ao longo do vasto território do maior país do mundo. O inverno está como personagem bastante presente, e não poderia deixar de ser. A miséria de alguns e a luta por vencer a dureza da natureza daquela parte do mundo está nesta antologia. Obras maravilhosas de escritores conhecidos no mundo todo. Grandes contistas em suas melhores formas, grandes romancistas exercendo um tipo de escrita menos usual a sua pessoa. Nikolai Gógol, Fiódor Dostoiévski, Lev Tolstói, Anton Tchekhov, Vladimir Nabókov e tantos outros estão presentes.  São quarenta contos organizados em ordem cronológica, comentados inicialmente por algum especialista no assunto. Iniciando com alguns em forma bastante tradicional, linguagem mais antiga, passando por inovações literárias e assuntos marcantes de cada época, até os contemporâneos que constroem um retrato mais atual desse país que me encanta tanto! Seria indigno tecer qualquer crítica negativa a tamanho painel literário!
 

O Passado – Resenhas 2014

Um iraniano, separado de sua esposa francesa, resolve voltar a França quando esta pede o divórcio. Ao chegar, nota que ela já tem outro homem e ele se sente em um ambiente diferente daquele que deixou pra trás há quatro anos.

Gostei do filme, mas não tanto quanto já gostei de outros franceses!

Possui a forma diferente de fazer filmes que tanto caracteriza as obras feitas na França. As intrincadas situações, nas quais os personagens são colocados durante a condução da trama, podem causar incômodo e, o conflito de culturas, até um certo machismo (se bem me lembro) e o dia-a-dia da família surgem sutilmente na tela.


Gênero: Drama
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi, Massoumeh Lahidji
Elenco: Aleksandra Klebanska, Ali Mosaffa, Babak Karimi, Bérénice Bejo, Elyes Aguis, Jean-Michel Simonet, Jeanne Jestin, Pauline Burlet, Pierre Guerder, Sabrina Ouazani, Tahar Rahim, Valeria Cavalli
Produção: Alexandre Mallet-Guy
Fotografia: Mahmoud Kalari
Montador: Juliette Welfling
Trilha Sonora: Evgueni Galperine, Youli Galperine

 

Odisséia – Resenhas 2014

Um Homero enlouquecido, pós-moderno, chega correndo de algum lugar, espantando a plateia que aguarda na parte de fora do teatro.

Este Homero, adentra o teatro desesperado por esta para perder o início de uma viagem e assim todos somos chamados a embarcar com ele.

Este ensandecido escritor passa então a imaginar, comandar e aos poucos passa a ver suas criaturas tomando vida própria, partindo para seus próprios destinos, guiados por suas próprias vontades e é assim que Homero vai se sentindo invadido pelos próprios personagens daquela que talvez seja sua obra mais conhecida: a Odisséia.

Trata-se de uma recriação corajosa e por vezes hilária desta que é uma das obras mais importantes da humanidade, obra fundacional do universo literário humano, fonte de inspiração para tantos e tantos outros escritores que por suas linhas navegaram.

Esta Odisséia tropicalista é o primeiro trabalho do núcleo experimental “Estúdio da Cena”, grupo formado pelos alunos formados na escola Célia Helena de teatro.

Os atores encontram suas verdades e diversas formas legítimas de atuação se espalham pelo palco, variando dos mais entusiasmados aos mais contidos, elementos diversos de uma companhia que me pareceu bastante legítima no traçado desta obra.
 
Formar e perpetuar uma companhia de teatro numerosa nos tempos de hoje, já seria motivo para muitos elogios. Manter a companhia e ter fôlego para montagens audaciosas é digno, então, de um aplauso duplo.