quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Poder é querer?!

.

.

.

.
O poder é anterior ao querer.
.
O que eu posso é mais profundo
.
Do que aquilo que eu quero.
.
O poder é um querer que sabe de si.
.

.

.

.

O que é Deus?!


.

O meu sendo total
Que participo infinito?!

.

ou

.

O meu gerúndio radical
Do particípio infinitivo?!

.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Há alguns meses atrás

.
Eu chorei ao desvencilhar-me de uma razão que não condizia com meu coração. O ponto ao qual havia chegado não me satisfazia, embora não conseguisse ir além.
.
Ao ver aquelas crianças na rua, uma delas sem perna, resolvi comprar umas bebidas já que estavam comendo farinha com arroz e precisavam de algo para adoçar a boca e auxiliar a saliva. Depois de deixar que escolhessem, paguei uma Fanta Uva, um Nescau pronto e um suco Del Vale. Um para cada. Andando mais um pouco, pus-me a pensar bebadamente, e foi então que veio, como num assalto, a conclusão que, antes, eu não conseguira chegar:
.
Não cabe a nós julgarmos se elas foram merecedoras daquela condição, pois não temos direito para tanto e nem capacidade de análise tão profunda. Mas, por outro lado, é sólido à nossa condição, ajudá-las. Para isto, sim, temos razão suficiente e simples, que é justamente aquele bem-estar absoluto, ainda que temporário, de termos proporcionado um outro bem-estar, ainda que também temporário, a outro alguém.
.
Dormi bem aquele dia!
.

Uma noite em 67

.
Não gostei.

Poderiam ter feito mais do tema que tinham nas mãos.
.


