domingo, 29 de maio de 2011

LUZ










.
O que é a luz?!
.
É

a

medida

da

sensação

eterna.
.


Exu

Exu Caveira
.
Ago, ago
Sr. Caveira no terreiro vai chegar
Ago, ago
Exu Caveira na Umbanda é mojibá
.
Sr. Caveira é senhor do silêncio
Humildade, firmeza e coração
Quando chega no terreiro da madrugada
De Ogum traz a espada
Pra marcar este chão
É Exu de fé, de força e harmonia
Vem trazendo alegria
Macaio não tem vez, não
.
Ago, ago
Sr. Caveira no terreiro vai chegar
Ago, ago
Exu Caveira na Umbanda é mojibá
.
A chegada e o passo lento são de peso
Densidade de quem sabe quando sorrir
A doçura e a imagem bruta se completam
De beleza se repletam
Neste exu de muita luz
Caridade de uma vida de cuidados
Medicina dos soldados
Que agora nos conduz
.
Ago, ago
Sr. Caveira no terreiro vai chegar
Ago, ago
Exu Caveira na Umbanda é mojibá
.
Desafia nossa sensibilidade
Convidando-nos a olhar bem mais além
A saliva e o corpo arcado são protestos
Contra o horror do manifesto
De dar valor ao que tem fim
É só uma capa que sem caveira desmorona
E a fraqueza vem à tona
Culminando num simples sim
.
Ago, ago
Sr. Caveira no terreiro vai chegar
Ago, ago
Exu Caveira na Umbanda é mojibá
.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O cachorrinho e a dona sua

.
Uma volta. Uma ligeira volta na rua. Um frio de paulistano, seco. Noite de início. O fluxo de carros era intenso. Corria sempre a vontade de chegar logo. Eu também. Fui comprar crédito na farmácia mais próxima. Nem sinal do sistema. Andei mais alguns momentos procurando outro ponto, mas o sistema estava realmente nem sinal.
.
Como se pudera existir em seu ombro um bocado de ternura que arfasse, a dona levava seu animal pelas ruas escuras do bairro Vila Buarque. Colocou-o no chão. Entre travecos e bêbadas travessuras de universitários de classe média, seu corpo todo rebaixado do tempo que lhe escorria no vão da consciência consentia. Ela olhava seu cão. Experimentava olhá-lo. Na verdade não olhava realmente nada. Consentia não conceber. Reclinava num aspecto de carinho por aquele bichinho pequeno que vestia roupas mais coloridas do que as dela, e continuava seu semblante estático pelas ruas lotadas de jovens no início da noite de uma pré sexta-feira.
.
O tempo é o senhor da verdade. Disto todos nós sabemos. E talvez por apropriação indigesta e embriagada, nós nos fazemos dele segundo nossas verdades. É a razão e sua escória jogatina. Brinquei uma vez com um amigo sobre sua crença profunda de que não existia Deus e de como seu niilismo era fanático religioso. Ele, por sua vez, vendo minha ironia primitiva, me pegou de surpresa dizendo que eu não tinha talento suficiente pra uma liberdade como aquela. Acho que ele tinha e ainda tem razão.
.
O cachorro, por sua vez, nunca se desviava de sua falta de compromisso. Quanto talento, meu Deus! Não tinha rabo e nem porque preservá-lo. Tropeçava em alguma lajota solta, cheirava, lambia alguma poça, e continuava seu caminho, guiando a dona. Arfava de esforço, teimava com ganas de vencer na vida pequena de sua memória instantânea, e ditava, a duras penas, o ritmo da descoberta conjunta. Tentava, por sobremaneira, chegar a qualquer custo monocromático do seu rico universo de estímulos e sempre, sempre conseguia almejar. Era um grande vencedor. O macho da casa, o dono da dona.
.
- Oh dona, me vê uma pão?!
- Não posso. Totó adora o tempero do padeiro!
.
O tempero do desespero...
.
Compromissada até as últimas gotas com sua falta de gente, ia sem deixar rastro, ela também cheirando aqui e ali. Cutucava uma lata, mexia numa folha. Pelo menos não latia! Também roia as unhas, coisa que até hoje nunca vi um canino fazer. Mas também rosnava de cansaço por algum motivo que lhe afligira há alguns ditames atrás. A prisão do não-verbal e seu calabouço de sensações inconclusas que podem nos levar a balbuciar palavras muito próprias no meio de uma avenida lotada. Era o corpo todo reclinado. Os seios desvanecidos. A barriga servindo de apoio às costas, que se apoiavam na barriga, que se apoiava no ventre, que descia aos joelhos. O rosto onde não couber mais. Desvão, desvão, desvão, vão e um eco sem fim em qualquer chacra possível. O que seriam aquilo?! Cabelos mal tingidos. Uma raiz branca de grosso calibre. Mãos firmes, mas inválidas. Nunca preenchia. Não consegui captar seu olhar, tamanha a distância que lhe parecia existir entre seu mundo e este outro que não é de ninguém.
.
Eles vadiavam no vazio da idade daquele bairro tão conhecido por todos nós. O cachorrinho labiríntico, a dona seguinte, a próxima e a outra, e mais uma nova, e ainda outra que não se lembrava de nenhuma das suas. Iam indo, sem se haverem.
.
Iam por aquelas grades todas enferrujadas. O único corrimão do desvão fastio. Eram o apoio mais pertinente e o mictório mais sagrado. A Praça Monteiro Lobato e sua biblioteca infantil municipal. Não havia mais crianças e nem jovens jogando bola. Havia uma pessoa de casaco preto que passava e agora escreve.
.
- Quantos anos tinha o cachorro?! Não sei. Talvez a mesma idade dela! Existe aquela fórmula humano-canina de multiplicar por sete a idade do animal pra encontrar quanto ele teria se fosse gente. Mas isso é mentira! Se fosse gente já teria morrido!
.
A dona prosseguiu até o ponto de taxi mais próximo. Eu olhava de longe e ela sempre olhava assim: de longe. Perguntou algumas coisas pros taxistas velhos que estavam sentados. Latia, seu cachorro queria continuar. Ela foi. Eu também. Não os vejo nunca mais. E pra dizer a verdade, nem sei se eram realmente de se existir.
.
São Paulo, 27 de maio de 2011. 22 e pouco da noite.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

RIO



.
Leve, gostoso de ver!
.
Uma animação para adultos e crianças de todas as idades!
.
Ri muito e me emocionei também!
.

Contracorrente

.
Um filme sutil que conta a estória de um triângulo amoroso meio moderno, por assim dizer. Uma trama latina de pescadores, forasteiros e o amor! Ou melhor, os amores!
.
Os atores estão estupendos, sem exceção! Dava até dó de ler a legenda e perder as atuações! Naturais, exatas, sem clichês! Um convite ao envolvimento sincero!
.
Fui ver meio que sem saber antes o que era. Queria ir no cinema e só havia tempo pra chegar a essa sessão, das 22 horas.
.
Gostei demais e recomendo!
.


VIP’S



.
Wagner Moura, como sempre, está ótimo!
.
No começo a piruquinha ficou meio forçada, mas, no desenrolar do filme, ele se modifica a cada personagem, o que dá uma força tremenda pra trama!
.
Roteiro legal, direção também!
.
E o drama psicológico que entremeia as ações é sutil e colocado de forma a não soar demasiado, o que poderia fazê-lo se desgastar e se abrir antes do tempo.
.
Ao mesmo tempo, não fica tão descartado da trama, a ponto de se tornar esquecido.
.
Filme brasileiro de alto padrão!
.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Muuuuu

.



