sexta-feira, 18 de março de 2022
quarta-feira, 9 de março de 2022
GRITO MUDO
I
.
.
Ainda que absolutamente nada de relevante
Me venha a mente neste vácuo instante
Ainda que milhares de ruídos me impeçam
De seguir esta proposta irrisória adiante
.
Ainda que o mundo esteja
Quase que completamente
Destituído de toda poesia
Ainda que as pragas dos tempos
Sucateiem toda esperança humana
E sua consequente alegria
.
Ainda que quase não consiga mais resistir
Aos severos e agudos ataques
Desta frustração constante
Chamada HUMANIDADE
.
Ainda assim, Meu Deus, ainda assim
Minha agonia de estar calado
É maior do que tudo
Maior do que eu mesmo
E não me abandona
.
Minha imaginação
Ainda que opaca
Grita por poder novamente experimentar-se
Colocar-se à prova
Encontrar caminhos novos novamente
.
.
II
.
.
Quero as relações de ideias que me façam sorrir
As colocações inusitadas que me encham de orgulho
A liberdade de lançar palavras ao vento
.
Quero desbravar
Os caminhos que se abrem ao toque da pena
Sentir a digitação intensa
Que se leva adiante
Pelo simples fato de estar em expressão
.
Quero o infinito de inebriar-me
Com aquilo que sei
Ser somente um instante particular
.
O MEU INSTANTE MAIS COMIGO EM MIM
.
.
III
.
.
Mas atualmente
Morro a cada momento que não tento
Minguo a cada vez que não reverbero
Desabo por cada dia que não vingo
Resseco em cada palavra que não escrevo
.
Meus pensamentos acinzentados
Recaem sobre meu silêncio
Esmagando e sufocando
Meu medíocre cotidiano
De idas e vindas
E vidas e lidas
Que não me completam
Que não conseguem preencher
Os vazios mais profundos
Que guardo dentro da alma
.
Sou uma vastidão amórfica
Um umbral de deformações
Um pântano de quimeras apagadas
Que se juntam e se rejuntam
Tentando escapar por entre os dedos
Agitando as pernas
Formando desesperos
.
São pensamentos ininterruptos
Que embaralham a mente
Que assolam meu sono
Que me socam os membros e as costas
Momentos antes de dormir
.
São criaturas com vida própria
Com belezas múltiplas
Que querem gritar a qualquer custo
Que querem sair a qualquer modo
Que querem a beleza e seu oposto
Possuem o querer dos seres etéreos
Feitos da simples pulsão vocabular
.
São minúsculas partículas de sentido
Centelhas de ideias diversas
Invisíveis organizações silábicas
Sons que formam e reformam sentidos
Aglutinações que esboçam possibilidades
Palavras que giram e passam por mim
.
Sou, sim, acompanhado de muitos...
.
.
IV
.
.
Oh desterrada quimera
Que habita o futuro incerto
Queria poder te tocar
E, enfim, ter a certeza
De que és alcançável
De que és mais do que um véu de ilusões
.
Oh incandescente fusão
Por que não desistes de mim
Apesar de tantas vezes
Ter tentado te apagar no cotidiano?
.
Oh absoluta pulsão
Por que não me abandonas
Apesar de tanto te deixar
Ao relento dos dias?
.
Oh agonia saborosa da criação
Por que não escapas deste medíocre
E partes andando para outras paragens
De ímpetos mais corajosos?
.
Tu que em mim vem habitar
Agitar, regurgitar
E depois abandonar
Na mais plena paz que conheço
És o martírio e o alívio
O inferno e o sétimo céu
Deste homem incerto
Que insiste em procurar a maior profundidade
Num mundo que dela se aparta
Com cada vez mais convicção
.
.
V
.
.
Mas cai, agora, uma gota de suor de meu corpo
Encharco o chão de vocábulos libertos
E torno novamente meu quarto
Um rincão de mínima construção catártica
.
As paredes se expandem
Os ângulos e as curvas se iluminam
O vento sopra com mais alimento
E a janela parece suficiente para meu respiro
.
Agora
Abrando meus olhos em direção ao mundo
Relaxo meus ombros num sintoma profundo
E recebo de longe a convicção
De que fiz, enfim, neste adiado fecundo
Pelas mãos deste “nobre vagabundo”
O que me obrigou a emoção!
.
Assinar:
Postagens (Atom)
~2.jpeg)