domingo, 24 de outubro de 2010

Cândido ou O Otimismo – Voltaire

.
Livro de 150 páginas, divididas em 30 capítulos pequenos.
.
Nunca li um livro tão cheio de desgraças e que me fizesse rir tanto. Principalmente no final. Ri demais!!!
.
A obra conta a história de diversos personagens que passam por muitas e muitas e muitas coisas ruins em diversos pontos da Terra, e seus destinos vão se encontrando, separando e tornando a se encontrar, sempre tendo o personagem, que dá nome à trama, como centro dos acontecimentos.
.
Assim, tudo gira em torno de Cândido e sua obstinação em viver com seu amor, a jovem Cunegundes. Ele, que após ser criado dentro de um castelo, acreditando que este é o melhor dos mundos possíveis, é posto humilhantemente para fora, devido a uma tentativa de beijar as mãos de sua amada. A partir daí, as desgraças se sucedem, aos montes, pelas 150 páginas (130 na verdade, porque 20 são de informações sobre o autor e a obra), tentando colocar em cheque a visão otimista de mundo, trazendo questionamentos sobre a natureza boa ou má do ser - humano; uma enxurrada de realidades, maldades e pequeninices que soterram o personagem principal, sem que ele se deixe abater, daí o título: Cândido ou O Otimismo.
.
Outros personagens também juntam-se nesta jornada: Martinho (o cético), Pangloss (o filósofo otimista, mentor de Cândido), Paquette (uma moça nobre que se torna prostituta), Cacambo (bom escravo de origem latino-americana), a velha (que não recebe nome, nem tampouco piedade da vida) e outros.
.
O capítulo Vigésimo Quinto é particularmente muito bom. Cândido e Martinho visitam, em Veneza, o nobre Pococurante, profundo conhecedor da cultura e das ciências. Lá, este que poderia ser uma brecha de luzes aos olhos daqueles que tanto sofreram, se mostra, ao contrário, extremamente carrancudo e infeliz, negando tudo, não vendo beleza em nada. Ao final, Cândido, que permanece inocente (ou otimista!) faz elogios à Pococurante, por poder ele estar acima de tudo e ser dominador de seus conhecimentos. Martinho, por sua vez, mais velho e vivido, não concordando com a posição do personagem principal, arremata o assunto julgando o nobre enfadado pela vida, e propõe, assim, uma ótima colocação que pode ser expressa mais ou menos desta maneira: haveria algum prazer em não sentir prazer por coisa alguma?! Que sabedoria é essa?!
.
Outra passagem muito importante, a meu ver, é aquela em que os personagens vão visitar um dervixe, membro de uma confraria mística muçulmana, tido como o maior filósofo da Turquia. Este, ao ser questionado por Pangloss (já aqui apresentado como filósofo e mentor de Cândido) sobre as teorias filosóficas de causa e efeito ou sobre sua crença de que este é o melhor dos mundos possíveis e coisas do tipo, se mostra extremamente seco. Eis a passagem:
.
“ ... Pangloss tomou a palavra e disse-lhe:
- Mestre, viemos rogar-lhe que nos diga para que um animal tão estranho quanto o homem foi criado.
- Com que estás te metendo? – disse o dervixe. – Isso lá te diz respeito?
- Mas não, reverendo pai – disse Cândido -, há muito males horríveis na Terra.
- Que importa – disse o dervixe – que haja mal ou bem? Quando Sua Alteza envia um barco ao Egito, preocupa-se lá se os ratos que estão no barco estão à vontade ou não?
- Que é preciso fazer, então? – disse Pangloss.
- Ficar calado – disse o dervixe.”
.
Logo depois disso sucede-se uma frase grande de Pangloss e o dervixe bate a porta na cara deles.
.
Não sei se isso chega a ser algum tipo de crítica a algumas filosofias orientais, mas acredito que sim.
.
Por fim, após muitas discussões sobre a natureza do homem, coisa e tal, os personagens encontram um senhor tomando uma fresca e ele os ensina coisas muito importantes, como: tomar conta de seu espaço, ir com calma, ter círculos sociais bons. O homem mostra-os como ele mesmo, e seus filhos e filhas, cuidam de seu próprio espaço, de sua horta, sua terra, sua vida.
.
Ao final, como resultado deste contato, Cândido, após mais uma divagação de Pangloss a respeito deste ser “o melhor dos mundos possíveis”, encerra com a bela frase:
.
“ - Muito bem dito – respondeu Cândido -, mas TEMOS DE CULTIVAR NOSSO JARDIM.”
.
É tipo, “confia em Deus, mas amarra teu camelo”!
.
Achei bem bonito! Não é um livro pesado, apesar das desgraças que se sucedem longamente. A linguagem é fácil, há muita narração de fatos sem grandes divagações, bem ligeiro de ler. Acho também que a figura de Cândido (que possui esse nome por ser cândido) amansa um pouco o enredo. É um livro realmente de otimismo. Isso me agradou!
.
E, rapidamente: Voltaire... Dizem que escreveu a obra em 3 dias. Não duvido! Foi renegado pela França, exilou-se e, ao retornar ao país, já no fim da vida, foi ovacionado e nomeado para um cargo altíssimo dentro das ciências e das artes. Escreveu extensa obra filosófica e artística, como: romances, contos, peças teatro. Não era muito disciplinado. Fez-se notar como filósofo contestador, mais do que como construtor de uma obra interligada. Alguns dizem ser ele ateu, mas outros negam esta suposição. Voltaire não era contra a existência de Deus, mas contra dogmas e culpas pregadas, como a do pecado original!
.
Escreveu este livro para ir contra um filósofo, colocado aqui na figura de Pangloss, mas, pode-se concluir que ele não era realmente contra uma visão otimista de mundo, queria apenas uma ligeira reforma: para combater a idéia de “o melhor dos mundos possíveis”, propôs, por meio de seu personagem: “o melhor jardim que podemos cultivar”.
.
Recomendo essa que é considerada sua maior obra!
.

