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Uma volta. Uma ligeira volta na rua. Um frio de paulistano, seco. Noite de início. O fluxo de carros era intenso. Corria sempre a vontade de chegar logo. Eu também. Fui comprar crédito na farmácia mais próxima. Nem sinal do sistema. Andei mais alguns momentos procurando outro ponto, mas o sistema estava realmente nem sinal.
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Como se pudera existir em seu ombro um bocado de ternura que arfasse, a dona levava seu animal pelas ruas escuras do bairro Vila Buarque. Colocou-o no chão. Entre travecos e bêbadas travessuras de universitários de classe média, seu corpo todo rebaixado do tempo que lhe escorria no vão da consciência consentia. Ela olhava seu cão. Experimentava olhá-lo. Na verdade não olhava realmente nada. Consentia não conceber. Reclinava num aspecto de carinho por aquele bichinho pequeno que vestia roupas mais coloridas do que as dela, e continuava seu semblante estático pelas ruas lotadas de jovens no início da noite de uma pré sexta-feira.
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O tempo é o senhor da verdade. Disto todos nós sabemos. E talvez por apropriação indigesta e embriagada, nós nos fazemos dele segundo nossas verdades. É a razão e sua escória jogatina. Brinquei uma vez com um amigo sobre sua crença profunda de que não existia Deus e de como seu niilismo era fanático religioso. Ele, por sua vez, vendo minha ironia primitiva, me pegou de surpresa dizendo que eu não tinha talento suficiente pra uma liberdade como aquela. Acho que ele tinha e ainda tem razão.
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O cachorro, por sua vez, nunca se desviava de sua falta de compromisso. Quanto talento, meu Deus! Não tinha rabo e nem porque preservá-lo. Tropeçava em alguma lajota solta, cheirava, lambia alguma poça, e continuava seu caminho, guiando a dona. Arfava de esforço, teimava com ganas de vencer na vida pequena de sua memória instantânea, e ditava, a duras penas, o ritmo da descoberta conjunta. Tentava, por sobremaneira, chegar a qualquer custo monocromático do seu rico universo de estímulos e sempre, sempre conseguia almejar. Era um grande vencedor. O macho da casa, o dono da dona.
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- Oh dona, me vê uma pão?!
- Não posso. Totó adora o tempero do padeiro!
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O tempero do desespero...
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Compromissada até as últimas gotas com sua falta de gente, ia sem deixar rastro, ela também cheirando aqui e ali. Cutucava uma lata, mexia numa folha. Pelo menos não latia! Também roia as unhas, coisa que até hoje nunca vi um canino fazer. Mas também rosnava de cansaço por algum motivo que lhe afligira há alguns ditames atrás. A prisão do não-verbal e seu calabouço de sensações inconclusas que podem nos levar a balbuciar palavras muito próprias no meio de uma avenida lotada. Era o corpo todo reclinado. Os seios desvanecidos. A barriga servindo de apoio às costas, que se apoiavam na barriga, que se apoiava no ventre, que descia aos joelhos. O rosto onde não couber mais. Desvão, desvão, desvão, vão e um eco sem fim em qualquer chacra possível. O que seriam aquilo?! Cabelos mal tingidos. Uma raiz branca de grosso calibre. Mãos firmes, mas inválidas. Nunca preenchia. Não consegui captar seu olhar, tamanha a distância que lhe parecia existir entre seu mundo e este outro que não é de ninguém.
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Eles vadiavam no vazio da idade daquele bairro tão conhecido por todos nós. O cachorrinho labiríntico, a dona seguinte, a próxima e a outra, e mais uma nova, e ainda outra que não se lembrava de nenhuma das suas. Iam indo, sem se haverem.
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Iam por aquelas grades todas enferrujadas. O único corrimão do desvão fastio. Eram o apoio mais pertinente e o mictório mais sagrado. A Praça Monteiro Lobato e sua biblioteca infantil municipal. Não havia mais crianças e nem jovens jogando bola. Havia uma pessoa de casaco preto que passava e agora escreve.
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- Quantos anos tinha o cachorro?! Não sei. Talvez a mesma idade dela! Existe aquela fórmula humano-canina de multiplicar por sete a idade do animal pra encontrar quanto ele teria se fosse gente. Mas isso é mentira! Se fosse gente já teria morrido!
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A dona prosseguiu até o ponto de taxi mais próximo. Eu olhava de longe e ela sempre olhava assim: de longe. Perguntou algumas coisas pros taxistas velhos que estavam sentados. Latia, seu cachorro queria continuar. Ela foi. Eu também. Não os vejo nunca mais. E pra dizer a verdade, nem sei se eram realmente de se existir.
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São Paulo, 27 de maio de 2011. 22 e pouco da noite.
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Um filme sutil que conta a estória de um triângulo amoroso meio moderno, por assim dizer. Uma trama latina de pescadores, forasteiros e o amor! Ou melhor, os amores!
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Os atores estão estupendos, sem exceção! Dava até dó de ler a legenda e perder as atuações! Naturais, exatas, sem clichês! Um convite ao envolvimento sincero!
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Fui ver meio que sem saber antes o que era. Queria ir no cinema e só havia tempo pra chegar a essa sessão, das 22 horas.
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Gostei demais e recomendo!
