quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Rocha!


Hoje me lembro bem, e sinto novamente, desta vez com mais preparo interno, aquela dor negativa, profunda e intensa que eu sentia quando me via fora dos meios que tanto almejei por alguns anos, numa época em que eu era um simples recém chegado na maior cidade do Brasil.

Posso dizer com convicção que tinha aspirações diferentes e mais nobres quando era mais novo, mas, muito as mudei por mudar meus referenciais pessoais, quebrando fundo tantas belezas arraigadas que eu guardava dentro de mim. Meus ideais libertários, de vida simples, de cotidiano leve, de arte desapegada, de movimentos voláteis de existência amigável, foram todos escorrendo pelo ralo do capitalismo imoral e anti-ético que foi se mostrando, para mim, como a forma mais possível de vida feliz!

Afinal, alguns sonhos têm custos!

Entornei-me, então, num ideal longínquo de vida e felicidade integrada ao cotidiano modernoso e financeiramente abundante da cidade de São Paulo. Era este o meu novo ser a ser. Tornou-se este meu novo objetivo: colocar-me neste meio de empresas, a fim de sustentar meus sonhos individuais e coletivos; fazer minha vida dentro das regras do jogo para poder saltar fora por propriedade (privada talvez – rsss).

Não foi possível!

No início desta jornada rumo ao fundo, não havia dentro deste meu peito sequer um átomo, um zero absoluto de noção do que ainda estava por vir, de onde iria eu parar para poder rever-me ainda mais e mais e mais e mais e mais uma vez mais e outras tantas, removendo os cascalhos do fundo do meu lago humano a fim de encontrar, no subsolo do subterrâneo, o sustentáculo inoxidável, a rocha derradeira que não permitiria que eu cavasse mais e, enfim, eu teria ali meu teto máximo reverso, o zênite oposto do meu céu onde poderia, finalmente, desfazer-me do exercício das mãos gastas, para o firmamento dos pés no solo:

O meu eu em re-ligação unificada, a pilastra desta minha existência de miúdos 28 anos!

E como me doía ver pessoas vivendo aquele ideal de felicidade que eu queria para mim, mas que me parecia tão impróprio e distante, e que, talvez por isso, tão perfeito. Como me doía ver pessoas despreparadas sendo levadas por uma maré que eu me sentia muito mais capaz de navegar, mas que não tive a possibilidade de mergulhar. Como me doeu sentir-me especialmente injustiçado, talvez! Injustiçado na época e, mesmo hoje, ainda custo um pouco acreditar que o caminho imposto foi o mais correto dentro das leis do amadurecimento pessoal.

No entanto, posso dizer, com orgulho, que NUNCA senti inveja destas pessoas!

Hoje, não cabe a mim, analisar dolorosamente o que passou, e muito menos alguma visão diferenciada traria algum alento a respeito de meu passado recente. Resta-me apenas uma conclusiva resignação e um silêncio pacifista!

Mas quanta água suja, deste lago bagunçado, havia e ainda há sobre mim, meu Deus!
Eu não me importo! Hoje as águas estão férteis de matéria, e algumas delas já se decantaram por não servir mais de construção. Deixo-as apoiadas no fundo que, acredito ser a profundeza que me basta. A profundidade de onde posso construir minhas renovadas convicções.

Na verdade, nesta decaída agonizante, acredito que muitas delas nunca deixaram de existir, elas apenas estavam esquecidas e sem tempo de se mostrar. As águas mais claras deste lago, cuja fonte sou eu, talvez tenham deixado transparecer alguns ideais esquecidos, sonhos adormecidos, amigos escondidos, laços a serem alimentados, viagens a lugares preferidos, sentimentos almejados, coisas de todo tipo que me provocam um suspiro profundo e gostoso de se dar nesta hora de conclusão de texto!

Gosto muito de tudo isso!

Ainda não posso deixar de dizer que hoje me sinto mais preparado! Não preparado para tudo, mas preparado para tudo aquilo a que eu me propor estar preparado, e isso me traz mais segurança. Acredito que eu ainda aparente despreparos aqui e acolá, mas eu não me importo!

Eu sei que não estou mais fora da curva da vida e isso me faz bem! Aliás, não estou NADA fora da curva natural da vida! Eu sei disso! E isso não é, em nada, pouca coisa!

Agora, devo continuar, sabendo e cultivando os meus mínimos necessários, a fim de alcançar mais novidades reais, e efetuar o exercício da vida que nunca caberá em palavras. Afinal, sabemos, como nossos pais, que: “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.