Qual é o mais bovino dos cantores brasileiros?!



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.



.






.




Conceiçãããããooooo!!!


quarta-feira, 27 de abril de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Wiki à vontade!!!


“A Doutrina Espírita dedica-se à formulação destas explicações desde Allan Kardec (século XIX). Na obra Espírita Missionários da Luz, ditada pelo espírito de André Luiz, através da psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, a epífise é descrita como a glândula da vida espiritual e mental. Para a Doutrina Espírita, a epifise é órgão de elevada expressão no corpo etéreo. Preside os fenômenos nervosos da emotividade, devido a sua ascendência sobre todo o sistema endócrino, e desempenha papel fundamental no campo sexual. Na mesma obra, André Luiz descreve ainda que a epífise está ligada à mente espiritual através de princípios eletromagnéticos do campo vital, que a ciência formal ainda não pode identificar, comandando as forças subconscientes sob a determinação direta da vontade. Na atualidade, o assunto é estudado pelo especialista Dr. Sérgio Felipe de Oliveira. Segundo ele, a pineal seria capaz de gerar forças psíquicas a todos os armazéns autônomos do órgão.” Wikipédia


terça-feira, 19 de abril de 2011

10 Haikais Guilherminos

.
Seguem 10 Haikais Guilherminos.
.
Além do esquema de 5 – 7 – 5, o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo verso possui uma rima interna (A 2ª sílaba rima com a 7ª sílaba).
.
Seu difusor foi o poeta Guilherme de Almeida, daí a definição de Haikai Guilhermino.
.
É bastante praticado no Brasil.
.

.

p.s: sei que aqui tem haikais fora desta forma!

1) Revolta

.
Andou sem atino.
Atua louco na tua,
Soltou-se ferino.
.

2) Queda cão

.
Andou sem latido
Altura louca da tua
Soltou-se ferido.
.

3) Apocalipse zen

.
No fim do outro mundo
Quero sem pressa e te espero.
Infindo segundo.
.

4) Sopro

.
Infinitamente
Imploro tua linda flor
Translucidamente.
.

5) Fui!

.
Despedida ou!
Desbasto sem muito gasto
Tchau sem dó lhe dou.
.

7) Tangente Literal

.
Livro meu amigo
Redijo profundo, te digo:
Livra-me amigo!
.

8) Sem solo

.
Muitas são as coisas
Que vão sem ter direção.
Muitas coisas-vãos.
.

9) Cu doce

.
Dolorido dói cá!
Doido dedo dói tudo.
Doente dondoca.
.

10) Amigas

.
Palavras são vis.
Serem vis, de ti te rendem.
Palavras servis.
.

Pseudo Haikai

.
Pensamento madrugada
Sorriso incontido, no meio da sala:
Saudades do meu amor!
.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Faça o que quiseres, mas queiras segundo deves agir

.

Não se deve agir segundo a vontade rasa, descabida, cheia de intempérie, dotada de impulso baixio, egoísta. Vontade bifásica do sim e do não, do quero porque quero, assim como não quero porque não quero. Ou mais, quero porque quero a mim em exercício desta maneira e não quero porque acredito não me caber determinado tipo de dor ou tentativa.

Isto é pouco em demasia!

Não se deve esgarçar a moral pelo simples prazer de arrebentar o instituído, de ocasionar o desvario, um desperdício crônico de crenças e costumes, dilacerando o anterior de todo homem, o intocável de toda alma.

O mais importante é saber quando e como enfrentar, como sentir. O que, dentro de tudo, é considerável em fastio, sem inovação.

Desta hora, e de todas pra sempre, nem tudo cai neste ponto, nem tudo está para isso, está para reformulações, para quebra-cabeças a serem remontados, re-amontoados, re-contextualizados.

Seria maldito quebrantar as estruturas dignificantes e constituintes de um sustentáculo capaz de proporcionar a paz e o exercício humano neste terreno de perigos tão físicos, de olhares tão cegos, de sentires tão sem explicações permitidas; de ser na plenitude da não plenitude.

No entanto, este não é um segmento sem porém, ainda que valorize o traçado do “menor-porém”.

Ao mesmo tempo que tudo já aqui dito, é necessário ressaltar que deve-se equilibrar o não arrebentar do entorno, sim, mas nunca deve deixar de lado o arrebentar de si próprio.

Quando a cabeça pende ao chão de modo a lhe podar os mais belos horizontes, é hora de lançar olhares mais longínquos. Se tua postura resignada te causa sufoco, nada te impedirá de dar teu mais íntimo brado vital.

É saber quando e como jogar! Situar-se em vida!

De fato é como se as leis divinas pregassem no homem um matize de egoísmo permitido, pelo simples fato de sermos sozinho em nossas dores. É dada a licença de tentar, a permissão de se permitir.

O cerco entorno do homem, que exige muito de si, é fechado, mas, ainda sim, admite-se um descampado do espaço que o proporcione dançar conforme tua música interna mais latente e estridente.

É o encontro de dissonâncias que podem ser novamente harmonizadas, ainda que pelo total rearranjo das melodias internas. São estas que devem ser mexidas. As externas estão aí desde antes de estarem aqui.

E, além do mais, se não podes fazer o que quiser, queria aquilo que possa ser feito por ti.

Sempre há uma saída para perversão total ou ainda mental-parcial, intrinsecamente dolorida.

Para todo caminho percorrido, para todo traçado torto, por mais vívido dentro e fora de nós que esteja, há uma possibilidade de atalho, um conserto, um concerto mais belo a ser assistido e participado.

Há sempre um recaminho condutor para todo desvio, por mais perverso que este seja.

E nunca é estritamente necessário burlar entendimentos. Basta saber adiá-los, ou simplesmente compreender que não se deve compreender. Ainda!

Nunca é estritamente necessário pular compreensões, mas, é bom dizer que, por vezes, é necessário não as querer, e é bom que se faça isso.

Toda perversão se dá primeiramente na mente, para depois se alastrar. Mas é neste mesmo interno intenso que moram todos os encaixes.

O analgésico da dor da alma está no silêncio profundo. Por vezes impossível, é verdade. Mas sempre ainda mais possível, sempre ainda mais quisto, sempre ainda mais humano.

.

.

.

“Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal.” Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Immanuel Kant.

.

Dia 18/03/2011

.

Que o que há de mais acentado e planejável em mim

Seja a nascente irredimível do caminho mais belo e bom.

.

Que seja assim,

Posto que tenho medo de ser eu mesmo!

.

Tenho medo do que crio,

Das minhas possibilidades de perversão.

.

Tenho talento para o escracho,

O baixio das bestialidades esgarçantes!

.

Sendo assim, assim será.

.

E assim será,

Pois,

Minha covardia não me permite vislumbrar,

Em paz,

Os passos irrevogáveis

Que minha alma deve marcar.

.

Problemas!!!

Não sei o que acontece com esse blog que não consigo diagramar direito, nem colocar fotos que tudo sai do lugar quando tento visualizar. O texto que trago do Word precisa ser todinho redistribuído antes de ser publicado. Sacanagem!!!

Devassa

.

