quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Infinito Finito

 
A sabedoria tem fim.
A ignorância não.

Relatividade (quase) Geral

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Em Março desse ano tive que limpar as frases do Celular para reinstalar alguns programas. E, para não perder as ideias que nele estavam, passei todas as anotações para um Word que, desde então, me encara diariamente do Desktop do meu computador.
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O texto a seguir se originou da última frase registrada antes da reinstalação.
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Eu não me lembro mais da frase original, mas falava sobre a ignorância que habita em todos nós encarnados.
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Trata-se de um assunto complexo com desdobramentos delicados e até mesmo perigosos. Mas mesmo assim eu tentei desdobrar.
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Partindo do princípio que todos nós ignoramos elementos da criação divina, e detemos somente partes que, de alguma forma, nos competem, teriam tido, Jesus e seu oposto, ignorâncias complementares em suas almas?!
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No momento das tentações, Jesus ignoraria, por exemplo, o futuro de suas pregações. Já seu oposto ignoraria o enorme peso consequente de suas posturas.
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Este era o ponto de investigação.
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Partindo da certeza da ignorância, eu procurei aplicar esta ignorância num dos momentos mais importantes da história, para daí tentar extrair uma possível leitura diferente.
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Nada do que está escrito é colocado como verdade. São apenas possibilidades levantadas que surgiram nos momentos em que me pus a pensar sobre isso. 
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Segue o texto:
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Todo médium tem um ponto necessário e suficiente de profundidade para realizar sua missão, um limite que não pode ser ultrapassado. Toda sabedoria de seres encarnados é limitada.
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Os detentores do infinito conhecimento não mais encarnam e nem tampouco vivenciam conflitos profundos.
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As histórias dos seres encarnados, por mais sublimes que tenham sido, foram sempre escritas sobre papéis invisíveis.
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Tenho certeza que nunca esgotamos a profundidade de uma alma neste plano carnal que vivemos. Sempre há alguma estrutura mais profunda sobre a qual nos apoiamos e não a controlamos totalmente. Algum campo desconhecido sempre existirá, alguma lógica estruturante que nos escapa sempre restará em nossas energias.
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Desconhecemos tantas coisas que nos moldam, tantas forças que por nós perpassam, tantas camadas subconscientes que em nós habita sem que saibamos disso.
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Toda alma encarnada é limitada e não detém o controle absoluto de tudo que a caracteriza. Nosso poder é limitado e, em compensação, nossa culpa também.
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(Mas, toda glória de bondade é capaz de subir muito além nas esferas encantadoras!)
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Um ser encarnado, ainda que se aprofunde no conhecimento e na sabedoria, sempre terá visão parcial. Acredito que não seria possível a um corpo conter em si tamanha concentração energética que o possibilitasse deter a consciência de todas as coisas. A matéria não suportaria tamanho esplendor radiante. Toda alma que habita um corpo físico é limitada por princípio.
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Mesmo as palavras mais sábias dos mais sábios líderes religiosos são apenas belíssimas partículas resumidas de um fundamento mais amplo, mais extenso, menos traduzível em palavras, um fundamento ulterior a todas as possibilidades imagináveis de formulação.
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Mas, não é necessário que saibamos de tudo para escrever nossas histórias. Não é necessário que detenhamos conscientemente toda sabedoria, todo poder de transformação que a energia é capaz de proporcionar. Basta que saibamos o suficiente para desenhar nossas tintas sobre os tais papéis invisíveis.
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Basta que detenhamos o ponto necessário e suficiente de profundidade para realizar nossas missões, como foi defendido no início deste texto enfadonho que escolho levar adiante.
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Estendendo um pouco mais este raciocínio sobre a relatividade do conhecimento dos seres encarnados, acredito que mesmo o duelo entre Jesus e seu oposto, que possivelmente tenha sido o mais significativo embate da humanidade nos últimos dois milênios, só pôde ser interessante, verdadeiro e construtivo de uma significação profunda, pois ambos estavam em níveis compatíveis de conhecimento e ignorância, ou seja, em graus migratórios de evolução.
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Repito que os detentores do infinito conhecimento não mais vivenciam conflitos profundos como este citado. Todo conflito se esgota após determinada luz. Não haveria mais o Libertador e o tentador já que não existiria a profunda oposição.
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Jesus e seu oposto estavam imersos no conflito. Suas intenções de Construção e de destruição foram intensamente vibradas em seus conhecimentos e ignorâncias. As tentações de Cristo tocaram fundo em sua alma! Não havia a certeza de que tudo se desenrolaria em direção a vitória.
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Jesus ignorava o futuro. E seu oposto ignorava a força daquilo que estava se fazendo naquele presente.
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Não digo que Jesus e seu oposto estivessem no mesmo degrau de ascensão, mas suponho que ambos estivessem em momentos paralelos para a execução e fundação de um princípio que, em verdade, vai além do Bem e do Mal cristãos: O Princípio Fundacional de uma Nova Era que, por aqueles tempos, se iniciava.
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Se ambos soubessem de tudo, e não somente o suficiente para o duelo, o embate não teria acontecido, pois ambos caminhariam na mesma direção: a direção em que todas as coisas invariavelmente vão. Acredito que o Bem e o Mal são, ainda que duradouros, apenas colocações passageiras a serem superadas após certas fases da evolução de uma alma.
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Repito que todo médium encarnado tem seu limite de profundidade para realizar sua missão.
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Cristo e o oposto, em seus conhecimentos relativos, foram responsáveis pela renovação e pelo fortalecimento da Justiça, a ampliação do livre-arbítrio, a subida a um novo degrau na maturação da humanidade, esgarçando possibilidades e estabelecendo um novo leque de forças opostas dentro do qual os humanos, principalmente do Ocidente, pudessem se estabelecer e encaminhar suas histórias, conforme suas capacidades e escolhas.
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Talvez estes dois citados tenham vivificado, em dupla, uma tensão de opostos que gerou uma maior individuação de Deus pela maior individuação da consciência! E esta tensão não poderia ter sido estabelecida por somente um dos lados.
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Um jogo vívido de opostos complementares!
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Afinal, do que mais são feitas as grandes histórias inebriantes do que de forças que se debatem de forma equilibrada. E, como bem sabemos, um vilão fraco não faria um grande herói!
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A energia, mais ampla que o Bem e o Mal, é capaz de se transformar a ponto de formar criaturas tão complementarmente opostas e emblemáticas. E tudo isso está inserido dentro da mesma criação.
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Talvez este ponto, sim, esteja mais próximo do que possa vir a ser o ABSOLUTO.
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Tudo isso pode não passar de apenas uma tentativa fracassada de reinterpretar o que já está mais que interpretado. Um conjunto de bobagens com falsos ares de verdade. Ou não!
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No entanto, lembro-me quando, ainda pequeno, me peguei pensando: não saberia, depois de tanto tempo, o ser tentador, que seu caminho estava errado?!
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Acho que sim, mas, assim como acontece com todos que existem, uma alma nunca pode se apartar facilmente daquilo que nela está construído.
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A energia não tem caráter líquido. Tem caráter plasmático!
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em alguma parte alguma (Livro)

