terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Post 1111: Natal


***  /%/ /-\ T /-\ !_  ***


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Poesia para não dizer (A Vida)



I

Feito de nada
Mentira postulada
Complexa formulada
Sentinte rebaixada
Instigante renegada
Vazia circunavegada
Esfera abafada
Recolocação acelerada
Desnivela revidada
Coisificação revisitada
Circunspecção reivindicada
Subqualquercoisa inanimada

Do vago vagante
Em vento errante
Por peso pensante
Insípido instante
Vil verdade ondulante
Sufoco lancinante
Escopo cicatrizante
Constrito retro-alimentante
Coronelismo sufocante

Inchaço explosivo
Rechaço conclusivo
Penhasco permissivo
Instável incisivo
Riscado inquisitivo

Corajoso carregável
Do vácuo navegável
Inconcluso formidável
Oposto do tudo insondável
Preposto não razoável
Contracorrente inadequável
Palpitar adestrável
Inversão admirável
Constatação afixiável
Cercania ilimitável
Inimigo inimitável
Minúsculo manipulável

Cascata onisciente
Pêndulo eloqüente
Tempo multi-presente
Caçada prudente
Instintivo insistente
Passo pendente
Percalço cadente
Escavação carente
Conchavo demente

Sub-servo colonial
Minguante matinal
Sibarita virginal
Solavanco carnal
Constipação crucial

II

Corajoso de nada
Do vácuo postulada
Inconcluso formulada
Oposto do tudo rebaixada
Preposto renegada
Contracorrente circunavegada
Palpitar abafada
Inversão acelerada
Constatação revidada
Cercania revisitada
Inimigo reivindicada
Minúsculo inanimada

Cascata vagante
Pêndulo errante
Tempo pensante
Caçada instante
Instintivo ondulante
Passo lancinante
Percalço cicatrizante
Escavação retro-alimentante
Conchavo sufocante

Sub-servo explosivo
Minguante conclusivo
Sibarita permissivo
Solavanco incisivo
Constipação inquisitivo

Feito carregável
Mentira navegável
Complexa formidável
Sentinte insondável
Instigante não razoável
Vazia inadequável
Esfera adestrável
Recolocação admirável
Desnivela afixiável
Coisificação ilimitável
Circunspecção inimitável
Subqualquercoisa manipulável

Do vago onisciente
Em vento eloqüente
Por peso multi-presente
Insípido prudente
Vil verdade insistente
Sufoco pendente
Escopo cadente
Constrito carente
Coronelismo demente

Inchaço colonial
Rechaço matinal
Penhasco virginal
Instável carnal
Riscado crucial

III

Faça você também, sobremaneira,
Sua combinação de palavras-videira,
Pois qualquer “poesia para não dizer” pode dizer o mais
De um mesmo que só pela vida em si se faz capaz!



sábado, 20 de outubro de 2012

Post 1110: Os Delírios de Consumo de Becky Bloom



Hoje descobri, na vídeo-locadora (pois o livro já virou filme), que li um livro na faculdade que não estava na lista dos que já li. E, como havia dito que, após o intercâmbio, todos os livros lidos seriam resenhados, senti-me intimado, por mim mesmo, a escrever uma resenha.

Rolou uma preguiça de escrever algo que se passou há tanto tempo atrás (li no início de 2004), mas, pra minha sorte, lembrei também que tivemos que fazer um trabalho a respeito dele. Então, fui atrás do trabalho e cá está a resenha, feita antes mesmo do blog existir.

Pelo menos agora ela terá uma serventia, já que, na época, li o livro, preparei a resenha com bastante antecedência, já que eram muitos os trabalhos pedidos em todas as matérias, mas, qual não foi minha surpresa quando o professor não me deu a nota, pois alegou que eu não havia entregado o trabalho.

Duda Pinheiro, esse era o nome do docente!!!

