quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Dia 12 - 06-01 - Terça-feira

Mais um dia livre em Cusco. Aproveitei o bonito sol que iluminava as ruas e saí sem rumo. Comprei uma cerveja do local e segui caminhando sozinho. Queria conhecer partes lado B da cidade, partes que estivessem fora do circuito turístico. Desci para a periferia e fui entrando em diversas galerias de comércio de roupa, comida, ervas, artesanato, conserto de som, venda de eletrônicos, até chegar numa pequena e simpática livraria. Lá conversei com um peruano muito atencioso, pedi que ele me indicasse um livro de um escritor nacional que fosse famoso, que tivesse ganhado um Nobel ou coisa do tipo e ele me indicou dois livros do Mario Vargas Lossa. Comprei o menor, afinal o outro era muito grande e o Espanhol não é minha língua materna. 
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Continuei andando por outros lugares e fui parar novamente no mercado San Pedro. Dessa vez, fui para outra área de comidas, pedi um Menu que dava direito a uma sopa, um prato com arroz e carne, tudo isso por somente oito soles. Como era de se esperar por esse preço, a carne era bem dura, mas tudo bem, pois pelo menos o tempero estava ótimo. Depois comi uma sobremesa em outra barraca, andei mais pelas ruas principais e vi umas apresentações culturais comemorando o Dia de Reis. 
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A noite passada havia sido, de longe, a que mais me descansou mas, ainda assim, eu estava com uma canseira acumulada pela primeira parte da viagem. Rodei mais um pouco pela cidade e, após muito resistir, resolvi voltar pro hotel, dormir e acho que fiz o certo, pois consegui um sono ainda melhor do que o da noite anterior. Eu estava precisando relaxar mais profundamente, afinal, a altitude e a quantidade de coisas que havíamos feito me deixaram muito cansado. Sonhei com diversas coisas e acordei já anoitecendo, por volta das seis da tarde. 
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Com as baterias recarregadas, resolvi sair para ver a cidade noturna e encontrei com algumas pessoas da excursão. Fomos trocar dinheiro e eles me chamaram para acompanhá-los num restaurante indicado por alguns moradores da cidade. Apesar de não estar com fome, aceitei o convite carinhoso. Chegamos num local cheio de pessoas cusquenhas e ganhamos um Pisco Sour que me abriu o apetite. Aproveitei o ensejo, pedi uma sopa de quinoa e uma Inca Kola. Diferente! No local, havia um pai e um filho tocando músicas regionais e, ao perceberem que havia muitos brasileiros no local, o duo resolveu executar uma música de Dorival Caymmi. Foram bastante aplaudidos e alguns de nós aproveitamos para cantarmos juntos o tema. Ao final, comemos uma sobremesa e rumamos de volta para o hotel.
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No caminho do retorno, senti que, se entrasse no quarto, eu não iria conseguir dormir, então disse para o grupo que ficaria mais tempo na rua. Comecei a andar por travessas que ficavam para trás do hotel, descobri uma cúpula linda de um convento próximo, fui até a avenida El Sol e caminhei para o lado oposto do que estava acostumado. Andei pelo Museu do Sítio Qorikancha, vi o painel que retrata a história do povo Peruano e sua luta pela liberdade, passei em frente a algumas casas noturnas, karaokês e parei numa venda para tomar uma cerveja. Dessa vez, tomei a Cusqueña de trigo. Boa também!
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Que momento gostoso! A cidade mais vazia, as ruas refletindo as luzes depois do chuvisco noturno, o silêncio da quase madrugada, a companhia da cerveja, a sensação de mais uma etapa concluída com alegria e prazer, o descanso dos dois dias sem compromissos fixos, a languidez de quem retornava. Fui devagar para o hotel enquanto me despedia dessa linda e acolhedora cidade. Realmente adorei esses dois dias livres que passei nela! Curti bastante, relaxei, andei com pessoas do outro ônibus e pude observar o dia-a-dia da população local que é uma das coisas que mais gosto de fazer quando viajo. 
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Ajeitei bem a minha mala que não parava de crescer e dormi. Obrigado Cusco!
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Dia 13 - 07-01 - Quarta-feira

