.
Num bendito dia eu saí de casa correndo. Disse pra mim mesmo que iria até a esquina para testar minhas pernas. Meu joelho já doía há alguns meses. Precisava saber se elas ainda agüentariam minhas vontades. Chegando na tão conquistada esquina, passei direto. Simples como quisera, quis novamente por querer. Quis, apenas quis ir mais longe. Comecei dobrando a terceira esquina depois do jardim. Perto de casa há um jardim cheio de moças andarilhas que chegam pra repensar seus caminhos. Os moços esperam do lado de fora, ansiando poderem gastar seus trocados por um pouco de amor. Mas, ali, mais longe de casa, parecia que meu corpo poderia continuar com menos esforço. Não haveria mais o jardim das velhas conhecidas, nem a esfinge de minha exigência severa pelo retorno. Um elástico rebentado. Fui. Cada vez mais a frente, mais comum se torna o prosseguir, mas, nunca, por isto, um prosseguir medíocre. É prosseguir renovado. Os primeiros passos deveriam se chamar, na verdade, principais. Continuei. Subi uma longa rua na consolação de não saber bem ao certo porque a havia escolhido. Comprei umas flores para dar aos meus pés. Eles que tanto me merecem. Um mendigo dissera-me uma vez que sua vã filosofia, com um pouco mais de tempo, era capaz de vislumbrar todo o mistério entre o céu e a terra. Disse isso sorrindo, deu-me uma flor, e reiterou que, a única coisa que lhe faltava, era o tempo. Para qualquer imaginação, falta tempo. Lembrei-me, então, de um rio que passava malcheirosamente do outro lado da cidade e continuei. Minhas solas já gastas, meus ânimos dotados de serotonina deliciosa, meus olhos buscando algum jardim de contrários, uma torre que pudesse me servir de luneta. Vi tudo, mas não escolhi. Resignei-me às flores dadas aos meus pés. Olhei-as carregadas à minha frente. Segui o cheiro que me sentia. O vento antecipava o invisível, o odor mais sincero. Uma flor nunca mente. Ela sempre está para quem a quiser. É o que chamamos de: generosidade do bem-me-querer. Corria pensando, pensei corrido, passei correndo, pressenti o corpo, predestinei a posse. Apropriei o passo. Entrei numa espécie de pulsação cíclica. Cantava músicas que me agradavam, no ritmo do pulso. Não sentia mais meus pés. Comecei a descer. E então, apenas via ao longe, naquele mundo externo que, enfim, eu dominava no clamor da cavalgada, o solo dançando e me enfrentando, segundos em segundos, ricocheteando preguiçosamente contra meus calcanhares. Nós nos amávamos. Nós nos gladiávamos, eu e a terra. Era eu no carrossel a céu aberto, a plenas avenidas, num trajeto sem volta. Os carros contrários passavam estreitos. Não me importei. Eu corria largo. Brincava de imaginar cálculos nas placas dos veículos, sorrir para treinar simpatia. Eu olhava pro alto, tentava encontrar algum cruzeiro que me indicasse. Cairia nas correntezas, não queria mais apenas aquele rio. Eu navegaria até o mar. Levaria aquelas flores para meu amado mar. Fingi desprezo por mim, consegui gargalhar escandalosamente. Era o começo do mar. Era o fim. Era a liberdade da boa colocação. O desprezo será sempre bem-vindo, se bem-vindo for. Saí ainda mais de mim. Flamejante esparso. Prolixo esgarçado. Garga-gorjeando o líquido que não me contenho. Reergui quatro castelos corriqueiros com as razões que não me serviriam, estilinguei-me pelo elástico da paz. Cambaio estive por vontade, mas a rosa-dos-ventos propusera-me um novo fim. Suguei minhas cascatas o máximo que pude e jorrei convicto aquilo tudo que me inundava. A sensação me comanda neste instante e eu a ela. Revoltei pela catarse correta, a profunda erudição de estar concreto. Assim é. Voei chorando, inexistentemente chorando no detalhe mais infinito. Só, e sete vezes só. Só, e três vezes mais só. Só, pela última vez: só. Só e só. Só. Sozinho, amanheci preguiçosamentemente sorrindo. Eram os braços das ondas. Era o fim do meu trajeto. Ao meu lado direito: as flores. Joguei naquela quase onda que me pareceu mais minha. Dei meia volta. Pensei em voltar. Mas logo senti um sopro leve me atravessando. Parecia vindo do meu pulmão. E ele, por mim, me disse: tu não precisas mais voltar.
.
Eu já havia voltado!