sábado, 23 de outubro de 2010

Contos de amor, de loucura e de morte – Horacio Quiroga



.
Autor meio uruguaio, meio argentino, com uma vida onde a morte foi bem presente. Primeiramente pela morte prematura do pai (não sabem se foi acidente ou suicídio), depois pelo suicídio (esse sim, comprovado) do padrasto que, paralítico, segurou o cano da arma com os dentes e puxou o gatilho com o pé (Que horror!) e também pelo próprio autor ter matado, sem querer, seu grande amigo quando examinava uma arma. Casou descasou, casou de novo, sempre com mulheres bem mais novas, o que não agradava as famílias das garotas. Fazia experiências com seus filhos, deixando do os sozinhos dentro da selva, ou dependurando-os a beira de barrancos, coisas do tipo.. Acho que não foi um sujeito muito ajustado das idéias, né!
.
Enfim...
.
A obra é bem legal! São 186 páginas divididas em 15 contos de tamanho variável. São eles:
.
1. Uma estação de amor
2. O solitário
3. A morte de Isolda
4. A galinha degolada
5. Os barcos suicidas
6. O travesseiro de plumas
7. À deriva
8. A insolação
9. O arame farpado
10. Os mensá
11. Yaguaí
12. Os pescadores de vigas
13. O mel silvestre
14. Nosso primeiro cigarro
15. A meningite e sua sombra
.
Os contos são muito forte e realmente, como dito nas notas do fim do livro: a narrativa fica pulsando dentro do leitor, mesmo depois de encerrada a leitura.
.
Dentre amor, loucura e morte, o que é mais constante, com muita certeza, é a morte, daí o parágrafo inicial dessa “resenha ou quase”. Há morte por degolação, morte por picada de cobra, morte por picada de inseto, morte por doença, morte por envenenamento, morte por suicídio, morte por sede, morte de gente, morte de animal, morte de cachorro, morte fingida, morte latente. É uma mortalidade total, salvando apenas alguns poucos, dentre eles o último que, para aliviar um pouco, narra um caso de amor bem sucedido.
.
Mas é imprescindível dizer que o autor domina muito bem a arte da concisão. Suas estórias se abrem rapidamente nas primeiríssimas linhas, como se, de repente, já houvesse no cenário, que ainda será composto, elementos conhecidos do leitor. Além disso, alguns contos, como o famoso “O Travesseiro de plumas” ou o “À deriva” impressionam pelo pequeno tamanho e tamanha intensidade: não são maiores que 7 páginas ou 6, mas, ainda assim, transmitem sua mensagem fortemente e nos tocam!
.
Gostei, mas demoraria um pouco até tomar contato novamente com alguma outra obra desse mesmo autor...
.
Pra encerrar, copio aqui o “Decálogo do perfeito contista” feito pelo próprio autor e presente nesta edição da editora Abril.
.
1 - Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus.
.
2 - Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonhes alcançá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.
.
3 - Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.
.
4 - Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.
.
5 - Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.
.
6 - Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si.
.
7 - Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo fraco. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.
.
8 - Pega teus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
.
9 - Não escrevas sob domínio da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.
.
10 - Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.
.



Caim – José Saramago

.
Último livro do escritor. Possui 172 páginas divididas em 13 capítulos de médio porte. É uma obra bem menor que “Memorial do Convento”. Não há muitas enrolações e partes cansativas como aquela procissão de nomes de santos que ocupa mais de 10 páginas, ou listagens de nomes de materiais para construção que preenchem outras tantas.
.
É uma leitura muito boa, gostosa e rápida, tanto é que iniciei o livro às 10 da manhã de quinta e o terminei às 19 horas do mesmo dia. Isso sem contar que nesse intervalo eu tive aula, almocei e outras coisas mais.
.
Saramago e sua ironia estão muito simpáticos nesse romance. Achei que iria me enfastiar de ver o dito ateu, mais uma vez, metendo o pau em deus e nas igrejas, mas até que a obra me conquistou muito bem.
.
É uma narrativa sobre Caim que cruza, por conseqüência de viagens temporais sofridas encima de um burrico, diversas passagens da Bíblia, como: a Arca de Nóe, o quase-assassinato de Isaac, os 40 dias que Moisés ficou no monte para falar com deus e outras.
.
Gostei muito quando aparece lilith, uma deusa de outra religião, em meio a esta romantização realista de uma narrativa bíblica. Gostei também de passagens bem humoradas, como a do anjo que teve problemas mecânicos na asa. Gostei também das discussões acaloradas entre caim e deus.
.
A propósito, todos os nomes se apresentam com letra minúscula.
.
Enfim, é o bom e velho Saramago, num livro em que ele acertou bem a mão, realizando com maestria o estilo cristalizado por ele. Um ótimo domínio de sua técnica, frases muito bem escritas, linguagem de boa postura.
.
Adorei!
.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

---------

.
Caim em 9 horas!!!
.

