Espanta-me a cotidiana invalidez contemporânea dos seres comuns, a forma destituída de essência das personas virtuais que se moldam segundo os parâmetros de aldeia global, uma não-aldeia calcada na exclusão dos inferiores e na inveja para com aqueles que conseguiram se inserir melhor do que nós.
.
Vejo aos milhões uma nova espécie biológica a se desenvolver nos mais diversos ecossistemas do planeta em que habitamos: o Homus Intus Vacua, homens líquidos que querem esquecer da pequenez de suas condições, enfeitando seus perfis egoicos com imagens vazias e referências cegamente compradas.
.
Diverte-me suas formas de se mostrarem aos olhares anônimos por meio de suas carências fotográficas que berram disfarçadamente a vontade de serem admirados sem, no entanto, deixarem isso às claras.
.
Aliás, a aparência é o bem mais preservado por esta nova espécie humana que se desenvolve neste terceiro milênio.
.
Suas viagens são para serem vividas e compartilhadas nas redes sociais.
.
Suas comidas devem ser vistas por centenas, milhares e, se possível, milhões de pessoas em quantos mais lugares diferentes quantos forem possíveis de alcançar.
.
Suas felicidades necessitam de serem divididas com pessoas que, assim como o próprio indivíduo autor de uma postagem qualquer, não estão dando a mínima para o que o protagonista da vez faz ou deixa de fazer nas horas que lhe couberam viver neste planeta.
.
Suas roupas são expressões de suas ideias. Elas contêm frases montadas por outros, mas que os homens líquidos, urgentemente, precisam estampar em seus corpos, em suas blusas modernosas, em seus casacos diferenciados, levando o dito âmago de suas mais enraizadas convicções por onde quer que circulem seus corpos insossos.
.
Também me divirto com os aforismos categóricos que muitos filósofos medíocres estampam em suas redes, demonstrando o refinamento de suas elaborações de mundo, suas ideias altivas, seus caminhos de entendimentos de grande sensibilidade: olhares esclarecidos para aspectos diversos de um mundo que eles somente acreditam entender.
.
Onde está a realidade palpável dos sentimentos que se assentam dentro dos corações?
.
Onde está o olhar demorado que se nos convida a uma entrega sincera, mesmo que, por vezes, tal entrega possa acontecer em meio a um turbilhão de migalhas disformes?
.
Onde ficou esquecido o canto da simplicidade entoado por nossos ancestrais? O canto eterno e uterino do homem nuclear que, mesmo não conhecendo os últimos avanços científicos, sabia da avançadíssima ciência atemporal chamada “AMOR AO PRÓXIMO”!
.