Acordamos às 3 da manhã, saímos em direção a Puno e assim começava o imenso trajeto de retorno. Eu havia comprado uns salgados no dia anterior para servir de café da manhã, afinal, como nos avisou o guia, nesse horário matutino, o hotel não iria nos servir nada. Comi algumas coisas, me agasalhei bem e fui dormir mais no ônibus. Foram cerca de 7 horas de deslocamento.
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Chegando na cidade, fomos direto para o cais que dava acesso ao famoso Titicaca, o mais alto lago comercialmente navegável do planeta. Almoçamos no restaurante Don Pascualito onde os pratos eram enormes e, por isso, tivemos dificuldade para comer tudo. Além disso, eu detesto desperdiçar comida. Eu havia pedido uma truta frita com um monte de grãos diferentes, típicos do Peru e veio uma montanha enorme de tubérculos e outras sementes de cores diferentes que só se encontram por aqui. Fiz muito esforço para poder deixar o mínimo  possível.
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Logo após o almoço, fizemos uma hora vendo os artesanatos do porto e logo entramos nos barcos que nos levariam para ver as famosas Ilhas Flutuantes de Los Uros. Chegando lá, algumas mulheres bem baixinhas e homens simples nos receberam. Eles andavam descalços por sobre a vegetação amassada, fazendo barulho por onde passavam, algumas meninas também chegaram e começaram a interagir com o grupo. Aprenderemos como as ilhas são construídas, como vive a comunidade local, visitamos algumas casas e seguimos para uma ilha maior onde havia artesanato e lanches.
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É impressionante pensar que um lago que fica a mais de 3.800 metros de altura, possa ter quase 8.400 quilômetros quadrados e chegar até a uma profundidade de 280 metros. A paisagem é linda! O platô andino se estende longamente pelo horizonte e sopra uma brisa leve e constante que ajuda a diminuir o calor de janeiro. Voltamos então, ao entardecer, pelos canais que davam acesso ao porto de Puno e passamos ao lado de uma ilha que estava tendo uma partida de futebol onde vários moradores estavam reunidos em torno do campo. Achei lindo o reflexo do sol sobre o lago e esse era mais um dos pontos da viagem que eu queria especialmente conhecer. 
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Chegando de volta à terra firme, o grupo se dispersou e eu juntei com alguns para comermos num restaurante que, a princípio, não dávamos nada, mas que depois nos surpreendeu: El Preterido Sumac. Nos juntamos, aos poucos, na rodoviária, subimos no ônibus e nos preparamos para mais uma noite inteira em trânsito, dessa vez rumando ao Chile, meu país preferido da América Latina, depois do Brasil, é claro! Estávamos saindo das regiões altas dos Andes de quase 4.000 metros de altitude para irmos ao nível do mar e eu nunca estalei tanto os ouvidos como nesse trajeto numa madrugada pela América Latina. 
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P.S: Tentei colocar o diário em dia nessas longas horas de ônibus, mas o sono foi mais forte do que eu. Desisti de lutar contra ele e me rendi ao descanso.
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Dia 14 - 08-01 - Quinta-feira

Amanhecemos na aduana entre Peru e Chile, descemos todas as bagagens, mochilas e ficamos esperando a vistoria. Logo chegou, guiado por uma policial mulher, um cachorro super simpático que passou cheirando todos os nossos pertences e, incrivelmente, ele parou na bagagem de um dos integrantes que havia um saco de palo santo aberto dentro da mala. Todos rimos muito, pois esse integrante é uma figura, um baiano muito agitado e simpático que vive comprando comidas, coisas orgânicas e levando escondido na mochila. Seu nome é Antônio Oscar.
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Depois da bagunça brasileira na Aduana chilena, chegamos num posto que tinha uma loja de conveniências onde todo o grupo entrou e foi comprar pão, café, suco e outras coisas. Após esse café improvisado, rumamos para o Museu Arqueológico San Miguel de Azapa que reconta a pré-história da região norte do Chile. Lá estão as famosas Múmias Chinchorro, consideradas as mais antigas do mundo, com mais de 7.000 anos. 
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Depois passamos num shopping sem teto, afinal, estávamos na região mais seca do mundo. Achei a arquitetura muito engraçada, fiquei observando aquela inusitada engenharia e, por incrível que pareça, o local era bastante fresco, apesar de estarmos numa região desértica e não termos o conforto do ar condicionado. Alguns fizeram compras, outros comeram alguma coisa e eu só andei, afinal, não estava com fome e nem sou de comprar sem motivo. 
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Após o shopping, fomos, enfim, até o hotel na cidade de Arica que fica na beira do mar. Lá subimos pro quarto e o grupo se dividiu. Fiquei sabendo que alguns foram ver a Catedral de São Marcos, projetada pelo mesmo engenheiro da Torre Eiffel, além de quererem fazer mais compras no centro do município. Eu dei uma olhada nas fotos da famosa igreja e, como não me atraiu em nada, resolvi ir para a praia e nadar no imenso e misterioso Oceano Pacífico. 
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Juntei com algumas pessoas, fomos para a areia e, pela primeira vez na vida, tomei um banho de mar nessa que é a maior massa de água do planeta. A temperatura não estava tão gelada como nos alertaram, ficamos um bom tempo batendo papo entre as ondas e, depois de mais de uma hora, fomos todos para a piscina do hotel tomar cerveja. Tomei duas long necks e subi para o quarto para tomar banho. 
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Após o banho, um dos colegas abriu um espumante e ficamos conversando até a hora de sair pro jantar. Por volta das oito horas, fomos em direção a um restaurante que ficava a um quilômetro do hotel e, em 15 minutos de caminhada, chegamos até lá. Aproveitamos para curtir o pôr do sol no trajeto, afinal, nessa região, o pôr do sol se dá bem mais tarde do que no Brasil e já era quase oito e meia quando ele se escondeu no oceano.
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Sentamos numa grande mesa e cada um pediu seu prato. Dividi um vinho com duas pessoas da equipe e fui ficando meio ébrio. Comi bastante, bebi bastante e depois fomos de volta pro hotel cantando música. No hotel, um dos colegas de quarto abriu mais uma garrafa de vinho, ficamos conversando e ouvindo música manauara até bem tarde. Coloquei meus protetores contra o ronco, afinal meus colegas são bem ruidosos e, por volta da meia-noite, fomos dormir.
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Dia 15 - 09-01 - Sexta-feira

