terça-feira, 29 de setembro de 2015

Bisturi Bucal (Os Olhos da Boca)

Para a carne, a acuidade da boca é maior que a dos olhos.
 
É interessante notar a capacidade inata que a boca tem de separar a carne da cartilagem, por exemplo.
 
E isso, por vezes, é tão mais exato que os próprios olhos tentando identificar a cartilagem em meio a um frango desfiado no prato.

Geometria Divina

Era
impressionante
notar
quantas
formas
perfeitas
nasciam
do
simples
acaso.
 
 
 

O Verbo Amor

AMOR é um verbo da segunda conjugação ou, mais detalhadamente, AMOR é a forma infinitiva de um verbo da segunda conjugação.
.
AMOR define, em si, um processo em construção.
.
AMOR indica ação, estado e fenômeno da natureza numa só forma verbal invariável.
.
Talvez AMOR seja o mais completo verbo dentre todos os verbos, pois contém, nele mesmo, a clássica trindade que define o que vem a ser esta classe de palavras.
.
AMOR é movimento, pois AMOR não conjugado não deve ser assim chamado. Será apenas uma espécie de frustração elevada, um simples apego ou até mesmo paixão.
.
Pois AMOR é verbo que se conjuga sentindo-se e se sentindo com o próximo, perpassando-perpassado pelo próximo.
.
Palavra-verbo que pressupõe o movimento dentro de sua definição mais profunda. A definição real que vai além do dicionário!
.
Enfim, assim como existe o verbo andar, correr, sentir e transpor. Desta maneira, e por que não, também existe o verbo AMOR.
.
Eu amor
Tu amor
Ele amor
Nós amor
Vós amor
Eles amor
.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Rancho das Goiabeiras (Passa Quatro - MG)

Vitrola Mineira (09/08/2015)

 
Meu primeiro canto musical ficava perto dessa vitrola.
 
Foi nela que ouvi as primeiras músicas por vontade própria.
 
Foi perto dela que fingia tocar Piano no cercado de madeira quando tinha cinco ou seis anos.
 
E, depois de 25 anos, fiz o aparelho funcionar de novo, no Dia dos Pais desse ano.
 
Ouvir as músicas depois de duas décadas e meia e ainda poder apreciar, em vinil, outras tantas que agora fazem parte do meu repertório, foi muito bom!

Véu da Alvorada (6 a.m)

Asfalto SP

sabedoria das ruas (praça Monteiro Lobato)




sábado, 19 de setembro de 2015

Aos amigos de fé!

Mas,
Por que continuamos
Senão pelo indizível?
Senão pelo não racional?
Senão pela fé?
.
Nunca continuamos,
Profundamente engajados na vida,
Senão pela fé em algo.
.
A fé é um etéreo ponto sem local,
Mas ela não se encontra fora do ser.
.
A fé flutua por sobre os poréns cotidianos,
Mas ela não é irracional.
.
No entanto,
Também não se pode dizer
Que seja simplesmente emocional.
.
Não!
.
Ela não é nem uma coisa e nem outra.
.
A fé é SENSÍVEL!
.
A fé é algo entre a razão e a emoção,
Algo entre o mental e o corporal.
.
Ela nos pega nas ideias,
Mas também na pele.
Ela nos lança ao ar,
Mas também nos firma no solo.
Por ela abrimos o sorriso,
Mas também a lágrima.
.
A verdadeira fé madura e testada
Se adapta às muitas sensações vitais
Do cosmo que habita dentro de cada um.
.
A fé é o vazio menos desvairado a clamar,
A fé é o nada, o zênite negativo que,
Em nós mesmos,
Faz transcender.
.
A verdadeira fé não se quebra,
Não se desfaz,
Não se abala, porque,
Por mais difícil que seja,
Ela é o nome que se dá
À própria possibilidade mais inabalável.
.
Ela é a proposta que suplanta o ordinário.
.
A fé é o próprio caminho ao incomensurável.
.
A fé é o início da consumação transcendente
Dentro do próprio ser
Que caminha na face da Terra densa.
.
O ser que levanta em toda manhã,
O ser que refaz seus trajetos,
O ser que vai e vem,
O ser que sente e ressente.
.
A fé também está no ser
Que ressente seus vazios,
Mas que, por meio dela,
Também pressente
A possibilidade concreta de ser,
Em si,
Algum dia,
Simplesmente infinito.
.
E fim!
.
.
 . 
P.S: talvez essa tenha sido a única coisa bonita que consegui escrever na minha vida depois de ter tomado umas. Tudo bem que eu ajeitei depois, mas, a grande maioria das frases e ideias foram escritas numa madrugada, depois de umas cervejas. Ao contrário de outras tentativas que simplesmente são descartadas, essa me animou bastante a terminar. Não acho uma baita poesia, mas também não achei algo descartável.
. 

