Hoje me lembro bem, e sinto novamente, desta vez com mais preparo interno, aquela dor negativa, profunda e intensa que eu sentia quando me via fora dos meios que tanto almejei por alguns anos, numa época em que eu era um simples recém chegado na maior cidade do Brasil.
Posso dizer com convicção que tinha aspirações diferentes e mais nobres quando era mais novo, mas, muito as mudei por mudar meus referenciais pessoais, quebrando fundo tantas belezas arraigadas que eu guardava dentro de mim. Meus ideais libertários, de vida simples, de cotidiano leve, de arte desapegada, de movimentos voláteis de existência amigável, foram todos escorrendo pelo ralo do capitalismo imoral e anti-ético que foi se mostrando, para mim, como a forma mais possível de vida feliz!
Afinal, alguns sonhos têm custos!
Entornei-me, então, num ideal longínquo de vida e felicidade integrada ao cotidiano modernoso e financeiramente abundante da cidade de São Paulo. Era este o meu novo ser a ser. Tornou-se este meu novo objetivo: colocar-me neste meio de empresas, a fim de sustentar meus sonhos individuais e coletivos; fazer minha vida dentro das regras do jogo para poder saltar fora por propriedade (privada talvez – rsss).
Não foi possível!
No início desta jornada rumo ao fundo, não havia dentro deste meu peito sequer um átomo, um zero absoluto de noção do que ainda estava por vir, de onde iria eu parar para poder rever-me ainda mais e mais e mais e mais e mais uma vez mais e outras tantas, removendo os cascalhos do fundo do meu lago humano a fim de encontrar, no subsolo do subterrâneo, o sustentáculo inoxidável, a rocha derradeira que não permitiria que eu cavasse mais e, enfim, eu teria ali meu teto máximo reverso, o zênite oposto do meu céu onde poderia, finalmente, desfazer-me do exercício das mãos gastas, para o firmamento dos pés no solo:
O meu eu em re-ligação unificada, a pilastra desta minha existência de miúdos 28 anos!
E como me doía ver pessoas vivendo aquele ideal de felicidade que eu queria para mim, mas que me parecia tão impróprio e distante, e que, talvez por isso, tão perfeito. Como me doía ver pessoas despreparadas sendo levadas por uma maré que eu me sentia muito mais capaz de navegar, mas que não tive a possibilidade de mergulhar. Como me doeu sentir-me especialmente injustiçado, talvez! Injustiçado na época e, mesmo hoje, ainda custo um pouco acreditar que o caminho imposto foi o mais correto dentro das leis do amadurecimento pessoal.
No entanto, posso dizer, com orgulho, que NUNCA senti inveja destas pessoas!
Hoje, não cabe a mim, analisar dolorosamente o que passou, e muito menos alguma visão diferenciada traria algum alento a respeito de meu passado recente. Resta-me apenas uma conclusiva resignação e um silêncio pacifista!
Mas quanta água suja, deste lago bagunçado, havia e ainda há sobre mim, meu Deus!
Eu não me importo! Hoje as águas estão férteis de matéria, e algumas delas já se decantaram por não servir mais de construção. Deixo-as apoiadas no fundo que, acredito ser a profundeza que me basta. A profundidade de onde posso construir minhas renovadas convicções.
Na verdade, nesta decaída agonizante, acredito que muitas delas nunca deixaram de existir, elas apenas estavam esquecidas e sem tempo de se mostrar. As águas mais claras deste lago, cuja fonte sou eu, talvez tenham deixado transparecer alguns ideais esquecidos, sonhos adormecidos, amigos escondidos, laços a serem alimentados, viagens a lugares preferidos, sentimentos almejados, coisas de todo tipo que me provocam um suspiro profundo e gostoso de se dar nesta hora de conclusão de texto!
Gosto muito de tudo isso!
Ainda não posso deixar de dizer que hoje me sinto mais preparado! Não preparado para tudo, mas preparado para tudo aquilo a que eu me propor estar preparado, e isso me traz mais segurança. Acredito que eu ainda aparente despreparos aqui e acolá, mas eu não me importo!
Eu sei que não estou mais fora da curva da vida e isso me faz bem! Aliás, não estou NADA fora da curva natural da vida! Eu sei disso! E isso não é, em nada, pouca coisa!
Agora, devo continuar, sabendo e cultivando os meus mínimos necessários, a fim de alcançar mais novidades reais, e efetuar o exercício da vida que nunca caberá em palavras. Afinal, sabemos, como nossos pais, que: “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.
Nunca seria possível escrever tudo o que se aprende, pois, qualquer tentativa de registro da sabedoria conquistada, já nasce fracassada!
Mas toda tentativa de escrita sincera vale o erro ao qual ela se lança!!!





