O dinheiro
te dá uma liberdade rasa.
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O conhecimento
te dá uma prisão profunda.
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A noite cai junto com a chuva. As gotas despencam transparentes do céu negro. A essa altura as gotas já estão limpas e o céu mais leve. Tudo está mais leve num início de madrugada chuvosa. Sinto-me assim, desse jeito. Não despenco como gotas, mas pairo esguio por sobre infinitos edifícios minúsculos. Leve. Não há músculo, apenas vontade. Basta querer para flutuar? Acho que não. Os astros não me permitem livre-arbítrio pleno. Não permitem a nenhum de nós. Estamos sob suas órbitas mesmo quando restauramos nossos impactos. Impacto estelar. Construção. Concisão. Não. Concisão não me basta. Quero palavras muitas, todas as possibilidades. Frases de longo alcance. Infinitas deveriam ser as idéias, e assim são. Mas apenas algumas perduram, por alimentadas por muitos. A maioria delas são pequenas complexadas de si. Diminutas. Não que a harmonia não se enriqueça com elas, mas é que elas não são as mais belas. As de sétima aumentada são mais simpáticas. Diminutas são tortas, moribundas. Ficam alegrando seus criadores, mas não são dignas de além-ser. Por isso morrem. Deixam saudade ao que sonhou. Deixam vontade, mais que saudade. Saudade da possibilidade, saudade de sentir efetuando. Gerúndios são preguiçosos. Andando, sendo sentidos pelos N’s. Esses são nasais. Demoram. Irritam. Vibram na cabeça. Entorpecem. Nuvens são gerúndios. Demoram. Entorpecem. São das alturas. E o céu, nesse início de madrugada chuvosa, está repleto delas. Algumas meio avermelhadas, outras de não existir. Passam sem passar. Pelo menos meus olhos não sabem dos seus movimentos. Dormem sobre a cidade dormente. Descansam a vista. Olhar de longe alivia, olhar de perto inibe. O horizonte é condição de paz, nem que seja o horizonte de si, o horizonte intrínseco. Supérfluo diriam alguns, mas eu não digo. Sei do horizonte intrínseco, mas por vezes não posso deflorá-lo. Me resumo ao entorno, ao concêntrico, ao próprio. Despróprio está o próprio somente de si, ou de si num somente. Meu raio de segurança são alguns quilômetros. Qualquer coisa menos que isso me arredia. Sinto presença, faço que não. Teimo que sim, mas sei que não. Aposto que sim, mas peco no não. Pouco pão por muitos anos. Muito menos de mim que agora. Agora flutuo na madrugada leve de chuva transparente. Cai chuva. Pode cair. Não te custará nada, apenas a mudança de condição. De gota a esgoto, não levará mais que alguns instantes. Daí podes ir. Já realizaste tua condição, e agora metamorfoseia-se em outrem que ainda tu. Ainda que outro ainda eu. Ainda que longe, ainda meu. Ainda que próximo, longe demais. Meu raio de segurança máxima é meu coração. Meus olhos para ser mais direto. Chego direto ao coração pelos olhos. Não é tão longo o caminho. Mas sim penoso. Recordação da novidade. Tinha me esquecido do como é a novidade. Novidade era o velho com roupagem inacessível. Limpa teus olhos para verem mais. Limpa tua mente para ver de fato. Limpa teus fatos para estabelecer em si o que resta. O que resto, é resto. O que resta é somente teu e por isso não deves carregar por mais de alguns anos ou por mais de que apenas simples condições criadas pela razão. Extinguindo a razão, destitua-se de si. Melhor, faça isso antes. Preserve a razão, mas não os teus desfatos. Medíocre é a chuva que não cai, medíocre é o homem que não vai. Vaidade, va-idade, ano e mais ano nela. Assim vaidade, o fato apenas de si. Não há vaidade que resista a realidade, ou melhor, não há vaidade na realidade. Realidade é condição minimalista. Recolha-te ao que exato de ti. Está é a condição da realidade. Recolhimento exato. Abra-te se queres, permeia-te de realizações e tua realidade será menos ingrata. Caminha pelo espaço quando este houver, caso contrário, abra-te como puderes. Deixe estar não o deixará expandir. Ou se isso acontecer, corres o risco da vaidade. Vaidade é risco ou pintura renascentista? Vaidade é moldura, isso sim. Acredito em Deus, mas amarro meu burro. Não haveremos de subestimar nossas carências, não é verdade?! Escrevo porque assim expando. Não quero deter todos, nem a mim mesmo. Quero uns pseudópodes ligeiros e outros tantos elaborados. São como conjecturas. Não desfazem, nem que sim. Prefere-se a ignorância da multiplicação mesmo quando a unidade não se firma. De que adianta unidade se nela sou apenas eu?! Eu por mim sou apenas mais um. Por mim não faço nem desfaço. Por multiplicidade sim, por mim, não. Gosto do pedaço sem forma absoluta. Gosto de tentar, refazer, não gostar. Gosto de não gostar. Assim é nesse início, já terminado, de madrugada fina. Logo acima da madrugada está um sol de sempre. Logo mais estará o de sempre, ainda mais, mas a madrugada está como si. Madrugada de Vênus. Umas estrelas não são possíveis. Nem mesmo Vênus saberei onde está. Por sob esta chuva de silêncio entre os céus perfurados por aqueles que dizem apenas arranhar, estarei eu até o fim defendendo o que não se explica. Falando no limiar do ridículo, no paradoxo das possibilidades, a tenuidade do que é para ficar incompreendido. Assim é a mira que a cada palavra está contida. Não há verdade, não há existência sem que eu a faça. Cada uma das palavras é inédita como um filho caçula. Ainda que novamente, é o novo. Filho de vinte, mas ainda sim o mais inédito caçula. A madrugada se estende e eu não me confesso. A madrugada se deita por sobre minhas sobrancelhas numa pesada condição. Pois então assim me vou!!! Boa noite!!!