sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Lírica de Camões (Livro) - POST 1500 (uma pseudo-resenha)

I
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Oh Camões, que em si personificou,
Na figura de um homem sem sombra,
Uma quase divindade fantasmagórica e agônica
Que, na Literatura em Língua Portuguesa,
Fez sua morada humana num passado sem tempo.
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Oh Camões, que em tua vida errante,
Desfez-se em aventuras por onde pouco se sabe,
Sangrou teu semblante num olhar perdido,
Naufragou tuas criaturas nas correntes oceânicas
Mas sustentou teu brado desesperado,
Aguerrindo-se à tua obra magnânima
Para salvá-la do sal sem fundo que a quis devorar.
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Oh Camões, que em teu coração ferido,
Vivificou de poética teu amor frustrado
E deixou cantar tua vasta educação e cultura
Que, mesmo nos descompassos das paragens de além,
Fizeram brotar as formas perfeitas de um homem culto
Em teu estilo puro de encharcar as coisas com belezas
Mesmo soterrado nas contradições dolorosas
Que tanto te testaram em assombrosa desumanidade.
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Oh Camões, tu foste nosso homem-verbal mor
E, para nós, vossos tantos compatriotas de língua,
Tu conquistaste, por tua pena, a coroa do respeito,
Inscrevendo, no cancioneiro das grandes obras,
Uma criação proferida em nosso amado idioma,
Pátria talhada por ti, magnificente e predestinado serviçal
Que carregou a dura missão de moldar o fardo do ser-escritor!
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Oh Camões, tudo, em ti, tão errático,
Tudo, em ti, tão errado, tão submundano,
Mas, ao mesmo tempo, tão sublime,
Tão divinamente além de nós, pobres homens,
Tão perfeitamente além do pântano dos sentidos.
Por isso tu foste aquele que suplantou a história,
Transpassou e venceu o tempo, o espaço e o além.
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Oh Camões, foste um ser sem canto,
Sem documentação sobre tuas trajetórias,
Foste um homem sem parada, sem estadia,
Sem acento em local único de nomenclatura eurocêntrica
Mas, mesmo assim, neste tanto desgarrado que permeaste,
Perseguiste o impalpável, por tantos e tantos horizontes,
Sem descanso, sem alegria e sem morada.
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Oh Camões, tu, sendo o contraponto do absurdo,
Vivificou o brotamento do infinito açambarcante,
Pulsando nesta mesma incólume alma inócua,
Espírito sem começo, sem meio e sem fim
Que fez o parto das múltiplas grandiosidades verbais
E das nascentes intempestivas de fluxos inspirados
Por meio da labuta metrificante de trabalhadas Elegias.
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Oh Camões, tu cultivaste como poucos teus Sonetos,
Irrigaste bem o transcontinental solo de tuas Redondilhas,
Paragens virtuosas onde brotaram impressionantes Sextinas
E inspiradíssimas Églogas de enormidade criativa.
Por ti se fizeram Oitavas edificantes da literatura universal,
Maravilhoso Ode único de tão melodioso compasso,
Cintilantes Canções com musicalidade afinadíssima,
Além de teu mui conhecido Épico lusitano,
Magna Obra do infinito mundo da portuguesa linguagem.
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Oh Camões, tu foste o pai e a mãe de um novo tempo
Tecendo inimagináveis palavreados e rimas incríveis,
Vocabulários vastos germinados nas paragens sem nome.
Creio poder ter sido o sem fim horizonte oceânico
Que te fez querer aquilo que nem mesmo tu sabias o que era,
Mas que se fez, em teus decassílabos, tão bem colocado,
