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Homemúsica
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"Antes de tudo, a música... E todo o resto é literatura"
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ARTE POÉTICA
(Paul-Marie Verlaine)
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(Tradução de Augusto de Campos)
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Antes de tudo, a música preza
portanto, o ímpar. Só cabe usar
o que é mais vago e solúvel no ar
sem nada em si que pousa ou que pesa.
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Escolher palavras é preciso,
mas com certo desdém pela pinça;
nada melhor do que a canção cinza
onde o indeciso se une ao preciso.
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uns belos olhos atrás do véu,
o lusco-fusco no meio-dia
a turba azul de estrelas que estria
o outono agônico pelo céu!
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pois a nuance é que leva a palma,
nada de cor, somente a nuance!
nuance, só, que nos afiance
o sonho ao sonho e a flauta na alma!
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foge do chiste, a farpa mesquinha,
frase de espírito, riso alvar,
que olhe do azul faz lacrimejar,
alho plebeu de baixa cozinha!
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a eloquência? torce-lhe o pescoço!
e convém empregar de uma vez
a rima com certa sensatez
ou vamos todos parar no fosso!
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quem nos dirá dos males da rima!
que surdo absurdo ou que negro louco
forjou em jóia este toco oco
que soa falso e vil sob a lima?
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música ainda e eternamente!
que teu verso seja o vôo alto
que se desprende da alma no salto
para outros céus e para outra mente.
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que teu verso seja a aventura
esparsa ao árdego ar da manhã
que enche de aroma ótimo e a hortelã...
e todo o resto é literatura.
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Depois de ver o espetáculo, quis escrever...
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A tentativa de recapturar um ritmo perdido
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To cansado de falar desses temas, mas fazer o que se são esses os que mais passam na minha cabeça.
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I
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Qual seria o tema que mais me ins-piraria
Enlouqueceria-me dentro
Doido de vontade de descrever
As nuances infinitas de tudo?
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Há tempos não passo do médio...
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Qual objeto passível de entendimento
Desentendimento ou mitologia
Me faria gostar do verbo
E EXECUTAR o verbo
Como já cheguei a fazer
Por tantas outras vezes?
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Qualquer geometria
Temática ou táctil
Possui angulações lógicas
Incontáveis
E deliciosamente misteriosas
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Qualquer algo existente
Pode ser desmembrado
Em múltiplas palavras
Calabouços da mente
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Tudo pode gerar inspiração
E
Se tudo gera
Por que não gera mais?
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Qualquer objeto é mais intrincado
Na utilização humana
Que em sua própria
E sombria
Substância
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É necessário tornar as coisas interessantes
Além do que se aprisiona de cara
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E
Não é necessário ter o céu e a terra
Como margens
Para se vislumbrar
Os tantos muitos
E desconhecidos mistérios
Que a vã filosofia julga cogitar
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Bastam-me duas orelhas
Basta a qualquer um
Para estabelecer as fronteiras
De um mundo encharcado de cogitações
Filosofias, mistérios, coisas vãs e vis
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II
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Toda filosofia é vã
Mas ainda sim filosofia
Condição intrínseca à alma
Que pensa
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E toda alma pensa
Portanto
Toda alma filosofa
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Filosofia
Pouco importa o nível
Vale a execução
E só
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Pois quem saberia dizer
Com propriedade
Ser mais belo
O mundo de Nietzsche (Nietristche)
(Três pratos de trigo para três Nietzsches tristes)
Que o de qualquer um de nós?
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A filosofia é vã
Claro!
Ninguém precisa dela pra sobreviver
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É mais ou menos por isso
Que já disseram ser
Todo pensamento ilógico por princípio
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Mas quem disse que estamos aqui
Só pra fazer o necessário?
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Fazemos também o desnecessário necessário
Nunca somente o vital
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Pois quem disse que estamos aqui
Só pra viver?