Nunca seria possível escrever tudo o que se aprende, pois, qualquer tentativa de registro da sabedoria conquistada, já nasce fracassada!

Mas toda tentativa de escrita sincera vale o erro ao qual ela se lança!!!




Esperteza

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Esperteza é saber pensar um pouco além da média das cabeças pertinentes àquela atitude. Nem muito a mais, a ponto de tornar insustentável a ação em questão, nem a menos, a ponto de vir a realizar um ato medíocre.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pronto! (Resenha sobre as resenhas)


Deu trabalho, mas, enfim, consegui acabar as resenhas das coisas que fui ver!

As resenhas, que é o tipo de texto que ultimamente mais escrevo aqui no blog, contam de coisas de arte que fui ver, mas não sobre tudo o que vejo!

Ou seja, se vejo alguma coisa na TV, na internet, não comento aqui! Só comento aquilo que eu tive que sair de casa para ver: cinema, teatro, livros e coisas do tipo! Na grande maioria, falo sobre cinema e livros, principalmente.

Eram 12 os comentários que faltavam serem feitos. Somando a isto a resenha do filme “O palhaço” que fui ver no domingo dia 30 de outubro, tem-se um total de 13 textos comentando coisas diversas.

Agora está pronto!

Mas mais uns dias, e novas obras serão vistas e comentadas aqui.

E blog, aos poucos, se aproxima de sua MILÉSIMA postagem!!!

Melancolia – Lars Von Trier



Um filme sobre o fim do mundo contado de uma maneira intimista!

O que se conta, não é o retrato de catástrofes coletivas, o presidente dos Estados Unidos pilotando um avião para combater uma nave que será destruída por um bêbado, vide Armagedom. Nada disso! O filme Melancolia mostra o fim da Terra na visão de duas mulheres e uma criança, isolados no campo.


A introdução do filme é o prelúdio de Tristão de Isolda de Richard Wagner. As cenas em câmera lenta formam um grande balé de imagens! E a trilha é um absurdo de linda e intensa! Foi está música que está neste post: http://viajantesdoinfinito.blogspot.com/2011/10/preludio-tristao-e-isolda-richard.html

Logo depois desta viagem sonora e imagética pelo todo da película, se iniciam as cenas de um casamento onde tudo parece bem, até que as coisas vão se desmontando pela tristeza de uma das personagens: a noiva!

A segunda parte mostra mais as características da irmã da noiva, e o enredo vai aproximando as duas, vindo a tona suas maneiras de encarar o fim do mundo!

Todos os personagens estão bem em seus papéis! O filme incomoda pela verdade mostrada em cena! As atuações não soam exageradas, não são atuadas! Tudo parece milimetricamente real! A câmera na mão nos passa a impressão de sermos fantasmas presenciando aquilo tudo e as esquisitices gradativas vão tomando vagarosamente o espaço!

Lars Von Trier mostra um domínio sobre sua arte que é impressionante! É conhecido por ser carrasco com os atores e também por suas infelizes declarações, um pouco fascistas / nazistas!



Mas sua arte é sublime!

Alguns elementos fazem referência a elementos citados pelas teorias apocalípticas, como o planeta Nibiru que estaria interferindo na Terra, coisas sobre inversão dos pólos. Há também elementos espíritas, como os cavalos que sentem a energia de um determinado lugar, a possível mediunidade de um dos personagens. O lance do sofrimento versus resignação, presente nas duas personagens principais, bem como teorias físicas de mudanças gravitacionais, rarefação da atmosfera, atração eletromagnética entre corpos estelares.


Fiquei satisfatoriamente atordoado com a obra! Gostei tanto que quaaaase voltei nos cinemas pra assistir de novo!

É um filme muuuito bem feito!!!


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Morro Dos Ventos Uivantes - Emily Brontë


Um livro beeeem pesado!

Não consegui terminar logo de primeira! Acabei colocando outros no meio da leitura!

Os conflitos são constantes, as brigas, a estupidez, a loucura, o clima tenso, a maldade, o rancor, a vingança, a perversidade!

A tradução é de Raquel de Queiroz e o livro é muito bem escrito!

O título original é Wuthering Heights e foi lançado na Inglaterra em 1847.

É uma mistura de famílias, o pai de um com a mãe do outro, com a esposa do fulano e assim por diante!



Sua autora, apesar da dita pouca experiência de vida, pois vivia reclusa com suas irmãs e morreu jovem, compôs um livro de trama bastante madura, personagens esféricos, de bem e mal, muito bem caracterizados, com atitudes coerentes com sua personalidade!