Acho que, provavelmente, como tínhamos que entregar a folha, no último dia de aula, numa sala vazia, cheia de trabalhos colocados sobre a mesa do professor, que não estava lá, algum coleguinha pegou o meu, trocou a capa, e eu me lasquei!!!

A sorte é que fiz uma prova boa no início do semestre e, mesmo sem as notas dos dois trabalhos entregues nesse dia, consegui a média mínima exigida pela ESPM: SETE!

Enfim, agora tenho uma serventia pras mais de 400 páginas lidas naquele quartinho onde morei, por quase quatro anos e meio, na Vila Mariana.

Nota-se que minha maneira de digitar era diferente. Eu usava mais espaços entre os elementos do texto!

Agora valeu!!!



O livro em questão contém mais de 430 páginas e é de autoria de Sophie Kinsella . A história é inteira narrada em primeira pessoa , sendo o narrador não onisciente e feminino , ou seja , a própria Becky Bloom conta sua estória à partir de seu ponto de vista .

Os principais personagens são : Rebecca Bloom , Lucke Brandon , Suze ( mora junto com Becky ) , Alicia ( secretária de Lucke ) , Tarquin , Zelda ( organizadora de programas na TV ) , Emma e Rory ( apresentadores do Morning Coffe ) , Derek Smeath (gerente do Endwich Bank de Fulham ) , Janice e Martin Webster ( vizinhos dos pais da protagonista ) , e também , o pai e a mãe da protagonista .

Após a ficha técnica , é importante ressaltar que a história se desenrola em torno de uma moradora de Londres , que possui péssimos hábitos de consumo , pois compra compulsivamente aquilo que lhe dá vontade , e que por isso vive endividada , com as contas no vermelho , o cartão de crédito bloqueado , entre outros problemas . O que se mostra um fato extremamente paradoxal , é que Becky , apesar de ter esse costume descrito acima , é uma jornalista especializada em mercado financeiro . Durante todo o livro , ela procura formas inusitadas para justificar seus atos e pagar suas contas , o que quase sempre não consegue , e ainda por cima , acaba piorando a situação . A história acaba com ela , ainda endividada , porém já com dinheiro suficiente para sanar seus gastos .

É interessante destacar que Rebecca Bloom é antes de tudo uma anti-herói , o que se mostra um fato de extrema importância , pois isso nos aproxima dela e conseqüentemente causa uma maior identificação com a protagonista . Este fato é imprescindível levar em conta , pois , através da aproximação , suas vivências se tornam mais reais e plausíveis ; fato que é reforçado pela forma com que as estórias são contadas e também pelas próprias situações extremamente familiares à nós , que Becky vive.

Becky não destaca em nenhum momento sua beleza ou qualidades que tenha , quando o faz sempre soa como uma brincadeira . O livro contém sempre um humor nas cenas que descreve ; o humor em si não cansa , mas as constantes desculpas da protagonista sim , fato percebido em conversas com colegas e também sentido por mim . Apesar de que não podemos esquecer que a estória se desenrolou durante só 6 meses , e para uma personagem de 25 anos , é complicado modificar toda uma personalidade e maneira de agir dentro desse curto espaço de tempo .

O livro possui uma linguagem de fácil entendimento , o que faz com que a leitura flua rapidamente e as mais de 400 páginas passem quase que sem se perceber .

O principal a se dizer é que é muito interessante ler esse livro para se perceber que em alguns aspectos nós não somos as únicas pessoas que agiriam ou pensariam de determinada maneira em uma situação X , e também é proveitosa a leitura para se entender como funciona a mente de compradores compulsivos ( o que pensam , como pensam e fazem suas equações de valor , se há uma compensação de frustrações no ato da compra , o que lhes é prioridade , e etc ) .

É um bom livro, pois nos leva a um exercício de percepção e psicologia de forma sutil e bem humorada . É uma leitura agradável e rápida que acima de tudo nos trás uma outra forma de pensar a realidade do consumo , realidade essa que nós , profissionais de marketing iremos trabalhar , e que por isso , todo conhecimento adquirido nesta área é válido .  




