segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Quaresmeira

.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
Desabe tuas cargas inventadas
As malas enrijecidas de tão distante
.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
Os primórdios incalculáveis de além-mar
A criações sem sustento que pouco dizem
.
Destitua de teu massacrado corpo
As crenças mentais que pouco te solucionam
Os redemoinhos pensantes que nunca vingam
.
Destitua de teu massacrado corpo
Os destroços humanos que não mais adubam
Os rescaldos de um tempo sem beleza
.
Restitua teu massacrado corpo
E amenize tuas certezas incertas
Tuas vontades cíclicas que somente afundam
.
Restitua teu massacrado corpo
E lance longe tuas dúvidas infundadas
A vilania fraca que em ti criou raiz
.
Restitua teu massacrado corpo
E deixe que os pés levem apenas aquilo
Que realmente te permite respirar
.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
.
O infinito incalculável da agonia
Não traz formas que te sejam palpáveis
.
O infinito incalculável da agonia
Não faz seu rosto pulsar verdadeiramente
.
O infinito incalculável da agonia
Não é digno de se assentar dentro de teu peito
.
O infinito incalculável da agonia
Não possui matéria que te alimenta a alma
.
O infinito incalculável da agonia
Não faz construções no coração de um homem
.
O infinito incalculável da agonia
Destroça a esperança que nos leva a seguir
.
O infinito incalculável da agonia
É somente o infinito incalculável da agonia
.
E nada mais!
.
O incontrolável papel da vastidão
Não é o de enlouquecer seus vindouros
Não é o de colocar mistérios sem causa
Não é o de fazer derrotar seus semelhantes
.
O incontrolável papel da vastidão
É o homeopático alimentar das profundezas
É a colocação meditada das esferas superiores
É a forma vindoura do homem do amanhã
.
Por isso...
.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
O que não lhe for essencial a vida
O que não lhe for complementar aos seus dias
.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
E ande pelas ruas e pelos momentos
Com a propriedade dos homens de bem
.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
E prossiga com a vontade dos seres de amor
Com a coragem dos que vão com constância
.
Retire de tuas costas aquilo que não for teu
Pelo amor de Deus!!!
.

A Criatura em Si

.
.
I
.
.
Às vezes queria sentir menos
Sentir mais leve
Sentir mais preciso
Sentir mais constante
Sentir mais correto
.
Em momentos atuais
Extremos tão radicais
Se digladiam em meus pensamentos
Elevam-me às alturas
Ou me jogam ao fundo
Com a força que não detenho
.
Sinto agora a melancolia
Da casca do tédio
De um poeta cansado
Na tristeza de uma alma sem cor
.
Deixei minha escrita de lado
Minha música sem dono
Meus dias esvaindo-se
.
Deixei minhas criaturas caladas
Meu destino quebrado
Minhas horas mais medíocres
.
Deixei minha voz secar
Minha mão enrijecer
Meus olhos obscurecerem
.
Deixei meu entusiasmo de criação
Ir sendo esquecido
Esmorecendo a cada preguiça
Minguando a cada noite
Em cada momento que desisti de fazer
.
Mas fiz isso
Pois precisei arranjar sustento
Precisei de descanso
Um término exaurido de tentativas
.
E assim foi feito
Pois o tempo infindo
Demais me angustiava
Para que pudesse sempre
Encará-lo de frente
.
Fixado contrário virei as costas
Aos mistérios que me intrigavam
Já que não havia mais forças
Para continuar prosseguindo
.
.
II
.
.
No entanto
Percebi lenta e dolorosamente
Que minhas instâncias mais profundas
Tornaram-se carentes de arte
Tornaram-se resquícios
Daquilo que mais me pertence
.
Se algumas se alimentaram
Outras ainda melhores
Foram ficando tristes dentro de mim
.
Meu lado pulsante mais pessoal
Se acovardou pela falta do hábito
Pelo descaso do dono
Pela valorização do ócio
.
Nunca tive medo de escrever
Nunca tive preguiça de tecer palavras
Nunca neguei uma inspiração
Nunca deixei de lado uma boa frase
.
Escrevia em qualquer canto
Em qualquer hora
Levantava de noite para registrar coisas
Andava pelas ruas rimando
Rascunhava sempre alguma bela inspiração
Que me convencesse a persegui-la
.
Volumes e mais volumes de frases
Textos iniciados a qualquer hora
Ideias de canções
Poemas e versos picados
Esperavam o momento de terminá-los
E assim fiz por tantos e tantos anos
.
.
III
.
.
Mas isso me foi sucumbindo
E acabei soterrando-me de ideias
Entupindo-me de criações
Pois não sabia o que fazer com elas
Não sabia onde mais colocá-las
Como terminá-las
Como dar a elas uma finalidade
.
Por isso parei
Cansado
Perdido
Condenado
Vencido
.
Fechei meus olhos
Desfiz meu corpo
Guardei rabiscos
Limpei arquivos
Joguei cadernos
.
Lancei no fundo das gavetas
No fundo das pastas virtuais
Diversos pedaços de mim
Que o tempo se encarregou de esquecer
.
E foram ficando distantes
Foram sendo tragados ao esquecimento
Foram tornando-se menos presente
Foram fechando minhas veias
.
Menos pensamentos me ocorreram
Menos frases me seguiram
Menos músicas me ecoaram
Menos vozes eu cantei
Menos notas fiz tocar
Menos gente eu fui
.
.
IV
.
.
Mas hoje vejo que
O que se faz de mais glorioso
Na criação
É o próprio ato de criar
.
O próprio ato de criar
Ainda que poucas pessoas dele se toquem
É o momento mais válido
Do fazer artístico
.
O mais lindo dos dias
É exatamente o se perpetuar
Lançar ideias por onde for
Registrar a instância
Colocar-se dentro do caminho
.
O mais lindo dos dias
É realizar o movimento redentor
Desaguar a nascente
Receber os fluxos
Transpirar as volúpias
.
O mais lindo dos dias
É concretizar o inesperado
Vociferar o verbo
Vingar a vida
Vencer a morte
.
.
V
.
.
Eis um poema de pouca poesia
Mas dotado de interioridades
Que me solaparam o rosto
Com necessárias verdades
.
Sei que o presente texto
Não pretende ser conclusivo
Trata-se apenas de um desabafo sincero
Deste tempo que agora vivo
.
Reles poema do criador perdido
Soterrado finado desabado estado: Eu
Minha própria criatura sem sentido
.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Um homem só (Ópera) - Resenhas 2015