Muito bom!



O Guarani – Carlos Gomes


No Teatro São Pedro, aqui perto de casa, na quarta-feira, dia 26 de Outubro, fui ver a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, baseada na obra de José de Alencar.

Esta foi a primeira ópera que vi na vida! Pude então, enfim, entender, qual é a proposta de uma ópera!

Achei fantástica a união de atuação, música, orquestra, vozes, atores, cenários, enredo, conflitos, tudo junto no palco!

Ela se divide em 4 atos que totalizam por volta de três horas de espetáculo.

Sua estréia ocorreu no teatro “Alla Scala”, na cidade de Milão, em 19 de março de 1870, alcançando grande sucesso. À partir daí, ganhou novas e novas montagens em diversos lugares do mundo, tornando-se a obra mais famosa de Carlos Gomes. O libreto é de Antonio Scalvini e Carlo d’Ormeville.

As músicas são belíssimas! Cantadas em italiano, sim, mas, o tempo inteiro correu uma legenda projetada num quadro logo acima do palco do teatro. Deu pra entender tudo!

Os cantores estavam muito bem caracterizados nos personagens! Tenores, baixos, barítonos e a soprano principal, Edna D'Oliveira que fazia Cecília, o amor de Peri! 



Como o cacique da tribo indígena, o baixo-barítono Licio Bruno deu um show a parte!

A estória todo mundo já conhece! É uma trama de acontecimentos paralelos. Não há somente uma linha condutora e os conflitos chegam de diversos lados!

A única coisa que não gostei, foi que os índios eram tratados excessivamente como vilões, na minha opinião! Quando na verdade, a revolta da tribo, se devia à morte acidental de uma índia Aimoré por um português.

Além deste ponto, outro que poderia ter sido melhorado, foi a roupa usada pelo personagem principal. O tenor que fez o Peri estava com uma roupa muito feia, transparente! Ele era meio gordo e o personagem é um índio forte e heróico. Isso não combinou muito, mas sua voz deu um show a parte!

No entanto, isso não impediu de ser magnífico!

Batemos palma diversas vezes ao final de cada cena! E, no fim, o teatro lotado, ficou totalmente de pé e aplaudiu por mais de cinco minutos! Foi demais!

Que força pode conseguir uma ópera quando bem montada!

O maestro Roberto Duarte, diretor musical e regente, ganhou diversos prêmios com seu trabalho de restauração desta ópera que, por diversas vezes, foi recortada, editada e modificada.


O cenário era simples, com pinturas em preto e branco, modernas, que ganhavam tonalidades diferentes conforme se projetavam luzes sobre os tecidos!

Pelo que o li no livro de apresentação, só havia feras da cena lírica brasileira!

Não acredito que esta montagem ficou apenas cinco dias em cartaz! Quase não consegui ingresso!

Mas acredito que, pelo gabarito dos envolvidos, talvez esta passagem pelo Teatro São Pedro foi uma etapa que antecede a ida deste mesmo espetáculo para outro local maior. Talvez o Teatro Municipal de São Paulo.

Foi marcante!!!




Centésima Resenha - O Palhaço - Selton Mello


Estava com bastante expectativa com relação ao filme “O Palhaço”, onde Selton Mello faz o personagem principal: Benjamin, o palhaço Pangaré. Além de ator, ele foi o diretor e também o roteirista em parceria com Marcelo Vindicatto.

Achei interessante um filme que se propunha a retratar o Brasil do interior, dos artistas que rodam por estradas de terra, levando de cidade em cidade a magia do circo. Mas confesso que não gostei muito do resultado!

Mas antes vou falar dos lados positivos!

A trilha sonora estava primorosa com peças que iam do humor ao drama, como pediam as cenas da película!

Os figurinos eram muito bem feitos e lindíssimos, mesmo simples!

Os atores convidados, que fizeram participações especial, e não faziam parte da trupe do Circo Esperança, também foram um show a parte:

Moacir Franco como o juiz ranzinza que amava seu gato, acima de sua própria mulher.

Ferrugem como o funcionário público brincalhão.

Tonico Pereira como os irmãos que moravam numa oficina isolada do mundo, no interior de Minas Gerais, provavelmente.

Fabiana Karla como a possível prostituta que se encanta com os desvarios do personagem principal.

Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, que faz um piadista vaidoso.

Entre outros!