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Livro de Ferreira Gullar, tido por alguns como o maior poeta brasileiro vivo, “em alguma parte alguma” foi lançado em 2010 e venceu como "O Livro do Ano" a edição de 2011 do Prêmio Jabuti.
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Ele é composto de 58 poemas divididos em quatro partes de tamanhos desiguais.
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Os versos são, em sua maioria, brancos e o tamanho é bastante variável, indo desde pequenos escritos de poucas linhas até grandes poemas que se estendem por várias páginas.
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O autor fala sobre elementos da natureza, plantas e animais, coisas cotidianas, a morte, redige homenagens a conhecidos seus, trabalha com imagens subjetivas, outras mais concretas.
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Gostei da leveza e fluidez da poesia! Assuntos bem inspirados, palavreado amigável!
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Ferreira Gullar, ao menos nessa obra, parece escrever para ser falado, ser contato para alguém próximo, dito sem pretensão mas, ainda assim, dotado de extrema inspiração e poética brilhante.
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Um livro faceiro de se ler!
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Simpática companhia literária de extrema grandeza!
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Regressão

Não saberia dizer se vejo
Ou se sinestésico intuo
Passados que relembro
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Às vezes estanco relapso
Noutro tempo me dilato
E em seu ventre dormito
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Instantâneo sou extenso
Vasta margem mais navego
Recordando meu retorno
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E do tanto que flutuo
A certeza muito trago
Que já fui o que me sofro
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Os Protocolos dos Sábios de Sião (Livro)

