sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Livro: Para Benita

Prefácio

Por mais que tente se superar, a Literatura sempre será a mais frustrada de todas as artes, já que Deus transcende o verbal. Não conheço arte mais dura que a Literatura. Mesmo as esculturas em mármore trazem, com mais facilidade, a leveza da aura da forma lapidada que, por meio da palavra escrita, não se atinge com tanto silêncio e perfeição.
É mais acessível a expressão profunda por meio da Dança, por exemplo. A Dança deixa fluir todo o caminho da sabedoria corporal que, por ela, vem à vida com mais força. Também a Música e seus contornos melódicos podem tecer, com mais facilidade, sensações que nos lançam a lugares que desconhecemos.
Uma criança, antes de escrever algo com o intuito de expressar “qualquer-coisa” que habite dentro dela, com muita certeza, já se utilizou de outras artes para isso. Antes de escrever, já dançou por vontade própria, já cantarolou porque sentiu vontade, já pintou qualquer relance de arte abstrata, ou mesmo já teatralizou alguma coisa para convencer alguém. Qualquer arte se fluidifica e nos é mais natural que esta que sai estritamente por meio de vocábulos mumificados.
Nossa base de trabalho é o significante mais duro dos seres humanos: a palavra; o verbo que foi o princípio e será o fim de todo erro. E, nesse meio, erram infinitos poetas trabalhando solitários para tecerem algum painel que possa nos retirar desta posição de sub-produto daquela que é o mais maravilhoso segmento de expressão do espírito humano: A ARTE!
E, talvez por esta densidade, a palavra seja a mais basilar ferramenta da Psicanálise. Seu peso significante é a massa pela qual nossa parte mais imperfeita se molda na vida. Somos aglomerados de palavras que, por raras vezes, transcendem o verbalhesco e se nos lança a esferas mais sutis de humanidade.
As palavras ainda nos são inalienáveis, no entanto, toda palavra é quase nada. Toda frase é mínima, todo parágrafo é medíocre, todo texto é falho e, todo livro, um simples relapso irrisório de algo inexplicável.
A somatória do texto é uma construção de migalhas que, por vezes, mesmo somadas, ainda não fluem, não coexistem ou não se tornam eternas. Não fazem valer, não tocam ninguém além do escritor, se tornam esquecidas, se fazem supérfluas, se colocam ao esquecimento, se confundem com qualquer coisa, passam simplesmente como perda de tempo de um ser que tentou fazer-se além da morte num cômico ato de arrogância.
Porém, o que nos leva a escrever está além da razão, além do entendimento. A escrita é o entendimento em processamento. Todo poeta é um fracassado, iludido em si, até que se prove o contrário. Mas, qual a importância disso?! O esmiuçar sofrível das coisas sem lugar, a tradução inexprimível das memórias do Universo, o desembaraçar inconcluso da rede esfarrapada que nos prende, a transpiração voluntária dos processos primários desta infinita caminhada de cegos, essas coisas fazem todo sentido para as insanas almas dos seres que escrevem.
Escrever é quase um processo sádico que preferimos prosseguir como um átomo desesperado de auto-indulgência.
Tentar quebrar o desvão insígnico do vácuo que nos lota de ecos do além, vencer a trêmula existência de nossos corpos inoperantes que teimam em não nos obedecer, erguer os olhos para além das montanhas e metrópoles e respirar o canto do mundo que mais nos pertence: o canto das folhas, das canetas, das máquinas de escrever ou de suas modernas versões, tudo isso somos nós, Benita!
Lutar corpo a corpo com nossos destinos de perdedores, arrancar do silêncio nosso grito mais belo, e ainda fazer isso constantemente. Sim, constantemente se colocar a prova, pois, a cada velho texto superado, um novo desafio maior se forma. E então, como que por não ter mais nada tão imperfeito a se fazer na vida, novamente nos arriscamos a tentar quebrar as correntes dos intocáveis tesouros de Deus e iniciar uma nova jornada que nos ocupará por horas, dias, meses ou anos sem, no entanto, sabermos se tanto trabalho terá valido a pena para nos salvar do mistério sem fim!
Boa leitura, minha amiga!

Wagner Passos