Mas com todos estes pontos positivos, o que não me agradou na película está justamente no seu centro: o conflito interno do palhaço que não se vê em sua profissão, não possui CPF, nem comprovante de residência! Tem apenas uma certidão de nascimento velha.

Talvez haja algo de autobiográfico neste filme! Selton Mello, como declarou na capa da revista Bravo!, se não me engano, passou por um período de crise e depressão, declarando que tomou mais cuidado com seus personagens que com ele mesmo!

Mas mesmo com este forte apelo, me parece que a película flui de maneira meio solta demais! Algumas cenas ficam meio jogadas: como a briga que acontece no bar, ou a revolta da trupe contra uma mulher que os roubava!

Alguns personagens não estão tão bem em seus papéis!

O próprio personagem principal poderia ter sido mais explorado! Entendo que o silêncio diz muito, mas o excesso de silêncio deixou-o vazio. Como ele pensava sua literal e pessoal falta de identidade? Como ele via sua vida? O que ele queria modificar, refazer, conquistar, além do que já tinha? Um ventilador, como mostra o filme? Um CPF? Uma namorada? Será que seu conflito poderia ser realmente sanado, simplesmente vendo um homem contando piadas numa mesa de jantar? Isso é suficiente para fazer ele enxergar a beleza de fazer os outros rirem?

Monta-se um belo contexto, mas o núcleo não deslancha como seria de se esperar!

Além disso, você se propor a colocar um palhaço em cena, mostrar seu trabalho, o compromisso de ser engraçado é presente, mas isso não aconteceu realmente. O número do circo, apesar de bem montado, não me fez rir realmente! Não me tocou e acho que à platéia também não!

Há algumas propostas bonitas, como colocar uma criança honesta no lugar da trambiqueira mulher que bailava e era tida como corajosa! Ou mostrar as fraquezas do homem mais forte do mundo e outras, mas as coisas estavam meio desamarradas!

É isso! Espero não estar sendo injusto! A Veja SP até colocou o filme entre os melhores em cartaz, mas eu, pessoalmente, não gostei tanto assim!

Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicatto
Produçao: Vânia Catani
Dir. de Fotografia: Adrian Teijido
Dir. de Arte: Claudio Amaral Peixoto
Edição: Marília Moraes e Selton Mello
Trilha Sonora: Plínio Profeta
Som Direto: George Saldanha
Figurino: Kika Lopes
Maquiagem: Marlene Moura e Rubens Liborio
Co-Produção: Telecine, Locall, Imagem Filmes
Patrocínio: Prefeitura Municipal de Paulínia, Fundo Setorial Audiovisual, MRS Logística, EMS, Toyota, AMBEV, Oi, Adidas, Santander, Cemig e Governo de Minas
Apoio Cultural: Azul Linhas Aéreas, Delphi e Oi Futuro


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Post 945 - Ouvindo “Vicro e corte – Milton Nascimento”