Dia de sair de Arica a beira do mar e ir para San Pedro de Atacama que fica a 2.400 metros de altitude. Fizemos check-out às 5hrs da manhã e recebemos o box-lunch do hotel. Após uma hora e meia de ônibus, paramos numa zona de conferência, tivemos que descer todas as malas, mochilas e passamos tudo numa máquina de verificação. 
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Entramos novamente no ônibus e, depois de mais algumas horas de deslocamento, o pessoal parou para almoçar. Eu estava sem fome e preferi ficar dormindo no ônibus. Após mais duas horas de deslocamento, paramos novamente em uma aduana interna; lá fiquei pensando porque tantas paradas e, olhando meu local no Maps, percebi que estávamos percorrendo uma estrada pan-americana e que, por isso, era necessária essa constante vigilância. 
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ADENDO NA NARRATIVA: Nesse momento, após tantos e tantos dias de viagem, o diário fica atualizado novamente. Agora, enquanto escrevo, estamos atravessando o deserto do Atacama, a região mais seca do Planeta Terra. É impressionante como não há absolutamente uma única vegetação em toda a ampla paisagem que conseguimos enxergar do ônibus. Meu Deus! Tudo aqui são pedras, estradas, curvas, esparsos postes de energia, montanhas cinzas e um céu extremamente azul sem NENHUMA nuvem. Apenas sol, sol e sol. Agora são 15:47 do dia 9 de janeiro, uma sexta-feira e mais tarde escreverei novamente nesse diário...
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Retornando ao diário… Hoje é domingo, 11 de Janeiro e são 16:02 hrs.
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Depois de horas e horas atravessando o deserto do Atacama, chegamos, enfim, às 17:30, a San Pedro de Atacama, uma cidadezinha que é o cenário perfeito para um filme de velho oeste, uma película pós-apocalíptica retratando um futuro onde as guerras pela água tenham exterminado grande parte da população da terra, ou mesmo um drama intenso do Almodóvar.
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Fomos pro Hotel San Sebastian e corremos pro quarto, pois estávamos muito cansados. Cochilei um pouco, arrumei minhas coisas e resolvi sair para comer alguma coisa. Como sempre, foi fácil encontrar pessoas da excursão e logo eles me passaram algumas dicas sobre onde ir. Fui seguindo pela rua do hotel, virei à direita e logo já estava na rua mais movimentada da cidade: a Rua Caracoles.
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Andei bastante por ela e fiquei impressionado com a quantidade de brasileiros caminhando e também trabalhando nos comércios. A maioria das pessoas que eu cruzava estavam falando Português. Aproveitei para ver canecas e ímãs que são as coisas que gosto de comprar nas viagens. Comprei uma caneca lindíssima, pintada a mão com temas que representavam o deserto, o Chile e outras coisas relacionadas com a cidade e, de repente, apesar de estar ainda muito claro, me dei conta de que faltava somente uma hora para o Tour Astronômico que iríamos fazer às nove horas da noite. 
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Passei no Empório Andino, comprei duas empanadas, um suco, comi metade de cada uma e corri pro hotel para preparar a mochila para o evento noturno. Às nove horas, juntamos todos os integrantes do ônibus e fomos para o meio de um descampado árido e escuro. Começamos comendo eou bebendo algumas coisas e depois o grupo se dividiu em três conjuntos de mais ou menos nove pessoas. 
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O nosso grupo começou com a observação dos astros usando um telescópio. Vimos Júpiter, Saturno, as Plêiades, uma estrela que havia explodido e formado milhares de pequenos pontos luminosos que mais pareciam uma nuvem de luz. Também vimos a Aldebaran da constelação de Touro, o Cinturão de Orion e a constelação de Gêmeos. 
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Depois disso, passamos para uma explicação mais detalhada sobre as cores de cada estrela, a diferença delas pros planetas, os satélites artificiais que giram em torno da Terra e a linha onde os planetas do Sistema Solar aparecem. Essa linha, não por acaso, segue o arco feito pelo Sol, durante o dia, nas diferentes épocas do ano. Foi muito interessante observar, os já citados, Júpiter e Saturno alinhados na direção em que lembrávamos de ter visto o Astro Rei. Essa foi uma agradável novidade para mim!
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Na terceira parte do passeio, fomos tirar umas fotos com o céu estrelado do Atacama. Como sempre, a câmera amplia a quantidade de estrelas para além do que o nosso olho pode captar e, como bem me lembro, assim também foi com a Aurora Boreal na Islândia. Independente desses recursos tecnológicos quase enganadores, as fotos ficaram lindíssimas e o pessoal adorou o novo material que, com certeza, vai parar nas redes sociais de todos os viajantes.
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Ao final, todo o grupo se juntou nas vans e retornamos ao hotel para dormir.
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Dia 16 - 10-01 - Sábado

