sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Minimumano

Espanta-me a cotidiana invalidez contemporânea dos seres comuns, a forma destituída de essência das personas virtuais que se moldam segundo os parâmetros de aldeia global, uma não-aldeia calcada na exclusão dos inferiores e na inveja para com aqueles que conseguiram se inserir melhor do que nós.
.
Vejo aos milhões uma nova espécie biológica a se desenvolver nos mais diversos ecossistemas do planeta em que habitamos: o Homus Intus Vacua, homens líquidos que querem esquecer da pequenez de suas condições, enfeitando seus perfis egoicos com imagens vazias e referências cegamente compradas. 
.
Diverte-me suas formas de se mostrarem aos olhares anônimos por meio de suas carências fotográficas que berram disfarçadamente a vontade de serem admirados sem, no entanto, deixarem isso às claras.
.
Aliás, a aparência é o bem mais preservado por esta nova espécie humana que se desenvolve neste terceiro milênio. 
.
Suas viagens são para serem vividas e compartilhadas nas redes sociais. 
.
Suas comidas devem ser vistas por centenas, milhares e, se possível, milhões de pessoas em quantos mais lugares diferentes quantos forem possíveis de alcançar. 
.
Suas felicidades necessitam de serem divididas com pessoas que, assim como o próprio indivíduo autor de uma postagem qualquer, não estão dando a mínima para o que o protagonista da vez faz ou deixa de fazer nas horas que lhe couberam viver neste planeta.
.
Suas roupas são expressões de suas ideias. Elas contêm frases montadas por outros, mas que os homens líquidos, urgentemente, precisam estampar em seus corpos, em suas blusas modernosas, em seus casacos diferenciados, levando o dito âmago de suas mais enraizadas convicções por onde quer que circulem seus corpos insossos.
.
Também me divirto com os aforismos categóricos que muitos filósofos medíocres estampam em suas redes, demonstrando o refinamento de suas elaborações de mundo, suas ideias altivas, seus caminhos de entendimentos de grande sensibilidade: olhares esclarecidos para aspectos diversos de um mundo que eles somente acreditam entender.
.
Onde está a realidade palpável dos sentimentos que se assentam dentro dos corações? 
.
Onde está o olhar demorado que se nos convida a uma entrega sincera, mesmo que, por vezes, tal entrega possa acontecer em meio a um turbilhão de migalhas disformes?
.
Onde ficou esquecido o canto da simplicidade entoado por nossos ancestrais? O canto eterno e uterino do homem nuclear que, mesmo não conhecendo os últimos avanços científicos, sabia da avançadíssima ciência atemporal chamada “AMOR AO PRÓXIMO”!
.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Inanição


Em novo ato
Desato
Voluntariamente
Meu trato
Verbal
Literal
Visceral
Porém incrustado
Minguado
Inacabado
Destituído
Que se me amedronta
Posto que
Há muito que pouco faço
Há tanto que vil regaço
De mim não se desprende
Nem a mim me surpreende
Já que nada daqui faz brotar
O que no daqui se fez morar
Sou silêncio poeta
Silêncio senão
Silente sermão
Inválido rincão
Desérticas reentrâncias mentais
Amiudadas pela longitude
A longitude da juventude
Que tanto passou
Desterrada inspiração
Que secou
Pelos anos passados a fio
Fio que foi me tecendo
Me cedendo
Me enroscando
Me perdendo
Os anos passados
De um labutado trabalho
Inundante de minhas horas
Abundante ressequido
A mim ressecou
Homem não mais menino
Esquisito feito inumano
Incapacitado escrevente
Diminuída mente
Palavras desvairadas
Traçado reluzente
Que desgarrou de meus sonhos
E em mim não mais me proponho
Não mais me acompanho
Não mais consigo
Labutar o palavreado
Com a agilidade de jorro
Que antes se colocava
Termino portanto
Meu escarro literal
Aqui