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Tratado poético generalista

Em 10 partes

Em 10 páginas
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I
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Eu gostaria de caber-me
Em poucas palavras
Eu gostaria de ter
Sempre
A mais sublime inspiração
Em todos os momentos
Em todas as vivências
Em todos os percalços
Que a vida me apresentasse
A saída mais bela
O acorde mais confiável
Que me trouxesse
O máximo de expressão
O caminho mais amável
Aos olhos e ouvidos
De quem me detém
.
Se tantos fazem
Qual seria o máximo do fazer
Quando tantas pluralidades
Desfazem a presente arte?
.
Qual seria o caminho que
Contemporâneo ainda tocante
Poderia desbravar o peito
Do homem instável errante
Tão saturado de tentativas de vida?
.
Qual seria o caminho que
Ainda tocante
Iluminaria novamente o novo
E o traria limpo de tamanho estado
Tão descrente de si?
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Seria a melodia?
.
Seria a letra mais precisa?
.
Seria o encontro mais reverberante?
.
Mas
Qual
O
Encontro
Mais
Reverberante
No
Surdo
E
Cego
Coração
Do
Hoje?
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Corações e mentes
Tão mentidas para si
Tão mentidas em si
Tão metidas no em si
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Tão sem si!
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II
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Qual a diferença
Do caminho poético
Quando registrado
Em papel virtual?
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Qual a descrença
Do vocábulo estético
Quando resignado
No folhetim real?
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Qual é a vantagem
De escrever ligeiro
Num meio intangível
Por tantos acessado?
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Qual é a coragem
Do dizer fuleiro
Se num meio invisível
Definha-se minguado?
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III
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Qual a sensibilidade
Que invoca
A cada palavra
Um novo ciclo
De conseguinte informação?
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De onde vem
A palavra inédita
In-é-dita desdita
Que faz o escrever
Seguir seu quinhão?
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Onde está o misterioso
Anterior poético prostrado
Que perpetua e se renova
A cada vocábulo colocado?
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Onde está a novidade convicta
Das coisas vitais
Que fluem nos sons
Em proto-palavras reais?
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O som é o anterior vocabular!
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O som é a matriz do dizer!
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A música é o pressuposto do verbo!
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A música é a literatura em potencial!
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IV
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Seria a música instrumental
O não verbal
O ulterior irracional
Ainda mais envolvente
Que o som organizado
No contorno
Da convenção lingüística?
.
Não sei!
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Mas tudo é alimento
Àquele que escreve
Basta ter vocabulário
E permissão receptiva
Dentro de si
Para expressar aquilo que passa
Que registra com força
Nas linhas da alma viva
.
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V
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O que fazer quando tudo já foi feito?
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O que dizer depois que tudo já foi dito?
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Ainda vale a pena?
.
Ainda vale a pena
Arriscar teus poemas ao vento?
Lançá-los aos ares sem medo?
Sem preservá-los
Dentro do círculo permissivo
Do poeta seu dono convulsivo?
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Como filhos desgarrados
Indefesos e jogados
Na corrente tirânica
Da modernidade descrente?
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Ainda vale a pena tentar?
.
Ainda vale a pena dizer?
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Dizer a ninguém?
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Dizer quando nenhum será seu ouvinte?
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Dizer pelos poros
Dizer pelos olhos
Dizer pelos gestos
Dizer pelos jeitos
Dizer pelo não dito
Dizer pelo perigo
Dizer pela mudez
Dizer pela intolerância
Dizer pela inconstância
Dizer pelos versos
Dizer pelas prosas
Dizer pelos sons
Treze vezes dizer!
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VI
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Será que devo?
Ou melhor
Será que posso
Não assim ser?
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Será que posso não dizer?
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Será que posso me calar
E sublimar meus ruídos?
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Será que posso
Engolir minhas expressões
Já que elas
Não são relevantes?
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Ou simplesmente
Já foram ditas?
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Será que devo
Resignar-me em ser
Simplesmente
Uma repetição?
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Será que devo
Obscurecer o redito?
E tentar sem sentido
Procurar o inédito?
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Mas o que já não foi dito?
O que nunca foi inédito?
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O que nem sequer
Chegou a ser inédito
Pois nunca foi realmente
Pensado ou dito?
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VII
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Depois de tantos séculos
De poesias que se esmera
Depois de milênios póstumos
Às Ilíadas de cada era
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Valeria à pena abrir a boca
Deitar os dedos sobre o teclado
Rascunhar traços convencionais
Sobre o papel imaculado?
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Poderia haver alguma forma intermediária
Entre os poemas e as pinturas
Que não fosse simplesmente
A reunião pífia de miniaturas?
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Não uma poesia pintada
Ou uma pintura poética
Mas um traçado novo
De conteúdo e estética?
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VIII
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Inédito
Indito
Neolístico
Neuplástico
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Concrético
Infinito
Neologístico
Bioelástico
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Profético
Incontido
Proto-sístico
Fantástico
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Amplexo
Fundido
Artístico
Sarcástico
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IX
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Há?
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Há de haver
Enquanto houver?
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Haveria senilidade
E por anos e anos
Ainda esta novidade?
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Haveria a possibilidade
De um aglomerado mutante
Que transcendesse a fusão
Trazendo um novo semblante?
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Haveria o encaixe de propostas
Em diferentes formas inventivas
Que geraria um formato suplente
Exaurido do corpo físico presente
Em concretas catarses coletivas?
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Haveria enquanto fluida inovação
E ainda sim, seria além da aglomeração:
Seria mais que um insuficiente resto
Não a fusão simplista da forma
Mas uma nova proposta de gesto
Do povo guiando em si a re-forma?
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X
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Seria isto possível
Enquanto vital prosseguimento
Da arte?
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Infelizmente acho que não!
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Intersecções artísticas
Tentativas de superação
Sem efeito relevante!
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Isto é tudo!
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Nada a mais, ao menos
Nem nada menos!
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Nenhum artista contemporâneo
Será mais plenamente realizado!
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Mas o gosto pelo contemporâneo
Há que se manter preservado:
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Sempre!
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