Eximiamente articulado e tão superior a estilos literários.
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II
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Um dia, vi um lindo documentário sobre Arthur Rubinstein e, dentre as belíssimas declarações a respeito da arte e da vida, Arthur dizia que Mozart não era romântico. Mozart era puro. Beethoven é que era romântico.
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Entendi que o pianista não se baseou simplesmente em estudos e leituras de teóricos para traçar esses dois comentários. Arthur se utilizou de um conhecimento mais sutil e sublime para chegar a esse entendimento. Arthur estava falando do que ele, por aquilo que sentia emanando das obras e trajetórias de vida de cada um, soube em relação a alma desses compositores. 
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Era como se Mozart estivesse além de estilos musicais. Mozart vibrava profundamente a música nela mesma. Mozart era a própria personificação da música. A encarnação da inspiração, a humanização dos sons, a materialização das melodias, dos arranjos, das instrumentações, das Sinfonias. Uma divindade musical colocada na Terra por algum privilegiado ventre feminino.
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III
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Oh Camões, tu és isso na Literatura.
Tu foste puro como também Mozart puro foi.
Em ti, nota-se o escritor de alma inteira,
Espírito inteiriço que profundamente se confunde
Com a dolorosa arte que defendeste em vida,
Personificando a literatura pura, impoluta, sobre-humana.
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Oh Camões, tu não te encaixas em estilos,
Nem em épocas, tu sempre serás homem sem margens.
Tu passaste por entre nós feito espírito incalculável,
Grandeza extinta dos grandes sábios de outras eras
E tua produção foi a arte poética nela mesma:
A palavra feita no cuidado do artesanato minucioso,
A literatura como ela mesma é, em si, em tudo de si,
A poesia quando nenhum homem faz poesia,
O verso nele mesmo, quando nenhum homem o tocou
E ele apenas existe enquanto realidade a ser concretizada.
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Oh Camões, tu retiraste do platônico mundo
O fraseado divino em notação sobre-humana,
O verso perfeito em sua forma mais exata,
O mais verso dentre todos os versos de nossa língua
Encaminhado ao orbe encarnado pelo humano
Que, ao tomar contato, se inspiraria deveras
Fluindo consequentes multiplicações vocabulares,
Possibilidades que seus filhos de arte e ofício fariam vingar.
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Oh Camões, tu esmiuçaste as cercanias do próprio Deus
Trazendo de lá toneladas verbais de ulterior gestação,
Proto-substantivos do misterioso começo de todas as coisas,
Prolíficos vocábulos anteriores à história da humanidade,
Cintilantes belezas que aguardaram milênios
Até o momento de te terem em Terra
Para poderem desaguar no oceano da realidade
Transcritos, enfim, por tua iluminada pena:
Impoluto objeto mágico manuseado também por Homero,
Mago angular que de tua encarnação consciência tinha.
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Oh Camões, e pela última vez, Oh Camões,
Tu conquistaste a pureza primeira da infância do verso,
Tu foste o mais poético poeta dentre todos nós,
Tu conquistaste a perfeição total da forma impoluta,
O estilo nuclear de escrever as coisas que existem
Simplesmente pela arte de escrever as coisas existem
Simplesmente pela arte de escrever as coisas existem
Simplesmente pela arte...
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Onda Sonora

