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Deixei recair
Por sobre a ponta de meu dedo
Uma preguiçosa gota d`água
E então redigi estas medíocres palavras
À pena e à peito, apenas...
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Não sei bem por quê
Aqui veio visitar-me
Dentro desta suspensa escuridão
Tão sublime entidade capsular
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Mas, ocorreu que...
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II
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Cheguei-me a janela
Por um chamado do acaso
Que gritou meu nome
No início exato
De uma convincente chuva
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Lancei meu braço esquerdo
Estendendo-o suspenso
Por sobre a altura abissal deste terraço
E foi quando me tocou
De repente
Esta particular lágrima incauta
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Coloquei-me, então, a pensar
Após este pueril convite
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III
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Ela, a gota, em si
É a redoma precípua
De um gigantesco ciclo
Que agora aqui repousa
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Caiu ela dos céus
Vindo desta rebaixada atmosfera noturna
Precipitando-se das nuvens
Esgarçando um breu quase concreto
Que se recostou pesado
Por sobre os prédios
De uma dormente Paulicéia
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Seus pseudo-contornos
Sua interna atmosfera
Sua translucidez alquímica de paisagens
Possuem uma moral ancestral
Que suplanta a minha reles
E passageira existência física
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Sua beleza quase imaterial
Ultrapassa minhas toscas deformidades
Lipídicas, calcificadas
E cartilaginosas infraestruturas da sobrevivência
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Sua transitoriedade perene
Adianta-se ao além de toda célula
E assim recordou-me
De minha mortandade contínua
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Ela é bela, perfeita e imortal!
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Enquanto eu, logo amanhã
Já estarei me esvaindo em restos putrefatos
Cercados num caixote submerso
Esta sutil guerreira
Ainda persistirá indefinidamente
A caminho de uma sempre nova fruti-fluidez
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Ela é elo que amarra todos os biomas
Ente basilar da vida em perpetuação
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Ela é membrana que amalgama a materialidade
Abrindo o portal conector dos entre mundos
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Ela é dedo divino
Afunilando e permitindo a manifestação
Das etéreas vibrações
Que precisam desta lágrima inanimada
Para poderem aqui se assentar
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Sei
Como um ordinário humano
Que meus caminhos são desprezíveis
Perante tal átomo imprescindível a toda vida
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Minha maneira
O tipo de função que ocupo
É descartável dentro da ordenação universal
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Já ela é o próprio chão
O solo por sobre o qual
Todas as coisas viventes
Se fazem plausíveis
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IV
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Mas um vento sem membranas
Atinge-me neste instante
E leva consigo em seu desatino
Esta instantânea e ínfima companheira
Que me absorveu em sua significação
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Foi-se a gota
Minúscula amiga de devaneios
Para o predial abismo
Que abaixo de meus pés se estende
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Ela desocupou-se
Arranjou-se e sobreviveu
Na inalienável certeza
De se saber imortal
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Enquanto eu aqui fico
Tornando-me re-casulo
Enclausurando-me mais uma vez
Feito órfão que se descolore
No término de mais um desatino lírico
Este descartável poema inespecífico
Que preferi realizar
Na esperança de um pouco gota
Talvez um dia
Me transformar...
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