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

28 Resenhas



Faz um tempo que não coloco aqui no blog os filmes, livros e diversos elementos artísticos com os quais andei tomando contato nesses meses. Mas isso não significa que eu tenha deixado de ir ver ou de ler algumas coisas nesse período. Pelo contrário, a lista de resenhas para fazer estava bem extensa e, quanto mais o tempo passava, maior ela ia ficando e maior também foi ficando minha preguiça de resenhar todos os pontos.

No entanto, como me propus a isso, não vou deixar de lado esse hábito bastante proveitoso. Pelo menos não por enquanto e não por dificuldades como estas!

Deu bastante trabalho! Todas as vezes que coloco resenhas aqui, geralmente, todas elas foram feitas de uma vez só. Às vezes me ocupando várias horas até fechar tudo. Mas essa foi a primeira vez que não consegui terminar tudo numa sentada apenas. Levei uns três dias espaçados, em que novos elementos se juntaram aos já existentes, para conseguir terminar estas 28 resenhas.

Vamos lá!!!



360



Sempre vou otimista ver qualquer produção que tenha o Fernando Meirelles envolvido, seja no cargo de diretor ou qualquer outro. Ao mesmo tempo, vou com certo receio de não ser um obra tão boa, já que expectativas altas são mais fáceis de serem frustradas. Reforça isso, o fato do diretor já ter feito algumas coisas de altíssimo nível, o que, com muita certeza, leva a comparações naturalmente acirradas dentro da obra maior de um diretor: sua filmografia.

Enfim, Fernando Meirelles já está num ponto delicado há algum tempo! Cidade de Deus é excepcional! O Jardineiro Fiel é bem legal! Blindness não tão é legal! Outras produções em que ele estava envolvido são muito boas! Daí a gente fica naquele estado, esperando o que vai vir de uma pessoa, sem dúvida nenhuma, talentosa!

Mas 360 voltou a fazer a curva subir!

Claro que não é nenhum “Cidade de Deus”, mas também, pudera! Afinal, são poucos os diretores que podem se gabar de ter em sua filmografia uma película que realizou, num só momento, uma revolução estética, cultural e social num país, além de ter, por isso mesmo, mudado os rumos do cinema nacional.

360 é baseado na peça “La Ronde” de Arthur Schnitzler, escritor e médico austríaco, segundo a Wikipédia.

Trata-se de uma série de estórias de pessoas comuns, de diversas nacionalidades, classes sociais, credos e experiências de vida que vão se entrelaçando numa trama complexa que revela as nuances do ser - humano no mundo atual.

Logo depois do filme, eu ainda conseguia repassar quase toda a trama apresentada, mas agora, depois de algumas semanas, ou talvez mais de um mês, realizar esta tarefa tornou-se um tanto impossível.

Acredito que comece com uma prostituta e sua irmã, a prostituta vai tirar umas fotos pra um site, talvez, depois a estória passa pra uma casal em que a mulher trai seu marido (Jude Law) com um fotógrafo brasileiro, interpretado por Juliano Cazarré, o Adauto de Avenida Brasil, que faz isso também por interesse profissional, mas que, por sua vez também trai sua própria namorada interpretada por Maria Flor, que descobre a traição e resolve voltar pro Brasil e encontra o personagem interpretado por Anthony Hopkins que tem algumas complicações na vida que serão mostradas mais adiante, e no mesmo vôo que eles, está um maníaco sexual recém saído da cadeia, pelo qual a brasileira se encanta, assim ela bebe um pouco mais e tenta seviciá-lo, sem saber do risco que corre, mas o cara resiste, já num outro foco a prostituta do início vai fazer um programa com um mafioso que possui um motorista que se cansa dos maus tratos do patrão e resolve jogar tudo pro alto e então sai andando de carro com a própria irmã da prostituta pois se encanta com sua inocência, esta está a ler, em dois momentos do filme, o livro Anna Kariênina de Liév Tolstói, e diz frases do livro pro motorista, enquanto eles estão andando de carro, enquanto isso o fotógrafo do início do filme entra no quarto da prostituta para tentar assaltar o mafioso e então descobre-se que os dois tinham armado toda aquela cilada, o mafioso descobre a armação um pouco antes quando resolve mexer no celular da prostituta, mas quando tenta entrar em contato com seu motorista ele não está mais na porta do hotel, então o mafioso se dá mal, acontece uma tragédia, mas a prostituta se dá bem e nisso corta pra outro ponto e outro e outro mais que vai se entrelaçando, e personagens se encontram na rua, por vezes se cruzam sem se notar, mas o expectador que vai acompanhando a trama percebe e assim tece-se o painel 360, por vezes ilustrado com cortes verticais na tela em que aparecem mais de um acontecimento ao mesmo tempo.