Algumas músicas te pegam de surpresa como se fossem ondas de um mar bravio: te afogam, te lançam ao fundo para assim você perceber que o melhor é não resistir e simplesmente se deixar levar por alguns instantes.
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No entanto, elas mesmas, quando vão embora, gentilmente te levantam para um novo respiro mais profundo e então você se sente limpo de si mesmo, pronto para um novo mergulho no horizonte.
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Conversas entre Escritores (Livro)

 
A revista americana mensal de literatura Believer publica, em todas as suas edições, um bato papo entre dois escritores.
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Para esta conversa, um artista das letras escolhe outro que ele tenha interesse de conhecer, o modelo de entrevista a ser seguido e a equipe se encarrega de colocar os dois em contato, seja por carta, pessoalmente, por e-mail ou por qualquer outra forma contemporânea de comunicação.
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Neste livro estão agrupadas 21 dessas diálogos entre artistas dos mais diferentes continentes.
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Amy Hempel, Dave Eggers, Edmund White, Haruki Murakami, Ian Mcewan, Joan Didion, John Banville, Marilynne Robinson, Marjane Satrapi, Orhan Pamuk, Paul Auster, Richard Powers, Shirley Hazzard, Tobias Wolff, Tom Stoppard, Zadie Smith são exemplos de escritores que contribuíram com esta obra.
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Achei muito interessante notar como existem múltiplas formas de inspiração, bem como variados métodos de trabalho desenvolvidos pelos escritores.
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Como são diversos os estilos de se fazer literatura e como foi fácil notar que o estilo da literatura feita pelo entrevistado vem à tona no seu modo de responder as perguntas, sua história de vida, o traçado das escolhas feitas pelos artistas.
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Foi interessante montar a personalidade de cada um, somando a isso seus estilos de arte, suas maneiras de ver o mundo, de conversar com suas realidades, de contar suas trajetórias, suas escolhas do que queriam fazer da vida, a influência da sociedade no indivíduo e nas suas criações, como cada um foi descobrindo o escritor que habitava dentro de si, as fases do amadurecimento pessoal e artístico.
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Escritores durões e suas vidas depravadas, escritores orientais de formação ocidentalista, escritoras metódicas, escritores contidos na quantidade de palavras, escritores verborrágicos e exagerados nas suas escolhas, africanos que vivenciaram e denunciam as mazelas daquele continente, japoneses que trazem um outro olhar sobre as coisas do mundo, senhoras que escrevem sobre seus cotidianos e tantas outras variações artístico-humanas.
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“De tudo se faz canção” e de tudo também se faz livro.
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Para nascer a Literatura basta existir a palavra.
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E elas existem infinitamente!
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Uma leitura instrutiva que me ajudou a responder questões sutis que tantas vezes já tive receio de perguntar até mesmo para mim.
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Me fez uma ótima companhia no trajeto de ônibus entre minha casa e o serviço.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sociedade Excitada: Filosofia da Sensação (Livro)

Um livro chato, empolado, sem fluidez, que tenta divulgar a ciência para um público mais amplo, mas que faz isso de uma forma maçante e pouco atrativa.
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Desde quando vi a capa pela primeira vez na vitrine da livraria que fica aqui na rua de casa, senti-me atraído pelo título, pois realmente é um assunto que me interessa bastante.
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Mas foi frustrante notar como um assunto extremamente atual e rico pôde se tornar hermético e aborrecedor quando tratado de forma exageradamente complexa.
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Preferiria uma obra mais direta, mais franca, com menos referenciais históricos tão antigos e mais análises de épocas atuais.
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Se o autor deixasse o passado medieval e se ativesse com maior tempo no que aconteceu no mundo do início do século XX para cá, já teríamos bastante embasamento histórico para as análises feitas por Christoph Türcke.
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O Livro se divide em Cinco grandes partes que, juntas com o Prefácio e o Índice Onomástico, totalizam mais de 320 páginas.
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Essas Cinco partes principais são:
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1 - Paradigma da Sensação
2 - Lógica da Sensação
3 - Fisioteologia da Sensação
4 - Sensação Absoluta
5 - Substituto da Sensação
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Fiz questão de não ler na íntegra, pois, além dos motivos apresentados acima, tem assuntos que fazem parte do cotidiano dos nossos pensamentos próprios, portanto, quando lemos sobre eles, somos mais exigentes do que de costume.
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Não tenho muito mais a dizer sobre esse livro!
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Talvez num futuro eu ainda pegue para tentar novamente ler a obra na íntegra, mas, por enquanto, ainda prefiro segui adiante por outros títulos antes de tomar contato novamente com esse tratado enfadonho e exagerado.
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Mad Max: A Estrada da Fúria (Filme)

Li na internet um crítico questionando se “Mad Max: A Estrada da Fúria” não seria o filme de ação perfeito.
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Depois de assistir, entendi o questionamento do homem.
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Se é perfeito ou não, isso pouco importa. Fato é que se trata de uma obra extremamente bem realizada e intensa.
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Uma pancada cênica atrás da outra, poucas pausas para respiro, cenas fortes e bem filmadas, personagens bem montados.
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Achei que os atores estão muito bem, além disso, o universo ficcional recriado de outros filmes anteriores é bastante impactante e me levou mesmo a pensar, em que grau, cada um de nós não é um pouco aqueles fanáticos que acreditam numa doutrina que não faz sentido nenhum quando vista pelos olhos de observadores externos?!
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Mas, enfim, um filme de ação que beira a perfeição não precisa necessariamente nos fazer refletir sobre aspectos sociais, religiosos ou coisas do tipo.
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Esta reflexão não me pareceu ser mesmo uma das intenções do roteiro!
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Um bom filme de ação basta nos chamar para dentro da narrativa e não nos deixar desgrudar os olhos do que está sendo contato ali.
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E isso Mad Max fez com uma intensidade de poucas vezes vi igual.
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Muita pancadaria, um relance de romance e uma longa, alucinante e incessante perseguição interminável que atravessava, de canto a canto, um mundo fictício que guarda similaridades com este nosso e ainda mais com aquilo que este nosso pode vir a ser.
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Um filme sem descanso, direto e relativamente curto. Talvez do tamanho certo para nos levar até um possível primeiro limite!
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Divertida Mente (Filme)