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O simples é fim e começo de ciclo
O início é o esboço do fim
Mas deixemo-nos ir e bater cabeça
Depois voltaremos mais apaziguados
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E é nesse ir e voltar
Que acontecem as maravilhas
Que entretêm o criador
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As estruturas físicas
A lógica natural
São barreira e alimento
Para o pensamento humano
Que também não se basta aí
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Elas possuem sua lógica
Seu mundo
Seu diverso
Sua diversão
E criam o sustento
O fomento
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Fomente sua mente
A fome da mente
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Dê fome pra ela
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O inanimado é minimalista
Mas tudo é infinito se assim formos capazes de o fazer
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III
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A criação de Deus
Seria menos infinita não fosse o homem
Menos criativa
Menos bela
Menos profunda
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O homem dá beleza a Deus
(e vice-versa)
Cria novidades impensadas pelo criador
Aprofunda aquilo que
Apesar de dito tudo
Ainda nunca será tudo
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A liberdade é criadora
Ainda que enganosa
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O livre-arbítrio
É a forma que Deus
Encontrou pra se divertir
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Saber de tudo deve ser muito chato
Cansativo
Então criou-se seres que se crêem independentes
Criou-se o mal para dar colorido aos fatos
Tempero ao tempo
E o livre-arbítrio
Para enganar os homens por mais tempo
Com a falsa idéia de liberdade
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Prever a eternidade sem margem de erro
Traçar planos
E depois não se preocupar com a sua execução
Deve ser monótono por demais
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Se saber de tudo é chato demais
Criar a possibilidade
De perder irreversivelmente o controle
Também não seria do feitio de Deus
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O livre-arbítrio não é liberdade
Aquilo de poder escolher tudo
É uma enganação
Simplesmente porque
Há regras que não se quebram
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Toda alma tem uma missão
E missão é prisão
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Toda alma carrega ignorâncias
E ignorância É PRISÃO
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Deixemos de lado a ilusão da liberdade
Estamos aqui a serviço
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Todos estamos aqui a serviço
Não estamos a passeio
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Você não pode fugir da existência
Mas você pode fazer ela mais agradável
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Isso é livre-arbítrio
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Livre-arbítrio é poder se decidir
Entre caminhos pré-estabelecidos
Mas nunca será
A criação de uma própria alternativa infinita
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IV
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Deus se diverte compenetradamente com os homens
Leva a sério essa grande guerra de brincadeira
Que ele já venceu desde sempre
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Mas se sem dificuldade não há interesse
Como se divertir sem esforço?
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A diversão está no inusitado
De um processo com um fim determinado
E irretocável
Afinal Deus não criaria sua própria derrota
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A diversão está no entre
A travessiaEstá em ver brotar a arte
A ciência
A sabedoria
De nós pequeninos
Peregrinos
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A diversão está em esperar ansiosamente
Que algum cientista descubra
A cura para um mal
Milimetricamente criado pela engrenagem
Na instantaneidade do sem tempo
E que,
Se veio,
Fundamento tem
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Deus observa os homens
Na esperança de caçar novidades
Como um telespectador
E assim acabar um pouco
Com seu tédio maniqueísta
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Ele gosta bastante da gente
A gente o faz dar boas risadas
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Nós somos encantadores
Miniaturas perdidas e ignorantes
Dignas de dó
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Mas somos capazes de surpreender
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A beleza está em ver brotar
Das mentes, cérebros, corações
Almas e espíritos
O novo
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Por vezes aquilo que Deus nunca pensou
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Quem diria o contrário?
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Se se diz isso, assim posso
Pois quando criando sem penúria
As regras se estipulam
Na mínima lógica despretensiosa
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Se o poema leva alguma inquietude
Inquietude nenhuma faz mal
O que faz mal é lamentar a adrenalina
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Adrenalina que jorra é gozo
Adrenalina contida são dores
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Eu tenho dores dentro de mim
E a arte é meu analgésico
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O amor também
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V
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E eu nisso tudo?
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Eu cogito mentiras na busca de uma realidade maior!!!
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E continuo afirmando que seremos um
Afinal,
Como acabar com as injustiças
Senão oferecendo um prêmio único a todos?
E como acabar com a profunda solidão
Senão permitindo a integração absoluta com tudo?
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VI
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Por que aquele que cria é mal visto no mundo de hoje?
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Seria mais respeitável
A disciplina
E
O talento
Do executivo
Que o do artista?
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É uma pena que todos nós tenhamos feito chegar neste ponto!!!
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p.s: Não deu muito bem pra reconquistar o ritmo!!!
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p.s 2: tenho críticas sobre o Homemúsica. Me pareceu um rearranjo mal feito de textos já existentes que estavam guardados na gaveta.
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p.s 3: as músicas do espetáculo, em geral, eram muito parecidas. É sempre a mesma levadinha na guitarra e a verborragia característica do autor, diretor e ator que, no fundo, é somente um bom poeta inquieto: Michel Melamed .
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