Levantei às quatro horas da manhã, vesti o máximo de roupas que tinha na minha mala e, às quatro e meia, estávamos partindo com o grupo para conhecer os Gêiseres del Tatio. Conforme a van ia subindo, a temperatura ia caindo mais e mais. Num determinado momento, eu passei a mão no vidro e havia gelo, ou seja, o vapor que o grupo estava soltando pela respiração, ao entrar em contato com a superfície super fria, se congelava. 
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Chegamos num grande platô cheio de gêiseres que mais pareciam um monte de chaminés de casas subterrâneas onde os moradores estariam fazendo seus cafés. O sol ainda não havia ultrapassado as montanhas que delineavam as margens do Vale e o frio era muito intenso. Segundo o guia, estávamos com oito graus negativos, mas eu duvido. Ele me pareceu ser um jovem malandro sensacionalista que queria impressionar seus clientes.
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Fomos caminhar por esse vale, ouvir algumas explicações sobre a formação dos gêiseres, sobre o fato dos maiores campos do mundo ficarem em Yellowstone, depois na Rússia, além de tirar muitas fotos legais. Terminada essa volta, tomamos um café e fomos para o povoado de Machuca que me lembrou o filme de mesmo nome. Devo ter visto a película em 2004, na época da faculdade. Mas enfim... 
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O povoado tinha apenas uma família e a maioria das casas estava abandonada. Ele se formou porque um beato havia morado naquele local e, as correspondências que recebia não tinha endereço, mas somente seu nome: Machuca. Visitamos a pequena e charmosa capela que ficava no alto de uma montanha, fizemos umas preces e depois voltamos apreciando as casas humildes e esquecidas que permaneciam naquela esquina sinuosa de um estrada de terra que passava perto de uma nascente de água.
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Após o povoado, fomos ver uns flamingos numa grande lagoa, ouvimos algumas explicações sobre os três tipos dessa ave que existiam no Chile e, por volta do meio dia, estávamos voltando para a pousada. Cheguei no local, fui desfazer-me da quantidade de roupa que havia colocado e parti para o almoço. 
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Na parte da tarde, estava planejado o passeio para o famoso Vale de la Luna que fica próximo da Cordilheira de Sal. Às 15 horas, a van passou para nos pegar e, após alguns minutos de deslocamento, chegamos na entrada do vale onde havia a bandeira do Chile e a bandeira dos Povos Andinos que, segundo o guia, é baseada numa visão que um dos imperadores dos Incas teve. Nessa visão, dois arco-íris se juntavam no meio e formavam novamente a cor branca. Não sabemos o quanto de verdade existe nessa informação mas, de qualquer forma, é uma estória bastante bonita. Gostei da significação da reunião das cores, a reunificação da pluralidade gerando a harmonia e a paz representadas pelo branco.
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Entrando no parque, continuamos de carro por mais uns minutos e paramos perto de algumas formações geológicas muito diferentes. O ambiente era extremamente quente, seco e, por isso, precisávamos andar devagar, respirar devagar e buscar qualquer sombra para tomar abrigo. Andamos por trilhas ao lado de uma duna enorme, a chamada Duna Maior com suas formações rochosas espetaculares e parecia realmente que estávamos num pedaço da Lua. Era necessário tomar água e molhar o nariz a toda hora mas, mesmo assim, as narinas e a boca estavam sempre secas. 
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Depois de subirmos a lateral dessa grande duna, fomos às Três Marías, umas formações rochosas icônicas, esculpidas pelo vento e pelo tempo. Com muita imaginação, consegue-se visualizar três mulheres orando para Deus com suas mãos voltadas para o céu e, por isso, receberam o nome já citado. Depois dessa parte, fomos para a chamada Gruta Vitória que, na verdade, não é uma gruta. Trata-se de uma escavação na montanha que forma um abaulado com as paredes feitas de sal e quando faz calor, o sal dilata e produz pequenos estalos, um fenômeno natural muito interessante de escutar. Ficamos ouvindo os diversos estalos das rochas e é intrigante pensar que, à sua maneira, elas também estão em movimento, como tudo no Universo extra Deus.
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Depois das visitações dentro do parque, fomos para um coquetel onde a brasileirada se arrebentou de comer e beber pisco e vinho. Foi hilário! Além da diversão, a vista estava linda de cima da montanha e a inclinação do sol dava contornos mais marcantes para o relevo do vale. Em seguida, fomos a um mirante para apreciar o pôr do sol e tudo parecia cenário do fim de um filme épico: aquele vale enorme, cheio de relevos diferentes, vulcões extintos secundários dando o contorno da região e o imponente Licancabur se destacando absoluto do lado oposto ao sol. Sensacional!
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Ver o pôr do sol do topo de uma montanha e observar a luz indo embora no deserto mais seco do mundo foi inesquecível. O pessoal da excursão estava muito animado, alguns começaram a cantar, outros dançavam, outros queriam tirar fotos o tempo inteiro e este foi mais um lindo momento da viagem que começava seu fim… Entramos na van, continuamos a cantoria, o motorista colocou músicas muito boas para ouvirmos e o grupo estava em êxtase. Chegamos de volta a San Pedro às nove da noite quando já havia anoitecido.
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Combinamos de sair para jantar às quinze pras dez, mas quase ninguém foi, pois a bateria de todos já estava acabando. Então, juntamos umas quatro pessoas e saímos para andar pelas ruas. A cidade parecia uma São Tomé das Letras no meio do deserto com malucos do mundo inteiro, gente dançando, gente fazendo pirofagia, gente tocando violão no chão, gente bebendo, gente oferecendo narcóticos, enfim, tinha gente de todo tipo. Que lugar doido! Fomos parar no bar Chela Cabur que fica na badalada rua Caracoles; o teto era forrado de camisetas de times do mundo inteiro e, como não poderia deixar de ser, várias delas eram do Brasil.
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Pedimos quatro Chopps de tipos diferentes, um para cada um. Batemos papo sobre a viagem, sobre coisas certas e erradas que aconteceram durante esse longo trajeto, sobre o que iríamos fazer quando voltássemos para nossas cidades, as expectativas alcançadas, algumas frustrações, a rotina que levamos no nosso dia-a-dia e etc. Repetimos a rodada e, por volta da meia-noite, pagamos a conta e fomos pro hotel, afinal, no dia seguinte sairíamos às quatro da manhã para os longos quatro dias de retorno até São Paulo.
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Dia 17 - 11-01 - Domingo