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Um livro enfadonho, estranho, pesado, escuro, mal-intencionado, com frases que soam prepotentes e discursos que pretendiam deixar obscurecidas as verdadeiras intenções de seus redatores.
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Este é mais um daqueles livros misteriosos que servem realmente apenas para alimentar a criatividade de alguns, instigar a curiosidade de outros e dar diversão para alguns sádicos que preferem alimentar o rumor de que algo muito ruim está acontecendo, o tempo todo, debaixo de nossos narizes.
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Os Protocolos dos Sábios de Sião é uma farsa que visava criar a crença de que Judeus e Maçons teriam interesses sórdidos de dominação do mundo e que, para conseguir isso, eles planejavam destruir instituições governamentais e corromper a ordem do mundo ocidental subjugando a população às vontades dos dois grupos supracitados.
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Mas, o verdadeiro plano que motivou a redação desse extenso documento de frases de efeito era justamente criar a ilusão de que Maçons e Judeus eram inimigos a serem combatidos e, pelo estabelecimento da força maléfica a ser vencida, fortalecer o lado que se colocava como libertador.
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Segundo o que li na Internet, historiadores defendem que o Czar Nicolau II da Rússia foi um dos responsáveis por mandar redigir essa obra, já que seria benéfico para o governante que alguns de seus inimigos fossem temidos e odiados. Dessa maneira, o Czar almejava fortalecer sua imagem como o libertador de uma possível organização secreta que iria dominar todo o mundo.
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Supostamente, o texto foi redigido durante uma reunião de senhores Judeus e Maçons que teria acontecido na Basiléia em 1898. Dessa reunião teriam saído as ideias que seriam postas em prática através de tortuosos caminhos, criando na população o medo e este medo levaria o próprio o povo a querer o estabelecimento desse governo supranacional. Ou seja, os próprios cidadãos comuns sentiriam a necessidade de que uma organização maior e mais controladora tomasse o poder, a fim de dar cabo aos processos caóticos que estariam acontecendo nesse fictício cenário supostamente desejado pelo fictício grupo denominado: Sábios de Sião.
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Após alguns anos, investigações mostraram que os protocolos não passavam de uma farsa, um plágio de outros textos anteriores, como por exemplo: "O diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu" de Maurice Joly. De qualquer maneira, é enorme a capacidade do autor de concatenar suposições através da lógica, engendrando um cenário que, mesmo feito de suposições, se torna algo, no mínimo, intrigante.
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Realmente o texto tem um conteúdo bastante maquiavélico. A secura nas análises dos movimentos políticos é bastante interessante, pois escancara uma sordidez possível nas altas esferas da política de qualquer nação do mundo. Apesar de possuir um conteúdo de fundo irreal, acredito que a realidade possa mesmo não passar mais distante dele do que de alguns textos filosóficos.
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Pensado dessa maneira, este livro talvez não seja de todo descartável. Ele serve menos para suas primordiais intenções do que como um alerta sobre a quais pontos os seres humanos são capazes de chegar. É verdade que se trata de um alerta dotado de um pessimismo extremo, mas, a má intenção verdadeira dos que o escreveram, somada a falsa intenção sustentada pelo texto, esboçam um painel atemporal de como pode funcionar a mente política do homem.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Precisão ou Prisão