Milton Nascimento (Show)


.
Um show do Milton que, para mim, foi diferente. O show, em si, foi apenas o pano de fundo para momentos gostosos!
.
Não me lembro exatamente a data que aconteceu, mas foi no parque de exposições de Pedralva, num festival chamado de “Espetacular” em homenagem a uma galera daquela cidade que, sempre quando estavam nos shows dele, gritavam esta palavra e isso foi se tornando uma marca.
.
Assim, Milton, um dia, ouvindo novamente o grito, cobrou o grupo perguntando quando eles iriam levá-lo para sua cidade.
.
Todo esse processo deu neste show que, após ter sido adiado por motivos de saúde, acabou acontecendo, mesmo com o Milton um tanto debilitado.
.
Num dia em que a previsão avisou que teria chuva, o céu se abriu e o entardecer foi muito bonito, como algumas fotos desse blog atestam.
.
E que clima delicioso!
.
Levamos meu primo Bruno junto e o show foi apenas um ponto de encontro para fazer festa, beber, conversar, cantar e rever pessoas que há tempos eu não encontrava.
.
Mais uma vez Milton Nascimento realizando sua missão agregadora de pessoas.
.
O magnetismo transcendente de um artista que, sem esforço, e sem muito alarde, arrasta um público fiel por onde quer que vá!
.
Um dia delicioso, uma noite ótima e uma madrugada de muita cantoria, já de volta, nas ruas de Itanhandu.
.
 

Cássia (Documentário)

Cássia Rejane Eller foi e ainda é uma das figuras de maior carisma do rock nacional.
.
Uma mulher extremamente bonita, sensual e dotada de um brilho único. Ela é daqueles artistas que nasceram com a estrela e que estavam predestinados ao sucesso, a serem reconhecidos e aclamados pelo público.
.
E assim aconteceu, cumprindo o objetivo para o qual ela estava predestinada.
.
Se Rita Lee é a rainha do rock nacional, Cássia é a segunda mulher da corte.
.
Tímida, até mesmo um pouco arredia, mas também dotada de doçuras, Cássia foi uma rajada musical que iniciou pequena, foi crescendo, crescendo, estourou em todo país, continuou num crescente de sucesso e intensidade subversiva, até que, no seu auge, quando todo o país estava cantando com ela, desde sambas até rock`s pesados, ela parte, provavelmente por uma estafa física tremenda que implodiu sua força e capacidade de superação e reinvenção.
.
O documentário é organizado de forma cronológica.
.
Inicia-se contando sobre os primeiros anos de vida, sua relação com os pais que, não por acaso, formam a combinação clássica da vida de muitas lésbicas: uma mãe adorável e um pai escroto; as primeiras descobertas musicais, a personalidade forte e a postura retraída.
.
Assim vai sendo dito sobre sua trajetória itinerante, os anos em que morou em muitas cidades pelo país, sua ida para Brasília e o encontro com o meio musical daquela cidade onde estavam Zélia Duncan e, principalmente, Osvaldo Montenegro que já realizava bonitas montagens de teatro musical nos palcos da capital federal.
.
Assim Cássia foi se descobrindo, meio como atriz, meio como cantora.
.
A estética do documentário é muito bem desenhada e lindamente casada com a parte musical, composta, obviamente, pelas músicas que a própria artista gravou.
.
Seus anos iniciais de rebeldia, a ansiedade das gravações, a mudança súbita na formação de sua banda, a quebra total na sua vida com a chegada de seu filho Francisco, a intensa agenda de shows, a verdade por detrás do famoso show do Rock in Rio; a preparação, os bastidores e o estouro do acústico MTV, sua morte, a briga na justiça pela guarda do filho e a decisão inédita da justiça de manter o garoto com sua parceira, um fato que veio mesmo para coroar a trajetória de beleza subversiva que ela tanto personificou.
.
Fiquei emocionado!
.
.
FICHA TÉCNICA:
.
Gênero: Documentário
.
Direção: Paulo Henrique Fontenelle
.
Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle
.
Produção: Iafa Britz
.
Fotografia: Vinícius Brum
.
Montador: Paulo Henrique Fontenelle
.
Trilha Sonora: Cássia Eller
.
Duração: 120 min.
.
Ano: 2014
.
 

Dois dias, uma noite (Filme)

Uma extraordinária atuação da francesa Marion Cotillard, colocando um personagem de maneira crua, limpa, direta, numa interpretação honesta, clara e, por isso, muito comovente!
.
O filme conta a estória de uma mulher que é demitida após uma votação em que seus colegas de trabalho devem decidir entre ela e um bônus individual para cada um dos funcionários da empresa. Assim, como seria de se esperar, ela acaba sendo colocada para fora.
.
Há, então, a possibilidade de uma nova votação após o final de semana. Dessa maneira, lutando contra sua recém superada depressão, ela parte numa jornada de dois dias e uma noite a fim de convencer seus colegas a mudarem de ideia, voltarem atrás e abrirem mão do benefício para que ela possa voltar ao serviço.
.
Uma série de aspectos humanos são retratados ao longo das tentativas e isso vai formando um painel muito contundente de como realmente situações assim se desenrolam na vida real.
.
Esta sagacidade dos roteiristas e diretores Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne de colocar no papel, e posteriormente na tela, as diferentes reações humanas, ou melhor, as múltiplas formas que o acaso é capaz de tomar quando se pede a pessoas que abram mão de algum benefício próprio para, numa atitude altruísta, ajudarem alguém que está com depressão, é extremamente interessante.
.
Uma mulher fragilizada que parte numa peregrinação com resultados que independem dela mesma, indo ao encontro daqueles que já se decidiram contra ela. Ou seja, é como se ela tivesse que modificar a mentalidade daqueles seus colegas que, em certa medida, a traíram pois, sabiam de seu problema, mas, mesmo assim, jogaram contra, para estarem a favor dos próprios interesses.
.
Um grande filme e, a protagonista, merecidamente, ganhou prêmios na Europa, além de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz, o que, em se tratando de um filme belga, é um feito ainda maior do que o de uma atriz que, tendo atuado numa película americana, fosse indicada ao mesmo prêmio.
.
.
FICHA TÉCNICA:
.

