quarta-feira, 30 de março de 2011

Hipóteses para o amor e a verdade



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Texto: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez.
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Direção: Rodolfo García Vázquez.
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Assistente de direção: Fábio Penna.
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Cenário e Figurino: Marcelo Maffei.
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Iluminação: Rodolfo García Vázquez e Fábio Cabral.
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Elenco: Esther Antunes, Gustavo Ferreira, Leo Moreira, Maria Casadevall, Paulinho Faria, Phedra De Córdoba, Tânia Granussi e Tiago Leal.
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Realização: Os Satyros.
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Direção de produção: Erika Barbosa.
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Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h30.
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Onde: Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214.
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Quanto: R$ 30,00; R$ 15,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt).
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Lotação: 70 lugares.
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Duração: 90 min.
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Classificação: 18 anos.
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Moradores do centro se São Paulo, prostitutas, transexuais, travestis, lésbicas, solitários, nerds, todos em cena, discutindo a solidão, o amor, interagindo com a platéia, telefonando realmente para celulares e/ou Disk Pizza para falar de suas carências, entrando em sites de relacionamentos. Há cenas de nudismo, manipulação, assassinato, prostituição.
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127 horas


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Ando com uma preguiça de escrever resenhas. Não tenho preguiça de escrever, em geral, mas é que tenho que escrever outras coisas mais importantes, e daí resta pouco pique pra falar do que eu andei assistindo.
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Por isso, aqui vai algumas considerações bem sucintas sobre o filme 127 horas.
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Ficha técnica:
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Título original: 127 Hours
Lançamento: 2010 (Reino Unido, EUA)
Direção: Danny Boyle
Atores: James Franco, Lizzy Caplan, Treat Williams, Kate Burton.
Duração: 93 minutos
Gênero: Drama
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Minha primeira pergunta sobre esse filme, antes de assisti-lo era:
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Como fazer com que um filme sobre um homem preso num mesmo lugar por 127 horas não se torne uma coisa chata?
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O diretor de “Quem quer ser um milionário?” é fera em contar histórias de jeitos diferentes. E no 127 horas ele acertou de novo. Digressões, visões fantasiosas e coisas do tipo enriqueceram a trama. Uma edição fora dos padrões de Hollywood pode causar estranheza no início, mas faz sentido dentro da proposta geral do filme.
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Só achei que às vezes o ator principal deixou a desejar, um pouco. Não que ele não estivesse bem, mas é que precisava estar um pouco mais convincente nas cenas fortíssimas e dificílimas que se passaram.
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Mas gostei bastante!
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Só mais uma coisa:
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Seria James Franco (nascido em 1978) a reencarnação de James Dean (morto em 1955)? Bobagem!!! Mas que parece, parece!
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sexta-feira, 25 de março de 2011

Maaaara!

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Como dizer pra uma pessoa que sua fase boa acabou?
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- Stevie Wonder, agora não estou mais!!!
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sexta-feira, 18 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Oito contos de amor – Lygia Fagundes Telles



