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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Poesia para não dizer (A Vida)
I
Feito de nada
Mentira postulada
Complexa formulada
Sentinte rebaixada
Instigante renegada
Vazia circunavegada
Esfera abafada
Recolocação acelerada
Desnivela revidada
Coisificação revisitada
Circunspecção reivindicada
Subqualquercoisa inanimada
Do vago vagante
Em vento errante
Por peso pensante
Insípido instante
Vil verdade ondulante
Sufoco lancinante
Escopo cicatrizante
Constrito retro-alimentante
Coronelismo sufocante
Inchaço explosivo
Rechaço conclusivo
Penhasco permissivo
Instável incisivo
Riscado inquisitivo
Corajoso carregável
Do vácuo navegável
Inconcluso formidável
Oposto do tudo insondável
Preposto não razoável
Contracorrente inadequável
Palpitar adestrável
Inversão admirável
Constatação afixiável
Cercania ilimitável
Inimigo inimitável
Minúsculo manipulável
Cascata onisciente
Pêndulo eloqüente
Tempo multi-presente
Caçada prudente
Instintivo insistente
Passo pendente
Percalço cadente
Escavação carente
Conchavo demente
Sub-servo colonial
Minguante matinal
Sibarita virginal
Solavanco carnal
Constipação crucial
II
Corajoso de nada
Do vácuo postulada
Inconcluso formulada
Oposto do tudo rebaixada
Preposto renegada
Contracorrente circunavegada
Palpitar abafada
Inversão acelerada
Constatação revidada
Cercania revisitada
Inimigo reivindicada
Minúsculo inanimada
Cascata vagante
Pêndulo errante
Tempo pensante
Caçada instante
Instintivo ondulante
Passo lancinante
Percalço cicatrizante
Escavação retro-alimentante
Conchavo sufocante
Sub-servo explosivo
Minguante conclusivo
Sibarita permissivo
Solavanco incisivo
Constipação inquisitivo
Feito carregável
Mentira navegável
Complexa formidável
Sentinte insondável
Instigante não razoável
Vazia inadequável
Esfera adestrável
Recolocação admirável
Desnivela afixiável
Coisificação ilimitável
Circunspecção inimitável
Subqualquercoisa manipulável
Do vago onisciente
Em vento eloqüente
Por peso multi-presente
Insípido prudente
Vil verdade insistente
Sufoco pendente
Escopo cadente
Constrito carente
Coronelismo demente
Inchaço colonial
Rechaço matinal
Penhasco virginal
Instável carnal
Riscado crucial
III
Faça você também, sobremaneira,
Sua combinação de palavras-videira,
Pois qualquer “poesia para não dizer” pode dizer o
mais
De um mesmo que só pela vida em si se faz capaz!
sábado, 20 de outubro de 2012
Post 1110: Os Delírios de Consumo de Becky Bloom
Hoje
descobri, na vídeo-locadora (pois o livro já virou filme), que li um livro na
faculdade que não estava na lista dos que já li. E, como havia dito que, após o
intercâmbio, todos os livros lidos seriam resenhados, senti-me intimado, por
mim mesmo, a escrever uma resenha.
Rolou
uma preguiça de escrever algo que se passou há tanto tempo atrás (li no início
de 2004), mas, pra minha sorte, lembrei também que tivemos que fazer um trabalho
a respeito dele. Então, fui atrás do trabalho e cá está a resenha, feita antes
mesmo do blog existir.
Pelo
menos agora ela terá uma serventia, já que, na época, li o livro, preparei a
resenha com bastante antecedência, já que eram muitos os trabalhos pedidos em
todas as matérias, mas, qual não foi minha surpresa quando o professor não me
deu a nota, pois alegou que eu não havia entregado o trabalho.
Duda
Pinheiro, esse era o nome do docente!!!
