segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Migrações Urbanas 2017 (Ode aos meus Passos)

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I
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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Se muitos me permeiam
Ou se vários me abandonam?
Se múltiplos me habitam
Ou se diversos me maltratam?
Se vastos me arejam
Ou se dispersos me erram?
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Se olhos me enfeitam
Ou se semblantes me afogam?
Se compassos me elevam
Ou se pensamentos me soterram?
Se verdades me chamam
Ou se mentiras me proclamam?
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II
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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No círculo dos dias vindouros
O divino e o humano se digladiam
Fraturando minha imaginação futura
Daquilo que ainda pode vir a me fazer:
“Pequeno Vácuo Vicioso” ou “Macro Solidez Polida”,
Ambos podem se me domar em vida!
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Poeta escasso de lavradura silábica
Faço eu meus errôneos desversos fracos
Pensando mendigar a misericórdia
Das inúmeras grandezas inspiradoras
Que se esvaíram esquecidas de mim
Em dias de alcoólicas migrações urbanas, sem fim!
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III
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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Sujo agora meus olhos de grafite e esquecimento
Daqueles momentos de desvairados unguentos
Que me solaparam no véu da realidade
Por tantos e tantos meses à vontade
Em que, pastoreando quimeras,
Eu caminhei sem destino entre feras
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Entre feras do sem destino em mim
Eu testei os limites do não e do sim
Perguntando-me aquilo que não sabia
Pensando assim que ainda mais adiante iria
Se pudesse responder ao enigma inexato
Que em resposta não me demonstrou formato
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IV
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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Mas não me importo agora com o sórdido vazio
Que destes tempos restaram em meu ser arredio
  Se a poesia vinga em verve caminhante
Posso eu sentir-me novo, vivo e pensante
Para que outros ares melhores me alimentem
E pernas fortes ainda mais me sustentem
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Tão lindos são os caminhos que ainda me existem
E sem pressa, nem sofrimento dormitando insistem
Feito possibilidades que dormem ao relento
Esperando-me felizes por trazerem alento
Ao desejo que me move a desbravar recantos
Emoldurar muralhas e aquietar quebrantos
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V
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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Era mínimo o caminho inconcluso
Que tantas vezes percorri em desuso
Tateando com os pés o que não chegava
Mas que somente enquanto passo bastava
Para que eu preferisse prosseguir adiante
Errando errado errático erradiço errante
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Adiante e sempre mais à frente do nada
Eu me destrinchei numa trilha sem estrada
Entre possibilidades de uma metrópole anônima
Que me encantou numa invisibilidade sinônima
Proporcionando-me a comunal sensação
De ser inteiro, sem culpa e sem perdão
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VI
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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Ser inteiro, sem meio termo e sem senão
Era este o meu auto-repetitivo sermão
Que, como um mantra, habitou-me dentro
Trazendo vasta delícia e vil tormento
Neste tanto tempo que alimentei
Pulsando dentro-fora no que me deleitei
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Portal de centelhas de experimentações
Foi assim, serafim silvestre de ser sertões
Que progredi sem margem prisioneira
Desfazendo miragens de uma ilusão primeira
Espantando o medo que me domava a consciência
E expandindo, à força, minha real circunferência
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VII
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Nem me sei mais quem tantos somos!
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Definitivamente não falo agora do que doeu
Mas sim daquilo que na dança renasceu
E feito fome de escarrar atmosfera
Fez-se arado novo que me sobrepusera
Em renovada chama do explorador esquecido
Que em seu umbigo castrado morrera morrido
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Morrera morrido, mas reviveu valente
Feito gesto gestante de gerir mais gente
Que brotou andarilho infinito das montanhas
Habitadas de seres e selvas de pedras tamanhas
Que alguns chamam de Pauliceia Desvairada
Mas prefiro sentir somente como minha sutil morada
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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Ciclo Catártico

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Eu ia deletar este texto abaixo, mas achei melhor colocá-lo aqui para marcar novamente um pedaço de um período que passei este ano.