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São eles:
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As cerejas
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Pomba enamorada ou uma história de amor
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As pérolas
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Herbarium
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A chave
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Apenas um saxofone
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O encontro
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A estrutura da bolha de sabão
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Já havia lido este livro há mais de 10 anos atrás, pro colégio. Fazia parte das leituras do primeiro ano colegial. Na época, lembro-me que não gostei muito. Achei difícil, enfezei com tudo aquilo, achei muito hermético, chato, umas frases que pulavam sem sentido. Por isso havia deixado ele na pilha dos que eu ainda iria ler e não na pilha dos já lidos.
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E minha visão, neste segundo, super espaçado, contato, foi outra, afinal, mais três anos e eu terei o DOBRO da idade que eu tinha quando li pela primeira vez. 15 x 2 = 30 (TRINTA)...
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Achei muito gostoso!
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Contos de no máximo 10 páginas, muitíssimo bem escritos. Lygia Fagundes Telles é fantasticamente sensível, sabe trabalhar as quebras de frases muito bem, as aspas, os poucos travessões. Uma agilidade cativante e, por vezes, perigosa. A autora também trabalha muito com aquilo que não se diz e se deixa subentendido no entre palavras, num gesto que se faz ou num olhar que não houve, mas que, mesmo assim, coube sua inexistência no canto de um parágrafo preciso. Também trabalha precisamente o que é nuclear no de repente do espaço de um relâmpago, e faz-se então a traição revelada no meio instante da noite. São coisas assim, um palavrão rasgando esquivo na mente e que acaba por transformar toda a percepção que temos de um personagem, um linguajar desigual que basta para sabemos se aquilo está sendo falado ou simplesmente pensado.
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Por tudo isso, pode-se afirmar ser uma mulher de inteligência rara, com muita certeza!
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Sobre os contos, Sônia Régis afirmou:
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“O passado fantasia o encadeamento do presente, o presente é carregado de transcendência, tudo exposto nos tensos nervos dos signos. A palavra é a consciência da vida se construindo, já que, como afirmou Clarice Lispector, “atrás do pensamento não há palavras: é-se” (Água viva)”.
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Aliás, falando em Clarice, arrisco, não sem insegurança, colocar Lygia Fagundes Telles no mesmo patamar dela.
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Acredito que Lygia trabalhe melhor as sutilezas, o não revelar de tudo. Ela tem menos necessidade de explicar o mundo. Tenho essa impressão! Seus contos são mais concisos, mais diretos. Ela aceita melhor as coisas como são. Deixa-as no ar.
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Já Clarice é mais dolorida, esmiúça incessantemente, cansativamente os mistérios do humano, revelando e revelando sempre mais e mais aquelas tantas coisas que ela sentia e escrevia num volume grandioso. Mesmo seus contos, que são, por natureza, mais enxutos, não praticam a arte do menos dizer como os da autora do livro desta resenha.
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Precisaria ler então um romance da Lygia pra poder ver cada uma delas naqueles que me parecem seus terrenos dominantes!
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Lygia me parece mais feliz, mais leve, mais cirúrgica, mas nunca menos profunda ou menos sábia! Clarice é mais pesada, densa, mas também, nem por isso, mais brilhante!
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Acho que são modos diferentes de serem escritorAs!
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É interessante pensar na personalidade que está por detrás das palavras. Pensar naquele ou naquela que pensou em tudo aquilo e que possui o contexto interno suficiente para fazer real todo aquele mundo literário pós-posto no papel!
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Os contos, como diz o título da obra, falam de amor, amor de diversas maneiras: amor de adolescente, amor de mulher, amor de homem, amor de menina, amor mais jovem, amor mais maduro, amor que não aconteceu, amor que aconteceu mas terminou, amor descartado, amor eterno. Destes amores, os amantes são: personagens xucros, personagens intelectuais, cientistas, aposentados, estudantes, curiosos, ajudantes de cabeleireira. Uma riqueza por qualquer ângulo que se olhe!
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Dos oito totais, já listados no início, os melhores, para mim, são:
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- Apenas um saxofone – um doce de estória sobre uma prostituta e um homem sem ambições. Juras e desafios de amor. Um sax que dizia o indizível e uma entrega demasiada de uma alma póstuma.
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As cerejas – o clarão, uma revelação, uma traição e sua visão fez de uma mocinha alguém um pouco mais mulher ou um pouco menos menina. O desencanto de um amor platônico!
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O encontro – impressionante viagem de um episódio vívido e desolador onde uma mulher se vê naquilo que antecede seu fim em outros tempos.
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A estrutura da bolha de sabão – denso conto de apenas cinco páginas, onde as quebras de narrativa são intensas e as nuances ainda mais presentes. Algo mais que uma amizade, o fim de tudo. A estrutura da bolha de sabão é como o amor: nem sólido, nem líquido, nem mesmo gasoso. Reflete milhares de olhos em sua superfície, mas, por vezes não consegue enxergar. As bolhas, como o amor, devem ser criadas aos poucos, soprando aos poucos a matéria da qual se constrói, pois são frágeis, singelas. Assim também é o amor!
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Adorei o livro! Pequeno, mas gigante profundo!


