sexta-feira, 21 de setembro de 2012

N



Sonhar é dor
Sonhar é ampliar a frustração
Ampliar a solidão do ser descartável
Sonhador solitário
Dentro de cada um de nunca ser
Portanto prefiro não sonhar
Nunca sonhar
Nunca acreditar em nada
Nada além do que se apalpa
Do que se vê
Do que se acredita perante rédeas
Prefiro não querer
Prefiro não sentir dores desnecessárias
Machucados sonhadores lançados ao solo
Não almejar o que nunca virá
Sou cético
Sou velho
Estou cansado
Estou descalço das quimeras
Estou descrente
Minhas tentativas frustradas
Meus desvãos incompletos
Meus senãos gritantes
Meus vazios ruidosos
Nunca nada não gritou tão vazio
Não sonhar nunca mais mais nunca
Apenas viver pela realidade imediata
Não quero vislumbrar
Não quero não negar não
Não quero pensar no amanhã
Não quero mais ponderar o ontem
Nem muito menos desvincular-me do agora
Não quero transcender belezas
Escolher novas verdades
Arregaçar horizontes perdidos
Perpetuar vácuos escapistas senilidade
Ir além do presente
Pois sonhar é dor
Sonhar é dor perpétua
Nunca realizei meus sonhos mais profundos
Nunca tive espaço para o que devir
Jamais meus pensamentos foram felizes
Minhas realizações sem espaço
Meus sentires sem infinito
Minhas linguagens sem plurais reais
Nunca realizei meus sentires inspiráveis
E acredito que nunca realizarei
Sou qualquer
Reles erradicado do oposto
Quebrável escapante intolerável
Incompreensível destino notívago
Sou menos que devia
Mais do que nunca poderia
Qualquer escorregadio servente
Que nunca teria oportunidade
De desvincular-se do mínimo
Sou zero
Sou raiz quadrada de zero
Sou zero vezes zero
Sou menos um vezes vácuo
Menos que o menos do nunca
Na potencia de nunca poder
No exponencial do jamais
Menos em qualquer soma
Subtração de qualquer beleza
Divisão irredimível
Multiplicação da impossibilidade
Matemática da subserviência
Jamais sim 
Não sou nunca não nunca
Um nada jamais num lugar nenhum
Do fim
Negação
Não negativo errônio
N's sucessivos
Somatizáveis dos opostos
E fim



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sucedente Suspirante


I

Saiu de casa para ver a vida
E nunca mais voltou
Saiu de casa para desejar caminhos
E jamais ao fim findou

Saiu de casa para sentir perícias vitais
E da vida delas viveu
Saiu de casa para evitar fazer rascunhos
E do caos se escreveu

II

Tornou-se eterno de si
Num riso que rindo se ri

III

Um descaso do destino
Um inesperado instante
Uma incontida revolta
Uma palpitação irritante
Uma santidade às avessas
Um não calado expectorante
Uma debilidade sinérgica
Uma epilepsia itinerante
Um tanto feito criança
Outro mais feito mutante
Um desatino repensado
Um jorrar-se agonizante
Um berreiro descampado
Um profundo trago suspirante
Um acalmado de profundezas
Uma reciclagem sufocante

Sucedeu cardíaco caótico que:

IV

Desinquieto do que vinha
Instável de suas amarras familiares
De seus passatempos eternos
De seus respiros de velhos ares

Resolveu próprio desembainhar passos
Pelas trilhas da vida a fora
Nas correntes de se ver o amanhã
O tudo, o nada, e o oposto, agora

Foi vicejar a pulsação do ventre
Deixar vagar os olhos por onde se queria
Colher frutos da tempestade
Organizar a vida com suficiente revelia

Redistribuir seus amores pelos cantos
Cantar feito pássaro irredimível
Rebentar qualquer arco de razão
Que ameaçasse teu peito sensível

V

Desembestar arrastão
Sem nenhum plano
Sem nenhuma revolução
Sem nenhum traçado no rosto
Sem pensar maldição
Sem sentir-se oposto
Sem mínima repreensão

VI

Fluxos e latências
No corpo
Na face
No próprio peito
Na alma
No gesto
No justo jeito

Coro de impacto
Na pele
No pulso
No posto deposto
Nos olhos
Nos lábios
No rosto proposto

VII

Foi indo como água
Que aglomera correnteza
E baseia-se sua mais alta lei
Na gravidade e na leveza

Foi então desenhar sua caricatura
No cerne da realidade
Cultivar seus desvãos
Minimizar a sanidade

Ouvir seus estalos internos
Seus ruídos no envolvente futuro
Uma revelação coloquial qualquer
No meio do semblante escuro

A tentativa de ir ainda em frente
No submundo que pulsa vitalício
O enrodilhado dos lábios envolvente
Cercar teu reconhecido precipício

E assim quase nunca mais voltou
Para seus longínquos idos anteriores
Desfez absolutamente o ontem
Pulverizando recalcitrantes dores

Caminhou em chão de terra
Deitou nos quartos crescentes
Pisou os passos pessoais
Gosto gentil geral de gentes

Inverteu a lógica do mundo
Revelou o negativo desespero
Escalou a montanha do ontem  
Ceifou qualquer casto cativeiro

Embainhou o vértice do momento
No horizonte reviveu os amanhãs
Acariciou da lua a soberania
Propôs tuas múltiplas penas pagãs

Nas paredes imprimiu intensos gestos
Da areia se fez vento de embalar
O invisível por seus pés soltaram vozes
E a tarde por sua mão dormiu no mar

VIII

Mas o tempo passou sem destino
E o instante iniciado ainda menino
Fez-se feito num volume gigante
Então o homem que andava de impulsos
Embebeu-se numa tarde em soluços
Balançou seu pensar de caminhante

Sentiu como tanto andou impensado
Figurou-se do olhar tão mau olhado
E os desejos de por nada impressionar
Coleção de longeva libertinagem
Estridentes arredores sem coragem
De permitir num carinho se assentar

Por que tanta reunião de tantos nadas?
Por que nunca pressentiu vozes abafadas?
Por que pouco deu valor ao seu vazio?
Por que as fugas para alhures do deserto?
Por qual motivo foi tão certo do incerto?
Por que sempre muito mais lançar-se ao frio?

IX

Ser tão vácuo
Ser tão inócuo
Ser tão desajustado
Ser vil conspícuo
Reles profícuo
Servente indesejado

Não querer ser pronto
Não querer ser muito
Não querer ser passado
Não querer ser tanto
Não querer ser outro
Só querer ladino lado

Não ouvir sermão
Não prestar perdão
Não sentir aconchego
Arrastar-se no desvão
Negativa obsessão
Apegar-se ao desapego

X

Veio a pausa ríspida do vago tempo que espanta
Na mão do destino o seu silencio se agiganta
A auto-piedade de um passado que se suplanta

Verte o eterno retorno do filho mais errado
A cabeça baixa por um peito mais calado
Ao entrar na casa do jardim mais renegado

E bater na porta pra pedir nova abertura
Querer abraço daqueles seres da infância pura 
E enfim falar dos riscos novos de tua boa e velha armadura