É certo que acabei escrevendo-o antes de haver uma reversão real de todo o processo. Também é certo que o pior ainda estava por vir e que Julho não foi absolutamente nada se comparado com Agosto, mas, mesmo assim, não vou me desfazer dele.
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O texto anterior e este se conectam, cobrindo, em linhas gerais, o que perdurou por dois meses (11/07 a 11/09) neste intenso 2017. 
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Já o reli algumas vezes e, na última passada, achei que estava muito mal escrito. No entanto, na leitura que acabei de fazer, tive a impressão de que não é um texto para realmente se descartar.
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Então mantive-o e estou publicando.
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Ele foi escrito em 16 de Agosto de 2017.
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Há quanto tempo eu venho sentindo isso? Não saberia dizer, mas, este isso está, definitivamente, entre as coisas mais difíceis de serem superadas que já se me ocorreram dentro de meu universo pessoal.
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Com o passar dos anos, este blog tornou-se bem menos autobiográfico do que foi em seus primórdios. Optei um pouco por essa linha pois, parecia-me que, o fato de produzir a arte que por aqui se encontra, já era forte o suficiente para me alimentar a ponto de esquecer os fantasmas internos que se encontravam dentro de mim. Ou seja, eu não precisava falar de mim, bastava que eu falasse sobre alguma coisa e que eu tivesse a esperança de que esta coisa ficaria registrada para além de minha sórdida existência.
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No entanto, com o passar dos anos mais recentes, minha produção de textos aqui caiu bastante e acredito que, talvez por isso, o sentido de pequena catarse artística que havia em minhas produções tornou-se menos frequente e outras fronteiras nebulosas foram se tornando mais e mais presentes dentro de mim.
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Mas, como este blog é uma obra aberta, suas fases, invariavelmente, serão retratos tortuosos e sinceros das minhas próprias fases e, neste momento, umas dúzias de frases extremamente pessoais se fazem necessárias de libertação.
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Preciso deixar registrado aqui que as duas últimas semanas de Julho, juntamente com as duas primeiras semanas de Agosto foram um dos períodos mais difíceis de toda minha vida.
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Eu ainda estou num lento processo de recuperação, mas sinto como se tivesse passado pelas piores angústias, pelos piores medos possíveis de serem imaginados por mim mesmo.
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As coisas que senti, os sonhos que sonhei, as figuras que vi, os testes que passei, os pensamentos que tive, os medos que me assaltaram, os vazios que me explodiram, as tristezas que me pisotearam, a auto-estima que me abandonou, os raciocínios cíclicos que me entontearam foram de tamanha intensidade que cheguei mesmo a pensar em desenhar mapas mentais de argumentações para que pudesse segui-los a fim de não precisar repassar por todos os pontos novamente.
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Há uns anos atrás, tive eu um momento muito marcante em minha vida e, desde então, guardei este instante com unhas e dentes, pois senti que ali eu havia chegando ao zênite negativo da minha alma. Ou seja, ali tive certeza de que nunca passaria daquele estado, pois havia chegado ao recôncavo mais nuclear da minha consciência. Além disso, senti que a conclusão chegada e a atitude tomada eram suficientes para resolver todos os meus problemas.
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Mas, sei hoje que, apesar de manter a conclusão tirada no momento anterior, sinto como se eu tivesse tido que enfrentar ainda mais bravamente meus fantasmas, minhas sombras e meus vazios, pois eles solaparam-me ainda mais impiedosamente. Parece que eu me feri ainda mais fervorosamente e assim tive que gritar ainda mais alto e partir em busca de uma conclusão ainda mais robusta, de um merecimento ainda mais profundo.
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Não sei o que será de mim!
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Texto inacabado...

terça-feira, 17 de outubro de 2017

- Não, minha mãe, não! (Post 1800)