Levantamos às três e meia da manhã, nos ajeitamos e fomos todos para a  recepção. Logo chegaram as vans e fomos levados até os ônibus. Era chegada a hora de seguirmos viagem, atravessando de volta a Cordilheira dos Andes, rumo a Bacia do Prata. Entrei no veículo e me ajeitei para dormir mais. No meio da noite, me levantei, passei a mão na minha janela e ela estava forrada de gelo. O frio estava muito intenso e tive que me agasalhar ainda mais.
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Por volta das oito da manhã, paramos no alto da cordilheira para fazermos os trâmites de saída do Chile e de entrada na Argentina. O processo que deveria ser um pouco demorado, tornou-se uma longa espera de mais de cinco horas por conta da quantidade de ônibus que estavam atravessando aquela fronteira. Depois de muito esperar, conseguimos ter nossos passaportes e malas verificadas e, assim, seguimos viagem pelo território argentino. Com a demora na Aduana, tivemos que mudar os planos do dia e deixarmos de passar na cidade de  Purmamarca; fomos, então, comer alguns lanches no deserto de sal chamado Salinas Grandes.
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Comemos algumas empanadas feitas numas barracas super simples que ficavam no início de um campo gigante de sal, a chuva se aproximava e o cenário estava melhor do que a comida (sic). Nuvens carregadas desciam ao longe, formando um contraste entre o chão branco e o céu preto, o espaço se abria amplo e o vento fazia tudo parecer maior. Após esse rápido lanche, seguimos viagem rumo a Salta que é,  aliás, onde estamos chegando agora às 20:30. Continuarei o diário assim que tiver mais tempo. 
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Após passar pelo quarto do hotel, resolvi sair sozinho pela cidade para comprar uma cerveja e ver as pessoas do local. E que grata surpresa se tornou essa saída descompromissada! Fiquei impressionado com a beleza das ruas, a limpeza dos lugares e a arquitetura múltipla. Da primeira vez que passamos pela cidade, eu estava muito cansado, olhei a rua do hotel e julguei que não havia nada de mais para se fazer por ali; parecia, simplesmente, uma cidade pacata e desinteressante. Mas eu estava enganado! Passei pela primeira praça que ficava a um quarteirão de distância do hotel, comprei uma cerveja que leva o mesmo nome da cidade e já me agradou o fato de haver muitas famílias sentadas por todos os lados depois das nove e meia da noite. Além disso, na praça havia uma feira de artesanato, muitos restaurantes ao redor e um clima cultural no ar.
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Segui em direção a praça principal e a surpresa foi ainda maior. O espaço estava cheio de pessoas de diversas faixas etárias, crianças brincando e muito movimento de carro. Numa esquina que ficava próxima de muitas construções antigas, pude ver uma apresentação de dança típica. Os casais dançavam uma espécie de Tango com lenços nas mãos. Eles não se tocavam, mas giravam seus tecidos e o homem galanteava a mulher, rodando a sua volta, como se fossem um Mestre Sala e uma Porta Bandeira.
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A Matriz era enorme e com uma iluminação linda; os calçadões eram largos e as marquises cobriam grande parte deles. A praça abria-se ampla, bem iluminada, bem cuidada, então segui por outro calçadão e fui andando por diversos quarteirões cheios de restaurantes, hamburguerias, cassinos, supermercados, lojas de conveniências e todo tipo de comércio. Já eram mais de dez horas da noite, porém a cidade permanecia viva e cheia de gente pelas ruas. Peguei outra cerveja e sentei na praça para ouvir a apresentação musical de dois caras tocando violão e cantando. As músicas eram harmoniosas e o público acompanhava cantando e batendo palma. 
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Num determinado momento, um argentino que estava ao meu lado, me avisou que seria melhor eu esconder minha cerveja, pois era proibido beber nas ruas. Fiquei de olho nos guardas que passavam vez ou outra, fui terminando devagar o líquido que poderia me levar para a cadeia na Argentina e, para piorar, eu ainda estava sem meu passaporte… Mas deu tudo certo! Terminei a cerveja, fui procurar um restaurante para comer alguma coisa e acabei parando no Aires Caseros, um espaço muito bonito, onde pedi um sanduíche com um monte de acompanhamentos. Fui comendo bem devagar para poder aproveitar aquele momento silencioso num espaço do interior da Argentina. Depois de terminado, paguei a conta e voltei devagar pro hotel. Chegando lá, um dos meus colegas de quarto estava acordado, batemos um pouco de papo, coloquei meu protetor anti-ronco e fomos dormir.
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Pensando agora, após um tempo, esse foi também um dos momentos especiais da viagem. Como foi gostoso passear por aquela cidade tão rica de cultura e arquitetura. O fluxo das pessoas nas ruas, as luminárias antigas dourando o espaço, as construções históricas bem conservadas, a caminhada sem compromisso pelos calçadões, a conversa e a convivência com algumas pessoas do local, sentar-me sozinho na beira da praça para comer e voltar tranquilo até o hotel. Foi uma pequena jornada que marcou esse trecho final da viagem. 
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Dia 18 - 12-01 - Segunda-feira

