quinta-feira, 16 de julho de 2009

O filho eterno – Cristovão Tezza

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Um livro que me fez parar para anotar 3 frases logo no primeiro capítulo e outras tantas em outros capítulos não pode ser ruim.
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Um livro que no desfecho me fez chorar pelo acumulado da beleza da obra que se encerrava não pode ser qualquer coisa.

Um livro que ganhou Prêmio Jabuti de melhor romance, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de melhor obra de ficção, Prêmio Bravo! de Livro do Ano, 1º lugar no Prêmio Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor livro do ano 2008 só pode ser muito bom.
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E não é mesmo.
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É um ótimo livro que trata, sem cair em clichês, de um assunto já bastante falado: a relação de um pai com seu filho possuidor da Síndrome de Down. O grande diferencial gerador da qualidade encontrada nesta abordagem é a carga teórica e principalmente prática do autor que conhece e vive o tema há mais de 20 anos já que, ele, como o personagem, possui um filho “especial”.
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Tudo se inicia no momento em que a mulher sente que é chegado a hora de dar a luz e então começa a ser desenrolado um fio profundo de crueldades e dores num romance dotado de digressões no tempo e paralelos narrativos entre as estórias do pai no passado e as passagens vividas com o filho num passado mais recente.
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Este pai se apresenta como um ser extremamente agoniado, fugitivo de si e, ao receber a notícia do problema do menino, reage com grande amargura, cogitando, por vezes, fugir da família e tentar a vida em outro lugar. Em outras passagens imagina a possibilidade do filho não ter retardo mental, mas somente as características físicas da síndrome, como acontece em alguns casos. Numa outra passagem demonstra entusiasmo ao constatar que não existem Downianos velhos e, assim sendo, o filho morreria logo. Essas passagens de uma crueldade enrustida incomodam e povoam principalmente o início do romance.
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Mas os anos vão se passando, a rotina vai se estabelecendo e a presença do filho na trama vai se tornando maior até se tornar praticamente, ele mesmo, o novo e doce personagem principal que enche de ternura a atmosfera carregada pelas páginas de divagação do pai. Felipe, como é chamado o filho, chega aos poucos como um ator sincero, protagonista de passagens visivelmente encenadas, porém sinceramente vividas, já que o portador da síndrome vê na imitação sua mais profunda e completa realização enquanto ser social, algo que todos nós temos, mas que, no Felipe, fica muito mais evidente por ele ser extremamente entregue, mesmo em suas teatralizações do cotidiano.
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Assim, aquele pai do início vai se contaminando aos poucos pela doçura da aberração (para usar uma combinação verbal que o personagem provavelmente usaria) posta na sua vida sem, no entanto, deixar com facilidade seu lado amargurado de lado. Sua transformação é lenta, tão lenta quanto de seu filho, mas, em ambos os casos, ela acontece. O pai passa, então, a aceitar a nova rotina e, mesmo analisando as coisas por sua ótica aguda, reconhece, naquele ser tão especial (desta vez sem aspas) colocado em sua vida, um afeto sem limites, chegando mesmo a se desesperar com o sumiço do menino numa das passagens.
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Felipe não possui noção de ontem, hoje e amanhã, assiste incessantemente desenhos animados, rabisca estórias em quadrinhos, adora futebol e ficar em casa dentro do seu mundo suficiente. O pai, que é o próprio escritor condensado no pior de si, vê seus romances sendo aos poucos publicados, sua vida colocada em rotina agradável e, mesmo com toda dura análise que lhe é característica, vê em Felipe suas razões de firmeza e afeto, só que, desta vez, sem máscaras.
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Felipe é afeto, ele conclui. Amor, amor, amor, entrega, sinceridade, olhos rasos.