Peça da Cia. dos Atores adaptada do texto “A Caixa de Pandora” de Frank Wedekind, que foi rebatizada de LULU.

Lulu é uma personagem que só quer saber de sexo. Vazia de conteúdo, tosca, materialista, aproveitadora, ela inebria estranhamente.

Todos os personagens da peça (quatro homens e uma mulher) são completamente escravos voluntários dela, loucos, projetando inspirações artísticas, carnais e racionais sobre uma personalidade sem brilho, sem brio. Até mesmo seu pai a deseja e já teve relações com sua filha. Pai que, no caso, e não por acaso, num segundo momento da peça, é interpretado pelo ator que faz seu primeiro marido.

Esta paixão interna desatinada que rege cada um dos seus mais próximos, encaminha, um por um, a um desfecho fatal. Todos morrem. Os encantos são criados dentro de cada alma, havendo um descompasso tremendo entre o que é dito, amadamente declarado, doentiamente desejado e o que a coisa, a pessoa, realmente é.

Mas enfim, não gostei tanto!

Li o encarte e achei super-complexas e interessantes as idéias apresentadas nele: “a contemporaneidade devassa”.

Havia uma proposta de questionar o poder da imagem no mundo de hoje. Isto seria feito por uma adaptação de um texto do, já citado, dramaturgo do século XIX que havia trabalhado com publicidade e sabia bem do fascínio e descabimento que podem coabitar um mesmo elemento-signo.

Mas isso não sustentou o desvario e espalhafato de 1 hora e 30 minutos de duração.

O encarte prometia demais, falava bonito demais.

Mas achei palavras demais, efusão demais pra texto de menos!

O texto da peça, em si, não era tão legal assim! Havia muito rodeio, muita pompa pra pouca execução.

Não que os atores não estavam bem. Todos eram bons, sendo que alguns eram muito bons.

Mas o exagero da contextualização filosófica acabou levando a uma arte empolada e frustrante! Um glamour intelectual descabido, senão arrogante...

Pensei que só eu não havia gostando, mas, pela reação da platéia, pareceu que os outros também não compraram muito a idéia vendida ali no palco.

Acho que no fundo, acabou que eu vivi um descontexto dramatúrgico, extra peça, completamente alinhado ao contexto dela mesma. Ou seja, não entendi porque uma peça dessas estava no SESC Consolação a 32 reais a inteira, 16 a meia-entrada, sendo que era mais bonito ler o encarte que propriamente assistir ao espetáculo.

De alguma maneira, a supervalorização de “Devassa” foi como a supervalorização de “Lulu”: irreal.

A companhia estava cometendo o crime que delatavam!

É claro que o teatro tem diversas variáveis de interpretação, mas acho que este não queria chegar a este ponto!

.

Ficha Técnica:

.

Adaptação a partir do texto: de Frank Wedekind

Direção: Nehle Franke

Criação, Adaptação e elenco: Alexandre Akerman, Bel Garcia, César Augusto, Marcelo Olinto, Marina Vianna, Pedro Brício

Dramaturgista: Matthias Pees

Cenografia: Aurora dos Campos

Figurino: Marcelo Olinto

Iluminação: Maneco Quinderé

Direção Musical: Rodrigo Marçal

Projeção: Paola Barreto e Caito Mainier

Orientação Corporal: Dani Lima

Programação Visual: Radiográfico

Acessoria de imprensa: RPM comunicação

Direção de produção: Rossine A. Freitas

Produção: Cia dos atores

Assistente de cenografia: Ana Machado

Assistente de figurino: Luiza Paes

Assistentes de direção: Berta Teixeira e Vinicius Arneiro

.

Pornopopéia – Reinaldo Moraes


Alucinante romance de 475 páginas narradas em primeira pessoa pelo personagem Zeca (José Carlos).

Mas os acontecimentos não são simplesmente contatos por ele mesmo, como geralmente acontece nos romances que se utilizam desta forma de narrativa. A obra é também escrita pelas suas próprias mãos, com pausas para um mijo, uma carreira, uma ressaca e outras coisas mais.

Num contexto mais amplo, é como se, hipoteticamente, não houvesse o autor oficial.

Seria apenas uma espécie de diário construído no calor dos acontecimentos e que depois seria enviado para alguém, no caso, nós leitores, já que, o próprio personagem diz que vai mandar as aventuras por email para um você que nunca se define. Ou seja, este “você”, na minha leitura, era eu, não do outro será o outro e assim por diante.

Viajando um pouco, é quase como se Reinaldo Moraes, o verdadeiro autor, tivesse encontrado e publicado uma obra escrita por outro.

Este outro, o Zeca, que conversa com os leitores pelas longas verborragias escrachadas, é um putanheiro, cheirador, maconheiro, malandro, corno, traidor, cineasta marginal de um único sucesso “Holisticofrenia” e mais outros filmes de putaria e/ou publicidade.

Fissurado por sexo, buceta, drogas, noitadas, álcool e seus derivados, Zeca, que tem seus 40 e poucos anos, entra num fluxo de perversão em que ele, ao mesmo tempo, se leva e é levado, gerando uma trama de crescente embaraço e problemas diversos com outros personagens que cruzam seu caminho.

Fantasticamente bem escrito!

Uma literatura sem rodeios, com palavrões a rodo, nomes de drogas, narrativas de trepadas com alguns tipos de seres vivos, marginalidade roçando a nuca da classe média, volúpia carnal, desregramento de princípios, perversão de condutas, fastio da moralidade, fuga desvairada, polícia corrupta, mortes de inocentes, gravidez, traição.

Acho que este romance se aproxima de algo Kafkiano, em alguns episódios! O contexto tresloucado de alguns fluxos narrativos, conseqüências que saem totalmente do controle dos personagens, propostas irreconhecíveis, por vezes injustas, que englobam e fecham as possibilidades de redenção. Isto é Kafkiano!

E, nesta obra, o Kafkiano está a solta nas ruas de São Paulo. Algumas passagens se dão até bem próximas da minha casa. Digo isso não pelos nomes das empresas, edifícios, bares e boates relatados, que são fictícios, ou quase; mas pelas ruas, as mixórdias e contextos presentes, no universo ficcional e que também habitam o centro expandido desta cidade.

O final não poderia ser outro: péssimo, trágico, insano. No entanto, não há tentativa de se redimir. O escracho continua até a última linha. O bom-humor avariado resiste até o beco do fundo do poço nesta epopéia pornográfica da modernidade.

Achei um livro muito bem planejado, até o seu des-planejamento libertino!

Tá na moda!!!

.

.

.

Segue o primeiro parágrafo da contra-capa:

.

Vivendo na base do improviso, sem dinheiro, Zeca precisa rodar um vídeo institucional sobre embutidos de frango. Sem saber ao certo por onde começar, no entanto, ele acaba entrando numa espiral de sexo, bebidas e drogas. Esse é o ponto de partida do romance de Reinaldo Moraes, que escreveu um livro de excessos para a era dos excessos.

.

.

.

E segue o primeiro parágrafo do livro:

.

"Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor." . Tem um pedaço maior nesse endereço:

.


.

A última estação

.

O filme mostra os últimos anos do famoso escritor de Guerra e Paz e Anna Karenina: Liev Tolstoi (Lev Nikolayevich Tolstoy).

Junto a isso, são mostradas as intrigas de sua mulher e um amigo, seguidor daquilo que os russos chamavam de “Tolstoismo”, linha filosófica que nem o próprio escritor acreditava ser capaz de seguir.