Acordamos às sete horas, tomamos banho e descemos pro café. O grupo começava a se despedir e era possível sentir uma certa tristeza no ar, afinal, após dezoito dias de intensa e harmoniosa (ou quase) convivência, a reta final se aproximava. Terminei o café, ajeitei a mala e desci para o hall. Fiz uns comércios de pesos argentinos com alguns colegas e, às 8:20 hrs estávamos saindo para dar um passeio por Salta, coisa que eu já havia feito na noite anterior. 
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A cidade durante o dia continuava linda e agradável. Passei, novamente, pela Praça Principal, pela Matriz, pelas diversas construções que circundavam o espaço e a Guia Turística do local nos contou diversos relatos sobre a importância de Salta para a história da Argentina. Passamos também pela Igreja de São Francisco, o Convento de São Bernardo e finalizamos com o Teleférico de mesmo nome. 
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Lá de cima, foi possível observar toda a região. O município é circundado por montanhas que, em sua maioria, estão cobertas por florestas; o planalto, no qual ele se encontra, é enorme, muito regular e a cidade, de mais de 600 mil habitantes, tem poucos prédios com mais de cinco andares. 
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Em torno das treze horas, descemos de volta para a base do teleférico e fomos ao Shopping Alto Noa para almoçarmos. Fizemos compras, comemos um prato e, às duas e quarenta estávamos embarcando no ônibus para um deslocamento que se estenderia até depois das onze da noite, sendo assim, levamos comida para garantir que não passaríamos fome. 
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Por volta do horário citado, paramos num posto onde comprei um suco, uma empanada e dividi uma lasanha com duas colegas de viagem. Voltamos ao ônibus, me agasalhei com as roupas que tinha levado fora da mala, ajeitei a coberta e fiz aquilo que me restava: dormir.
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Dia 19 - 13-01 - Terça-feira

O ônibus foi acordando aos poucos. Quando estava próximo das oito da manhã,  resolvi dar uma olhada no Maps para entender onde estávamos e percebi que já havíamos percorrido um longo caminho, inclusive, já havíamos cruzado aquela enorme ponte sobre o Rio Paraná que citei no relato da viagem de ida. Próximo das nove da manhã, paramos para tomar café em algum posto, ainda no território argentino e, ao final da refeição, esperamos o guia voltar ao ônibus para presentearmos ele e os dois motoristas com algumas lembranças em agradecimento pelo trabalho realizado. Foi um momento muito bonito e, nada mais justo do que regalar aqueles que trabalharam, quase vinte e quatro horas por dia, durante vinte dias para que pudéssemos realizar essa longa jornada.
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Depois do café, entramos novamente no ônibus e seguimos por mais um tempo até La Reducción de San Ignacio Mini, localizada na cidade de Misiones. Trata-se de um sítio arqueológico com algumas povoações que os Jesuítas fundaram na Bacia do Prata. O lugar está parado no tempo, suas ruínas possuem mais de 300 anos e, segundo registros históricos, tudo ali já esteve tomado pela vegetação. Os muros e as casas já estiveram sobre troncos de árvores enormes, como pudemos ver nas fotos expostas no museu que antecede a visita aos monumentos propriamente ditos.
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Gostei do espaço! Um vasto gramado, circundado de pedras antigas por todos os lados e, ao fundo, é possível observar uma grande construção depredada daquilo que já foi uma igreja. O guia, um senhor muito falante, explicou que os jesuítas ofereciam segurança aos índios locais e que, por isso, conseguiram angariar moradores para seus assentamentos. Chegaram a morar mais de 4.500 pessoas naquele espaço que se estendia muito além do que aquilo que hoje resta. 
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Após a visita, seguimos viagem rumo a churrascaria Matias, onde almoçamos na ida. É um restaurante familiar, toda a parte administrativa é feita pelos irmãos e o espaço existe desde 1978. É caro, mas é bom e tem muita fartura. Após esperarmos a chegada do outro ônibus para transferirmos uma das viajantes, começamos as despedidas e aproveitei para dizer um “até logo” ou mesmo um “adeus” para alguns integrantes queridos que tive contato, principalmente: o Anderson, a Andressa, a Carla e a Lica.
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Depois disso, fiquei pensando como é estranho e ingrato esse formato de viagem. Você convive intensamente, durante vinte dias, com pessoas de diversas regiões do Brasil, cria memórias, vínculos afetivos, alimenta carinho por figuras tão diversas, afeições por motivos tão diferentes e, no final, todos se vão com a mesma rapidez que chegaram. Os colegas de viagem, cada um a seu tempo e maneira, vai seguindo seu rumo, pegando suas malas, descendo em pontos diversos e acho bastante provável que eu não veja muitos deles nunca mais. Isso é meio dolorido. Depois do almoço, deitei na poltrona e me pus a pensar sobre isso. Senti-me triste e, mais ao final deste diário, colocarei outros pontos que pensei sobre tudo isso que se passou. 
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Divagações à parte, cruzamos a fronteira entre a Argentina e o Brasil, pagamos uma taxa bem estranha num posto na beira da estrada, tivemos nossos passaportes verificados e conseguimos retornar ao nosso território. Agora são nove e quarenta da noite e estamos em um ponto entre Cascavel e Maringá no Paraná. Chegaremos a São Paulo, segundo as previsões, entre onze e meio dia de amanhã, ou seja, ainda há muita estrada pela frente… Estarei junto à minha companhia e sob a minha tutela, noite adentro durante as próximas muitas horas. O céu me acompanha, a vibração do motor não me deixa esquecer que estou em movimento e todos os lugares parecem uma variação do mesmo cenário: luzes esparsas que se aproximam e se afastam, fábricas na beira de estradas escuras e vazias, breu, breu e mais breu. 
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O ônibus está em silêncio e a tela do celular é a única luz que se apresenta em frente aos meus olhos. Se não busco olhar ao redor, quase pareço estar imerso num quarto escuro, sem paredes e sem espaço definidos, ou mesmo flutuando numa condição sem matéria, num útero sem lugar e sem dor. Somente o balanço da máquina me faz lembrar que continuo apenas sendo um corpo em movimento. Continuemos adiante, afinal, minha casa está vindo na minha direção…
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Dia 20 - 14-01 - Quarta-feira

