Prefácio
Por mais que tente se superar, a Literatura sempre
será a mais frustrada de todas as artes, já que Deus transcende o verbal. Não
conheço arte mais dura que a Literatura. Mesmo as esculturas em mármore trazem,
com mais facilidade, a leveza da aura da forma lapidada que, por meio da palavra
escrita, não se atinge com tanto silêncio e perfeição.
É mais acessível a expressão profunda por meio da Dança,
por exemplo. A Dança deixa fluir todo o caminho da sabedoria corporal que, por ela,
vem à vida com mais força. Também a Música e seus contornos melódicos podem
tecer, com mais facilidade, sensações que nos lançam a lugares que desconhecemos.
Uma criança, antes de escrever algo com o intuito de
expressar “qualquer-coisa” que habite dentro dela, com muita certeza, já se utilizou
de outras artes para isso. Antes de escrever, já dançou por vontade própria, já
cantarolou porque sentiu vontade, já pintou qualquer relance de arte abstrata,
ou mesmo já teatralizou alguma coisa para convencer alguém. Qualquer arte se
fluidifica e nos é mais natural que esta que sai estritamente por meio de vocábulos
mumificados.
Nossa base de trabalho é o significante mais duro
dos seres humanos: a palavra; o verbo que foi o princípio e será o fim de todo
erro. E, nesse meio, erram infinitos poetas trabalhando solitários para tecerem
algum painel que possa nos retirar desta posição de sub-produto daquela que é o
mais maravilhoso segmento de expressão do espírito humano: A ARTE!
E, talvez por esta densidade, a palavra seja a mais
basilar ferramenta da Psicanálise. Seu peso significante é a massa pela qual
nossa parte mais imperfeita se molda na vida. Somos aglomerados de palavras que,
por raras vezes, transcendem o verbalhesco e se nos lança a esferas mais sutis
de humanidade.
As palavras ainda nos são inalienáveis, no entanto,
toda palavra é quase nada. Toda frase é mínima, todo parágrafo é medíocre, todo
texto é falho e, todo livro, um simples relapso irrisório de algo inexplicável.
A somatória do texto é uma construção de migalhas
que, por vezes, mesmo somadas, ainda não fluem, não coexistem ou não se tornam
eternas. Não fazem valer, não tocam ninguém além do escritor, se tornam
esquecidas, se fazem supérfluas, se colocam ao esquecimento, se confundem com
qualquer coisa, passam simplesmente como perda de tempo de um ser que tentou fazer-se
além da morte num cômico ato de arrogância.
Porém, o que nos leva a escrever está além da razão,
além do entendimento. A escrita é o entendimento em processamento. Todo poeta é
um fracassado, iludido em si, até que se prove o contrário. Mas, qual a
importância disso?! O esmiuçar sofrível das coisas sem lugar, a tradução
inexprimível das memórias do Universo, o desembaraçar inconcluso da rede esfarrapada
que nos prende, a transpiração voluntária dos processos primários desta
infinita caminhada de cegos, essas coisas fazem todo sentido para as insanas almas
dos seres que escrevem.
Escrever é quase um processo sádico que preferimos
prosseguir como um átomo desesperado de auto-indulgência.
Tentar quebrar o desvão insígnico do vácuo que nos lota
de ecos do além, vencer a trêmula existência de nossos corpos inoperantes que
teimam em não nos obedecer, erguer os olhos para além das montanhas e
metrópoles e respirar o canto do mundo que mais nos pertence: o canto das
folhas, das canetas, das máquinas de escrever ou de suas modernas
versões, tudo isso somos nós, Benita!
Lutar
corpo a corpo com nossos destinos de perdedores, arrancar do silêncio nosso
grito mais belo, e ainda fazer isso constantemente. Sim, constantemente se
colocar a prova, pois, a cada velho texto superado, um novo desafio maior se
forma. E então, como que por não ter mais nada tão imperfeito a se fazer na
vida, novamente nos arriscamos a tentar quebrar as correntes dos intocáveis tesouros
de Deus e iniciar uma nova jornada que nos ocupará por horas, dias, meses ou
anos sem, no entanto, sabermos se tanto trabalho terá valido a pena para nos
salvar do mistério sem fim!
Boa
leitura, minha amiga!
Wagner Passos