Enfim, é esta loucura toda!

Lembrou-me um pouco o filme “Crash, no limite”!

Neste, a trama, acredito que seja ainda maior, envolvendo personagens de outras nacionalidades, faladores de 4 ou 5 línguas diferentes. No entanto, em minha opinião, “Crash” consegue uma sinergia maior entre os pontos apresentados. Parece-me um roteiro melhor!

Há algumas sacadas de câmera! Os atores estão, em geral, bem nos personagens! É um filme bastante ousado! E foi justamente esta ousadia tão grande que me impressionou!

Gostei! Não é um filme extraordinário, afinal, a força se dá pelo volume e não pela intensidade, mas é uma experiência intrigante acompanhar todo o universo que vai se abrindo diante dos olhos!


Diretor: Fernando Meirelles
Elenco: Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Jude Law, Ben Foster, Mark Ivanir, Moritz Bleibtreu, Jamel Debbouze, Peter Morgan, Tereza Srbova, Katrina Vasilieva
Produção: Andrew Eaton, Chris Hanley, Danny Krausz, David Linde, Emanuel Michael, Andy Stebbing
Roteiro: Peter Morgan
Fotografia: Adriano Goldman
Duração: 115 min.
Ano: 2011
País: Reino Unido, Áustria, França, Brasil
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: Revolution Films / BBC Films / Dor Film Produktionsgesellschaft / Muse Productions / O2 Filmes / Gravity Entertainment / Unifilme
Classificação: 16 anos



A menina que entra em livros



Sou suspeito pra falar dessa peça de teatro, pois fiz parte do elenco, como músico.  Ou seja, estava no palco tocando as músicas e sonorizando as cenas, além de ter composto alguns temas incidentais.

Mas, por outro lado, também por esse motivo, tive bastante tempo para sentir o espetáculo e chegar a conclusões sobre sua qualidade, afinal, devo tê-la apresentado mais de 20 vezes.

É um texto bastante rico, dotado de um ritmo forte, o que proporciona um constante convite ao envolvimento com a trama. Além disso, os personagens são super criativos:

 - Traças que querem devorar os livros e possuem preferências segundo os assuntos tratados nas obras

 - Um Índice que não sabe de nada

 - Uma narradora que adora trava-línguas e brincadeiras de criança

 - Uma poetiza que fala o tempo inteiro rimando

 - A Bruxa da estória de João e Maria

 - e o próprio João, que dá a lição final sobre a importância de ter irmãos


Conta uma passagem da vida da menina Júlia que, por uma espécie de intuição sonhada, fica sabendo que terá um irmão, e com isso ela entra no universo dos livros para vivenciar aventuras e entender um pouco mais sobre o que é dividir os pais, seu quarto e as atenções com uma nova criatura.

As músicas são bastante variadas e, modéstia à parte, entram em momentos oportunos para incrementar as cenas e abrilhantar todo o conjunto.

Realmente foi uma peça divertidíssima de participar, com uma ótima equipe de atores, diretores e produtores.