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Felipe é um profundo teste à tolerância justamente por não ser, em si, teste nenhum. Felipe é uma entrega brutal não lapidável, mas lapidante. É o bruto lapidando inalterado. É o bruto que já nasce pronto para agir nos outros exatamente por não ser preparado para nada. É o sem armas ou amarras que enfrenta e desata sem saber. Felipe é instrumento inalterável de modificação profunda que abala pela fragilidade inabalável. Uma maravilhosa contradição a promover conclusões no alheio, sem, no entanto, necessitar de nenhuma delas, pois, em si, já está acabado, concluído. Veio concluído em sua inconclusão. Veio concluído por ser inconclusão. É perfeito em seu estado bruto. Um diamante inalienável. Uma doação centrada em si. O narcisismo como forma do mais secreto e profundo altruísmo possível.
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– Destituo-me profundamente de mim para que te tu te resgates a ti mesmo – diria ele se dissesse.
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O título do livro se justifica numa passagem em que o autor diz que o personagem parou de fumar e reduziu a bebida, pois não poderia morrer antes de seu filho, uma eterna criança. Daí o filho eterno.
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Pensando em linhas mais gerais, acredito que o autor trabalha o embrutecimento da narrativa para que depois a docilidade não pareça clichê, e ele toma cuidado para que isso não aconteça. Sua intenção não é colocar o filho para o leitor, mas o filho para o pai amargurado e isso funciona muito bem. Cristovão Tezza é um grande escritor de prosa consistente que corre num fluxo bom e, pelo menos neste caso, não soou difícil em momento algum. Gostei demais!!!
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Vamos agora a Sagarana, novamente Guimarães Rosa. Acho que dessa vez vou demorar um pouco mais já que estou lendo outras coisas sobre outros assuntos, mas, acabando, coloco alguma coisa aqui.
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Sagarana foi considerado um dos 100 livros essenciais da literatura brasileira pela revista Bravo. Grande Sertão também, obviamente. A lista começa com 2 Machados, o que não é de se espantar. Depois segue com Graciliano, Euclídes, Rosa, Drummond, Bandeira, Nassar, Lispector, Andrade e por aí vai. Vou ler essa revista.
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terça-feira, 14 de julho de 2009

Enxurrada 6

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Fiquei uns dias sem net
Mas não sem cabeça
E então aí está
Em amarelo dificultoso
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Enxurrada 5

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A sociedade do espetáculo – Guy Debord
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Tese 190
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A arte em sua época de dissolução, como movimento negativo que prossegue a superação da arte em uma sociedade histórica na qual a história ainda não foi vivida, é ao mesmo tempo uma arte de mudança e a pura expressão da mudança impossível. Quanto mais grandiosa for sua exigência, tanto mais sua verdadeira realização estará além dela. Essa arte é forçosamente de vanguarda, e não existe. Sua vanguarda é seu desaparecimento.
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Enxurrada 4

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Pensamentos coletados
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Pensamentos entrecortados pelas palavras e frases de outros pensamentos instantâneos vindos de algum alheio ou delírio próprio, mas que não se sabe por que veio. É como quando se está pensando sobre frutas e te vem à mente uma frase a respeito de carros, uma consideração sobre a mamadeira que você tomava, ou a voz da sua avó falando pra sua prima lavar as mãos. Meu Deus, o que que é que tem a ver a mamadeira ou o carro, ou a lavação das mãos com o morango que eu estava pensando agora? Eu pensava no morango que comi na janta e, como um raio, me entra uma frase vinda da boca imaginária da minha avó, ou um amigo falando do carro que comprou. Um curto da hiperatividade. Linhas cruzadas. Nem por processos de dilatação de associação (processo nomeado neste instante) uma pessoa consegue a explicação ou, até sim, mas, o problema está no súbito do fato não feito, nem pensado, nem entendido, apenas acontecido, ainda que não realmente fato graúdo.
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Perversão dos órgãos dos sentidos: imagine-se vendo pelo buraco da orelha, ouvindo somente quando abre a boca, cheirando as coisas pelo indicador da mão direita. Pode parecer fácil esta diversão ligeira. Mas imagine com a força necessária para sentir a possibilidade atuando em você. Viver por pouco estes estranhos cruzamentos.