 - Não, minha mãe.
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Eu não posso te contar o que passei no oitavo mês deste ano de 2017. E eu não posso te contar porque você não merece saber das barbáries nas quais foram capazes de lançar teu único filho. Não, minha mãe, eu não teria coragem de te narrar o que passei, o que pensei, o que senti, pois tu ficarias muito temorosa e preocupada com o estado de tua cria.
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Sei que sentiste meu estado, minha devassidão, minhas olheiras, meus desânimos, meu olhar pesaroso e profundo. Minha magreza! Há décadas não pesava tão pouco. Sei que sentiste que teu filho não estava bem, mas sei que tu te calaste voluntariamente, pois intuíste que o caso, desta vez, não seria também para ti. Desta vez, minha mãe, o meu caminho era solitário e eu deveria passar por mim mesmo. Só!
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Minha mãe, o teu filho lutou, por dias e dias a fio, por madrugadas e madrugadas insones, contra criaturas de não se ver, contra imaginações de não se pensar, contra fatos de não se crer. Minha mãe, por semanas eu não fui mais eu mesmo, eu não fui teu filho, pois teu filho não seria o que eu me tornei em tamanho baixio de vibrações.
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Minha mãe, eu não te contaria sobre o que passei, pois não se conta à uma mãe passagens em que seu filho lutou contra inimigos invisíveis, inimigos mais fortes do que ele, inimigos de não se crer. Não, minha mãe! Não se conta a uma mãe a realidade de seu rebento quando este é retorcido sem piedade por forças que não vingam na eternidade. Não se conta a uma mãe o lamaçal de ideias no qual seu filho se contaminou, se sujou, se desfez e se perdeu.
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Minha mãe, eu tremia como um silencioso pecador em meio às súplicas e orações fervorosas que insisti em balbuciar nas madrugadas, enquanto tentei vencer meus inimigos somente com orações. E como disse Aldir: “só quem tentou sabe como dói”!
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E como me doeu insistir nas orações que meus avós me ensinaram. Como me doeu tentar desesperadamente alcançar uma vela piedosa, arrastar-me ensandecidamente em direção ao meu altar e ainda, sem poder sentir os pés firmados, ter de firmar minha carta de luz a fim de conseguir alguma proteção naquele vácuo caótico de inconclusões no qual eu fui lançado contra a minha vontade e contra a minha culpa.
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Não, minha mãe, eu não tive culpa! Não desta vez!
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Desta vez eu estava correto.
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Minha mãe, eu senti o pior que existe dentro dos piores mundos. Os pesos assentavam doloridamente em calores que me inundavam as costas e só me restava imaginar-me dentro de redomas de amor inquebrantáveis onde eu, ainda eu pecasse, teria o perdão indelével dos que se fazem acima dos céus.
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Minha mãe, os pesos se assentavam em meus olhares e em meus pensamentos logo após longos momentos em que eu pedia misericórdia. Após longas orações, eu sentia pousar sobre meus ombros o rumor silencioso dos horrores: os horrores que nenhum homem merece sentir. Nem mesmo os piores de nós, minha mãe!
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Mas devo te dizer, se pudesse contar, que senti tuas lágrimas correndo quando olhaste dentro dos meus olhos num daqueles dias e sei que tu sabias, ainda que a distância, o que mais ou menos se passava comigo. Seu filho estava não sendo gente de vida.
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Teu filho não era mais teu filho!
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Minha mãe, eu perdi minhas essências. Eu perdi minha arte, eu perdi minha voz, eu perdi meu piano, minha mãe. Eu perdi meu amor pelas crianças, meu amor pela arte de ensinar, pela missão de levar a arte a todos os pequeninos que me aguardam todas as manhãs.
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Minha mãe, eu perdi minha literatura que cultivo, insistentemente, ao longo de tantos e tantos anos. Eu perdi minha poesia, eu perdi meu passo, minha mente, meus sonhos, meu olhar. Eu não conseguia olhar um pouco mais adiante, eu não conseguia elevar meu semblante e fitar o horizonte.
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Eu só podia perambular pelas ruas e pelas madrugadas esgueirando feito uma não-pessoa que tentava escapar da prisão de não querer estar dentro de si mesmo. Eu andava perdidamente pelas calçadas, parando meu olhar e minha ansiedade em cantos diversos procurando esquecer aquilo tudo que gritava dentro de minha cabeça.
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Eu tive medo de fechar meus olhos!
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Eu tive medo do que estava dentro de mim.
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Eu quis ter pensamentos de ensandecer a razão!
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Eu quis destruir todas as coisas. Eu quis querer o que eu não queria. Eu tive meu querer modificado. Eu tive minhas profundidades mexidas. Eu duvidei de minha índole.
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E eu, que tanto gosto e aprecio os momentos de silêncio e introspecção, não conseguia mais gostar de estar silente e alimentando meus longos e ricos monólogos internos que a tantas e tantas e tantas belas conclusões já me elevaram.
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Eu não queria estar dentro de mim mesmo. Eu não queria ser eu mesmo, não queria ser quem eu estava, quem eu era, onde eu habitava.
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Não queria trabalhar onde trabalho, não queria estar dentro de meu corpo, não queria ter a história que tenho, não queria ter os olhos que me vejo, os cabelos que me cobrem, a boca que me expressa, os pensamentos e as capacidades que tenho.
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Minha mãe, eu não queria ter as pernas que me levam, a barriga que me preenche, as curvas que me habitam, as mãos que me definem.
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Mãe, minhas mãos perderam a riquezas de suas linhas! Minhas mãos tiveram seus traços apagados e minha palma tornou algo esbranquiçado e sem definições. Minhas possibilidades viventes foram manchadas de vazios sem história. Minha origem e meu destino foram lançados ao limbo dos homens sem batismo!
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Minha mãe, eu não quis ser quem eu sou e peço lhe perdão pelo que senti!
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Eu queria ser outra coisa. Eu queria me transmutar em múltiplas possibilidades de seres que seriam os ideais que eu construía dentro de mim ao imaginar o que estas pessoas poderiam ser nos diferentes aspectos que englobam os seres encarnados. Eu quis ser muitos erros, eu quis me jogar a desatino.
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Minha mãe, eu perdi meu nome. Eu perdi minha idade. Eu perdi minha voz interna. Eu perdi minha pulsação. Eu perdi tudo.
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Minha mãe, eu morri!
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Minha mãe, eu morri!
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Minha mãe, eu morri!
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Minha mãe, eu descri de minha bondade, de minha Cristandade. Eu descri de tantas e tantas capacidades de sentimentos belos que já vivifiquei dentro de mim. Eu descri de minhas raízes, de meus avós e de suas fés que em mim vingaram enquanto reversão de doenças incuráveis. Eu descri das orações que já haviam sido feitas por mim.
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Minha mãe, eu não sei onde cheguei. Me desculpe por isso!
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Minha mãe, eu senti o que nenhum homem digno deve sentir. Nenhum ser encarnado é indigno o suficiente para merecer sentir o que eu senti. Eu cheguei a locais internos dentro de meu ser que nenhum homem de bem deve chegar. Nenhum ser que habita um corpo merece passar pelo que se instaurou dentro de mim.
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Minha mãe, eu senti vergonha de ti, de meu pai e de todos os que me antecederam nessa imensa e bela hierarquia na qual eu tanto faço questão de me inserir: a hierarquia das belas almas que me antecederam.
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Minha mãe, tua cria virou bicho. Teu filho virou oposto, virou o que eu nunca fui! Virou o que você nunca me ensinou a ser.
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Mas minha mãe, eu saí de lá!
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E eu fui ao encontro daquilo que eu sabia que nunca mudaria e, quando cheguei em frente, eu disse:

 - Eu vim aqui para ver que tem coisas que não mudam nunca! E também hoje sei que, depois que visualizamos a verdadeira face do medo, entendemos que há coisas que não são tão amedrontadoras assim!
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Minha mãe, foram aproximadamente 40 dias abaixo das coisas vivas!
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Minha mãe, foram demasiadas coisas... Mas eu saí de lá!
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Eu saí com a ajuda dos que me guardam e me regem no ainda mais profundo que ainda mais se aprofunda dentro do mais profundo imenso mundo que se me habita dentro de minha tão surrada alma!
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Minha mãe, meus espaços são infinitos e redimíveis ainda mais além do que eu pensei que fossem. Eu sou ainda mais múltiplo e reestruturante do que jamais pensei que seria.
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Eu sou maior do que eu imaginei que eu era. Eu sou mais forte do que sequer algum dia eu achei que fosse capaz de ser.
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Minha mãe, eu fui fênix!
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Minha mãe, eu sou escorpiano!
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Minha mãe, eu sou assim, eu sou ainda mais assim do que eu já fui algum dia.
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Minha mãe, eu renasci das cinzas. Eu renasci das cinzas surradas de um solitário indigno que, apesar de tudo, não se afastou de sua fé.
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Minha mãe, a cada manhã que eu vencia uma noite de provações, eu dedicava minha aguerrida luta de orações aos meus avós que se me olham de meu altar.
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Eu dediquei cada manhã descortinada às almas que me antecederam.
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Eu dediquei cada força retirada, cada força inventada, cada força parida a fórceps, cada uma das forças geradas a ferro e fogo eu dediquei aos meu ancestrais.
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Eu dediquei cada amanhecer àqueles que firmaram os passos que acabaram fazendo, por acaso, destino ou desatino, eu me tornar quem eu sou.
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Dediquei àqueles que viveram e adormeceram na esperança da salvação.
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E eu dediquei cada aurora adentrada em nome da esperança de poder um dia também estar junto de todos os que me geraram.
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E não adianta surrar, pois a fé é feita daquilo que se quer fazer de si. A fé é feita daquilo que se vai fazendo de si do jeito que sua própria vontade quer. A fé persiste porque quer. A fé insiste porque é da natureza da fé ser assim. A fé não é razão, mas ela se alimenta da razão. A fé também não é sentimento, mas ela se alimenta dos sentimentos, assim como serve de alimento para eles. A fé é uma pulsação incandescente que os mais sãos dentre os insanos preferem manter. A fé é nela mesma. A fé talvez seja a coisa que mais existe em si mesma, sobrevivendo de si. A fé é feita de migalhas inquebráveis, átomos sem divisão que vamos amontoando constantemente ao longo da vida, simplesmente porque é assim que queremos fazer. A fé se faz porque o sujeito da fé quer fazê-la enquanto fé e não enquanto compensação. A fé se faz da própria fé. A FÉ APENAS É!
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E eu senti a renovação diária miraculosa que se efetuou dentro de mim, enquanto eu lutava bravamente para me agarrar nas esparsas novidades brilhantes que iam se me plantando nos dias de Setembro.

Minha mãe, eu saí de lá, mas saiba que ainda estou em processo.
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Acredito, minha mãe, que a maioria de minhas vergonhas já as coloquei para fora, mas o caminho é imenso.
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O caminho é gigantesco, mas, como disse João: o que a vida quer da gente é coragem!
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E isso, você me ensinou a ter, minha mãe!
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