Gênero: Drama
.
Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
.
Roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
.
Elenco: Alain Eloy, Anette Niro, Batiste Sornin, Catherine Salée, Christelle Delbrouck, Fabienne Sciascia, Fabrizio Rongione, Hassaba Halibi, Hicham Slaoui, Lara Persain, Marion Cotillard, Myriem Akeddiou, Philippe Jeusette, Pili Groyne, Rania Mellouli, Safia Gollas, Simon Caudry, Soufiane Jilal, Timur Magomedgadzhiev, Yohan Zimmer
.
Produção: Denis Freyd, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
.
Fotografia: Alain Marcoen
.
Montador: Marie-Hélène Dozo
.
 

Ópera do Malandro (Teatro)

 
Espetáculo que ficou em cartaz, por um longo período aqui em São Paulo, perto do metrô Marechal Deodoro.
.
A obra, de autoria de Chico Buarque, foi encenada pela Cia da Revista, com direção de Kleber Montanheiro.
.
.
.
Alguns integrantes do elenco:
.
 - Gerson Steves como Duran, o cafetão que gerencia uma equipe de prostitutas que trabalham na Lapa carioca do início do século passado.
.
 - Heloísa Maria que faz sua esposa, e ex-prostituta, Vitória.
.
 - Erica Montanheiro como Terezinha, a filha do casal que vive uma vida completamente diferente da realidade que a cerca, mas que vai se apaixonar, por ironia do destino, justamente por um homem fora da lei.
.
 - Bruna Longo como Fichinha, uma mulher interiorana e sem estudo que vem para a cidade tentar a vida e acaba se tornando prostituta, enganada pelo falso glamour da profissão.
.
 - Kleber Montanheiro como a que talvez seja a travesti mais famosa do teatro brasileiro, Geni.
.
 - Adriano Merlini e Mateus Monteiro respectivamente como Chaves e Phillip Morris, capangas que integram o bando do Max.
.
 - O protagonista, o próprio malandro, Max Overseas foi interpretado pelos atores Bruno Perillo (sextas e sábados) e Flavio Tolezani (domingos e segundas) que se revezavam na interpretação.
.
.
.
Mais detalhes sobre a obra são desnecessários já que se trata de um dos musicais brasileiros de maior sucesso da história.
.
16 canções foram encenadas de maneira muito bem ensaiada e muito bem coreografada por esta que talvez seja a maior equipe de teatro da cidade de São Paulo a fazer espetáculos musicais com baixo orçamento.
.
O cuidado com os detalhes e a ocupação dos múltiplos espaços do teatro vão fazendo o espectador se sentir imergido no universo ficcional criado por Chico Buarque. A movimentação dos atores, a utilização de espaços no alto do teatro, atrás da plateia, as soluções cênicas com objetos que se modificam de função ampliam as possibilidades espaciais.
.
Gostei muito da construção que cada ator fez de seu personagem, bem como da forma como alguns de fora da companhia foram escolhidos para ocupar papéis específicos. Certos atores me fizeram esquecer da pessoa por detrás da encenação e estacionar totalmente no real universo fictício que ali se mostrava. Isso é fantástico!
.
Particularmente eu acho o espetáculo meio longo, não pela montagem, mas pela quantidade de texto e excesso de idas e vindas da trama que poderia ter sido encurtada. Depois, lendo a respeito, fiquei sabendo que o Chico foi escrevendo a obra enquanto ela ia sendo ensaiada. Talvez isso tenha feito o conjunto da obra ficar originalmente tão extenso.
.
Enfim, trata-se de um grande espetáculo, de uma montagem muito profissional. A parte musical ficou muito bem ensaiada, com uma regulagem de volume bem organizada.
.
Os atores se colocaram por inteiro no palco, com densidade e seriedade, mostrando que, mesmo espaços pequenos e independentes podem se tornar centros de excelência.
.
Gostei demais! Mas, como já falei para alguns integrantes da companhia, o espetáculo é maior que o espaço em que ele foi encenado, o que deixa uma sensação de transbordamento. E esta crítica, no fundo, é um grande elogio!
.
.