Acho
que, provavelmente, como tínhamos que entregar a folha, no último dia de aula,
numa sala vazia, cheia de trabalhos colocados sobre a mesa do professor, que
não estava lá, algum coleguinha pegou o meu, trocou a capa, e eu me lasquei!!!
A
sorte é que fiz uma prova boa no início do semestre e, mesmo sem as notas dos
dois trabalhos entregues nesse dia, consegui a média mínima exigida pela ESPM:
SETE!
Enfim,
agora tenho uma serventia pras mais de 400 páginas lidas naquele quartinho onde
morei, por quase quatro anos e meio, na Vila Mariana.
Nota-se que minha maneira de digitar era diferente. Eu usava mais espaços entre os elementos do texto!
Agora valeu!!!
O
livro em questão contém mais de 430 páginas e é de autoria de Sophie Kinsella .
A história é inteira narrada em primeira pessoa , sendo o narrador não
onisciente e feminino , ou seja , a própria Becky Bloom conta sua estória à
partir de seu ponto de vista .
Os
principais personagens são : Rebecca Bloom , Lucke Brandon , Suze ( mora junto
com Becky ) , Alicia ( secretária de Lucke ) , Tarquin , Zelda ( organizadora
de programas na TV ) , Emma e Rory ( apresentadores do Morning Coffe ) , Derek
Smeath (gerente do Endwich Bank de Fulham ) , Janice e Martin Webster (
vizinhos dos pais da protagonista ) , e também , o pai e a mãe da protagonista
.
Após
a ficha técnica , é importante ressaltar que a história se desenrola em torno
de uma moradora de Londres , que possui péssimos hábitos de consumo , pois
compra compulsivamente aquilo que lhe dá vontade , e que por isso vive
endividada , com as contas no vermelho , o cartão de crédito bloqueado , entre
outros problemas . O que se mostra um fato extremamente paradoxal , é que Becky
, apesar de ter esse costume descrito acima , é uma jornalista especializada em
mercado financeiro . Durante todo o livro , ela procura formas inusitadas para
justificar seus atos e pagar suas contas , o que quase sempre não consegue , e
ainda por cima , acaba piorando a situação . A história acaba com ela , ainda
endividada , porém já com dinheiro suficiente para sanar seus gastos .
É
interessante destacar que Rebecca Bloom é antes de tudo uma anti-herói , o que
se mostra um fato de extrema importância , pois isso nos aproxima dela e
conseqüentemente causa uma maior identificação com a protagonista . Este fato é
imprescindível levar em conta , pois , através da aproximação , suas vivências
se tornam mais reais e plausíveis ; fato que é reforçado pela forma com que as
estórias são contadas e também pelas próprias situações extremamente familiares
à nós , que Becky vive.
Becky
não destaca em nenhum momento sua beleza ou qualidades que tenha , quando o faz
sempre soa como uma brincadeira . O livro contém sempre um humor nas cenas que
descreve ; o humor em si não cansa , mas as constantes desculpas da protagonista
sim , fato percebido em conversas com colegas e também sentido por mim . Apesar
de que não podemos esquecer que a estória se desenrolou durante só 6 meses , e
para uma personagem de 25 anos , é complicado modificar toda uma personalidade
e maneira de agir dentro desse curto espaço de tempo .
O
livro possui uma linguagem de fácil entendimento , o que faz com que a leitura
flua rapidamente e as mais de 400 páginas passem quase que sem se perceber .
O
principal a se dizer é que é muito interessante ler esse livro para se perceber
que em alguns aspectos nós não somos as únicas pessoas que agiriam ou pensariam
de determinada maneira em uma situação X , e também é proveitosa a leitura para
se entender como funciona a mente de compradores compulsivos ( o que pensam ,
como pensam e fazem suas equações de valor , se há uma compensação de
frustrações no ato da compra , o que lhes é prioridade , e etc ) .