 
Mais um clássico instantâneo da Disney-Pixar.
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Sensível, profundo, bonito, lúdico e educativo.
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Uma obra que atinge todas as idades e acho difícil alguém ter saído da sala de cinema sem se sentir tocado pela brilhante ideia tão bem realizada.
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Além disso, o ritmo narrativo impressionou-me bastante.
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Fiquei encantado e me deixei ser totalmente levado pelos acontecimentos da estória.
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Lembro-me como cada evento significativo retratado na tela me colocava instantaneamente e naturalmente para refletir sobre o que estava além daquele universo primeiro retratado ali.
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Foi interessante sentir como cada movimento externo/interno estava bem amarrado no contexto geral da película.
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Enfim, não é necessário dizer muito e não pretendo narrar nenhuma passagem específica aqui.
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Trata-se de um belo mote, tremendamente bem realizado, bem roteirizado, pelo dirigido, bem desenhado e bem colocado em tela.
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Emocionante e educativo!
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Uma animação que, como poucas que já vi, me colocou para refletir sobre o que estava além do traçado colorido que se movimentava na tela.
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Gonzaguinha 70 anos (Show no Vale do Anhangabaú)

 
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Eu adoro o Gonzaguinha, suas músicas, seu estilo, sua figura, sua coragem, seu talento, a maneira nobre, forte e verdadeira que ele dizia e diz as coisas em suas músicas.
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Um show em sua homenagem com participação de seu filho Daniel Gonzaga, Elza Soares, Ivan Lins, Elba Ramalho, dentre outros
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Um evento com tanta gente e música boa, mas que, na minha opinião, teve pouca divulgação, pela quantidade de gente que lá estava.
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Gostei demais e foi ótimo ouvir vários grandes clássicos do compositor pelas vozes e instrumentos de uma galera tão talentosa que por lá passou.
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Uma tarde de domingo prazerosa e tranquila!
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Voltei para casa muito bem!
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As Maravilhas (Filme)

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Um filme que retrata a realidade rural do interior da Itália.
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A trama se passa em torno de uma família de apicultores com quatro filhas pequenas e que vive uma rotina arcaica sob os desmandos do patriarca.
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A mais velhas das quatro irmãs, Gelsomina, conhece o jovem Martin que passa por um processo de reintegração e acaba indo morar uma temporada com sua família na fazenda.
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Além de Martin, a família recebe a visita de Milly Catena, uma apresentadora de um programa de TV que propõe desafios aos participantes em troca de recompensas financeiras.
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Milly chega até a família por eles produzirem um mel de excelente qualidade e de uma maneira bastante artesanal. Estes fatos chamam a atenção da apresentadora.
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A partir daí, Gelsomina, no seu ritmo de garota interiorana e acanhada, procura se inteirar dessas novidades e se propõe a participar do programa de gincanas a fim de conseguir melhorar a situação financeira de sua família.
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A partir desse ponto, o filme entra no universo lúdico pelos olhos das crianças que se encantam com toda aquela realidade cinematográfica, sem se dar muito conta de que aquilo é irreal.
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Achei uma obra bastante delicada, dotada de um ritmo narrativo muito próprio.
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Todo o universo do mundo rural parece ditar o ritmo cinematográfico, além de influenciar a própria visão que nos é transmitida das novas realidades que chegam até os moradores da fazenda.
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O filme não se preocupou em quebrar imediatamente a fantasia, não se distanciando dos personagens principais, mostrando-nos mesmo a realidade do universo televisivo estritamente sob a ótica da família.
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Dentro dessa proposta, a ficção dos cenários e personagens entra no filme como sendo realidade, pois assim é visto pelas crianças apicultoras.
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Além desse realismo estranho, os atores estavam extremamente naturais e o filme fazia um retrato de época tão fidedigno que parecia mesmo ter sido rodado a uns 30 anos atrás.
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Como faz bastante tempo que eu assisti, não estou certo de que todas essas impressões sejam totalmente verdadeiras, mas, relembrando do assistido após Oito meses, é assim que me recordo da impressão causada pela película.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

2015 e mais!