O coração das trevas – Joseph Conrad



.
Livro lançado em 1902 e é considerado um dos precursores do modernismo. Possui, nesta versão, mais ou menos 150 páginas, divididas em 3 grandes partes, sem títulos. A primeira conta a preparação, um pano de fundo geral de como o personagem principal chegou até aquele ponto; a segunda conta a subida do rio Congo e a terceira conta o encontro com o segundo personagem principal, que aparece bem pouco, mas toda a trama se desenrola em torno de sua pessoa.
.
A narrativa é acalorada, de linguagem vibrante, questionamentos profundos, sem, no entanto, chegar a grandes divagações internas. Os pensamentos intensos são sobre o que se vê, são descrições de personagens que passam pelo enredo, observações sobre a constância da natureza vista como uma quase vilã, também sobre a vida e questões mais filosóficas, mas não é super-carregado, infindável e meio mágico e metafísico, como em Clarice Lispector, por exemplo.
.
As palavras soam grandiloqüentes. Este é um daqueles livros que se pode declamar em voz alta. Gosto disso! Há partes que soam como verdadeiras poesias em linha reta: a prosa. O autor me parece encantado pelo vocábulo, um homem intenso, passional pela sua arte, e dotado de grande inspiração. Os fatos fluem belamente pelas páginas, com agilidade, ganham peso com o passar da trama. Uma leitura deliciosa! Tanto é que li em praticamente 2 dias.
.
Com tudo isso, pode ser espantoso pensar que, Joseph Conrad, marinheiro polonês por muito tempo, tem no inglês uma segunda língua. Sua literatura não se deu na sua língua de infância, mas seu apuro é tanto que é chamado por Virgínia Wolf de: o ilustre hóspede. Realmente a repercussão e prestígio conseguidos por ele são bem grandes.
.
Enquanto marinheiro, o autor trabalhou como capitão de um navio a vapor nas terras africanas na época da colonização inglesa e da exploração do marfim. A violência era tanta que alguns historiadores calculam ter morrido metade da população local neste período. E é exatamente essa a época que vai servir de material para “O coração das trevas”.
.
Tudo começa no cais de um navio, onde homens aguardam a hora de zarpar. De repente, um deles, Marlow, após uma lindíssima introdução do narrador, começa a narrar uma experiência vivida por ele, anos atrás. Por incrível que pareça, o narrador é presente, mas não é o que conta a história. E nem chega a ser um dos personagens principais, ele apenas ouve, e faz entradas muitíssimo espaçadas.
.
Além de Marlow, o outro personagem principal é Kurtz. Como já dito, ele aparece bem pouco, mas toda trama se dá em torno dele, ou de seu fantasma, por assim dizer. Aliás, ele aparece principalmente nas divagações de Marlow. Ouve-se falar muito bem de Kurtz, e Marlow, incumbido de resgatá-lo, fica ansioso para ver como um homem culto, dado às artes, eloqüente, se dispôs, e mais, resistiria a todo o terror daquele território.
.
É interessantíssimo o momento do encontro de ambos. A história chega ao ápice, quando, no meio de um território desconhecido e inóspito, Marlow e Kurtz observam um ritual de primitivos, na madrugada. Uma atmosfera tensa, que vinha sendo longamente criada pelo autor, vai tomando dimensões ainda mais fortes, a ponto do livro te levar pelas páginas. E Marlow segue adiante com suas metáforas (muitas e muitas e muitas mesmo) brilhantes, ocorrem diálogos simples entre os dois, mas muito bem colocados. O horror toma conta de tudo. Kurtz se mostra extremante ambicioso, extremamente lúcido, um caráter que varia do nobre ao horrendo.
.
Seria difícil descrever, com precisão, a personalidade de Kurtz. Ele aparece, como já mencionado, mais um fantasma das reflexões de Marlow, que um homem realmente. Se assemelhava a um alemão gigante, de voz calma, sanguinário que pintava quadros belos, respeitado pela coroa, temido pelos nativos, conhecedor das culturas locais, um nobre que, em verdade, se desgasta em sua ambição solitária em meio à selva africana. Acho que é isso! Eis uma boa tentativa de definição.
.
É um livro fantástico! Realmente interessante, realmente belo, realmente profundo. Marlow é o grande nisso tudo. Homem marinheiro, inteligente, sensível, embrutecido pelo avanço das experiências e que nos conta seu ponto de vista sobre o resgate de Kurtz. Acredito que o autor seja uma mescla do narrador e do próprio Marlow (o que realmente conta os fatos), restando ao narrador, primeiramente apresentado, apenas transcrever o contado.
.
Por fim, depois de toda expectativa de Marlow, Kurtz não chega a ser uma decepção, mas um delírio de civilização e barbárie, resumidos nas famosas palavras finais: “O horror, o horror”!
.
Pra finalizar, retirei um pedaço bem bonito que estava na página 122. A grande maioria dos parágrafos começa (apenas começa, mas não fecha) com aspas para indicar que, na verdade, não era o narrador que estava falando, mas apenas transcrevendo o que Marlow contou.
.
.
.
.
O trecho:
.
“E depois estiveram muito perto de me enterrar.
.
“Contudo, como vêem, não me juntei a Kurtz ali e naquele momento. Não. Fiquei para sonhar o pesadelo até o fim e para provar minha lealdade a Kurtz mais uma vez. Destino. Meu destino! Coisa engraçada é a vida – este misteriosos arranjo de lógica implacável para um objeto fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio – que chega tarde demais -, uma colheita interminável de arrependimentos. Eu lutei com a morte. É a luta menos excitante que se possa imaginar. Acontece num ambiente cinzento, sem nada por baixo, nada por cima, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de ceticismo morno, sem uma grande fé em nosso próprio direito, e ainda menos na de nosso adversário. Se essa é a forma da sabedoria definitiva, então a vida é um enigma maior do que alguns de nós pensávamos. Eu estava por um fio da derradeira oportunidade de me expressar e descobri, humilhado, que provavelmente não teria nada pra dizer.”
.
.
.
.
Gostei demais!!!
.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Trechos de “O coração das trevas” de Joseph Conrad