É
um bom livro, pois nos leva a um exercício de percepção e psicologia de forma
sutil e bem humorada . É uma leitura agradável e rápida que acima de tudo nos
trás uma outra forma de pensar a realidade do consumo , realidade essa que nós
, profissionais de marketing iremos trabalhar , e que por isso , todo conhecimento
adquirido nesta área é válido .
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
28 Resenhas
Faz um tempo que não coloco aqui
no blog os filmes, livros e diversos elementos artísticos com os quais andei
tomando contato nesses meses. Mas isso não significa que eu tenha deixado de ir
ver ou de ler algumas coisas nesse período. Pelo contrário, a lista de resenhas
para fazer estava bem extensa e, quanto mais o tempo passava, maior ela ia
ficando e maior também foi ficando minha preguiça de resenhar todos os pontos.
No entanto, como me propus a
isso, não vou deixar de lado esse hábito bastante proveitoso. Pelo menos não
por enquanto e não por dificuldades como estas!
Deu bastante trabalho! Todas as
vezes que coloco resenhas aqui, geralmente, todas elas foram feitas de uma vez
só. Às vezes me ocupando várias horas até fechar tudo. Mas essa foi a primeira
vez que não consegui terminar tudo numa sentada apenas. Levei uns três dias
espaçados, em que novos elementos se juntaram aos já existentes, para conseguir
terminar estas 28 resenhas.
Vamos lá!!!
360
Sempre
vou otimista ver qualquer produção que tenha o Fernando Meirelles envolvido,
seja no cargo de diretor ou qualquer outro. Ao mesmo tempo, vou com certo
receio de não ser um obra tão boa, já que expectativas altas são mais fáceis de
serem frustradas. Reforça isso, o fato do diretor já ter feito algumas coisas
de altíssimo nível, o que, com muita certeza, leva a comparações naturalmente acirradas
dentro da obra maior de um diretor: sua filmografia.
Enfim,
Fernando Meirelles já está num ponto delicado há algum tempo! Cidade de Deus é
excepcional! O Jardineiro Fiel é bem legal! Blindness não tão é legal! Outras
produções em que ele estava envolvido são muito boas! Daí a gente fica naquele
estado, esperando o que vai vir de uma pessoa, sem dúvida nenhuma, talentosa!
Mas
360 voltou a fazer a curva subir!
Claro
que não é nenhum “Cidade de Deus”, mas também, pudera! Afinal, são poucos os
diretores que podem se gabar de ter em sua filmografia uma película que
realizou, num só momento, uma revolução estética, cultural e social num país,
além de ter, por isso mesmo, mudado os rumos do cinema nacional.
360
é baseado na peça “La Ronde” de Arthur Schnitzler, escritor e médico austríaco,
segundo a Wikipédia.
Trata-se
de uma série de estórias de pessoas comuns, de diversas nacionalidades, classes
sociais, credos e experiências de vida que vão se entrelaçando numa trama
complexa que revela as nuances do ser - humano no mundo atual.
Logo
depois do filme, eu ainda conseguia repassar quase toda a trama apresentada,
mas agora, depois de algumas semanas, ou talvez mais de um mês, realizar esta
tarefa tornou-se um tanto impossível.