O motivo das intrigas era que, se por um lado, a mulher não queria abrir mão dos direitos autorais das obras do autor, Vladimir Chertkov, o amigo/seguidor, queria persuadi-lo a assinar um documento entregando todos os seus escritos, romances e ensaios políticos para o bem da nação russa e da própria humanidade.

Achei muito interessante a maneira como foi apresentada esta disputa entre estes diferentes ideais com inclinação respectivamente para a Direita e a Esquerda política.

E é engraçado pensar que o altruísmo exagerado mostrou-se descabido mesmo na Rússia comunista do século XIX!!!

A esposa de Tolstoi, a Condessa Sofya, queria garantir o futuro de sua família e de seus mais de 10 filhos, o que parece razoável. Porque, além de mãe, como ela mesma diz numa passagem da película, ela também foi co-autora das obras, passando a limpo partes inteiras, discutindo enredos, personagens, o encaminhar de algumas tramas e por aí vai.

Já Chertkov, que entra aqui um pouco como um vilão-humanista (por mais contraditório que possa parecer este termo) quer difundir e fundar a doutrina casta e bucólica baseada nos pensamentos do romancista. Para isto, nada mais exemplar que o próprio Tolstoi abrir mão do dinheiro vindo de suas obras e entregá-lo nas mãos do povo.

Isto vai num crescente de confusões centrais enquanto estórias paralelas vão correndo, como é o caso de passagens muito engraçadas e amorosas envolvendo a condessa e o escritor, além de outras entre seu secretário pessoal e uma camponesa russa. Estas passagens servem um pouco para mostrar as fragilidades de uma doutrina que pregava a castidade e os atritos vindos dessa postura quando um seguidor encontra o amor.

No fundo, o filme fala de estórias de amor de uma maneira muito comovente e, em alguns casos, divertida, leve e bem-humorada.

Arrisco dizer que seja quaaase uma comédia-romântica-cult!!! Ou talvez um filme lado B (haja vista ele só estar passando num único cinema daqui de SP), de repertório, mas de fácil digestão! Poderia estar passando em circuitos comerciais, sem problemas.

Achei ótimo o equilíbrio entre arte e diversão conseguido pelo diretor e pelos atores. Aliás, o que mais me chamou atenção neste filme foram os atores. Todos estavam ótimos nos papéis!

Uma coisa que acho imprescindível quando um personagem da história é inserido numa estória, é o impacto da figura do ator junto ao nosso prévio conhecimento da personalidade e o quanto este elemento novo causará sinergia com a memória. E neste caso, Tolstoi estava muito bem! Era crível que estava se olhando para o escritor!

A única coisa que me incomodou um pouco, mas, que na realidade achei mais engraçado do que ruim, foi o fato de um gênio da literatura russa, toda sua família e amigos estarem falando em inglês. Mas ok!

Gostei muito!

Estava olhando na Internet e, segundo a Wikipédia, este filme é de 2009. É bastante tempo, pensar que o filme demorou mais de um ano pra chegar no Brasil!

.

Ficha:

.

Título em inglês: The Last Station

Gênero: Biografia, Drama e Romance

Lançamento: 2009 (Alemanha, Inglaterra)

Duração: 112 min.

Origem: Alemanha, Rússia e Reino Unido

Estréia no Brasil: 28 de Janeiro de 2011

Direção: Michael Hoffman

Roteiro: Michael Hoffman e Jay Parini

Atores: Helen Mirren, Christopher Plummer, Paul Giamatti, James McAvoy.

Distribuidora: Sony Pictures

Censura: 14 anos

Ano: 2009

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Pornopopéia (Frase)

.


“A vertigem da danação


te faz facilitar


e antecipar tuas desgraças,


é o que me ocorre agora.”


.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Quaresma - Ivan Lins


.

Acabou toda essa brincadeira

Não há jeito de ser diferente

Como sempre chegou quarta-feira

E a praça não é mais da gente

.

Andam soltos fantasmas e bruxas

Lobisomem em noites de lua

O saci dança em noites escuras

E ninguém tá seguro nas ruas

.

Tudo se repete, oh maninha

Como antigamente

E o diabo gosta, oh maninha

Arrepia a gente

.

As igrejas de portas trancadas

Já não entra, nem sai mais milagre

As pessoas de boca fechada

Vão fazer o jejum que lhes cabe

.

Clareando a sexta-feira santa

Segue a fila de velas acesas

Vêm cantando e o som se agiganta

Orações pra quem não tem defesa

.

Tudo se repete, oh maninha

Como antigamente

E o diabo gosta, oh maninha

Arrepia a gente

.

Procissão de bastões e vassouras

Estilingues, bodoques e pedras

Canivetes, facões e tesouras

Aleluia! É o quebra-quebra

.

É a dança do queira-ou-não-queira

É vingança, é um Deus-nos-acuda

É o malho, é o fogo, a fogueira

É o povo na pele de Judas

.

Tudo se repete, oh maninha

Como antigamente

E o diabo gosta, oh maninha

Arrepia a gente

.


.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Hipóteses para o amor e a verdade



.
Texto: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez.
.
Direção: Rodolfo García Vázquez.
.
Assistente de direção: Fábio Penna.
.
Cenário e Figurino: Marcelo Maffei.
.
Iluminação: Rodolfo García Vázquez e Fábio Cabral.
.
Elenco: Esther Antunes, Gustavo Ferreira, Leo Moreira, Maria Casadevall, Paulinho Faria, Phedra De Córdoba, Tânia Granussi e Tiago Leal.
.
Realização: Os Satyros.
.
Direção de produção: Erika Barbosa.
.
Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h30.
.
Onde: Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214.
.
Quanto: R$ 30,00; R$ 15,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt).
.
Lotação: 70 lugares.
.
Duração: 90 min.
.
Classificação: 18 anos.
.
.
Moradores do centro se São Paulo, prostitutas, transexuais, travestis, lésbicas, solitários, nerds, todos em cena, discutindo a solidão, o amor, interagindo com a platéia, telefonando realmente para celulares e/ou Disk Pizza para falar de suas carências, entrando em sites de relacionamentos. Há cenas de nudismo, manipulação, assassinato, prostituição.
.

127 horas


.
Ando com uma preguiça de escrever resenhas. Não tenho preguiça de escrever, em geral, mas é que tenho que escrever outras coisas mais importantes, e daí resta pouco pique pra falar do que eu andei assistindo.
.
Por isso, aqui vai algumas considerações bem sucintas sobre o filme 127 horas.
.
Ficha técnica:
.
Título original: 127 Hours
Lançamento: 2010 (Reino Unido, EUA)
Direção: Danny Boyle
Atores: James Franco, Lizzy Caplan, Treat Williams, Kate Burton.
Duração: 93 minutos
Gênero: Drama
.
Minha primeira pergunta sobre esse filme, antes de assisti-lo era:
.
Como fazer com que um filme sobre um homem preso num mesmo lugar por 127 horas não se torne uma coisa chata?
.
O diretor de “Quem quer ser um milionário?” é fera em contar histórias de jeitos diferentes. E no 127 horas ele acertou de novo. Digressões, visões fantasiosas e coisas do tipo enriqueceram a trama. Uma edição fora dos padrões de Hollywood pode causar estranheza no início, mas faz sentido dentro da proposta geral do filme.
.
Só achei que às vezes o ator principal deixou a desejar, um pouco. Não que ele não estivesse bem, mas é que precisava estar um pouco mais convincente nas cenas fortíssimas e dificílimas que se passaram.
.
Mas gostei bastante!
.
Só mais uma coisa:
.
Seria James Franco (nascido em 1978) a reencarnação de James Dean (morto em 1955)? Bobagem!!! Mas que parece, parece!
.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Maaaara!