.
“… Não, é impossível; é impossível transmitir a sensação viva de qualquer época determinada de nossa existência – aquela que constitui a sua verdade, o seu significado, a sua essência sutil e contundente. É impossível. Vivemos, como sonhamos – sozinhos...”
.
“Não gosto de trabalho – ninguém gosta -, mas gosto do que existe no trabalho – a chance de a pessoa se encontrar. Sua própria realidade – para si mesma, não para os outros -, aquilo que nenhum outro homem jamais poderá saber.”
.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O assassinato e outras histórias – Anton Tchekhov



.
Livro composto por 6 contos de médio porte. São eles:
.
1 - O professor de letras
2 - O assassinato
3 - Os mujiques
4 - Iônitch
5 - Em serviço
6 - No fundo do barranco
.
Com textos de fácil compreensão e leitura ligeira, eles retratam diversos aspectos da Rússia do século XIX e início do século XX, época vivida pelo escritor. Anton Tchekhov passeia pela realidade dos pobres e dos ricos, habitantes urbanos ou rurais com muita propriedade, fazendo desta e de outras obras, também de sua autoria, um amplo painel russo.
.
O autor é considerado um dos maiores contistas de toda literatura, sendo que, não só um, mas diversos de seus contos aparecem nas listas das melhores narrativas curtas da história.
.
Análises psicológicas rápidas e não muito maçantes, descrição de cenários rurais, presença forte do realismo, como também de discussões sobre Deus e religião. O clima, na figura do inverno, também é bastante presente. A fome, a morte, grandes núcleos familiares onde se passam as tramas, bêbados, homens acabados, mendigos, bem como intelectuais das artes e madames, fazem parte do conjunto de personagens retratados nesta obra.
.
Gostei! Foi bem rápida a leitura. Uma prosa assentada, sincera, madura, sem muitos floreios, boa para ler no ônibus ou ler para descansar antes de dormir.
.

p.s: nome do autor em Russo é Антон Павлович Чехов

p.s 2: eu adoro a Rússia!!! Nem sei porque...




TPM Katrina


.

A Flávia Garrafa é o MÁXIMO!!!

.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Simplicidade-samurai



.
.
.
A simplicidade deve vir depois de muita procura
O automatismo simplista do quase-homem
É ordinariamente debochante-silencioso de si
.
A simplicidade é um núcleo de uma desbastada espiral
Rallentando singela de um porvir cristalizado
Prospectante de sentimentos-diamante
.
Simplicidade é um núcleo belo e assentado
Em meio a um jardim de caminhos abertos
Que não se caminha por se saberem além-errados
.
.
II
.
Tende a descuidada simplicidade à mediocridade
Mais que a intensidade ao exagero
Ou mesmo a própria loucura ao pó
.
.
III
.
A simplicidade não é o sábio oriental
Que não anda
Por conhecer todas as montanhas
.
Mas o próprio calçado desgastado
Largado à beira da porta
Antes de um derradeiro passeio pelo mundo
.
Já que o próprio mundo
É mesmo a continuação permissiva
De seu mais íntimo e profundo lar:
.
O sorriso-sim!!!
.
.
.