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Qual é o timbre da tua voz interior? É a mesma que você ouve quando fala alto? É a mesma que você ouve quando grava sua voz e depois ouve? É mais grave, mais aguda? Ela muda de tom? Engrossa depois de uma balada e alguns cigarros? Fica rouca quando você fica rouco? Um gago tem pensamentos gagos? Um surdo, como nomeia as coisas? Ele olha e, ao olhar, imagina uma segunda imagem com a palavra escrita? Que associações um surdo é capaz de fazer? Onde se apóia seus pensamentos? Saibam que surdos demoram anos e anos e mais anos para aprender a ler, pois não associam sons às coisas, não têm o português à maneira dos “normais”. Se pensamos com o sons das palavras soando na nossa consciência, uma pessoa que nunca teve consciência do som, pensa em silencio? Pensa no abstrato absoluto? Um nível de conexões que não consigo nem passar perto de inventá-lo em mim. Outra coisa, você consegue imaginar um timbre conhecido e colocar seus pensamentos na boca do outro, como conselhos vindos do alheio ou simplesmente fazendo desse alheio uma máquina de reprodução daquilo que você pensa? Eu sim.
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Um bom refrão: Nós vamos te espremer até você passar pela porta de entrada do céu. Será pertinente?
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Uma frase que é bom ter em mente antes de começar qualquer idéia: Todo processo é mais rico, ou mais complexo, que o resultado. Mas ainda bem que o homem tem tendência ao otimismo.
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Se não podes olhar pra longe, olhe pra si, olhe pra perto, caminhe com lentidão, restrinja-se ao mínimo necessário, uns metros à frente, alguns do lado, uma pedra que se vai, um cruzamento esforçado, depois caia com sofreguidão para os pés e brinque de felicidade. Diga para si que és feliz, convença-se disso. Brinque de conversar com a pessoa que está sentada do seu lado no ônibus. Comente em silêncio sobre a beleza de alguém ou a gordura do fulano que passou na catraca e você quis chamar de Sarasgoza ou simplesmente Mané. Faça piadas em silêncio, mas cuidado pra não rir sozinho. O comportamento normal é o da média? O comportamento normal é aquele que esteticamente não abre possibilidades para críticas? Ou o comportamento normal é aquele que te faz bem?
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Eu esqueci como é a configuração da normal felicidade da vida. Acredito não ter mais o instinto da medida, o sentir brando que não chega a ser ruim, mas também não é tão bom assim. Se não tenho em corpo a sensação constante da felicidade, não me creio feliz.
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Bote pra tocar uma música que você nunca ouviu antes, finja cantar as frases ainda que não com as mesmas palavras. Espere algum solo e finja tocá-lo como se ele saísse de você, como se você fosse o instrumentista que estivesse executando aquele som. Mantenha a tentativa, a latência, o estado, o ânimo. Aí está o clima. Seu pensamento não deve se adiantar, não deve se atrasar, não deve criar frases que não as já existentes. Crie sim o imediato reconhecimento do que acontece no som gravado, esteja alerta para qualquer possibilidade e faça de todas elas a mais profunda expressão de si. Momento de reconhecimento, emoção e reação sem instante deturpável pela razão. Um realizar acabado em si. Consiga por algum tempo. Registre isso na consciência. Nada de adiantamento, nem atrasos, o que vem é o que é. Tua reação é a imediata obviedade. Cada nota veio de ti como expressão legítima profunda, uma resposta instantânea ao que acontece. Registre, mantenha e, assim, será, ou, já é. Eis o ideal mental, ou o mental ideal!!! O que dá na mesma...
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Ainda que uma unanimidade seja certa ela será burra, pois o assunto estará acabado e não produzirá novidades. A unanimidade é absolutamente burra enquanto processo ou por ser um não processo, mas não necessariamente enquanto fim ou conclusão.