.
Como dizer pra uma pessoa que sua fase boa acabou?
.
.
.
.
.
.
- Stevie Wonder, agora não estou mais!!!
.

sexta-feira, 18 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Oito contos de amor – Lygia Fagundes Telles



.
São eles:
.
As cerejas
.
Pomba enamorada ou uma história de amor
.
As pérolas
.
Herbarium
.
A chave
.
Apenas um saxofone
.
O encontro
.
A estrutura da bolha de sabão
.
.
Já havia lido este livro há mais de 10 anos atrás, pro colégio. Fazia parte das leituras do primeiro ano colegial. Na época, lembro-me que não gostei muito. Achei difícil, enfezei com tudo aquilo, achei muito hermético, chato, umas frases que pulavam sem sentido. Por isso havia deixado ele na pilha dos que eu ainda iria ler e não na pilha dos já lidos.
.
E minha visão, neste segundo, super espaçado, contato, foi outra, afinal, mais três anos e eu terei o DOBRO da idade que eu tinha quando li pela primeira vez. 15 x 2 = 30 (TRINTA)...
.
Achei muito gostoso!
.
Contos de no máximo 10 páginas, muitíssimo bem escritos. Lygia Fagundes Telles é fantasticamente sensível, sabe trabalhar as quebras de frases muito bem, as aspas, os poucos travessões. Uma agilidade cativante e, por vezes, perigosa. A autora também trabalha muito com aquilo que não se diz e se deixa subentendido no entre palavras, num gesto que se faz ou num olhar que não houve, mas que, mesmo assim, coube sua inexistência no canto de um parágrafo preciso. Também trabalha precisamente o que é nuclear no de repente do espaço de um relâmpago, e faz-se então a traição revelada no meio instante da noite. São coisas assim, um palavrão rasgando esquivo na mente e que acaba por transformar toda a percepção que temos de um personagem, um linguajar desigual que basta para sabemos se aquilo está sendo falado ou simplesmente pensado.
.
Por tudo isso, pode-se afirmar ser uma mulher de inteligência rara, com muita certeza!
.
Sobre os contos, Sônia Régis afirmou:
.
“O passado fantasia o encadeamento do presente, o presente é carregado de transcendência, tudo exposto nos tensos nervos dos signos. A palavra é a consciência da vida se construindo, já que, como afirmou Clarice Lispector, “atrás do pensamento não há palavras: é-se” (Água viva)”.
.
Aliás, falando em Clarice, arrisco, não sem insegurança, colocar Lygia Fagundes Telles no mesmo patamar dela.
.
Acredito que Lygia trabalhe melhor as sutilezas, o não revelar de tudo. Ela tem menos necessidade de explicar o mundo. Tenho essa impressão! Seus contos são mais concisos, mais diretos. Ela aceita melhor as coisas como são. Deixa-as no ar.
.
Já Clarice é mais dolorida, esmiúça incessantemente, cansativamente os mistérios do humano, revelando e revelando sempre mais e mais aquelas tantas coisas que ela sentia e escrevia num volume grandioso. Mesmo seus contos, que são, por natureza, mais enxutos, não praticam a arte do menos dizer como os da autora do livro desta resenha.
.
Precisaria ler então um romance da Lygia pra poder ver cada uma delas naqueles que me parecem seus terrenos dominantes!
.
Lygia me parece mais feliz, mais leve, mais cirúrgica, mas nunca menos profunda ou menos sábia! Clarice é mais pesada, densa, mas também, nem por isso, mais brilhante!
.
Acho que são modos diferentes de serem escritorAs!
.
É interessante pensar na personalidade que está por detrás das palavras. Pensar naquele ou naquela que pensou em tudo aquilo e que possui o contexto interno suficiente para fazer real todo aquele mundo literário pós-posto no papel!
.
Os contos, como diz o título da obra, falam de amor, amor de diversas maneiras: amor de adolescente, amor de mulher, amor de homem, amor de menina, amor mais jovem, amor mais maduro, amor que não aconteceu, amor que aconteceu mas terminou, amor descartado, amor eterno. Destes amores, os amantes são: personagens xucros, personagens intelectuais, cientistas, aposentados, estudantes, curiosos, ajudantes de cabeleireira. Uma riqueza por qualquer ângulo que se olhe!
.
Dos oito totais, já listados no início, os melhores, para mim, são:
.
- Apenas um saxofone – um doce de estória sobre uma prostituta e um homem sem ambições. Juras e desafios de amor. Um sax que dizia o indizível e uma entrega demasiada de uma alma póstuma.
.
As cerejas – o clarão, uma revelação, uma traição e sua visão fez de uma mocinha alguém um pouco mais mulher ou um pouco menos menina. O desencanto de um amor platônico!
.
O encontro – impressionante viagem de um episódio vívido e desolador onde uma mulher se vê naquilo que antecede seu fim em outros tempos.
.
A estrutura da bolha de sabão – denso conto de apenas cinco páginas, onde as quebras de narrativa são intensas e as nuances ainda mais presentes. Algo mais que uma amizade, o fim de tudo. A estrutura da bolha de sabão é como o amor: nem sólido, nem líquido, nem mesmo gasoso. Reflete milhares de olhos em sua superfície, mas, por vezes não consegue enxergar. As bolhas, como o amor, devem ser criadas aos poucos, soprando aos poucos a matéria da qual se constrói, pois são frágeis, singelas. Assim também é o amor!
.
.
Adorei o livro! Pequeno, mas gigante profundo!


.

Incêndios



.
Domingo resolvi ir ao cinema e ver uma coisa bem leve. Subi a Consolação, entrei na Paulista e fui olhar pelos cinemas às cegas, já que o site Guia da Semana não estava entrando aqui na internet lenta da minha casa! Aliás, este site entra quando quer, não tem outra explicação. Desconfio que meu computador tenha vontade própria!
.
Enfim, fui, olhei, olhei e acabei parando no Espaço Unibanco. Comprei meia-entrada para ver um filme que nunca tinha ouvido falar: Incêndios, do diretor Denis Villeneuve numa produção franco-canadense. Filme em francês geralmente é muito bom, mas o critério desta vez não foi a qualidade que eu esperava da película. Escolhi este pela conveniência. Não queria ficar esperando muito tempo rodando pela rua. Queria algo leve, rápido, que logo começasse, para que logo terminasse e que me valesse o acaso!
.
Em vinte minutos seria o início. Enrolei, comprei uma Coca, vi uns CD’s numa loja ali perto, terminei o refrigerante. Às oito e cinqüenta e cinco deixei que a mulher rasgasse meu bilhete. Às oito e cinqüenta e sete sentei na poltrona. Nove horas estava marcado.
.
Mas nove e vinte ainda estava passando propagandas de filmes e anunciantes diversos. Ou seja, minha vontade de começar rápido já estava sendo vencida! Depois desta última olhada no relógio, começou o tão desconhecido: Incêndios.
.
Olha, se eu estava à procura de um filme leve, esse não serviria nunca! A risada mais gostosa de todos os 130 minutos de película foi dada por um estuprador, mas quando percebi isso, já era tarde demais.
.
Primeiro que começa com a morte da mãe de dois gêmeos, um rapaz e uma garota. Ou seja, uma maneira muito branda de começar um filme... A mãe, interpretada pela atriz Lubna Azabal, escreve um testamento contanto que seus filhos tinham um irmão e um pai que ainda estavam vivos. Os dois recebem a incumbência de entregar duas cartas, uma escrita para cada um dos dois personagens que ainda seriam desvelados. Após este primeiro passo, uma terceira carta seria entregue aos dois.
.