O não-sonho de um homem ridículo


Resisto
Ao delírio de sentir-me
Um átomo pertencente a tudo
.
Reverto
O sobre-sonho de pulsar
Como algo de alta vacuidão
.
Conservo
A quimera medíocre
De poder passar ileso pelo mundo
.
Não sou sujeito dado
Ao perceptível das coisas preternaturais
.
Se sinto o lago e o além
O mar e aquilo que nele se convida
Prefiro a materialidade da margem
O fixado calçado em sua fronteira
.
Se respiro o sobressalto da natureza
As intempéries do espírito livre
Faço voltar meu ser ao zero
Pois só nele tenho a certeza de mim
.
Almejo-me exato
.
O tamanho somente das coisas medíveis
A escuta somente dos sons audíveis
O vocábulo basilar da ciência
A definição da não filosofia
.
Todos os filósofos são ridículos!
.
Prefiro a deliberação de poder ser silêncio
Não pensar em exaustão das faculdades
Não me desvairar pela nomenclatura do nada
.
Não me deixo levar
Por aquilo que em mim não se prova
.
Reprovo-me nos testes da amência
.
Exijo a prova da vida
Sou inquisidor de meus sonhos
Sou férrea raiz da materialidade
.
Não quero a atmosfera dos poetas
A languidez soberba dos artistas
A brilhantismo estético
Dos pintores esquecidos pelo tempo
.
Quero o sublimemente lógico
.
Quero morrer de forma precisa
No momento em que eu escolher
Na cama que eu puder comprar
Posta na casa que passarei toda a minha vida
.
Quero sonhar de maneira geométrica
Respirar em compassos sem cadência
Barrar qualquer tipo de rítmica
.
Quero desfazer os sonhos dos energúmenos
Que teimam em se apoiar
Nas muletas da utopia
.
Quero a sala vazia dos concertos
Que nunca aconteceram
.
Quero as galerias desérticas
Sem seus homens vagantes
.
Quero a fortaleza da humanidade
Em sua forma mais acurada
.
Quero o supra-humano
Que não precisa da esperança
Para preponderar seu cotidiano
.
Quero ser o avesso da arte
O avesso do espírito
.
Quero matar a luz de Deus
.
Acho que enfim
Quero mesmo é acabar comigo
.
Quero meu desterro
Pois viver-me
Tornou-se meu maior erro
.
Mas já não tenho a humildade
De me deixar levar pelas mãos da morte
.
Torno-me então
A não-vida eterna
Carcomida por seus vácuos interiores
.
Torno-me então
O Zero absoluto
Na impossibilidade de despedir-me
.
Torno-me então
A própria morte
“A Destruidora dos Mundos"
.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

10/08/2018

outro-me
.
fui assaltado por um homem vestido de terno e gravata um dia qualquer na cidade em que vivo a quase duas décadas 
.
andando pela rua à toa ele me olhou com cara de quem sabia como moldar o olhar a ponto de me fazer crer que teu olhar não estava montado
.
este olhar este homem me olhou com tanta presença e com tanta vivacidade como se não existisse um vidro entre nós
.
havia ambição e possibilidades de concretizá-la 
.
seus lábios de repente começaram a balbuciar coisas que eu não entendi mas que mesmo assim de alguma maneira me tocavam
.
suas frases se fizeram vivas e condizentes com algum tipo de verdade que ainda restava dentro de mim e que se apresentavam como forma de deleite mundano
.
e a partir deste ponto por sentir que eu entregue estava ele iniciou suas injúrias mais profundas disfarçadas de alguma bendita frase feita que ainda não tinha sido feita por outro senão ele mesmo
.
inventava-me a seu bel-prazer
.
um homem de sagaz criatividade carisma e inventividade de si mesmo que estavam de acordo com os parâmetros de consciência aos quais ele chegou ao longo dos dias em que viveu
.
e eu caí
.
dei meu mais sincero sorriso acreditei nas tuas palavras e me aproximei para melhor entender
.
no entanto quando bem próximo estava e depois de dar-lhe minha mão para seu cumprimento ele me puxou para dentro do vidro onde se encontrava e colocou se para fora tornando ele então a minha versão macro existencial do que eu represento e sou para o todo de uma sociedade
.
tornou-se ele o protagonista e roubou de mim meu próprio encontro comigo
.
levara para bem longe minhas convicções amainando a inquietude de mundo em latência construtiva
.
tornou-se ele uma representação maior e mais poderosa do que eu sou dentro do conjunto de todos nós
.
senti-me traído e indefeso porém neste momento agora preso eu simplesmente podia sorrir na esperança de que alguém não prisioneiro pudesse me olhar abrir o vidro da daquela esfera inócua em que fora capturado e me retirasse para fora de volta à vida
.
ninguém o fez 
.
cá estou desde então estático enquanto o homem de terno e gravata perambula por minha rotina matando cotidianamente o artista que em mim um dia pulsou
.