Sonhar é dor
Sonhar é ampliar a frustração
Ampliar a solidão do ser descartável
Sonhador solitário
Dentro de cada um de nunca ser
Portanto prefiro não sonhar
Nunca sonhar
Nunca acreditar em nada
Nada além do que se apalpa
Do que se vê
Do que se acredita perante rédeas
Prefiro não querer
Prefiro não sentir dores desnecessárias
Machucados sonhadores lançados ao solo
Não almejar o que nunca virá
Sou cético
Sou velho
Estou cansado
Estou descalço das quimeras
Estou descrente
Minhas tentativas frustradas
Meus desvãos incompletos
Meus senãos gritantes
Meus vazios ruidosos
Nunca nada não gritou tão vazio
Não sonhar nunca mais mais nunca
Apenas viver pela realidade imediata
Não quero vislumbrar
Não quero não negar não
Não quero pensar no amanhã
Não quero mais ponderar o ontem
Nem muito menos desvincular-me do agora
Não quero transcender belezas
Escolher novas verdades
Arregaçar horizontes perdidos
Perpetuar vácuos escapistas senilidade
Ir além do presente
Pois sonhar é dor
Sonhar é dor perpétua
Nunca realizei meus sonhos mais profundos
Nunca tive espaço para o que devir
Jamais meus pensamentos foram felizes
Minhas realizações sem espaço
Meus sentires sem infinito
Minhas linguagens sem plurais reais
Nunca realizei meus sentires inspiráveis
E acredito que nunca realizarei
Sou qualquer
Reles erradicado do oposto
Quebrável escapante intolerável
Incompreensível destino notívago
Sou menos que devia
Mais do que nunca poderia
Qualquer escorregadio servente
Que nunca teria oportunidade
De desvincular-se do mínimo
Sou zero
Sou raiz quadrada de zero
Sou zero vezes zero
Sou menos um vezes vácuo
Menos que o menos do nunca
Na potencia de nunca poder
No exponencial do jamais
Menos em qualquer soma
Subtração de qualquer beleza
Divisão irredimível
Multiplicação da impossibilidade
Matemática da subserviência
Jamais sim
Não sou nunca não nunca
Um nada jamais num lugar nenhum
Do fim
Negação
Não negativo errônio
N's sucessivos
Somatizáveis dos opostos
E fim
