Este foi o único livro de poesias lançado por Fernando Pessoa enquanto vivo. Complexo, são necessárias diversas idas e voltas para prosseguir com segurança seu desenvolvimento. Idas tantos ao glossário de termos e personagens, bem como às partes dos Lusíadas “intertextualizadas” por Pessoa, e voltas às poesias já lidas, mas que continham informações importantes para um outro ponto da obra.
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As poesias também podem ser lidas de forma independente, pois possuem corpo e beleza suficientes em si, porém, quando lidas em seqüência, formam um amplo esquema histórico e, até mesmo profético, de Portugal. Este era a intenção maior de seu autor, homem ligado aos ocultos do espírito e das estrelas, ou o que houvesse da estrela no seu próprio espírito.
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Vale ressaltar que é bastante constante a intertextualidade com Os Lusíadas de Camões, o que faz dessa obra um projeto audacioso. Muitos trechos de Mensagem fazem referência a passagens da maior obra da língua portuguesa e, assim como o grão-poeta lusitano, seu fiel concorrente exalta a nação lusitana, seus feitos e a promessa de um novo futuro promissor, ou, como ele mesmo diz: futuro do passado.
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Os estilos, porém, se diferem. Como de suposição seria natural, soa deveras Pessoa mais atual, menos intrincado, de métrica e rima menos rigorosas, sem, no entanto, desvanecer a beleza da sublime poesia de magnitude primeira que, em ambos os artistas, solo fértil encontrou. Pessoa é sucinto, Camões caudaloso, Pessoa é precisamente infinito, Camões infinitamente preciso. Não há beleza maior, há beleza diferente. O não dito, em Pessoa, faz toda a diferença. Já Camões traduz divinamente suas imagens, ainda que permanecidas ocultas.
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Posso fazer essas comparações porque, na edição comprada, organizada pela Editora Hedra, são trazidos, em parte avulsa, os trechos dos Lusíadas aos quais as poesias de Mensagem se referem. Comparando os trechos, esta foi minha impressão.
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Entrando nos pormenores do livro, este possui 3 grandes partes subdivididas de formas diferentes:
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1) A primeira delas: Brasão.
Traz o brasão de Portugal e estabelece um poema para cada elemento. É possível acompanhar a descrição pela figura anexada neste post.
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São denominados 2 grandes campos: Os Castelos (1.1) contendo 7 poemas, e As Quinas (1.2) contendo 5 poemas. Além desses dois campos, temos: A Coroa (1.3) contendo 1 poema somente, e O Timbre (1.4) contendo 4 poemas.
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(1.1) O dos 7 Castelos: refere-se a 7 personagens da história, ou, por vezes, da mitologia, que ficaram conhecidos por sua valentia nas armas e tiveram alguma ligação, ainda que fabulosa, com Portugal, como é o caso de Ulisses, herói da Ilíada e da Odisséia de Homero e que, segundo reza a lenda, teria fundado a cidade de Olissipo, hoje Lisboa.
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Os sete Castelos, e respectivos títulos das poesias, são:
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1 - Ulisses
2 - Viriato
3 - Conde D. Henrique
4 - D. Tareja
5 - D. Afonso Henrique
6 - D. Dinis
7 - D. João, o primeiro, e sua esposa D. Filipa de Lencaster.
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A sétima poesia é divida em duas e Filipa é exaltada como um ventre ditoso, pois dá fruto a 4 grandes personagens da história: D. Henrique, D. Duarte, D. Fernando e D. Pedro.
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(1.2) O das 5 Quinas: refere-se a 5 personagens que se destacaram por sua bravura no enfrentar do sofrimento espiritual, não necessariamente da bravura em armas, mas em alma. A Quina central refere-se ao próprio Jesus Cristo e, cada 1 dos 5 pontos desta Quina, refere-se a uma de suas chagas. Outra dessas 5 Quinas, é bom que se diga, liga-se a Dom Sebastião, rei português desaparecido e figura central do Sebastianismo. Logo mais explico sobre este termo.
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As 5 Quinas, e suas respectivas 5 poesias, são assim intituladas:
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1 - D. Duarte, Rei de Portugal
2 - D. Fernando, Infante de Portugal
3 - D. Pedro, Regente de Portugal
4 - D. João, Infante de Portugal
5 - D. Sebastião, Rei de Portugal
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(1.3) A Coroa: como já dito, possui 1 única poesia que se refere e leva o título de Nun’Álvares Pereira, um grande chefe militar medieval, participante decisivo em batalhas decisivas da nação portuguesa. Ao fim da vida, doou seus bens, foi morar num convento. Também é considerado um beato. Enfim, uma figura forte para embasar as ambições de Pessoa.
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(1.4) O Timbre: refere-se ao animal alado pousado sobre a coroa portuguesa. A cabeça do grifo representa o Infante D. Henrique, uma das asas D. João, o segundo, e a outra asa Afonso de Albuquerque. Esses são respectivamente os 3 títulos das 3 poesias desta quarta parte da primeira parte da obra Mensagem de Fernando Pessoa.
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Outra coisa a se ressaltar é que, esses paralelos entre a história portuguesa e seu brasão são frutos da imaginação de Pessoa e não significados provenientes de registros históricos.