Acho que minha principal conquista compartilhada em 2015 está sendo voltar a crer no Plano Espiritual.
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Crer nos chamados "Espíritos Amigos", como diria Chico Xavier.
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Estou voltando a ter a paz e a coragem para simplesmente sonhar, sentindo que as coisas podem ser justas e amigáveis com aqueles que trilham bem seus caminhos.
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Creio eu que, após tantos anos intermináveis, consigo acreditar novamente numa resultante mais precisa de nossos atos!
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Sal da Terra (Filme Documentário)

 
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Documentário sobre a vida de um dos maiores fotógrafos do mundo, o mineiro, natural de Aimorés, Sebastião Salgado.
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Sebastião Salgado é a própria personificação do que é um fotógrafo. Uma figura discreta e por isso com uma ampla permeabilidade de meios. Um olhar agudo, uma postura reflexiva, atenta, sensível e desperta para poder imortalizar o milionésimo do momento significativo que, sem sua intervenção, cairia no limbo inválido onde se alojam a enorme maioria dos acontecimentos deste planeta. 
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Neste misto de discrição e intensa absorção, viaja junto com ele o gesto artístico capaz de catapultar a célula momentânea ordinária, pincelando-a entre tantos acasos, lançando sua instantaneidade no universo das grandes histórias retratadas.
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Foi isso o que me passou a figura de Sebastião Salgado, um ser capaz de trazer esses elementos em sua corporeidade, em seus gestos, em seus passos, em sua fala, em seu semblante, na maneira como ele se movimenta junto dos nativos, no percorrer das paisagens dentro da natureza selvagem ou no que há de selvagem na natureza humana.
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O documentário dirigido por seu filho Juliano Ribeiro Salgado e pelo renomado diretor Win Wenders traça sua trajetória desde a infância, seu lugar de nascimento, suas primeiras influências e o crescimento do espírito fotógrafo dentro dele.
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A película também trata das dificuldades do distanciamento enfrentadas pela sua mulher Lélia Deluiz Wanick, além da ausência do pai sentida pelo diretor Juliano.
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Achei interessante o ritmo como foram colocados os trabalhos realizados por Sebastião. Pareceu-me bastante orgânica a maneira como cada novo projeto foi aparecendo e amadurecendo enquanto ideia a ser perseguida pelo artista.
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E esta rítmica de criação de labutação se mantém por muitas obras, num crescente, até que, após retratar as migrações causadas pelas guerras civis no continente africano, Sebastião, exaurido, resolve retornar a sua cidade e a encontra totalmente degradada, ressecada, empobrecida. Ou seja, o homem que ajudou a retratar tantos confins do planeta Terra, quando retorna a sua terra natal, nota que ela também precisava de seu olhar, de sua atenção.
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Então, ele e sua esposa resolvem fundar o Instituto Terra, um projeto que visava, a princípio, reflorestar o sítio de seu pai, procurando fazer renascer a flora, a fauna e as nascentes de água que ali haviam.
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Este projeto ganhou força e hoje em dia é referência em recuperação de áreas degradas, além de ter a função de distribuir mudas de espécies nativas para outros pontos de reflorestamento espalhados pelo Brasil e, talvez também fora do território nacional.
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Entendo que tenha havido uma natural intenção romanesca na construção cronológica de uma vida que não necessariamente tenha acontecido da maneira como foi retratada, mas, isso não diminui a beleza do trabalho artístico do fotógrafo e nem do trabalho artístico sobre o trabalho artístico do fotógrafo.
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Achei lindo, profundo, significativo! Uma tremenda viagem pelo universo vital deste homem que fez e ainda faz história, levado o nome do Brasil além de nossas fronteiras, perambulando pelos cantos do mundo, elevando assim as minimalidades das periferias que, pelo poder transformador da arte, chegam até o centro das coisas.
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Sei que alguns criticam a postura passiva do observador que por vezes pode ter o intuito de se beneficiar do sofrimento, do caos, dos erros, da pobreza, das mazelas, mas penso também que cada um possui sua função dentro deste complexo sistema contemporâneo que se apresenta sempre em tão grande desequilíbrio.
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Para mim, o simples retrato da história já é um passo importante para que consigamos, quem sabe um dia, não mais repeti-la em seus desvarios, mas reafirmá-la em seus caminhos mais iluminados.
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FICHA TÉCNICA:
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Gênero: Documentário
Direção: Juliano Ribeiro Salgado, Win Wenders
Roteiro: Camille Delafon, David Rosier
Elenco: Hugo Barbier, Jacques Barthélémy, Juliano Ribeiro Salgado, Lélia Wanick Salgado, Sebastião Salgado, Wim Wenders
Produção: David Rosier
Fotografia: Hugo Barbier, Juliano Ribeiro Salgado
Montador: Maxine Goedicke, Rob Myers
Trilha Sonora: Laurent Petitgand
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O Amor dos Três Reis (Ópera)