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Incêndios



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Domingo resolvi ir ao cinema e ver uma coisa bem leve. Subi a Consolação, entrei na Paulista e fui olhar pelos cinemas às cegas, já que o site Guia da Semana não estava entrando aqui na internet lenta da minha casa! Aliás, este site entra quando quer, não tem outra explicação. Desconfio que meu computador tenha vontade própria!
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Enfim, fui, olhei, olhei e acabei parando no Espaço Unibanco. Comprei meia-entrada para ver um filme que nunca tinha ouvido falar: Incêndios, do diretor Denis Villeneuve numa produção franco-canadense. Filme em francês geralmente é muito bom, mas o critério desta vez não foi a qualidade que eu esperava da película. Escolhi este pela conveniência. Não queria ficar esperando muito tempo rodando pela rua. Queria algo leve, rápido, que logo começasse, para que logo terminasse e que me valesse o acaso!
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Em vinte minutos seria o início. Enrolei, comprei uma Coca, vi uns CD’s numa loja ali perto, terminei o refrigerante. Às oito e cinqüenta e cinco deixei que a mulher rasgasse meu bilhete. Às oito e cinqüenta e sete sentei na poltrona. Nove horas estava marcado.
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Mas nove e vinte ainda estava passando propagandas de filmes e anunciantes diversos. Ou seja, minha vontade de começar rápido já estava sendo vencida! Depois desta última olhada no relógio, começou o tão desconhecido: Incêndios.
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Olha, se eu estava à procura de um filme leve, esse não serviria nunca! A risada mais gostosa de todos os 130 minutos de película foi dada por um estuprador, mas quando percebi isso, já era tarde demais.
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Primeiro que começa com a morte da mãe de dois gêmeos, um rapaz e uma garota. Ou seja, uma maneira muito branda de começar um filme... A mãe, interpretada pela atriz Lubna Azabal, escreve um testamento contanto que seus filhos tinham um irmão e um pai que ainda estavam vivos. Os dois recebem a incumbência de entregar duas cartas, uma escrita para cada um dos dois personagens que ainda seriam desvelados. Após este primeiro passo, uma terceira carta seria entregue aos dois.
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Caso isto não fosse cumprido, a mãe gostaria de ser enterrada numa vala comum, enrolada num pano simples e de costas para a saída. Se tudo fosse feito, ela, só então, aceitaria ser enterrada normalmente.
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O rapaz, interpretado pelo ator Maxim Gaudette não queria realizar nenhum dos pedidos da mãe, ou seja, nem entregar cartas e nem enterrá-la de costas e etc. Já a filha, interpretada pela atriz Mélissa Désormeaux resolve organizar tudo e parte para a terra natal da mãe, lá no Oriente Médio, atrás de suas raízes suas (sim!).
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O filme é completamente não linear. Cenas do presente e do passado vão se permeando. Estão lá passagens da adolescência da mãe, as coisas horríveis que ela passou. Cenas da procura pelo irmão e pelo pai desconhecidos mostram que o enigma seria de difícil solução, então a filha resolve chamar seu irmão gêmeo para ajudá-la. Eles descobrem que a mãe não é bem quista em sua aldeia natal. Há cenas numa prisão horrível, uma cela ensangüentada, massacre de pessoas inocentes, morte de crianças, começa uma guerra religiosa, há cenas de assassinato, gritos de um estupro, tortura ordinária em piedade, tiros a queima roupa, fogo sobre corpos desprotegidos, loucura de uma mulher que é obrigada a parar de cantar, mas que mantém seu canto como forma de pirraça frente às desmazelas e horrores que lhe batem à cara, desconstrução de muitas almas, a descrença generalizada, mulheres sendo rudimentarizadas, puritanismo dos mais fortes, população desmantelada, intolerância para com o próximo ser-humano, ódio contra uma condição de vida subjugada, pobreza esparramando-se a todos os cantos que se olha, sangue em solo sagrado, fundamentalismo de um conflito sem começo nem fim, violência desmedida, machismo antiquado, caos social e político, coisas e mais coisas e mais coisas e tudo isso vai avolumando e pintando um painel macabro que culmina na frase, dita pelo irmão à sua gêmea:
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- Um mais um são dois, né?! Um mais um não pode ser um!
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Caraaaalho!!!
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O susto que a irmã leva a gente também leva... Esta frase é a primeira confirmação de uma suspeita leve é muitissimamente destestável que vai se germinando com o passar das cenas!
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Vale lembrar que partes do filme recebem nomes específicos, ou seja, subtítulos que contextualizam pedaços da trama.
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No fim, depois de tudo isso, eles conseguem entregar as cartas ao irmão e ao pai e enfim abrem a mensagem escrita para eles...
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Nela há palavras de amor de uma mãe que muito sofreu e que aconselha seus filhos a encerrarem o ciclo do ódio iniciado frente ao amor que ela sentiu por um homem e que fez com que toda sua vida fosse destruída compulsivamente, trazendo desgraça encima de desgraça até levá-la a um patamar de fastio e latência insossa perante o mundo.
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Realmente a mulher, ao fim da vida, estava um bagaço! Coitada!
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Agora vou falar o segredo do filme de uma maneira cifrada... Se alguém descobrir, me conte. É difícil escrever no limiar do entendível, e pensar no que poderia estar passando na cabeça daquele que lê. Procurei fazer algo que quase mostrasse a resposta.
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O ciclo de ódio só poderia ser totalmente revelado se auto-revelado já que contado seria inacreditável e explosivo. Ainda seguindo esta lógica, o desvelar homeopático era necessário e assim foi feito para que enfim fossem capazes de quebrá-lo exatamente pela busca executada pelos gêmeos atrás do pai e do irmão perdido. Mas isto não bastava... Além de pausadamente relevado, este deveria ser sublimado e isto viria da própria capacidade deles de perdão, perdão necessário para abrandar aquele fundo de trama que, culminando na cena da piscina em que a mãe tem uma visão de uma tatuagem e de um semblante torturante, isto a paralisa e leva-a a ir ainda mais fundo quando ela pensava que seu vazio doloroso não poderia ser quebrado por mais nada. Mas foi, de qualquer maneira, por aquilo que ela lembrava ter sido seu ventre contrito e desgarrado pintado, sendo que dentro dela se fez amor e se fez o querer dos anos vívidos e levados a ferro e fogo e muito ferro recíproco, num oposto cíclico teórico-psicanalítico daquele que, expulsado, seria tão expulsante que, capaz do ato, ainda que sem saber do fato, vociferou horrorosamente o desconserto final da personagem principal.
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Um simbolismo do ventre da água que guarda o silêncio dentro de si para emergir no fogo que circunda os personagens nos muitos “incêndios” da vida.
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A cena final, diante do túmulo da mãe, recebe, enfim, o nome de “Incêndio”, no singular, revelando, portanto, o título da trama, após os muitos subtítulos apresentados ao longo das duas horas e dez minutos de estória. É deixado então que o silêncio da imaginação de cada um construa aquilo que seria os desdobramentos de um fogo interno eterno a ruir uma alma assassina e maléfica acostumada a matar desde pequeno...
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É um filme impressionante! Quando comecei a desvendar a trama, a primeira coisa que me passou na cabeça foi: não é possível que seja isso! Isso seria demais!
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Saí do cinema bem pela beleza da montagem apresentada, apesar de tudo que aqui foi narrado. Não vi o filme leve e rápido que queria, mas talvez tenha sido melhor ver estes tantos incêndios para apagar o incêndio que eu estava dentro de mim depois do final de semana...
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O discurso do rei