.
Caso isto não fosse cumprido, a mãe gostaria de ser enterrada numa vala comum, enrolada num pano simples e de costas para a saída. Se tudo fosse feito, ela, só então, aceitaria ser enterrada normalmente.
.
O rapaz, interpretado pelo ator Maxim Gaudette não queria realizar nenhum dos pedidos da mãe, ou seja, nem entregar cartas e nem enterrá-la de costas e etc. Já a filha, interpretada pela atriz Mélissa Désormeaux resolve organizar tudo e parte para a terra natal da mãe, lá no Oriente Médio, atrás de suas raízes suas (sim!).
.


.
O filme é completamente não linear. Cenas do presente e do passado vão se permeando. Estão lá passagens da adolescência da mãe, as coisas horríveis que ela passou. Cenas da procura pelo irmão e pelo pai desconhecidos mostram que o enigma seria de difícil solução, então a filha resolve chamar seu irmão gêmeo para ajudá-la. Eles descobrem que a mãe não é bem quista em sua aldeia natal. Há cenas numa prisão horrível, uma cela ensangüentada, massacre de pessoas inocentes, morte de crianças, começa uma guerra religiosa, há cenas de assassinato, gritos de um estupro, tortura ordinária em piedade, tiros a queima roupa, fogo sobre corpos desprotegidos, loucura de uma mulher que é obrigada a parar de cantar, mas que mantém seu canto como forma de pirraça frente às desmazelas e horrores que lhe batem à cara, desconstrução de muitas almas, a descrença generalizada, mulheres sendo rudimentarizadas, puritanismo dos mais fortes, população desmantelada, intolerância para com o próximo ser-humano, ódio contra uma condição de vida subjugada, pobreza esparramando-se a todos os cantos que se olha, sangue em solo sagrado, fundamentalismo de um conflito sem começo nem fim, violência desmedida, machismo antiquado, caos social e político, coisas e mais coisas e mais coisas e tudo isso vai avolumando e pintando um painel macabro que culmina na frase, dita pelo irmão à sua gêmea:
.
- Um mais um são dois, né?! Um mais um não pode ser um!
.
Caraaaalho!!!
.


.
O susto que a irmã leva a gente também leva... Esta frase é a primeira confirmação de uma suspeita leve é muitissimamente destestável que vai se germinando com o passar das cenas!
.
Vale lembrar que partes do filme recebem nomes específicos, ou seja, subtítulos que contextualizam pedaços da trama.
.
No fim, depois de tudo isso, eles conseguem entregar as cartas ao irmão e ao pai e enfim abrem a mensagem escrita para eles...
.
Nela há palavras de amor de uma mãe que muito sofreu e que aconselha seus filhos a encerrarem o ciclo do ódio iniciado frente ao amor que ela sentiu por um homem e que fez com que toda sua vida fosse destruída compulsivamente, trazendo desgraça encima de desgraça até levá-la a um patamar de fastio e latência insossa perante o mundo.
.
Realmente a mulher, ao fim da vida, estava um bagaço! Coitada!
.
Agora vou falar o segredo do filme de uma maneira cifrada... Se alguém descobrir, me conte. É difícil escrever no limiar do entendível, e pensar no que poderia estar passando na cabeça daquele que lê. Procurei fazer algo que quase mostrasse a resposta.
.
.
O ciclo de ódio só poderia ser totalmente revelado se auto-revelado já que contado seria inacreditável e explosivo. Ainda seguindo esta lógica, o desvelar homeopático era necessário e assim foi feito para que enfim fossem capazes de quebrá-lo exatamente pela busca executada pelos gêmeos atrás do pai e do irmão perdido. Mas isto não bastava... Além de pausadamente relevado, este deveria ser sublimado e isto viria da própria capacidade deles de perdão, perdão necessário para abrandar aquele fundo de trama que, culminando na cena da piscina em que a mãe tem uma visão de uma tatuagem e de um semblante torturante, isto a paralisa e leva-a a ir ainda mais fundo quando ela pensava que seu vazio doloroso não poderia ser quebrado por mais nada. Mas foi, de qualquer maneira, por aquilo que ela lembrava ter sido seu ventre contrito e desgarrado pintado, sendo que dentro dela se fez amor e se fez o querer dos anos vívidos e levados a ferro e fogo e muito ferro recíproco, num oposto cíclico teórico-psicanalítico daquele que, expulsado, seria tão expulsante que, capaz do ato, ainda que sem saber do fato, vociferou horrorosamente o desconserto final da personagem principal.
.
.
.
Um simbolismo do ventre da água que guarda o silêncio dentro de si para emergir no fogo que circunda os personagens nos muitos “incêndios” da vida.
.
A cena final, diante do túmulo da mãe, recebe, enfim, o nome de “Incêndio”, no singular, revelando, portanto, o título da trama, após os muitos subtítulos apresentados ao longo das duas horas e dez minutos de estória. É deixado então que o silêncio da imaginação de cada um construa aquilo que seria os desdobramentos de um fogo interno eterno a ruir uma alma assassina e maléfica acostumada a matar desde pequeno...
.
É um filme impressionante! Quando comecei a desvendar a trama, a primeira coisa que me passou na cabeça foi: não é possível que seja isso! Isso seria demais!
.
Saí do cinema bem pela beleza da montagem apresentada, apesar de tudo que aqui foi narrado. Não vi o filme leve e rápido que queria, mas talvez tenha sido melhor ver estes tantos incêndios para apagar o incêndio que eu estava dentro de mim depois do final de semana...
.



O discurso do rei

.
Há duas semanas, fui assistir ao tão falado, e agora quatro vezes coroado (Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original): O discurso do rei.
.
Antes mesmo de ver, tinha a impressão de que seria um filme meio paradinho, cultzinho, aristocrático. E realmente foi!
.
Por um bom tempo, dentro da sala do cinema, a postura daquele que ainda seria o George VI, sua respectiva esposa, mesmo o terapeuta da fala e sua família estereotipada além de outros personagens; todo aquele climazinho “reação-mínima-contida-na-atuação-da-menor-grandeza” somado ao “não-me-toque-não-se-misture” da Grã-Bretanha da primeira metade do século XX estavam me enchendo bastante.
.
Era o reizinho travado, sua mulher chata e o terapeuta finamente irônico em ação...
.
Mas a amizade tão singela que foi se construindo entre o rei e o ex-ator, o esforço tão verdadeiro de um homem para ser capaz de passar palavras de consolo e animosidade a uma nação às portas de uma grande guerra foram me comovendo.
.
No final me envolvi com tudo aquilo e achei bastante interessante a forma como toda a trama e o próprio discurso final do rei foi coerente com as dificuldades do protagonista apresentadas ao longo das cenas.
.
Ou seja, uma nuance tão delicada de se trabalhar na ficção como a “melhoria da gagueira de um personagem” foi, durante o decorrer do filme, tão bem desenvolvida que me convenceu de que realmente foi o rei que, com ajuda e com seu próprio esforço, conseguiu dizer tudo aquilo. Não houve saltos, um tempo que passasse e de repente o rei estava falando bonito ou coisas do tipo.
.
Mais uma coisa... Rolou uma crítica de que “O discurso do rei” teria sido feito pra agradar a academia e ganhar Oscar. Acho que isso é verdade! Se era isso mesmo, eles alcançaram seus objetivos.
.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Mago (Biografia de Paulo Coelho) – Fernando Morais