 
Ópera do compositor Italo Montemezzi com libreto de Sem Benelli que estreou no La Scala, na cidade de Milão em 1913. Alcançou grande sucesso nos Estados Unidos até ter seus ciclos de apresentações interrompidos pela Segunda Grande Guerra.
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Fiora é o tal “amor dos três reis”.
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São eles:
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Archibaldo, o monarca velho e cego;
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Avito, seu esposo legítimo;
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E Manfredo, o amante que chega para movimentar a trama.
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A apresentação, com o intuito de não perder a força característica dessa obra, foi encenada sem interrupções. Os arranjos são bastante fortes e as cenas intensas, explorando bem as tramas sentimentais que enovelam os personagens principais.
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O cenário criado para essa versão era minimalista e, segundo seu criador, foi assim concebido para privilegiar os cantores.
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Lembro-me especialmente da figura do Rei Cego, Archibaldo, interpretado pelo baixo Sávio Sperandio. A figura de cabelos enormes, somada à voz grave e à postura de palco do artista davam a força necessária para este personagem ser o elemento cênico mais impactante do espetáculo.
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Achei uma ópera direta, bem composta, rápida, intensa, que exigiu bastante dos instrumentistas, além de possuir uma distribuição onde cada personagem possuía seu peso e sua função bem definidos e equilibrados na trama.
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FICHA TÉCNICA:
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Dias: 18, 20, 25 e 27 de março, às 20h;
Dias 22 e 29 de março, às 17h.
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O AMOR DOS TRÊS REIS
De Italo Montemezzi com libreto de Sem Benelli
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Direção musical e regência Luiz Fernando Malheiro
Regência André Dos Santos (25 MAR)
Direção cênica | cenógrafo| figurinista| desenho de luz Sergio Vela
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Elenco:
Fiora | Daniella Carvalho | soprano
Avito | Michael Hendrick (18, 20, 22 MAR) | tenor
Juremir Vieira (25, 27, 29 MAR)
Manfredo | Leonardo Neiva | barítono
Archibaldo | Sávio Sperandio | baixo
Flaminio | Matheus Pompeu | tenor
Aia | Debora Dibi* | soprano
Coral Lírico Paulista
Orquestra do Theatro São Pedro
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Ninguém escreve ao coronel (Livro)