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Há duas semanas, fui assistir ao tão falado, e agora quatro vezes coroado (Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original): O discurso do rei.
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Antes mesmo de ver, tinha a impressão de que seria um filme meio paradinho, cultzinho, aristocrático. E realmente foi!
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Por um bom tempo, dentro da sala do cinema, a postura daquele que ainda seria o George VI, sua respectiva esposa, mesmo o terapeuta da fala e sua família estereotipada além de outros personagens; todo aquele climazinho “reação-mínima-contida-na-atuação-da-menor-grandeza” somado ao “não-me-toque-não-se-misture” da Grã-Bretanha da primeira metade do século XX estavam me enchendo bastante.
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Era o reizinho travado, sua mulher chata e o terapeuta finamente irônico em ação...
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Mas a amizade tão singela que foi se construindo entre o rei e o ex-ator, o esforço tão verdadeiro de um homem para ser capaz de passar palavras de consolo e animosidade a uma nação às portas de uma grande guerra foram me comovendo.
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No final me envolvi com tudo aquilo e achei bastante interessante a forma como toda a trama e o próprio discurso final do rei foi coerente com as dificuldades do protagonista apresentadas ao longo das cenas.
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Ou seja, uma nuance tão delicada de se trabalhar na ficção como a “melhoria da gagueira de um personagem” foi, durante o decorrer do filme, tão bem desenvolvida que me convenceu de que realmente foi o rei que, com ajuda e com seu próprio esforço, conseguiu dizer tudo aquilo. Não houve saltos, um tempo que passasse e de repente o rei estava falando bonito ou coisas do tipo.
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Mais uma coisa... Rolou uma crítica de que “O discurso do rei” teria sido feito pra agradar a academia e ganhar Oscar. Acho que isso é verdade! Se era isso mesmo, eles alcançaram seus objetivos.
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