Opereta do brasileiro Camargo Guarnieri que, talvez não por acaso, trazia “Mozart” como sendo seu primeiro nome.
.
O libreto ficou a cargo de Gian Francesco Guarnieri. Os dois, apesar do sobrenome em comum, não possuíam parentesco.
.
A montagem se deu no Theatro Municipal de São Paulo no mês de Abril de 2015.
.
Achei uma obra bastante melancólica, retratando um brasileiro da classe média, morador de uma cidade grande, que estaria provavelmente vivendo sua meia idade nos anos 60, já que esta foi a época de estreia da obra.
.
Ele se questiona sobre sua vida, sobre os rumos que ela tomou e se vê perdido e derrotado diante de uma realidade maior. Esta realidade o subjuga a uma rotina medíocre que ele, um certo dia, se cansa de suportar.
.
Acredito que o fato da opereta ser cantada em português prejudique um pouco a beleza das músicas, afinal, causa estranheza ver temas cantados num português menos fluido que aquele das obras populares que ouvimos todos os dias.
.
Mas valeu a pena tomar contato por ser uma obra de arte diferente, uma empreitada erudita e nacional.
.
Por isso achei um trabalho de muito respeito, afinal, o esforço de compor uma ópera em língua portuguesa, num Brasil dos anos 60, com toda a escassez de infraestrutura artística clássica que existia com ainda mais força naquela época, é inquestionavelmente louvável.
.
.
FICHA TÉCNICA:
.
Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo
Coro Lírico Municipal de São Paulo
Rodolfo Fischer – Direção musical e regência
Eduardo Strausser – Regente assistente
Caetano Vilela – Concepção, encenação e iluminação
Nicolàs Boni – Cenografia
Olintho Malaquias – Figurinos
Marco Berriel – Coreografia
Wagner Antônio - Iluminador adjunto
Maristane Dresch – Estagiária de direção cênica
Pâmola Cidrack – Estagiária de iluminação
.
.
UM HOMEM SÓ
.
José
Rodrigo Esteves
.
Mariana / Rita / Velha
Luciana Bueno
.
Operário N. 2 / Alcides
Saulo Javan
.
Médico / Sorveteiro / Cobrador
Miguel Geraldi
.
Padre / Operário N. 1 / Dono
Rubens Medina
.