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“A Doutrina Espírita dedica-se à formulação destas explicações desde Allan Kardec (século XIX). Na obra Espírita Missionários da Luz, ditada pelo espírito de André Luiz, através da psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, a epífise é descrita como a glândula da vida espiritual e mental. Para a Doutrina Espírita, a epifise é órgão de elevada expressão no corpo etéreo. Preside os fenômenos nervosos da emotividade, devido a sua ascendência sobre todo o sistema endócrino, e desempenha papel fundamental no campo sexual. Na mesma obra, André Luiz descreve ainda que a epífise está ligada à mente espiritual através de princípios eletromagnéticos do campo vital, que a ciência formal ainda não pode identificar, comandando as forças subconscientes sob a determinação direta da vontade. Na atualidade, o assunto é estudado pelo especialista Dr. Sérgio Felipe de Oliveira. Segundo ele, a pineal seria capaz de gerar forças psíquicas a todos os armazéns autônomos do órgão.” Wikipédia
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“A vertigem da danação
te faz facilitar
e antecipar tuas desgraças,
é o que me ocorre agora.”
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São eles:
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As cerejas
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Pomba enamorada ou uma história de amor
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As pérolas
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Herbarium
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A chave
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Apenas um saxofone
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O encontro
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A estrutura da bolha de sabão
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Já havia lido este livro há mais de 10 anos atrás, pro colégio. Fazia parte das leituras do primeiro ano colegial. Na época, lembro-me que não gostei muito. Achei difícil, enfezei com tudo aquilo, achei muito hermético, chato, umas frases que pulavam sem sentido. Por isso havia deixado ele na pilha dos que eu ainda iria ler e não na pilha dos já lidos.
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E minha visão, neste segundo, super espaçado, contato, foi outra, afinal, mais três anos e eu terei o DOBRO da idade que eu tinha quando li pela primeira vez. 15 x 2 = 30 (TRINTA)...
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Achei muito gostoso!
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Contos de no máximo 10 páginas, muitíssimo bem escritos. Lygia Fagundes Telles é fantasticamente sensível, sabe trabalhar as quebras de frases muito bem, as aspas, os poucos travessões. Uma agilidade cativante e, por vezes, perigosa. A autora também trabalha muito com aquilo que não se diz e se deixa subentendido no entre palavras, num gesto que se faz ou num olhar que não houve, mas que, mesmo assim, coube sua inexistência no canto de um parágrafo preciso. Também trabalha precisamente o que é nuclear no de repente do espaço de um relâmpago, e faz-se então a traição revelada no meio instante da noite. São coisas assim, um palavrão rasgando esquivo na mente e que acaba por transformar toda a percepção que temos de um personagem, um linguajar desigual que basta para sabemos se aquilo está sendo falado ou simplesmente pensado.
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Por tudo isso, pode-se afirmar ser uma mulher de inteligência rara, com muita certeza!
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Sobre os contos, Sônia Régis afirmou:
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“O passado fantasia o encadeamento do presente, o presente é carregado de transcendência, tudo exposto nos tensos nervos dos signos. A palavra é a consciência da vida se construindo, já que, como afirmou Clarice Lispector, “atrás do pensamento não há palavras: é-se” (Água viva)”.
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Aliás, falando em Clarice, arrisco, não sem insegurança, colocar Lygia Fagundes Telles no mesmo patamar dela.
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Acredito que Lygia trabalhe melhor as sutilezas, o não revelar de tudo. Ela tem menos necessidade de explicar o mundo. Tenho essa impressão! Seus contos são mais concisos, mais diretos. Ela aceita melhor as coisas como são. Deixa-as no ar.
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Já Clarice é mais dolorida, esmiúça incessantemente, cansativamente os mistérios do humano, revelando e revelando sempre mais e mais aquelas tantas coisas que ela sentia e escrevia num volume grandioso. Mesmo seus contos, que são, por natureza, mais enxutos, não praticam a arte do menos dizer como os da autora do livro desta resenha.
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Precisaria ler então um romance da Lygia pra poder ver cada uma delas naqueles que me parecem seus terrenos dominantes!
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Lygia me parece mais feliz, mais leve, mais cirúrgica, mas nunca menos profunda ou menos sábia! Clarice é mais pesada, densa, mas também, nem por isso, mais brilhante!
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Acho que são modos diferentes de serem escritorAs!
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É interessante pensar na personalidade que está por detrás das palavras. Pensar naquele ou naquela que pensou em tudo aquilo e que possui o contexto interno suficiente para fazer real todo aquele mundo literário pós-posto no papel!
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Os contos, como diz o título da obra, falam de amor, amor de diversas maneiras: amor de adolescente, amor de mulher, amor de homem, amor de menina, amor mais jovem, amor mais maduro, amor que não aconteceu, amor que aconteceu mas terminou, amor descartado, amor eterno. Destes amores, os amantes são: personagens xucros, personagens intelectuais, cientistas, aposentados, estudantes, curiosos, ajudantes de cabeleireira. Uma riqueza por qualquer ângulo que se olhe!
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Dos oito totais, já listados no início, os melhores, para mim, são:
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- Apenas um saxofone – um doce de estória sobre uma prostituta e um homem sem ambições. Juras e desafios de amor. Um sax que dizia o indizível e uma entrega demasiada de uma alma póstuma.
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As cerejas – o clarão, uma revelação, uma traição e sua visão fez de uma mocinha alguém um pouco mais mulher ou um pouco menos menina. O desencanto de um amor platônico!
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O encontro – impressionante viagem de um episódio vívido e desolador onde uma mulher se vê naquilo que antecede seu fim em outros tempos.
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A estrutura da bolha de sabão – denso conto de apenas cinco páginas, onde as quebras de narrativa são intensas e as nuances ainda mais presentes. Algo mais que uma amizade, o fim de tudo. A estrutura da bolha de sabão é como o amor: nem sólido, nem líquido, nem mesmo gasoso. Reflete milhares de olhos em sua superfície, mas, por vezes não consegue enxergar. As bolhas, como o amor, devem ser criadas aos poucos, soprando aos poucos a matéria da qual se constrói, pois são frágeis, singelas. Assim também é o amor!
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Adorei o livro! Pequeno, mas gigante profundo!