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A palavra dita tem mais peso que a palavra pensada e, talvez por isso, eu ainda tema dizer o que realmente penso. Talvez por isso eu pense melhor do que digo, planeje melhor do que executo, sonhe com mais beleza do que vivo. Ah, as palavras, essas tão sinceras determinantes de uma vida. Saber usá-las em todos os seus múltiplos níveis seja, talvez, o sinônimo de liberdade, ou a própria, em si, em mim.
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Quero beijos infinitos, daqueles que contamos nossos mundos em segredo por entre o silêncio dos lábios.
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Quando estou feliz, meu pé não me parece inatingível.
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Como fazer carinho nas próprias mãos se são elas que fazem carinho em tudo? Seriam as mãos carentes? Caridosas, altruístas? Eu não consigo fazer carinho em minhas mãos a não ser com os pés. Todo o resto do corpo parece ser o acariciado e não o acariciante. Seriam os membros os pontos acariciantes por excelência?
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Que eu nunca perca a sinceridade do meu sorriso.
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Malandragem é a inteligência socialmente aceitável.
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Enxurrada 3

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O Marketing cria necessidades?
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Acredito que a maioria responde não a essa pergunta, mas eu vou ter que ir meio contra e dizer aquela velha resposta chata: depende.
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Acho necessário 4 delimitações/ considerações antes de responder essa pergunta.
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Primeira: necessidade é uma vontade insatisfeita, não importa se é caso de vida ou morte, ou se está se falando de uma necessidade banal, fútil, ridícula. Necessidade é sentimento interno da pessoa e não importa a relevância do motivo, vide a pirâmide de Maslow.
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Segunda: é necessário restringir o Marketing estritamente ao círculo das ferramentas de Marketing. Não se deve prolongar demais sua influência. Por exemplo: minha necessidade de mandar Scraps está ligada à popularização do Orkut e não diretamente ao Marketing feito pela Google.
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Terceira: deve-se delimitar bem a verbalização da necessidade a ser analisada, por exemplo: perguntar se a propaganda do IPOD gera a necessidade de ter um IPOD, é diferente de perguntar se a propaganda do IPOD gera a necessidade de ter um tocador portátil de música, que é diferente de perguntar se a propaganda do IPOD gera a necessidade de ouvir música em locais públicos. Por isso é importante delimitar já que, dependendo de como se descreve a necessidade, ela pode ou não ter sido gerada pelo Marketing.
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Quarta: delimitação temporal. Caso algum produto se torne popular por causa de uma propaganda, mas eu o comprei depois de 50 anos, isso não é mais influência do Marketing. Exemplo: se tenho necessidade de comprar o Pula-pirata da Estrela, isso não é influência do Marketing, ainda que esse brinquedo tenha expandido suas vendas por causa de propagandas na década de 80. É claro que o que me leva a comprá-lo hoje é uma nostalgia que não existiria caso o brinquedo não tivesse sido popular, mas o marketing não está ligado a isso, pois a nostalgia é a criadora da necessidade e ela poderia ir a favor de um cavalinho de pau artesanal, por exemplo. Obviamente pode-se pensar na ponte: Marketing – Popularização – Tempo – Nostalgia - Necessidade, mas acho arriscado, porque assim ele vira um fator oculto em muitos exemplos. Como o dos Scraps do Orkut, que têm por trás o Marketing que fez a empresa crescer, ou a Internet se popularizar, ou mundo se modernizar, ou o Capitalismo ganhar forças, ou o fim da humanidade estar perto e a teoria da conspiração vir à tona e etc. De qualquer maneira, no caso específico do Pula-pirata, ainda tenho minhas dúvidas, mas continuo defendendo a delimitação temporal da influência do Marketing.
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Com tudo isso, postas essas especificações, temos que, ainda se nos detivermos a um determinado período de tempo, às ferramentas de Marketing, à consideração de que necessidade também pode ser fútil e a uma frase especifica: o Marketing cria, sim, necessidades, ou melhor, o Marketing cria necessidades específicas.