.
Num bendito dia eu saí de casa correndo. Disse pra mim mesmo que iria até a esquina para testar minhas pernas. Meu joelho já doía há alguns meses. Precisava saber se elas ainda agüentariam minhas vontades. Chegando na tão conquistada esquina, passei direto. Simples como quisera, quis novamente por querer. Quis, apenas quis ir mais longe. Comecei dobrando a terceira esquina depois do jardim. Perto de casa há um jardim cheio de moças andarilhas que chegam pra repensar seus caminhos. Os moços esperam do lado de fora, ansiando poderem gastar seus trocados por um pouco de amor. Mas, ali, mais longe de casa, parecia que meu corpo poderia continuar com menos esforço. Não haveria mais o jardim das velhas conhecidas, nem a esfinge de minha exigência severa pelo retorno. Um elástico rebentado. Fui. Cada vez mais a frente, mais comum se torna o prosseguir, mas, nunca, por isto, um prosseguir medíocre. É prosseguir renovado. Os primeiros passos deveriam se chamar, na verdade, principais. Continuei. Subi uma longa rua na consolação de não saber bem ao certo porque a havia escolhido. Comprei umas flores para dar aos meus pés. Eles que tanto me merecem. Um mendigo dissera-me uma vez que sua vã filosofia, com um pouco mais de tempo, era capaz de vislumbrar todo o mistério entre o céu e a terra. Disse isso sorrindo, deu-me uma flor, e reiterou que, a única coisa que lhe faltava, era o tempo. Para qualquer imaginação, falta tempo. Lembrei-me, então, de um rio que passava malcheirosamente do outro lado da cidade e continuei. Minhas solas já gastas, meus ânimos dotados de serotonina deliciosa, meus olhos buscando algum jardim de contrários, uma torre que pudesse me servir de luneta. Vi tudo, mas não escolhi. Resignei-me às flores dadas aos meus pés. Olhei-as carregadas à minha frente. Segui o cheiro que me sentia. O vento antecipava o invisível, o odor mais sincero. Uma flor nunca mente. Ela sempre está para quem a quiser. É o que chamamos de: generosidade do bem-me-querer. Corria pensando, pensei corrido, passei correndo, pressenti o corpo, predestinei a posse. Apropriei o passo. Entrei numa espécie de pulsação cíclica. Cantava músicas que me agradavam, no ritmo do pulso. Não sentia mais meus pés. Comecei a descer. E então, apenas via ao longe, naquele mundo externo que, enfim, eu dominava no clamor da cavalgada, o solo dançando e me enfrentando, segundos em segundos, ricocheteando preguiçosamente contra meus calcanhares. Nós nos amávamos. Nós nos gladiávamos, eu e a terra. Era eu no carrossel a céu aberto, a plenas avenidas, num trajeto sem volta. Os carros contrários passavam estreitos. Não me importei. Eu corria largo. Brincava de imaginar cálculos nas placas dos veículos, sorrir para treinar simpatia. Eu olhava pro alto, tentava encontrar algum cruzeiro que me indicasse. Cairia nas correntezas, não queria mais apenas aquele rio. Eu navegaria até o mar. Levaria aquelas flores para meu amado mar. Fingi desprezo por mim, consegui gargalhar escandalosamente. Era o começo do mar. Era o fim. Era a liberdade da boa colocação. O desprezo será sempre bem-vindo, se bem-vindo for. Saí ainda mais de mim. Flamejante esparso. Prolixo esgarçado. Garga-gorjeando o líquido que não me contenho. Reergui quatro castelos corriqueiros com as razões que não me serviriam, estilinguei-me pelo elástico da paz. Cambaio estive por vontade, mas a rosa-dos-ventos propusera-me um novo fim. Suguei minhas cascatas o máximo que pude e jorrei convicto aquilo tudo que me inundava. A sensação me comanda neste instante e eu a ela. Revoltei pela catarse correta, a profunda erudição de estar concreto. Assim é. Voei chorando, inexistentemente chorando no detalhe mais infinito. Só, e sete vezes só. Só, e três vezes mais só. Só, pela última vez: só. Só e só. Só. Sozinho, amanheci preguiçosamentemente sorrindo. Eram os braços das ondas. Era o fim do meu trajeto. Ao meu lado direito: as flores. Joguei naquela quase onda que me pareceu mais minha. Dei meia volta. Pensei em voltar. Mas logo senti um sopro leve me atravessando. Parecia vindo do meu pulmão. E ele, por mim, me disse: tu não precisas mais voltar.
.
Eu já havia voltado!
.