.
Há uns dois anos atrás, estava passando em frente à livraria Saraiva do Shopping Higienópolis, foi quando vi a capa da biografia do Paulo Coelho, escrita por Fernando Morais, autor de outras biografias de personalidades importantes como: Olga Benário e Assis Chateaubriand.
.
Parei, li as frases da capa e achei interessante. Dizia coisas assim: um menino que nasceu morto, teve indícios suicidas, ficou internado em um manicômio, usou diversos tipos de drogas, praticou diversas formas de sexos, presenciou manifestações estranhas que atribuiu ao Diabo, foi preso político, marcou época no rock brasileiro com suas composições com Raul Seixas e a Sociedade Alternativa, sofreu mudanças radicais e se tornou um dos escritores mais lidos de toda a história.
.
Fiquei impressionado!
.
Depois disso, fui pro cinema, vi algum filme que não me lembro, e, voltando com um amigo, mostrei pra ele a capa. Ele leu e também achou bastante interessante a chamada.
.
Depois de muito tempo, estava eu num sebo, com dinheiro no bolso, passei por uma estante e vi a biografia novamente. Estava barata, daí pensei: “vou comprar”.
.
Comprei.
.
Ficou alguns meses aqui em casa, até que, por conselho de outro amigo, comecei a ler...
.
A trajetória descrita na capa é pequena perto de tudo que as mais de 620 páginas do livro mostram.
.
Quem não gosta de resenha descritiva, não leia a partir desse ponto porque eu começo a listar fases da vida do autor. Deixo claro que me restrinjo a simplesmente reproduzir o que está no livro.
.
.
.
.
Paulo Coelho sempre teve vontade de ser um escritor lido no mundo todo, desde pequeno. Lamentava por não conseguir isso. Escrevia diários e mais diários falando da vida, às vezes lamentando, às vezes analisando, às vezes fabulando razões diversas para os acontecimentos.
.
Era um ótimo inventor de histórias. Sabia contar mentiras de criança e fazia traquinagens diversas, algumas um pouco macabras, como: fazer corrida de pintinhos e matar aqueles que perdiam.
.
Levou choques em algumas das vezes que esteve no manicômio. Fugiu de lá, foi parar num lugar muito distante. Namorou Renata Sorrah e dividiu o palco com diversos grandes atores brasileiros, entre eles: José Wilker. Foi diretor e escritor de peças teatrais, principalmente para o público infantil. Chegou a ganhar um dinheiro com isso.
.
Levou Raul Seixas para a bebida e as drogas, segundo conta.
.
Trabalhou como executivo de grandes gravadoras brasileiras. Numa delas, a CBS, foi expulso porque subiu muito encima do tamanco e, movido possivelmente por arrogância, despediu pessoas, acabou com departamentos e foi gerando inimizades até que seu chefe simplesmente o despediu sem justificativas, como é narrado na biografia.
.
Tinha uma forte tendência a ser Bipolar, alternando fases de extrema euforia e outras de profunda tristeza e paranóias. Hoje em dia, parece que isto está mais abrandado.
.
Em algumas partes da vida, usou-se de métodos não muito éticos para conseguir o que queria. Um de seus livros não foi escrito por ele: Manual prático do Vampirismo, mas sim por Toninho Buda, outro parceiro nas explorações da magia oculta. Pagou jabá pra divulgar seu livro em rádios do Nordeste. Traia suas namoradas, sendo que algumas aceitavam isso. Mentiu sobre supostas conversas com John Lennon e outras coisas mais...
.
Fez sexo com homens, por três vezes, até se certificar de que não era gay. Foi estudante de vampirismo, satanismo, teve relações com mulheres em cemitérios. Chegou a propor para uma das namoradas que queria pegar alguns gigolos na Cinelândia para fazerem uma suruba.
.
Se coisas assim foram relatadas, fico imagino aquelas que não foram pro livro ou nem sequer pro próprio diário pessoal.
.
Aprofundou-se na O.T.O fundada por Aleister Crowley, mago inglês que influenciou bandas de rock como: os Beatles, Led Zepelling, Ozzy Osborne, além da própria fundação da Sociedade Alternativa.
.
Quando ainda pequeno, matou uma cabra para saciar o que ele entendeu ser o anjo da morte que havia sido invocado.
.
Presenciou manifestações estranhas no seu apartamento. Acordou de manhã para ir fazer caminhada na praia. De repente, começou a sentir cheiro de velas, parecido com aquele que ele sentia nas catacumbas do colégio católico que estudou, ou como aquele cheiro que sentia quando ia contar os mortos para escrever o obituário que saia nas edições dos jornais. Sentindo o cheiro muito forte, notou que o ambiente tornava-se mais escuro e esfumaçado. De repente sua namorada entra pela porta em prantos dizendo que estava se sentindo mal. Outra amiga que eles telefonaram estava também em prantos e sentindo coisas estranhas. Eles entraram em pânico. Não conseguiam sair do apartamento. Começaram a rezar e tudo foi se abrandando.
.
Depois disso, sua vida começou a mudar completamente, entrando num ciclo ainda mais intenso
.
Ele é preso pelos militares, sofre um seqüestro inexplicável. Os dados sobre esta passagem são bem confusos. Sai do Brasil, pois estava com muito medo. Acho que foi esta a vez que ele e Raul Seixas estavam para lançar o CD “Eu nasci a dez mil anos atrás”. Foram os dois e suas namoradas para Nova York. Presenciou a alegria dos americanos quando Nixon renunciou. Sendo que, depois de fazer parte da manifestação popular, entrou no quarto e viu Raul Seixas completamente acabado pela bebida e pela cocaína.
.
Neste instante, ele decide nunca mais cheirar.
.
Já era o início da transformação... Pelo menos é o que parece pelas histórias contadas...
.
Passou-se mais tempo. No entanto, ele não conseguia se desvencilhar do pânico causado pelo seqüestrou feito pelos militares.
.
Conhece sua companheira, Christina Oiticica...
.
O pânico do seqüestro é tão grande que, ela resolve tomar uma iniciativa e propõe que eles saiam do Brasil sem rumo certo e só voltem quando quiserem. Paulo leva 72.000 dólares da época e promete voltar quando acabasse o dinheiro. Viajam muito e, num campo de concentração da Alemanha, ele tem sua primeira epifania: viu um homem que não estava fisicamente lá, lembrou-se de uns dizeres de um poeta que fazia referência a uns sinosque tocavam por uma pessoa e, realmente soavam sinos naquele instante... Sentiu que algo diferente estava acontecendo ali...
.
Passados alguns dias, encontrou com aquele mesmo homem num pub. Achando que ele era uma entidade materializada, chegou com cuidado e cutucou. O homem, por incrível que pareça, falava português. Era Jean, aquele que se tornaria seu mestre num novo caminho a ser percorrido por ele para fazer parte de uma organização espiritual, a: R.A.M (Rigor, Amor e Misericórdia).
.