Enfim, o último dia de viagem. Depois de dormir com o balanço intenso do rabo do ônibus, acordei por volta das oito da manhã com o chamado. Fui ao banheiro, ajeitei algumas coisas na minha mala e logo estávamos parando em um Graal para tomar café. Lá, comi pouco, pois, segundo o guia, em menos de quatro horas estaríamos chegando em SP. Segui então com a missão de terminar este diário.
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Esse fim da viagem é, de longe, o maior período que passamos dentro do ônibus. Começamos o deslocamento às 15 horas de segunda, dia 18/01 e chegaremos, daqui a pouco, em SP ao meio-dia de quarta-feira. Ou seja, serão quase QUARENTA E CINCO HORAS seguidas em trânsito. 
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Em linhas gerais, essa foi uma das melhores viagens da minha vida. Parece clichê, mas é verdade. Conheci lugares longamente sonhados por mim, adentrei os Andes e o coração da América Andina da melhor maneira possível: POR TERRA. E era assim que eu queria que fosse. Queria sentir o povo, o chão, os lugares, as histórias, o solo onde, um dia, existiu o maior império das Américas e que, por desmandos da colonização, hoje existe e resiste um povo que habita a periferia do continente e do planeta. 
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O fato de viajar sozinho também era um desafio. Tive receio de não conseguir me conectar com as pessoas, de sentir algo interno que me levasse ao isolamento, de ficar travado diante do conjunto e das milhares de coisas que poderiam me passar pela cabeça. Enfim, tive medo da solidão, mas a vibração me levou adiante e o grupo, formado, em sua maioria, por pessoas que viajavam sozinhas, estava muito disposto a se conectar. Procurei não racionalizar demais, simplesmente seguir adiante e consegui vencer minhas amarras. 
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Ontem, antes de dormir, estava pensando nos diversos momentos que vivi, acabei me emocionando e chorei de saudade! Fui relembrando as semanas, o amálgama dos momentos, o fluxo das horas, a jornada que foi nos levando… Agora tudo parece, ao mesmo tempo, tão presente e tão longe. Não sei, só sei que fui me perdendo no embalo dos dias, as memórias foram ficando leves e equidistantes do agora e do passado. 
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A contagem dos dias se perdeu pelo caminho, ficou tomando chuvisco na passarela das Cataratas do Iguaçu, ficou sentada nas ruas humildes de Humahuaca ou talvez esteja tomando vinho num lugar tranquilo de Cafayate. Mas isso, eu não sei…
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A contagem dos dias ficou encostada nas paredes do Anfiteatro na Quebrada das Conchas ou permanece dormindo tranquilamente, ainda em 2025, por sobre o infinito espelho d'água do Salar do Uyuni. Mas isso, eu não sei…
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Talvez a contagem dos dias tenha se perdido nas ruas milenares de Cusco, esteja comendo alguma coisa barata no Mercado San Pedro ou esperando na fila para ver o sincero e comovente espetáculo de dança no Centro Qosqo de Arte Nativa. 
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Talvez ela tenha subido o Vale Sagrado, escorrido pelo rio Urubamba por entre as imensas paredes de rocha que protegem a cidade intocada e ido em direção ao mítico e colossal eldorado das Amazonas. Mas isso, eu não sei…
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A contagem dos dias também pode ter entrado numa fenda do tempo, ido parar num momento em que Machu Picchu ainda estivesse habitada ou talvez esteja tomando um banho de mar em Arica. Teria ficado a contagem dos dias encantada com o lindo pôr-do-sol que só o Pacífico é capaz de proporcionar e se elevado aos céus em direção à luz que se esvaia com mansidão? 
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A contagem dos dias deve ter ficado nas Ilhas Flutuantes e ainda esteja morando com os Uros no Lago Titicaca, ou tenha ido pro Vale da Lua e subido até as estrelas no deserto do Atacama. Mas isso, eu não sei…
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Essa louca e inexata contagem dos dias pode ainda estar sentada na praça central de Salta, esperando o momento de andar no Teleférico San Bernardo, comendo alguma coisa na Churrascaria Matias e se despedindo, com nostalgia, das pessoas que também se perderam dela ao longo da viagem. Mas isso, eu não sei…
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Eu realmente não sei onde pode ter ficado a contagem dos dias, o ininterrupto das horas, o tilintar dos segundos, eu apenas sei que ela não esteve comigo e isso foi muito bom! Justo eu que tanto já fiz questão de controlar, fui vencido pelo trajeto, pela jornada, pelos encontros, pelas emoções, pelas belezas e me perdi de mim.
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Deliciosamente, eu me perdi de mim e me encontrei num lugar mais leve que meu cotidiano, menos preocupado que a minha rotina, menos fechado que a minha insistente timidez, mais amplo que as ruas do centro de SP e mais encantado que o trajeto urbano que preciso vencer em todas as manhãs.
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Eu me encontrei solto em meio ao sonho do curioso menino de Itanhandu que esperava, um dia, caminhar por aí e poder tocar o mistério dourado e silencioso que sentia existir na América Andina: o meu lugar no mundo, o berço do meu corpo, o recôncavo do meu espírito, o lugar de onde saí para poder ser reconvexo em todas as formas e paragens. 
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Essa jornada foi o desaguar de um sonho antigo, alimentado, nunca desistido e que, mesmo nos momentos mais difíceis de um ex-remediado, eu não esqueci a promessa que, no fundo, havia sido feita para mim mesmo: CONHECER MACHU PICCHU. Num determinado momento, a intuição acendeu, eu observei a oportunidade, ultrapassei amarras, medos e, na hora certa, me lancei rumo à realização desse antigo desejo. 
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Eu consegui e agora, terminada a jornada, posso dizer que dei o passo na direção e no instante correto. A decisão tomada, deitado na minha cama, numa noite de Outubro, desenrolou-se nessa linda e longa estrada que caminhei de mãos dadas com o meu eu-menino. 
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Nessa estrada, fui levando o Wagner pequeno para ver seus sonhos e mostrei que ele sempre esteve certo em imaginar. Deitamos no berço do imenso interior da América Andina e nos esquecemos de nós, sem culpa, sem pressa, arrastando maravilhas por onde o vento rumasse, enovelando memórias leves, risadas brandas, cantorias coletivas e deixando pegadas várias pelas encruzilhadas deste continente que amamos profundamente. 
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Escrevi essas palavras entrando em São Paulo, passando pela Marginal e, depois de desembarcarmos no mesmo Hotel Panamby de vinte dias atrás, peguei um transporte, fui para minha casa e, aos poucos, assentei-me de volta na rotina, mas com as energias renovadas.
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Valeu a pena! OXALÁ SABE QUE VALEU MUITO A PENA!!!
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