 
Desde de o inesquecível “100 Anos de Solidão”, nunca mais havia lido nada do Prêmio Nobel de literatura Gabriel Garcia Marques.
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Um dia, passando pela rua, corri os olhos pelos livros que um senhor vendia perto da Praça da República, escolhi alguns e, dentre eles, este.
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Há tempos que tinha a intenção de conhecer alguma coisa nova deste autor que tanto ajudou a chamar os olhos do mundo para este nosso subcontinente que é tão ricamente coroado de novas energias.
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Como dizem as orelhas do exemplar, este livro, escrito em Paris quando Gabo tinha somente 29 anos, é sua segunda obra e, portanto, anterior aos seus mais conhecidos romances, como: “100 anos...” e “O amor nos tempos do cólera”
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Trata-se de um livro curto, gostoso de se ler, direto, sem exageros, mas que não deixa de transmitir as assinaturas estilísticas características de seu autor.
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É uma obra criada por um Gabriel que sofria as dores de estar longe de sua terra natal. Um homem que estava vendo a situação de sua sofrida Colômbia sobre uma ótica influenciada pela realidade da metrópole europeia, o que, com certeza, agravava sua tristeza.
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Um Coronel, sua mulher asmática, o galo de seu filho falecido, o marasmo de uma cidade pequena e a rotina de esperar, toda sexta, pela chegada da carta que traria a notícia sobre a tão esperada aposentadoria do oficial.
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Um tempo sem esperança, um dia-a-dia que nada traz. A paciência, a frustração, o fim da vida de um homem que servira a sua pátria, mas que não encontrou reciprocidade em seu respeito e devoção.
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Resta-lhe, então e, por que não, comer merda!
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Em uma noite sem luar (Livro)

Achei esse livro próximo da porta da FESPSP. Estava encaixado num suporte para quem quisesse pegá-lo. Tratava-se de mais uma daquelas ações de desapego que muito se espalham por tantos ambientes descolados de hoje em dia.
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Estanquei súbito atraído pela estética orientalista da imagem.
Sim, foi a estética da capa que me chamou a atenção e, seria vã a tentativa de negar que, em verdade, nela estava o elemento a me chamar para o conteúdo: a imagem da Cidade Proibida.
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Negar que várias vezes julgamos os livros, num primeiro momento, pela capa, é demagogia. Julgamos diversas vezes livros por suas capas posto que o atrativo do olhar se adianta a ponderação da acalmada observação.
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Li rapidamente o verso e levei o exemplar comigo na esperança de que a sorte me fizesse encontrar uma literatura diferente das que andava lendo. Além disso, o texto dizia que seu escritor, Dai Sijie, é “o aclamado autor de Balzac e a Costureirinha chinesa”, um livro bastante famoso.
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Mas as surpresas não foram tão boas!
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Achei o livro arrastado, com pouca ação e excessiva minúcia na descrição das coisas. Por um tempo foi interessante sentir a estética literária de bases orientais, uma maneira especial de descrever os detalhes que, até então, eu nunca havia tomado contato na arte escrita. Mas isso se desgastou ao longo das 248 páginas.
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A narrativa desenha a estória de uma jovem francesa que se muda para a China a trabalho e também por admirar a cultura daquele país. Lá, ela conhece Tumchooq, um vendedor de legumes cujo pai, um francês, passou a vida inteira a procura da metade de um pergaminho.
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Este pergaminho, de acordo com as lendas locais, teria sido escrito pelo próprio Buda, Sidarta Gautama, numa língua desconhecida. Após passar por diversas mãos, o objeto foi entregue ao imperador Puyi que, quando estava partindo para seu exílio forçado, após ser preso pelo governo de Mao Tsé-Tung, rasga o texto no meio e o joga fora.
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Resta então, apenas uma das metades que diz: “Em uma noite sem luar, um viajante solitário avança no meio da escuridão por uma longa trilha que se confunde com a montanha, e a montanha com o céu...”.
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Enfim, o mote é interessante, mas achei o autor meio perdido na complexidade do universo ficcional de sua própria obra.
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Há diversas páginas sobre o imperador Puyi que sofria de desequilíbrio mental, sua solidão, suas bizarrices, suas manias, suas pinturas. Outras partes descrevem a protagonista e seu par amoroso. Outras falam do pai de Tumchooq que fora preso pelo regime.
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Ou seja, os elementos são muitos e a força atrativa da narrativa não nos chama constantemente para plano ficcional que se desenrola longamente pelas páginas.
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Também achei que Dai Sijie construiu pouca sinergia entre o casal romântico. Não saberia dizer se esta contenção amorosa não teria sido uma escolha consciente, do próprio autor, numa tentativa de retratar o que seria a reprimida realidade amorosa dos casais enamorados na China de 1979.
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Sendo uma opção consciente ou não, fato é que não me agradou.
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Cheguei ao fim com a impressão de que havia passado quase ileso pela obra!
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Uma pena!!!
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