Ele começou a passar por provações, fez rituais em partes do mundo, inclusive um deles acontece perto das Agulhas Negras, dentro do Parque Nacional de Itatiaia, em Itamonte, Minas Gerais. Neste ritual ele quase ganha a espada de mestre da R.A.M, mas Jean o repreende, pois ele não deveria ter aceitado o presente, em sinal de humildade.
.
Depois disso, sua mulher recebe a missão de esconder a espada em algum lugar do caminho de Santiago de Compostela que tem mais de 700 quilômetros. Vendo assim, parece uma tarefa impossível, mas ele consegue guiado por um cordeiro que o leva até uma capela onde está Jean.
.
Daí as coisas vão fluindo.
.
O caminho percorrido dá inspiração para escrever o “Diário de um mago”, seu primeiro grande sucesso de vendas.
.
Depois ele recebe uma nova missão no Egito.
.
Lá ele presencia outra manifestação perto da Esfinge e das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos. Vê uma moça que, desta vez, não lhe pareceu somente uma visão, mas uma materialização. Passado um tempo escreve “O Alquimista”, seu maior sucesso, lançado em 1988 e que hoje já foi traduzido em mais de 56 línguas, vendendo mais de 65.000.000 de cópias em mais de 150 países, segundo dados da Internet. É um dos livros mais vendidos da história. Lido, segundo curiosidades contidas na biografia, por terroristas da Al Qaeda, presos de Guantânamo, chefes de estado europeu e variações destes tipos, além de, é claro, pessoas comuns.
.
Outra missão é dada e ele conhece Brida, que seria a personagem de seu terceiro livro de sucesso. Depois disso as coisas foram crescendo vertiginosamente. O fenômeno ultrapassa o Brasil e ganha muitos e muitos recantos do mundo.
.
Em Agosto de 2007, Paulo Coelho bateu a marca das 100 milhões de cópias. Tem diversos prêmios de vendagens em muitos países espalhados pelo mundo. Ganhou casa de um Sheik do Oriente Médio. Mora na França, perto do santuário de Nossa Senhora de Lourdes. É membro da Academia Brasileira de Letras e outras coisas.
.
Uma pessoa que viveu algumas passagens meio estranhas e condenáveis, mas que sempre teve coragem de ir atrás dos seus sonhos. Aliás essa é a mensagem contida no livro “O Alquimista”.
.
.
.
.
Nossa, li tão rápido o livro que achei que não iria lembrar dos detalhes. Mas é interessante como a memória, conforme a gente vai percorrendo as coisas, outras associadas vão surgindo. E a escrita é uma ótima forma de ativar esses caminhos de maneira mais pontuada.
.
Pra terminar, copiei um trecho que me fez rir muito...
.
André Midani, presidente da gravadora Philips, uma das maiores do Brasil na década de 70, resolveu formar um conselho executivo com pessoas de diversas áreas para discutirem, primeiro entre si, e depois com o artista analisado, algumas mudanças na imagem, no estilo, nas composições de cada um, com o intuito de alavancar as vendas.
.
Alguns não gostavam do que ouviam. Certa vez, Rita Lee, ao ser aconselhada sobre alguma coisa, se irritou, levantou da cadeira e disse em alto e bom som:
.
“– Enquanto vocês decidem se devo ou não usar uma peruca Black Power, vou ali no banheiro tomar um ácido.”
.
Mas, os artistas analisados desta vez eram: Raul Seixas e Paulo Coelho.
.
Numa reunião em que Raul Seixas não pode comparecer, Paulo Coelho teve de responder sobre o que era a Sociedade Alternativa, já que os analistas gostariam de concluir se aquilo era um elemento que poderia ser melhor explorado.
.
Segundo Paulo Coelho, ele não estava chapado na ocasião, mas, mesmo assim, sua resposta, gravada numa fita cassete, para ser depois ouvida por Raul Seixas, e depois transcrita na biografia, foi a seguinte:
.
.
.
“A Sociedade Alternativa atinge o nível político, o nível social, a camada social de um povo, estão me entendendo? E ela atinge, porra, a camada intelectual de um povo que está saindo de uma curtição, que está sendo mais exigente... Tanto é que houve uma discussão lá em São Paulo sobre a revista Planeta. Eu acho que a Planeta vai falir daqui a um ano porque todo mundo que lê Planeta aprende e começa a achar Planeta uma revista boba, feito faliu na França, inventaram o Le Noveau Planet, depois o Le Noveau Noveau Planet, estão me entendendo? Acabaram fechando a revista. Assim vai acontecer também com todo esse povo que atualmente curte macumba. Não, não, não! Não o proletário, hein? Mas aquilo que a gente chama de classe média. A burguesia que, de repente, resolveu se interessar, sabe, intelectualmente? É claro, existe outro aspecto da questão que é o aspecto da fé, de você ir lá e conseguir fazer uma promessa, conseguir ganhar um terreno, enfim, outras coisas. Bom, mas em termos culturais vai haver uma mudança, entende? E essa mudança vai vir de fora, do jeito que sempre veio, tão me entendendo? E ela nunca vai ser filtrada por um produto brasileiro chamado espiritualismo. Isso, agora, já discutindo num plano espiritual, porque no plano político acho que eu fui bem claro, né?”
.
Fernando Morais faz um adendo:
.
“Clareza evidentemente não fora sua principal virtude, mas o grupo de trabalho parecia habituado a personagens assim. Paulo engatou uma segunda e prosseguiu:
.
Então... Nem estou querendo defender colocações, nem nada. Então, vai haver essa filtragem. Na minha opinião, não é filtragem, mas nunca o sujeito vai deixar de curtir Satã, que é um negócio altamente fascinante: “Pó, Satã?” É um tabu como... Como a virgindade, tão me entendendo? Então, quando todo mundo começa a falar de Satã, mesmo que você tivesse medo do Demônio e detestasse ele, você efetivamente quer curtir essa, entende? Porque é agressão, agressão do Sistema contar si mesmo, agressão de repressões, entende? Aparece uma série de coisas dentro desse esquema e você passa a curtir essa... É uma onda que vai durar pouquíssimo, mas que ainda não pintou, a do Satã. Mas ela é um fenômeno. É resultado da agressão, da mesma coisa do amor livre, do tabu sexual que os hippies abriram.
.
[...] Isso que eu dei não foi um panorama de Sociedade Alternativa. Coloquei algumas coisas mas eu procurei dar um panorama de tudo aquilo que nós concebíamos, a visão geral da coisa, certo? Bom, então, agora colocando Raul Seixas nisso tudo... A Sociedade Alternativa serve a Raul Seixas, e não se deixa influenciar porque a gente conversou dois dias sobre Sociedade Alternativa, que a gente só fala em Sociedade Alternativa, entende? A Sociedade Alternativa serve pra Raul Seixas na medida em que Raul Seixas catalisa esse tipo de movimento, entende? Ela tem sido julgada por um mito. Ninguém explica o que é Sociedade Alternativa.
.
Estão me entendendo?”
.
.
.
O que é a didática, não é minha gente?!
.
Deve ser legal ouvir essa gravação!!!
.