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A Primeira parte, de maneira mais geral, faz referência às figuras do processo de fundação de Portugal, figuras da nobreza, mitológicas, heróis de guerra, heróis nacionais.
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2) Já a Segunda grande parte desta obra, faz referência às grandes navegações e chama-se: Mar português. É aqui que se encontra aquele famoso poema: “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”. Esta contem 12 poemas. São eles:
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1 – O Infante
2 – Horizonte
3 - Padrão
4 – O mostrengo
5 – Epitáfio de Bartolomeu Dias
6 – Os colombos
7 - Ocidente
8 – Fernão de Magalhães
9 – Ascensão de Vasco da Gama
10 – Mar português
11 – A última nau
12 - Prece
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Aqui vê-se os nomes de alguns navegadores, faz-se referência a monstros do marinhos, o horizonte que esconde terras. A palavra colombos, no livro, está sem acento.
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Só adiantando um atrasado assunto prometido - o Sebastianismo é a crença de que o rei D. Sebastião, tímido, por alguns tratado como louco, e que foi dado por desaparecido em batalhas contra os mouros, voltará e estabelecerá em Portugal o Quinto Império, no renascimento de um passado de glórias.
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O mito do Quinto Império é baseado num sonho de Nabucodonosor que viu ruir 4 parte de uma estátua. Interpretado por Daniel (não há citação do sobrenome), a cabeça de ouro desta estátua seria a Babilônia, o peito de prata, o ventre de bronze e os pés numa mistura de ferro e barro seriam os impérios sucessores. Ao desmoronar, a estátua se mistura e forma uma montanha que aponta para a chegada de um Quinto e único império universal e infinito. Para o Padre Antônio Vieira, maior influenciador de Fernando Pessoa nesta obra, os impérios seriam: o Persa, o Assírio, o Egípcio e o Chinês. Já o Quinto, seria Portugal, que teria em D. João IV a volta velada de D. Sebastião, figura central do dito Sebastianismo. Também por isso D. Sebastião é conhecido como “O Encoberto”, por outras como “O Desejado” já que promoveria a glória.
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Numa atualização do ideal do Quinto Império, Pessoa substitui os 4 já listados, cogitados por Vieira, e propõe uma nova lista por considerar o ocidente europeu como seu foco. Assim temos: o império Grego, o Romano, o da Europa Cristã e o da Europa Iluminista. Já o Quinto, desta estruturação, seria o império dos poetas, iniciado em Portugal, teria no Padre Antônio Vieira sua grande figura, e se caracterizaria por ser etéreo, sublime, eterno e não baseado nas armas, mas nas artes, nas ciências e assim conseguiria, por disseminar uma cultura universal, a paz para todos os povos.
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Só mais uma coisa... Tive a leve impressão, lendo a introdução de Caio Gagliardi, de que Fernando Pessoa via nele mesmo o fundador deste novo império universal dos poetas, e Mensagem seria seu texto fundador.
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Bom, enfim, vamos à terceira e última parte:
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3) O Encoberto
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Esta parte fala do futuro, do Quinto império e subdivide-se em 3 partes: “Os símbolos”, “Os avisos”, “Os tempos”.
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3.1) Os símbolos, contem 5 poesias. São elas:
1 – D. Sebastião
2 – O Quinto Império
3 – O Desejado
4 – As ilhas afortunadas
5 – O Encoberto
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Note que D. Sebastião, O Desejado e O Encoberto giram em torno de uma mesma figura. As ilhas afortunadas falam da característica etérea deste novo império que não teria lugar, seria uma existência sublime, quintessencial.
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3.2) Os avisos, contem 3 poesias. São elas:
1 – O Bandarra
2 – Antônio Vieira
3 – “’Screvo meu livro à beira-mágoa...”
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Bandarra foi um aldeão lusitano que fazia quadras populares e assim disseminou profecias numa Portugal antiga. Antônio Vieira é o conhecido padre escritor de sermões e é considerado o maior orador sacro em língua portuguesa. A terceira é a única em todo livro que não contem título porque deve (deverá) ser intitulada justamente com o nome do prosador que fundará o Quinto Império.
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3.3) Os tempos, contem 5 poesias. São elas:
1 – Noite
2 - Tormenta
3 - Calma
4 – Antemanhã
5 - Nevoeiro
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Nevoeiro faz referência também ao mito Sebastianista que dizia que D. Sebastião chegaria em meio a um nevoeiro. Na verdade essa poesia vai além disso. Ela critica o marasmo português e incita a nação a um novo futuro, pois, como dito no fim, se é num nevoeiro que a glória virá:
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“Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
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É a hora!”
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Mais uma coisa...
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Como já dito, esta é uma obra poética que trás a mensagem de que será a poesia a responsável pela realização do Quinto império eterno: o império dos poetas. Desta maneira, anunciando uma profecia, este livro já realiza o que profere, pois se torna eterno enquanto arte e, para Fernando Pessoa, a arte é o único império eterno.
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Para finalizar, segue a poesia Nevoeiro, última do livro. Logo em seguida está a parte dos Lusíadas à qual ela faz intertextualidade.
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Nevoeiro
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Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
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É a Hora!
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Último poema de Mensagem - Fernando Pessoa
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Intertexto desta parte:
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No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza.
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(Canto X, 145, 1137-1144)
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Os Lusíadas - Luís Vaz de Camões
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O Brasão de Portugal
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