Acredito
que comece com uma prostituta e sua irmã, a prostituta vai tirar umas fotos pra
um site, talvez, depois a estória passa pra uma casal em que a mulher trai seu
marido (Jude Law) com um fotógrafo brasileiro, interpretado por Juliano Cazarré,
o Adauto de Avenida Brasil, que faz isso também por interesse profissional, mas
que, por sua vez também trai sua própria namorada interpretada por Maria Flor,
que descobre a traição e resolve voltar pro Brasil e encontra o personagem
interpretado por Anthony Hopkins que tem algumas complicações na vida que serão
mostradas mais adiante, e no mesmo vôo que eles, está um maníaco sexual recém
saído da cadeia, pelo qual a brasileira se encanta, assim ela bebe um pouco
mais e tenta seviciá-lo, sem saber do risco que corre, mas o cara resiste, já num
outro foco a prostituta do início vai fazer um programa com um mafioso que possui
um motorista que se cansa dos maus tratos do patrão e resolve jogar tudo pro
alto e então sai andando de carro com a própria irmã da prostituta pois se
encanta com sua inocência, esta está a ler, em dois momentos do filme, o livro Anna
Kariênina de Liév Tolstói, e diz frases do livro pro motorista, enquanto eles
estão andando de carro, enquanto isso o fotógrafo do início do filme entra no
quarto da prostituta para tentar assaltar o mafioso e então descobre-se que os
dois tinham armado toda aquela cilada, o mafioso descobre a armação um pouco
antes quando resolve mexer no celular da prostituta, mas quando tenta entrar em
contato com seu motorista ele não está mais na porta do hotel, então o mafioso
se dá mal, acontece uma tragédia, mas a prostituta se dá bem e nisso corta pra
outro ponto e outro e outro mais que vai se entrelaçando, e personagens se
encontram na rua, por vezes se cruzam sem se notar, mas o expectador que vai
acompanhando a trama percebe e assim tece-se o painel 360, por vezes ilustrado
com cortes verticais na tela em que aparecem mais de um acontecimento ao mesmo
tempo.
Enfim,
é esta loucura toda!
Lembrou-me
um pouco o filme “Crash, no limite”!
Neste,
a trama, acredito que seja ainda maior, envolvendo personagens de outras
nacionalidades, faladores de 4 ou 5 línguas diferentes. No entanto, em minha
opinião, “Crash” consegue uma sinergia maior entre os pontos apresentados.
Parece-me um roteiro melhor!
Há
algumas sacadas de câmera! Os atores estão, em geral, bem nos personagens! É um
filme bastante ousado! E foi justamente esta ousadia tão grande que me
impressionou!
Gostei!
Não é um filme extraordinário, afinal, a força se dá pelo volume e não pela
intensidade, mas é uma experiência intrigante acompanhar todo o universo que
vai se abrindo diante dos olhos!
Diretor:
Fernando Meirelles
Elenco:
Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Jude Law, Ben Foster, Mark Ivanir, Moritz
Bleibtreu, Jamel Debbouze, Peter Morgan, Tereza Srbova, Katrina Vasilieva
Produção: Andrew Eaton, Chris Hanley, Danny Krausz,
David Linde, Emanuel Michael, Andy Stebbing
Roteiro:
Peter Morgan
Fotografia:
Adriano Goldman
Duração:
115 min.
Ano:
2011
País:
Reino Unido, Áustria, França, Brasil
Gênero:
Drama
Cor:
Colorido
Distribuidora:
Paris Filmes
Estúdio:
Revolution Films / BBC Films / Dor Film Produktionsgesellschaft / Muse
Productions / O2 Filmes / Gravity Entertainment / Unifilme
Classificação:
16 anos
A menina que entra em livros
Sou suspeito pra
falar dessa peça de teatro, pois fiz parte do elenco, como músico. Ou seja, estava no palco tocando as músicas e
sonorizando as cenas, além de ter composto alguns temas incidentais.
Mas, por outro
lado, também por esse motivo, tive bastante tempo para sentir o espetáculo e
chegar a conclusões sobre sua qualidade, afinal, devo tê-la apresentado mais de
20 vezes.
É um texto
bastante rico, dotado de um ritmo forte, o que proporciona um constante convite
ao envolvimento com a trama. Além disso, os personagens são super criativos:
- Traças que querem devorar os livros e
possuem preferências segundo os assuntos tratados nas obras
- Um Índice que não sabe de nada
- Uma narradora que adora trava-línguas e brincadeiras
de criança
- Uma poetiza que fala o tempo inteiro rimando
- A Bruxa da estória de João e Maria
- e o próprio João, que dá a lição final sobre
a importância de ter irmãos
Conta uma
passagem da vida da menina Júlia que, por uma espécie de intuição sonhada, fica
sabendo que terá um irmão, e com isso ela entra no universo dos livros para
vivenciar aventuras e entender um pouco mais sobre o que é dividir os pais, seu
quarto e as atenções com uma nova criatura.