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Estou cansado de simplesmente pegar ideias antigas para terminar e colocar aqui no blog. Também estou cansado de apenas escrever resenhas sobre o que vi, ou ainda de colocar fotos que tirei dos lugares que fui.
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Há muito tempo que não escrevo como já escrevi há alguns anos atrás. E sei que isso acontece por uma displicência de minha parte. Ou eu não escrevo por preguiça, ou eu escrevo, mas não termino e deixo para um outro dia. Ou eu simplesmente não acho importante aquilo que me passou pela cabeça e resolvo não investir.
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Os motivos são muitos, mas ainda me lembro que, o melhor caminho para começar a escrever é iniciar o processo. Para escrever é necessário não ter medo, se permitir errar e começar sem a ansiedade de terminar rápido, ou a ilusão de que tudo ficará pronto sem a menor dificuldade.
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Diante desse cenário todo, agora, simplesmente pensei num tema e o desenvolvi até chegar num ponto que me agradasse minimamente para poder publicar. Eu não iria me permitir guardá-lo para transformar em algo melhor, quem sabe, em algum dia, num futuro perto ou distante.
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Aliás, ando fazendo isso com tantas e tantas sementes de ideias que me ocorreram ao longo de uns anos para cá. Tantos são os embriões que dormitam esquecidos nas pastas dessa máquina que, a cada vez que abro as listas, não sei por onde começar.
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Mas, hoje quis fazer diferente. A missão era: escrever, do início ao fim, alguma opinião sobre um assunto que me ocorreu no sofá de casa.
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E assim eu tentei!
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Não ficou dos melhores textos, mas valeu o exercício.
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E, além do mais, um blog de 10 anos e mais de 1400 postagens não merece ser levado dessa maneira. Não vou me permitir fazer menos do que eu já fiz por tanto tempo.
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Mas confesso que a dificuldade foi grande, afinal, faz muito tempo que não inicio um texto do zero. Tenho a impressão que já faz mais de ano que sempre uso alguma ideia antiga como base para escrever.
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Eis o texto:
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A tendência à fabulação ou, em outras palavras, o ímpeto criativo é uma característica individual que leva a pessoa a criar construções mentais dotadas de significância própria que podem estar corretas ou erradas, adequadas ou desvairadas.
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Este hábito de criar, de viajar, de fantasiar se manifesta nas mais diferentes pessoas e pode servir de porta de entrada para um amplo campo de desatinos e/ou maravilhas.
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Seus produtos podem ser simples incógnitas banais que não passam de erráticas imagens da mente, até complexas construções que contém, em si, ideias capazes de iluminar a verdade do humano enquanto ser; arranjos maravilhosos que ajudam a mover as engrenagens da beleza artística de nossa raça.
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E elementos diversos podem fazer parte destas obras criativas.
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Estas espécies de “universos paralelos” podem estar banhadas, por exemplo, por personagens, ou conclusões a respeito dos mais diversos campos de conhecimento do ser-humano; interpretações sobre o mundo e o supra mundo que está além. Sensações vívidas dentro da alma que cria, desatinos, perversões ou outras belezas mais sublimes.
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Para o campo das artes, estas criações são bem-vindas, mas é necessário que consigam chegar a uma organização de elementos criativos que se balanceiem, se embelezem e que tenham a capacidade de transmitir a maravilha ou o horror que nasceu dentro do indivíduo solitário.
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Mas, nem sempre, toda tendência de fabulação abre caminho a favor daquele que a detém. Isso acontece porque, em geral, a pulsão criativa não é facilmente controlável. A pulsão criativa é uma semente que pode crescer por caminhos corretos ou não, fazendo gerar lindos frutos ou o contrário, fantasmas e obsessões que desgastam a mente e o corpo do ser criador.
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A pulsão criativa não se manifesta exclusivamente em momentos escolhidos por nós. Ela pode nos habitar, por exemplo, enquanto andamos pelas ruas, ou antes de dormir, nos retirando o sono, ou ainda, a pulsão criativa pode gerar elementos que não lutam a favor de nossas obras, como são os casos de pessoas que pensaram em destruir suas criações.
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A pulsão criativa pode, em muitos casos, extrapolar o espaço/tempo do momento de criar. Quantos casos relatados encontramos, na história, de seres que se desgastam embebidos em seu próprio universo que, aos olhos dos de fora, parecem apenas conter maravilhas, mas, para o ser que se encontra no centro de sua mente em revolução, a pressão criativa daquilo que surge, pode mesmo chegar a se tornar insuportável.
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A energia da criação é uma centelha extremamente vibrante, sutil e poderosa, capaz de esgarçar as escuridões dos seres de dentro para fora, elevando o homem simplesmente por aquilo que nasce de dentro dele mesmo. Ou, em outros casos, esta centelha pode mesmo inundar a mente criativa com tantas armadilhas inconclusas que o ser não conseguirá encontrar alívio no breu das neuroses e psicoses que se estabeleceram em seu centro consciente.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sonetos do Bocage (Livro)