LISTA GERAL - 2025

Literatura:
Ainda estou aqui – Marcelo Rubens Paiva
O Lobo da Estepe – Hermann Hesse
Gente Pobre – Fiódor Dostoiévski
Da minha terra à Terra – Sebastião Salgado
O diário de Anne Frank - Anne Frank
A Segunda vinda de Cristo. A ressurreição do Cristo interior, volume I - Paramahansa Yogananda
Divine Soul - Khoji
Extremamente barulhentos certos assuntos, por exemplo - Pedro Bomba
Grécia Antiga (National Geographic) - Caroline Alexander
A Caminho da Luz - Chico Xavier (pelo espírito Emmanuel)
Salvar o fogo - Itamar Vieira Junior
O Homem de Giz - C.J Tudor
Os Caminhos de Mandela - Richard Stengel
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Filmes:
Emilia Perez
Conclave
Anora
Flow
Vitória
Milton Bituca Nascimento
Homen com H
Ritas
O Último Azul
Paraíso em chamas
O Agente Secreto
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Teatro:
Rita Lee, uma autobiografia musical
João
Lady Tempestade
Cerrado
Chorus Line
Dream Girls
Senhora dos Afogados
Jeca - Um povo ainda há de vingar
Solo ideal: Arenoso
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Exposição:
Luzes da Cidade
Tesouros da Terra
História do Parque da Água Branca
MASP - Acervos
Isaac Julien - Lina Bo Bardi
Artes da África
Geometrias
Renoir
Histórias do MASP
A Ecologia de Monet
Frans Krajcberg: Reencontrar a Árvore
Hulda Guzmán: Frutas Milagrosas
Ivan Argote: O outro, eu e os outros
Frans Krajcberg: Relevos e cascas
Frans Krajcberg: Terra e Pedra
Frans Krajcberg: Samambaias de vegetações
Vídeo nas Aldeias
Pinacoteca - Acervos
Falares
Praça da Língua
Rua da Língua
Beco das Palavras
Laços de Família
Línguas do Mundo
Português do Brasil, linha do Tempo
Línguas do Cotidiano
Palavras Cruzadas
Nós da Língua
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Show:
ReNascimento no Blue Note
Jazz na República – Virada Cultural 2025
Liniker no Vale do Anhangabaú – Virada Cultural 2025
Crazin'1 na Timing House
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Música Clássica:
Coral Paulistano no Theatro Municipal 

domingo, 7 de dezembro de 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

domingo, 12 de outubro de 2025

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

VOCÊ

 O
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AMOR
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VERDADEIRO
.
É
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O
.
DESCANSO
.
NA
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BONDADE
.
MAIS
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POSSÍVEL
!
!
!

terça-feira, 26 de agosto de 2025

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Saí ontem...

 Voltei só depois de amanhã

segunda-feira, 23 de junho de 2025