As músicas são
bastante variadas e, modéstia à parte, entram em momentos oportunos para
incrementar as cenas e abrilhantar todo o conjunto.
Realmente foi
uma peça divertidíssima de participar, com uma ótima equipe de atores,
diretores e produtores.
Dois meses de
ensaio (abril e maio) e mais dois meses de apresentações (Junho e Julho) que
está entre os períodos mais ricos deste meu ano de 2012.
Algumas vezes,
emocionei-me fortemente fazendo o espetáculo!
Ficha Técnica:
Texto: Lívia
Gaudêncio
Direção: Juliano
Barone
Composição: Adilson
Rodrigues
Produtores:
Marcelo Carrusca e Eduardo Jacsenis
Elenco: André
Mello, Débora Gomez, Lívia Gaudencio, Maurício Colantoni e Tânia Reis
Músicos: Vitor
Meneghetti e Wagner Passos
A Rosa do Povo
Um
dos principais livros de Carlos Drummond de Andrade e tido, por alguns, como sua
melhor obra. Obra esta que ajudou a lançar ainda mais o escritor de Itabira no
cenário nacional e, posteriormente, no cenário mundial, já que foi traduzido
para outros idiomas e lançado numa dezena de países.
Não
encerra, mas, facilita este alcance, o estilo de sua poética que não se utiliza
de palavras complexas e por vezes desconhecidas. Além disso, auxilia na
tradução de seus versos, o fato de serem, em sua maioria, livres de rimas,
metrificações e outras características da estética poética que por vezes poderia
entravar o processo de tradução e a posterior aceitação dos pensamentos líricos
de Carlos.
No
entanto, nada disso explica seu amplo sucesso! O poeta não era um facilitador,
sua poesia soa, antes de tudo, legítima!
Drummond
era um homem de pensar profundo, de poemas modernos, por vezes incompreendidos,
mas de poética que foge ao óbvio, à palavra óbvia, à análise comum, ao dizer
que se espera que seja conjugado e expressado por determinados caminhos. Nele
há, constantemente, algo se desdobrando, se refazendo, e saltando para
consecutivas colocações surpreendentes.
Seu
pensamento, ainda que não verborrágico, era assombrosamente fluído e perpassava
com facilidade, pelo menos aparente, por diversos vieses impensados até o
momento de tua pena entrar em vigor.
A
obra é composta de 55 poemas de diversos tamanhos, sobre os mais variados temas
que giram em torno da realidade do mundo àquela época de seu elemento humano.
Publicado em 1945, ano do fim da Segunda Grande Guerra, o conteúdo mostra um
autor atormentado com os rumos da humanidade, mas ainda dotado de uma procura
poética profunda, ainda convicta, apesar de já endurecida e maculada.
O
autor parece sempre buscar a beleza em coisas mínimas, singelas, como na flor,
na sua própria infância, tema bastante recorrente em seu universo criativo.
Além disso, a arte é uma grande paixão, pela qual ele não se abre em amores,
talvez por sua timidez minimamente arrojada. Mas, ela, é sim, sua forma de
salvação e expressão mais profunda, a qual o amadurece sutilmente, mas não sem
dureza, em seu interior resguardado.
Há
poemas narrativos, contanto casos que caberiam perfeitamente numa crônica.
Há
poéticas dotadas de aliterações quase intrínsecas que nos surpreendem por sua
quase não presença.
Há
referências explicitas a elementos de guerra como a Rússia, Stalingrado,
Moscou, a Alemanha, Berlin.