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Clássicos, clássicos são.
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E analisá-los em demasia, sem suficiente propriedade, como é meu caso, faz-se tarefa enfadonha e irrisória diante de tanto reconhecimento recebido, ao longo dos séculos, pelo autor e sua obra.
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Este é o caso d´Os Sonetos do português Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage, um dos mais aclamados conjuntos poéticos da Língua Portuguesa. Seus temas variados e sua colocação temporal entre períodos literários dão a ele um lugar diferenciado na história da literatura de nossa língua mãe.
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O livro é composto de 166 sonetos - se bem calculei - divididos em duas partes: os sem classificação, que são minoria; e os Pré-Românticos que formam um conjunto de 130 poemas.
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Seus sonetos não recebem título, como fazia Camões alguns séculos antes. Já seus temas são mais diversificados e alguns sonetos falam mesmo sobre coisas engraçadas, como é o caso de um que conta sobre um tapa que o Eu-lírico teria recebido de uma mulher.
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Estou lendo a Lírica do Camões e acho os sonetos deste mais fáceis de entender do que do autor da obra dita nesta resenha. Camões possuía, ao menos nos sonetos, uma linguagem mais fluida, mais direta, com frases menos enfeitadas.
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Os sonetos do Bocage são mais intrincados e cheios de floreios verbais, apesar de serem mais novos e de dizerem sobre assuntos, por vezes, mais triviais.
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Prefiro Camões!
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166 sonetos e outros tantos escritos moldados por outras formas clássicas de construção poética.
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Uma obra de fôlego, ainda mais se tomarmos como parâmetro o fato do escritor ter vivido apenas 40 anos.
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Para seguir minha jornada (Livro)

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A autora Regina Zappa constrói, com palavras e fotos, um bonito painel sobre a carreira de um dos maiores artistas da MPB: Chico Buarque.
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Achei que o livro se demora demais nos primeiros anos de vida pública do Chico, levantando um extenso material, para depois se apressa demais, principalmente a partir dos anos 80.
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Tive a sensação de que outras informações sobre os anos mais recentes poderiam ter sido incluídas nas partes finais do livro.
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Por exemplo, estava revendo no índice agora a pouco:
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De 1962 a 1972 (10 anos de história) são quase 200 páginas de imagens e narrativa.
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Já de 1972 a 2011 (39 anos de história) são mais ou menos 150.
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Entendo que os anos do início da carreira, por todo cenário político brasileiro e mundial, devam ter sido bastante intensos. Mas 1972 é apenas o começo dos efervescentes anos 70 e, no entanto, o relato se torna bem mais sucinto.
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A edição é primorosa, amplamente ilustrada com fotos, recortes de jornais da época, letras de músicas, capas dos álbuns, cartazes das peças, originais escritos a mão pelo Chico, fotos da família Buarque de Holanda, Chico ainda menino no colégio e etc.
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Achei o texto bem escrito, leve, direto, sem rodeios.
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Uma biografia autorizada, obviamente, mas interessante de se ler.
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Um livro de superfície, mas de uma superfície rica em acontecimentos e belezas!
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Ida (Filme)

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O foco do filme, a meu ver, está na convivência entre a personagem principal Anna e sua tia Wanda.
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A noviça Anna, que na verdade se chama Ida, como depois lhe revela sua tia, resolve visitar seus parentes antes de fazer seus votos e tornar-se freira.
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Ida se depara com uma mulher bem diferente dela, que vive a vida no limite, bebendo, saindo para noitadas e se deitando com homens que conhece por onde passa.
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Ida presencia tudo isso, fica sabendo de fatos sobre seu passado e, depois dessa circulação pelo mundo “profano”, toma sua decisão de qual caminho deve seguir.
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Interessante o contraste entre a tia e a sobrinha.
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Ida é um personagem de muito silêncio, de muito recate e talvez de uma ingenuidade excessiva.
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Ao mesmo tempo, sua tia mostra-se bastante decidida e forte em alguns momentos, mas, em outros, deixa aflorar suas fragilidades e perturbações.
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Um choque de mundos femininos na Polônia de 1962. O clássico e atual, o divino e o profano, o puro e o exasperante.
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A fotografia é maravilhosa e o tempo da narrativa nos convida a completar aquilo que não é dito, colocando nossas próprias palavras dentro de um universo possível, que ali se encontra retratado como ficção.
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