Dois meses de ensaio (abril e maio) e mais dois meses de apresentações (Junho e Julho) que está entre os períodos mais ricos deste meu ano de 2012.

Algumas vezes, emocionei-me fortemente fazendo o espetáculo!

Ficha Técnica:

Texto: Lívia Gaudêncio
Direção: Juliano Barone
Composição: Adilson Rodrigues
Produtores: Marcelo Carrusca e Eduardo Jacsenis
Elenco: André Mello, Débora Gomez, Lívia Gaudencio, Maurício Colantoni e Tânia Reis
Músicos: Vitor Meneghetti e Wagner Passos




A Rosa do Povo



Um dos principais livros de Carlos Drummond de Andrade e tido, por alguns, como sua melhor obra. Obra esta que ajudou a lançar ainda mais o escritor de Itabira no cenário nacional e, posteriormente, no cenário mundial, já que foi traduzido para outros idiomas e lançado numa dezena de países.

Não encerra, mas, facilita este alcance, o estilo de sua poética que não se utiliza de palavras complexas e por vezes desconhecidas. Além disso, auxilia na tradução de seus versos, o fato de serem, em sua maioria, livres de rimas, metrificações e outras características da estética poética que por vezes poderia entravar o processo de tradução e a posterior aceitação dos pensamentos líricos de Carlos.

No entanto, nada disso explica seu amplo sucesso! O poeta não era um facilitador, sua poesia soa, antes de tudo, legítima!

Drummond era um homem de pensar profundo, de poemas modernos, por vezes incompreendidos, mas de poética que foge ao óbvio, à palavra óbvia, à análise comum, ao dizer que se espera que seja conjugado e expressado por determinados caminhos. Nele há, constantemente, algo se desdobrando, se refazendo, e saltando para consecutivas colocações surpreendentes.

Seu pensamento, ainda que não verborrágico, era assombrosamente fluído e perpassava com facilidade, pelo menos aparente, por diversos vieses impensados até o momento de tua pena entrar em vigor.

A obra é composta de 55 poemas de diversos tamanhos, sobre os mais variados temas que giram em torno da realidade do mundo àquela época de seu elemento humano. Publicado em 1945, ano do fim da Segunda Grande Guerra, o conteúdo mostra um autor atormentado com os rumos da humanidade, mas ainda dotado de uma procura poética profunda, ainda convicta, apesar de já endurecida e maculada.

O autor parece sempre buscar a beleza em coisas mínimas, singelas, como na flor, na sua própria infância, tema bastante recorrente em seu universo criativo. Além disso, a arte é uma grande paixão, pela qual ele não se abre em amores, talvez por sua timidez minimamente arrojada. Mas, ela, é sim, sua forma de salvação e expressão mais profunda, a qual o amadurece sutilmente, mas não sem dureza, em seu interior resguardado.

Há poemas narrativos, contanto casos que caberiam perfeitamente numa crônica.

Há poéticas dotadas de aliterações quase intrínsecas que nos surpreendem por sua quase não presença.

Há referências explicitas a elementos de guerra como a Rússia, Stalingrado, Moscou, a Alemanha, Berlin.

Mas há muito ainda mais a referência a uma esperança em relação ao povo, daí “A Rosa do Povo”, uma rosa que nasce rompendo cascas de concreto, de ódio, a casca bélica, a casca do início da pós-modernidade, ou da pré-pós-modernidade.

Resumindo todos estes elementos e, acredito que por isso, Drummond escolhe como poesia de encerramento, uma que fez chamada: “Carta ao homem do povo Charlie Chaplin” escrita assim mesmo, sem dois pontos, como se este artista acumulasse em si o protótipo de uma raça na qual o autor brasileiro depositava suas mais profundas inspirações de um futuro possível.

Já li este título com hífen, com dois pontos, mas acho que não deva ter, já que no livro, ao contrário da internet, não tem.