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Agora esquecendo tudo e partindo para um outro lado, pode-se pensar por um viés mais amplo e então, neste terreno, ainda continua valendo uma frase de Rousseau que diz ser a soberania inalienável do povo. Por ela podemos crer que, em se tratando de necessidades amplas, elas se impõem por essa soberania inalienável e elas vêm do povo e, portanto, o Marketing apenas as detecta e as supre.
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Daí alguém pode perguntar: Por que fazer quatro delimitações anteriores se logo depois entra uma consideração mais geral que dispensa os parágrafos já redigidos?
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E eu respondo que com a consideração geral eu não dispensei nada. É apenas mais uma maneira de encarar esse assunto complicado que merece ser olhado de diversos ângulos sem, no entanto, que um anule o outro.
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O núcleo disso é a palavra, que está mais diretamente tocada pela terceira consideração. Sendo assim podemos concluir que: necessidades específicas ele gera sim, necessidades gerais, não.
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Mas podemos nos perguntar: o que acontece nos casos em que o povo vai se alienando de si?
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No terreno das considerações gerais onde as especificações ditas não são bem vindas, podemos colocar o Marketing como um fator obscuro presente através do tempo, com influências indiretas, e peça chave de uma transformação ampla que pode criar necessidades mais gerais sim, e então temos que o Marketing, mesmo se ampliarmos a especificidade da necessidade, será criador. A soberania continua inalienável do povo, mas o povo pode ir aos poucos se alienando daquilo que era e, com isso, necessidades gerais vão surgindo, ou melhor, novas necessidades vão surgindo em pontos mais baixos da pirâmide das necessidades de Maslow que, ainda que muitos defendam a não hierarquização rígida das necessidades humanas, mostra bem um esquema que acredito ser pertinente para este texto.
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Antes de tudo, para responder à questão do título, é necessário delimitações e parece que na maioria delas o Marketing é criador de necessidades.
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Se delimitarmos haverá necessidades específicas, se generalizarmos haverá necessidades gerais. Com isso, acho que o texto soa justo e certo.
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Indo mais além, podemos pensar em necessidades gerais dentro das especificações citadas que é, enfim, a combinação que falta, e então nos pegamos pensando se o marketing analisado somente pela influência direta das suas ferramentas num curto período de tempo criou alguma necessidade básica ligada à fisiologia, segurança ou amor-relacionamento.
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Acho que essa combinação exige um pensamento abstrato-específico que, diga-se, já está por detrás de todo este texto, mas que, neste caso, não consigo colocar em prática com êxito. Não consigo responder a essa combinação, mas arrisco dizer que não, o marketing analisado somente pela influência direta das suas ferramentas num curto período de tempo não cria nenhuma necessidade básica ligada à fisiologia, segurança ou amor-relacionamento.
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Alguma propaganda veiculada nos últimos 5 anos, por exemplo, criou em alguma pessoa do mundo alguma necessidade básica? É necessário chegar neste nível de especificação? Não sei e não sei, mas continuo arriscando a dizer que no caso de necessidades amplas dentro de delimitações específicas o Marketing não cria nada. E também arrisco dizer que é necessário chegar neste nível de especificação.
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Enfim, o enquadramento das considerações é a chave para as respostas...
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Esta necessidade de delimitação está contida no poder das palavras que está contido nas palavras como um mal necessário que está contido na idéia que considera todo raciocínio ilógico por princípio que está contida na idéia de que viver no nível biológico seria muita mediocridade para as almas que está contida na idéia de que considerações que se encadeiam podem fazer sentido apenas para quem as faz, ou não, dependendo da predisposição ou auto-proposição do receptor que está contida nas firulas do pensamento, que está contido nas firulas da emoção, que está contida num caminho livre para a perdição que está contida em considerações desnecessárias do autor e por aí vai.