A Fábrica – Danilo Ferraz

.
Livro de poesias que ganhei do próprio autor, durante a turnê Pega Fogo Cabaret. É composto de quase 100 poemas.
.
Alguns bem pequenos, como:
.
Anne,
traga
Um poço
de
leite
pra
Mim!
.
Outros um pouco maiores, como alguns que estou com preguiça de copiar aqui.
.
Alguns bons, como:
.
O frio que cala a alma
é o mesmo ar que conduz
qualquer silêncio.
.
Preciso mudar minha estação.
.
Outros nem tanto, como:
.
Qualquer raio pode ser resplandecente
que nem o gozo de elipse
a natureza faz a dança
brinca de criança
e finge de anormal
.
Entre ondas magnéticas
a atração é ao ar livre
.
É quase fenomenal,
pois rompe o material
neste mundo plástico.
.
Em geral, o tom de desconstrução constante, às vezes, me soava excessivo, noutras era convincente, mas poderia ter sido um pouco evitado. A vontade de escapar de padrões acabava virando um novo padrão aprisionador, não deixando o autor ir além. Foi esta a minha impressão!
.
Ficou balanceado a quantidade de poesias que me agradaram e as que não me agradaram. Há também uma ligeira constante em relação aos temas, como: ressaca, amores dilacerados, alucinógenos, mente bagunçada, o som e uma tendência a estéticas estrangeiras, elementos não tão presentes no cotidiano brasileiro. Este último ponto me agradou!
.
Me parece também que faltou uma boa revisão, pois encontrei diversos erros na grafia das palavras. Houve também um caso mais grave de repetição de poesia. É necessário dizer que, por mais que devamos levar em conta que é um livro de caráter semi-profissional, esses cuidados deveriam ter sido tomados, afinal isso desvaloriza a obra e enfraquece o envolvimento do leitor que pode tender à descrença por estas falhas.
.
Por conta disso, às vezes eu não sabia se a falta de um ponto ou de uma letra maiúscula numa frase era proposital ou um erro. O autor mexeu um pouco com diferenças na distribuição das letras pela folha, usando às vezes texto justificando, às vezes letras menores, espaçamento diferente; também por se utilizar desses recursos gráficos, é que o cuidado na revisões se torna mais necessário.
.
Recomendo uma leitura!
.
Por fim, dentre algumas, coloco uma poesia (a propósito, nenhuma tem título) que achei bonita:
.
Como se esconde o egoísmo?
se os deixasse em travesseiros e nos trens tudo bem...
o problema é que o ego mora na pequena distância
entre o homem e seu deus.
.
Tudo é um círculo de vícios presentes
em bons pedaços distribuídos, em corações pulsantes.
.
Todos nós somos cabeças rolantes
.
A verdade é que as horas apunhalam
os sonhos e os sonhos apunhalam
o que está atrás dos olhos.
.
p.s: acredito que a frase “se os deixasse em travesseiros” deva ser “se o deixasse em travesseiros”, porque se trata do egoísmo.
.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nosso Lar (o filme)

.
Vi ontem.
.
Gostei da película, mas prefiro o filme sobre a vida do próprio Chico.
.
Nosso Lar também é legal, mas me parece que o primeiro é mais bem montado, tem mais conteúdo, profundidade e maturidade artística.
.
Os efeitos de Nosso Lar são lindíssimos, nem parecia filme brasileiro (uma das primeiras coisas que me passou na cabeça), mas a fantasia e, porque não, a apelação, teve um papel excessivo dentro do espaço criado pelo diretor e roteirista Wagner de Assis.
.
E, como não se deve fugir ao propósito inicial do psicografante do livro, que era o de trabalhar com profundidade as questões espíritas, acredito que, neste aspecto, o filme deixou a desejar.
.
Não que não houve conteúdo, mas é que, para um tema tão amplo e cativante, as possibilidades exploradas foram poucas e fracas.
.
Algumas cenas foram muito legais, como a da menina que toca piano na casa do André Luiz quando ele, o pai, volta para visitar a família como espírito. A cena do reencontro dele com a mãe, a reação das almas no Umbral quando um mentor vem para lhes oferecer ajuda. Pontos como esses merecem ser vistos!
.
O filme sobre Chico Xavier é mais simpático, envolve mais, tem um clima mais gostoso. Não tiro os méritos de Nosso lar, mas ele tem uma qualquer coisa de assepsia humana que não me agradou.
.
E este texto pode ser apenas uma tentativa de racionalizar uma preferência pessoal que nem eu mesmo sei bem o porquê!!!
.
Mas vale a pena assistir!
.