Mas
há muito ainda mais a referência a uma esperança em relação ao povo, daí “A
Rosa do Povo”, uma rosa que nasce rompendo cascas de concreto, de ódio, a casca
bélica, a casca do início da pós-modernidade, ou da pré-pós-modernidade.
Resumindo
todos estes elementos e, acredito que por isso, Drummond escolhe como poesia de
encerramento, uma que fez chamada: “Carta ao homem do povo Charlie Chaplin”
escrita assim mesmo, sem dois pontos, como se este artista acumulasse em si o
protótipo de uma raça na qual o autor brasileiro depositava suas mais profundas
inspirações de um futuro possível.
Já
li este título com hífen, com dois pontos, mas acho que não deva ter, já que no
livro, ao contrário da internet, não tem.
Segue!!!
É grande mais vale muito a pena ler! Uma poesia arrebatadora!!!
Canto ao Homem do Povo Charles Chaplin
I
Era
preciso que um poeta brasileiro,
não
dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando
um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como
na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,
era
preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de
ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde
nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e
a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,
era
preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso
à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse
recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para
dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.
Para
dizer-te como os brasileiros te amam
e
que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com
qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de
bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,
vagabundos
que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos
filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e
vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como
um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.
Bem
sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e
costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e
entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só
as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.
Não
é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles
não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem
faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como
um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.
Falam
por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que
entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são
duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos
no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.
Falam
por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os
parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os
cismarentos,
os
irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.
E
falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam
os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os
instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada
troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
II
A
noite banha tua roupa.
Mal
a disfarças no colete mosqueado,
no
gelado peitilho de baile,
de
um impossível baile sem orquídeas.
És
condenado ao negro. Tuas calças
confundem-se
com a treva. Teus sapatos
inchados,
no escuro do beco,
são
cogumelos noturnos. A quase cartola,
sol
negro, cobre tudo isto, sem raios.
Assim,
noturno cidadão de uma república
enlutada,
surges a nossos olhos
pessimistas,
que te inspecionam e meditam:
Eis
o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o
corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde
a
um mundo muito velho.
E
a lua pousa
em
teu rosto. Branco, de morte caiado,
que
sepulcros evoca mas que hastes
submarinas
e álgidas e espelhos
e
lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas
em farinha. O bigode
negro
cresce em ti como um aviso
e
logo se interrompe. É negro, curto,
espesso.
O rosto branco, de lunar matéria,
face
cortada em lençol, risco na parede,
caderno
de infância, apenas imagem
entretanto
os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha,
experiente, calada vem a boca
sorrir,
aurora, para todos.
E
já não sentimos a noite,
e
a morte nos evita, e diminuímos
como
se ao contato de tua bengala mágica voltássemos
ao
país secreto onde dormem os meninos.
Já
não é o escritório e mil fichas,
nem
a garagem, a universidade, o alarme,
é
realmente a rua abolida, lojas repletas,
e
vamos contigo arrebentar vidraças,
e
vamos jogar o guarda no chão,
e
na pessoa humana vamos redescobrir
aquele
lugar - cuidado! - que atrai os pontapés: sentenças
de
uma justiça não oficial.
III
Cheio
de sugestões alimentícias, matas a fome
dos
que não foram chamados à ceia celeste
ou
industrial. Há ossos, há pudins
de
gelatina e cereja e chocolate e nuvens
nas
dobras do teu casaco. Estão guardados
para
uma criança ou um cão. Pois bem conheces
a
importância da comida, o gosto da carne,
o
cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,
e
sabes a arte sutil de transformar em macarrão
o
humilde cordão de teus sapatos.
Mais
uma vez jantaste: a vida é boa.
Cabe
um cigarro: e o tiras
da
lata de sardinhas.
Não
há muitos jantares no mundo, já sabias,
e
os mais belos frangos
são
protegidos em pratos chineses por vidros espessos.
