Este
é o primeiro romance de Fernando Sabino, um escritor mineiro nascido em BH no
dia 12 de Outubro de 1923 e falecido no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de
2004, as vésperas de completar 81 anos.
Não
sei se por ter nascido no dia das crianças, ou não, mas Sabino pediu que, no
seu Epitáfio, estivessem escritas as seguintes palavras:
"Aqui
jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!"
Acredito
que a escolha do autor não se deva somente por causa disso, mas acho que isso
possa ter o influenciado de alguma maneira.
O
livro, O Encontro Marcado, é um tanto autobiográfico. Em suas páginas o autor
descreve as passagens da vida de Eduardo Marciano, um jovem nascido em BH, e
que sonha em ser escritor.
Além
destes pontos principais em comum, diversas dedicações do personagem também
foram de seu criador. Ambos se dedicavam a escrever matérias para jornais,
ambos eram exímios nadadores, vencendo competições no nado Costas.
Estes
fatos evidentes se mesclam com outros mais sutis que não sabemos ao certo se
Sabino se baseou em experiências próprias para recriá-las em sua literatura.
Por
exemplo, há um relato extremamente interessante sobre o encontro de Eduardo
Marciano com um homem, todo vestido de preto, que entra num bar vazio onde ele
estava, e neste exato momento o relógio pára, marcando meia-noite. Este homem
puxa conversa com ele, ninguém mais entra no bar, e os dois travam um diálogo
pontual, que iria orientar o personagem daquele momento em diante em sua busca
por ser escritor.
Mais
adiante na narrativa, o personagem principal cruza novamente com este sujeito
que fala com ele como se o conhecesse há muito tempo sem que, no entanto,
Eduardo o reconheça de algum lugar.
Fiquei
pensando se não ocorreu algum fato paralelo com o próprio Fernando Sabino para
que ele se inspirasse e resolvesse relatar isso em uma de suas mais importantes
obras. Se realmente ele não encontrou com algum ser místico, um aparente desconhecido
que o conhecia tão bem, que chegou de preto, falou coisas exatas sobre sua
pessoa, como se viesse realmente para orientá-lo em algum momento em que o
autor estivesse muito mal, como foi o caso de Eduardo Marciano.
Além
disso, a bebida e suas conseqüências caóticas também é uma constante no livro, e acredito que também possa ter sido na vida
real do autor. Confusões diversas, traições, casamento que não dá certo,
noitadas longas de bebedeiras homéricas e coisas do tipo permeiam várias
passagens da obra.
Pode
ser que o próprio autor também tenha sido um homem de noitadas regadas a alguns
tipos de bebidas, afinal, sua morte, acontecida em sua casa no Rio, foi causada
por um T.A.F, Trauma Abdominal Fechado que atacou seu fígado. Tendo justamente atacado
seu fígado, há uma hipótese do personagem/autor terem arcado com as conseqüências
da literatura/ vida. Não acho que Sabino tenha necessariamente se arrebentado
tanto quanto o personagem, mas que um ponto principal de inspiração existiu,
isso eu acho que sim!
O
livro tem mais de 280 páginas que passam rápidas.
Muitos
diálogos interessantes se desenrolam entre Eduardo e diversos amigos de literatura
e de copo. A boemia, as confusões, as mulheres da vida, encrencas com policiais.
Os
pais do personagem, principalmente o pai, é uma figura muito interessante e
compreensiva com seu filho. Em várias passagens Eduardo é apoiado por ele, mais
de que por sua mãe. Em relação ao pai, pelo que me lembro, há uma passagem
muito bonita no livro que fala justamente de sua morte. Agora não sei se foi na
morte do pai ou da mãe, mas, Eduardo pressente o acontecimento que depois se
confirma pelo telefonema de algum conhecido.
É
legal como este livro permeia alguns caminhos das coisas inexplicáveis! Tudo
com muito cuidado para não soar apelativo, mas também reservando espaço para uma
crença silenciosa naquilo que a ciência não torna experimentável, mas que nem
por isso deixa de ser experienciável!
Outras
passagens tratam de seu primeiro casamento com uma garota mais nova e de uma
posição social superior que se torna um fiasco.
Já
outra constância de suma importância é o sonho do livro permeia toda obra, mas que
nunca se concretiza. No entanto, no paralelo arte/vida, para o autor, o relato
de um personagem que não consegue concretizar seu livro serviu de base para que
ele próprio concretizasse o seu, baseando-se em sua própria busca enquanto
escritor iniciante na arte do romance.
O
não-livro do fruto da recriação de si mesmo deu, ao escritor real, seu livro
realizado pelo ato de se encontrar na fantasia!
É
interessante! É a vida se realizando ao se reinventar por meio da arte!
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O
todo se divide da seguinte forma:
Primeira
parte: A Procura
I
– O Ponto de Partida
II
– A Geração Espontânea
III
– O Escolhido
Segunda
Parte: O Encontro
I
– Os Movimentos Simulados
II
– O Afogado
III
– A Viagem
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Por
fim, pelo que entendi, o tal encontro marcado, que é o objeto do título, é um
encontro do personagem com ele mesmo, mas que se mescla um pouco com o encontro
de Eduardo com Mauro, um amigo de adolescência que falta a um encontro marcado
há anos atrás. Este Mauro, no desenrolar da trama, se torna monge. Assim, este tal
encontro marcado é o encontro da pessoa consigo que se permeia da figura do
divino, afinal, o desfecho não se faz em outro lugar senão as portas de um
mosteiro.
Tem
um significado profundo neste desfecho!
Eduardo,
ao se encontrar, pela segunda vez, com Mauro, agora monge, não tem a menor
idéia de como será o dia seguinte de sua vida e o outro e o outro, mas isso,
para ele, deixa de ter sentido, deixa de incomodá-lo. Suas conversas com Mauro o
fazem se assentar um pouco mais, o fazem refletir sobre outros pontos até então
impensados!
Este
superar do incômodo, deixar simplesmente as coisas acontecerem, demonstra um
amadurecimento, uma superação do imediatismo da vida, um trabalho com sua
própria ansiedade.
Quando
ele retorna ao mosteiro para uma nova conversa com Mauro, Eduardo foi ao encontro
de si mesmo, ou o si mesmo que se encontrava naquela figura de um velho amigo
que havia traçado um caminho de vida totalmente diferente do seu, e que por
isso trazia o já conhecido e o novo, o familiar juntamente com um sopro de
renovação, além de um pouco de cristandade e quietude para sua alma!
E
assim se fez “O Encontro Marcado”!