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Enxurrada 2

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Frases do livro: O filho eterno de Cristovão Tezza
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“Há uma assepsia em tudo, uma ausência bruta de objeto, os passos fazem eco como em uma igreja, e de novo ele vive a angústia da falsidade, há um erro primeiro em algum lugar, e ele não consegue localizá-lo, mas em seguida não pensa nisso. Os segundos escorrem.”
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“... uma ginástica interminável e insolúvel para ajustar o relógio de hoje à fantasmagoria de um tempo acabado.”
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“É difícil renascer, ele dirá, alguns anos depois, mais frio.”
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“Sempre teve alguma ponta de dificuldade para lidar com o afeto. Ele prefere a suavidade do humor ao ridículo do amor, mas disso não sabe ainda, pernas muito fracas para o peso da alma. ”
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“Ele divaga, criando ele mesmo uma síndrome que cada vez mais intensa na sua vida – a crescente incapacidade de concentração para ouvir alguém mais demoradamente: as pessoas deveriam falar por escrito, ele sonha.”
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“A rotina é uma máquina extraordinária de estabilidade e a condição básica de maturidade emocional e social – ele dirá, anos depois, pensando não em si, mas no filho.”
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Enxurrada 1

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A viagem do elefante – José Saramago
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Mago das palavras, com certeza.
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Saramago tem um domínio absurdo da sua técnica de escrita, tanto nos micro quanto nos macro conjuntos e, neste livro, não foi diferente. Já está mais que estabelecido nele e nas suas obras mais atuais, pelo menos, a maneira Saramago de dizer as coisas, de narrar grandes estórias e pequenas histórias que se escondem por entre as estórias.
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Na minha opinião, Saramago possui uma ironia ainda mais fina que a de Machado de Assis. Uma ironia tão fina que, em algumas passagens, chega-se a não ter certeza se ela está presente. Mas sempre resta a certeza do seu bom gosto e sagacidade para realizá-la em sua arte.
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O livro possui uma base de organização simples, lógica e sempre presente nas narrativas ainda que por vezes desconstruídas: o tempo. O contar encaminha-se cronologicamente e os fatos vão se desenrolando num fluxo direto, sem grandes divagações introspectivas e sem que isso se torne simplório, porque Saramago sabe enfeitar este “plano raso” de um rebuscamento ortográfico não exageradamente exagerado. Os exageros exagerados, que também existem, são propositais e bem colocados.
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Não podemos dizer dele, no entanto, o mesmo que de Clarice. Enquanto esta escrevia simples expondo idéias complexas na maioria das vezes, ele escreve complexo expondo idéias simples, quase sempre ou, pelo menos, desta vez. Não são simplórias, é bom ressaltar. São simplicidades elegantes. Maldade e genialidade elegantemente simples.
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Espero não parecer que estou falando mal dele, pois não tenho esse direito e nem essa intenção. Ele é uma lenda viva. O único Nobel da língua portuguesa e ainda produzindo à sua bela maneira de sempre.
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O livro em si conta a viagem de uma caravana levando um elefante de Lisboa a Viena e isso basta. As rotas pela Península Ibérica, a passagem pelos Alpes e seus perigos, a entrega do elefante aos austríacos, o frio, a logística do conjunto, as suposições sobre os pensamentos do elefante e dos personagens, tudo isso fluindo ligeiro. Isto é o livro.
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Para quem está acostumado com o autor, é uma obra para ser lida rapidamente (já acabei de ler faz bastante tempo) sem se deter demais para divagar sobre a vida e o brilho da criação que está em mãos. O brilho é o brilho de sempre. O “plano raso” realmente não esconde grandes ensinamentos humanos, análises profundas, sacadas de tirar o fôlego ou cenas encantadoras. É apenas um exemplo do bom e velho Saramago usando com maestria a nossa boa e velha língua portuguesa. É mais do mesmo, mas de um grande mesmo.
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Simples, belo, direto e maduro.
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ORDINARIAMENTE GENIAL.
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