Segue!!! É grande mais vale muito a pena ler! Uma poesia arrebatadora!!!



Canto ao Homem do Povo Charles Chaplin

I

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.

II

A noite banha tua roupa.
Mal a disfarças no colete mosqueado,
no gelado peitilho de baile,
de um impossível baile sem orquídeas.

És condenado ao negro. Tuas calças
confundem-se com a treva. Teus sapatos
inchados, no escuro do beco,
são cogumelos noturnos. A quase cartola,
sol negro, cobre tudo isto, sem raios.

Assim, noturno cidadão de uma república
enlutada, surges a nossos olhos
pessimistas, que te inspecionam e meditam:
Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde
a um mundo muito velho.

E a lua pousa
em teu rosto. Branco, de morte caiado,
que sepulcros evoca mas que hastes
submarinas e álgidas e espelhos
e lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas em farinha. O bigode
negro cresce em ti como um aviso
e logo se interrompe. É negro, curto,
espesso. O rosto branco, de lunar matéria,
face cortada em lençol, risco na parede,
caderno de infância, apenas imagem
entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha, experiente, calada vem a boca
sorrir, aurora, para todos.

E já não sentimos a noite,
e a morte nos evita, e diminuímos
como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos
ao país secreto onde dormem os meninos.
Já não é o escritório e mil fichas,
nem a garagem, a universidade, o alarme,
é realmente a rua abolida, lojas repletas,
e vamos contigo arrebentar vidraças,
e vamos jogar o guarda no chão,
e na pessoa humana vamos redescobrir
aquele lugar - cuidado! - que atrai os pontapés: sentenças
de uma justiça não oficial.

III

Cheio de sugestões alimentícias, matas a fome
dos que não foram chamados à ceia celeste
ou industrial. Há ossos, há pudins
de gelatina e cereja e chocolate e nuvens
nas dobras do teu casaco. Estão guardados
para uma criança ou um cão. Pois bem conheces
a importância da comida, o gosto da carne,
o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,
e sabes a arte sutil de transformar em macarrão
o humilde cordão de teus sapatos.

Mais uma vez jantaste: a vida é boa.
Cabe um cigarro: e o tiras
da lata de sardinhas.
Não há muitos jantares no mundo, já sabias,
e os mais belos frangos
são protegidos em pratos chineses por vidros espessos.

Há sempre o vidro, e não se quebra,
há o aço, o amianto, a lei,
há milícias inteiras protegendo o frango,
e há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que mal decifras
o cristal infrangível. Entre a mão e a fome,
os valos da lei, as léguas. Então te transformas
tu mesmo no grande frango assado que flutua
sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro
e chama, comida geral, que tarda.

IV

O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.
No festim solitário teus dons se aguçam.
És espiritual e dançarino e fluido,
mas ninguém virá aqui saber como amas
com fervor de diamante e delicadeza de alva,
como, por tua mão a cabana se faz lua.

Mundo de neve e sal, de gramofones roucos
urrando longe o gozo de que não participas.
Mundo fechado, que aprisiona as amadas
e todo o desejo, na noite, de comunicação.

Teu palácio se esvai, lambe-te o sono,
ninguém te quis, todos possuem,
tudo buscaste dar, não te tomaram.
Então encaminhas no gelo e rondas o grito.

Mas não tens gula de festa, nem orgulho
nem ferida nem raiva nem malícia.
És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo, os copos voam,
os corpos saltam rápido, as amadas
te procuram na noite... e não te vêem,
tu pequeno, tu simples, tu qualquer.

Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino,
e ter braços enormes sobre as casas,
ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês a maranhense,
a russo, a negro: ser um só, de todos,
sem palavra, sem filtro,
sem opala:
há uma cidade em ti, que não sabemos.

V

Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.

Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,

aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano

apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos

VI

Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.

Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.

O ofício é o ofício
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.

Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.

E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada,
contra a miséria e a fúria dos ditadores,

ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e de esperança.