Há
sempre o vidro, e não se quebra,
há
o aço, o amianto, a lei,
há
milícias inteiras protegendo o frango,
e
há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma
voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila
indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que
mal decifras
o
cristal infrangível. Entre a mão e a fome,
os
valos da lei, as léguas. Então te transformas
tu
mesmo no grande frango assado que flutua
sobre
todas as fomes, no ar; frango de ouro
e
chama, comida geral, que tarda.
IV
O
próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.
No
festim solitário teus dons se aguçam.
És
espiritual e dançarino e fluido,
mas
ninguém virá aqui saber como amas
com
fervor de diamante e delicadeza de alva,
como,
por tua mão a cabana se faz lua.
Mundo
de neve e sal, de gramofones roucos
urrando
longe o gozo de que não participas.
Mundo
fechado, que aprisiona as amadas
e
todo o desejo, na noite, de comunicação.
Teu
palácio se esvai, lambe-te o sono,
ninguém
te quis, todos possuem,
tudo
buscaste dar, não te tomaram.
Então
encaminhas no gelo e rondas o grito.
Mas
não tens gula de festa, nem orgulho
nem
ferida nem raiva nem malícia.
És
o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo,
os copos voam,
os
corpos saltam rápido, as amadas
te
procuram na noite... e não te vêem,
tu
pequeno, tu simples, tu qualquer.
Ser
tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar
aos mil num corpo só, franzino,
e
ter braços enormes sobre as casas,
ter
um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar
assim a chinês a maranhense,
a
russo, a negro: ser um só, de todos,
sem
palavra, sem filtro,
sem
opala:
há
uma cidade em ti, que não sabemos.
V
Uma
cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não,
não te ama. Um rico, em álcool,
é
teu amigo e lúcido repele
tua
riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o
que há de água, de sopro e de inocência
no
fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que
cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos
desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos
acadêmicos; convenções
do
branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas
em série, e fábricas e fábricas
e
fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste
apenas um operário
comandado
pela voz colérica do megafone.
És
parafuso, gesto, esgar.
Recolho
teus pedaços: ainda vibram,
lagarto
mutilado.
Colo
teus pedaços. Unidade
estranha
é a tua, em mundo assim pulverizado.
E
nós, que a cada passo nos cobrimos
e
nos despimos e nos mascaramos,
mal
retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista
de circo
marquês
marinheiro
carregador
de piano
apenas
sempre entretanto tu mesmo,
o
que não está de acordo e é meigo,
o
incapaz de propriedade, o pé
errante,
a estrada
fugindo,
o amigo
que
desejaríamos reter
na
chuva, no espelho, na memória
e
todavia perdemos
VI
Já
não penso em ti. Penso no ofício
a
que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras
a peça desmontada: as molas unem-se,
o
tempo anda. És vidraceiro.
Varres
a rua. Não importa
que
o desejo de partir te roa; e a esquina
faça
de ti outro homem; e a lógica
te
afaste de seus frios privilégios.
Há
o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas
benigno,
e
dele surgem artes não burguesas,
produtos
de ar e lágrimas, indumentos
que
nos dão asa ou pétalas, e trens
e
navios sem aço, onde os amigos
fazendo
roda viajam pelo tempo,
livros
se animam, quadros se conversam,
e
tudo libertado se resolve
numa
efusão de amor sem paga, e riso, e sol.
O
ofício é o ofício
que
assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo
entre dois horários; mão sabida
no
bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o
pé insiste em levar-te pelo mundo,
a
mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e
ao compasso de Brahms fazes a barba
neste
salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde
ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.
Foi
bom que te calasses.
Meditavas
na sombra das chaves,
das
correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas
palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas
com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de
mil, os braços cruzados de mil.
E
nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se.
E as palavras subindo.
Ó
palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder
da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade
da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação
do ser humano, árvore irritada,
contra
a miséria e a fúria dos ditadores,
ó
Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham
numa estrada de pó e de esperança.
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