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Um livro que me fez parar para anotar 3 frases logo no primeiro capítulo e outras tantas em outros capítulos não pode ser ruim.
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Um livro que no desfecho me fez chorar pelo acumulado da beleza da obra que se encerrava não pode ser qualquer coisa.
Um livro que ganhou Prêmio Jabuti de melhor romance, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de melhor obra de ficção, Prêmio Bravo! de Livro do Ano, 1º lugar no Prêmio Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor livro do ano 2008 só pode ser muito bom.
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E não é mesmo.
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É um ótimo livro que trata, sem cair em clichês, de um assunto já bastante falado: a relação de um pai com seu filho possuidor da Síndrome de Down. O grande diferencial gerador da qualidade encontrada nesta abordagem é a carga teórica e principalmente prática do autor que conhece e vive o tema há mais de 20 anos já que, ele, como o personagem, possui um filho “especial”.
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Tudo se inicia no momento em que a mulher sente que é chegado a hora de dar a luz e então começa a ser desenrolado um fio profundo de crueldades e dores num romance dotado de digressões no tempo e paralelos narrativos entre as estórias do pai no passado e as passagens vividas com o filho num passado mais recente.
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Este pai se apresenta como um ser extremamente agoniado, fugitivo de si e, ao receber a notícia do problema do menino, reage com grande amargura, cogitando, por vezes, fugir da família e tentar a vida em outro lugar. Em outras passagens imagina a possibilidade do filho não ter retardo mental, mas somente as características físicas da síndrome, como acontece em alguns casos. Numa outra passagem demonstra entusiasmo ao constatar que não existem Downianos velhos e, assim sendo, o filho morreria logo. Essas passagens de uma crueldade enrustida incomodam e povoam principalmente o início do romance.
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Mas os anos vão se passando, a rotina vai se estabelecendo e a presença do filho na trama vai se tornando maior até se tornar praticamente, ele mesmo, o novo e doce personagem principal que enche de ternura a atmosfera carregada pelas páginas de divagação do pai. Felipe, como é chamado o filho, chega aos poucos como um ator sincero, protagonista de passagens visivelmente encenadas, porém sinceramente vividas, já que o portador da síndrome vê na imitação sua mais profunda e completa realização enquanto ser social, algo que todos nós temos, mas que, no Felipe, fica muito mais evidente por ele ser extremamente entregue, mesmo em suas teatralizações do cotidiano.
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Assim, aquele pai do início vai se contaminando aos poucos pela doçura da aberração (para usar uma combinação verbal que o personagem provavelmente usaria) posta na sua vida sem, no entanto, deixar com facilidade seu lado amargurado de lado. Sua transformação é lenta, tão lenta quanto de seu filho, mas, em ambos os casos, ela acontece. O pai passa, então, a aceitar a nova rotina e, mesmo analisando as coisas por sua ótica aguda, reconhece, naquele ser tão especial (desta vez sem aspas) colocado em sua vida, um afeto sem limites, chegando mesmo a se desesperar com o sumiço do menino numa das passagens.
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Felipe não possui noção de ontem, hoje e amanhã, assiste incessantemente desenhos animados, rabisca estórias em quadrinhos, adora futebol e ficar em casa dentro do seu mundo suficiente. O pai, que é o próprio escritor condensado no pior de si, vê seus romances sendo aos poucos publicados, sua vida colocada em rotina agradável e, mesmo com toda dura análise que lhe é característica, vê em Felipe suas razões de firmeza e afeto, só que, desta vez, sem máscaras.
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Felipe é afeto, ele conclui. Amor, amor, amor, entrega, sinceridade, olhos rasos.
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Felipe é um profundo teste à tolerância justamente por não ser, em si, teste nenhum. Felipe é uma entrega brutal não lapidável, mas lapidante. É o bruto lapidando inalterado. É o bruto que já nasce pronto para agir nos outros exatamente por não ser preparado para nada. É o sem armas ou amarras que enfrenta e desata sem saber. Felipe é instrumento inalterável de modificação profunda que abala pela fragilidade inabalável. Uma maravilhosa contradição a promover conclusões no alheio, sem, no entanto, necessitar de nenhuma delas, pois, em si, já está acabado, concluído. Veio concluído em sua inconclusão. Veio concluído por ser inconclusão. É perfeito em seu estado bruto. Um diamante inalienável. Uma doação centrada em si. O narcisismo como forma do mais secreto e profundo altruísmo possível.
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– Destituo-me profundamente de mim para que te tu te resgates a ti mesmo – diria ele se dissesse.
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O título do livro se justifica numa passagem em que o autor diz que o personagem parou de fumar e reduziu a bebida, pois não poderia morrer antes de seu filho, uma eterna criança. Daí o filho eterno.
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Pensando em linhas mais gerais, acredito que o autor trabalha o embrutecimento da narrativa para que depois a docilidade não pareça clichê, e ele toma cuidado para que isso não aconteça. Sua intenção não é colocar o filho para o leitor, mas o filho para o pai amargurado e isso funciona muito bem. Cristovão Tezza é um grande escritor de prosa consistente que corre num fluxo bom e, pelo menos neste caso, não soou difícil em momento algum. Gostei demais!!!
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Vamos agora a Sagarana, novamente Guimarães Rosa. Acho que dessa vez vou demorar um pouco mais já que estou lendo outras coisas sobre outros assuntos, mas, acabando, coloco alguma coisa aqui.
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Sagarana foi considerado um dos 100 livros essenciais da literatura brasileira pela revista Bravo. Grande Sertão também, obviamente. A lista começa com 2 Machados, o que não é de se espantar. Depois segue com Graciliano, Euclídes, Rosa, Drummond, Bandeira, Nassar, Lispector, Andrade e por aí vai. Vou ler essa revista.
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Um livro que me fez parar para anotar 3 frases logo no primeiro capítulo e outras tantas em outros capítulos não pode ser ruim.
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Um livro que no desfecho me fez chorar pelo acumulado da beleza da obra que se encerrava não pode ser qualquer coisa.
Um livro que ganhou Prêmio Jabuti de melhor romance, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de melhor obra de ficção, Prêmio Bravo! de Livro do Ano, 1º lugar no Prêmio Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor livro do ano 2008 só pode ser muito bom.
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E não é mesmo.
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É um ótimo livro que trata, sem cair em clichês, de um assunto já bastante falado: a relação de um pai com seu filho possuidor da Síndrome de Down. O grande diferencial gerador da qualidade encontrada nesta abordagem é a carga teórica e principalmente prática do autor que conhece e vive o tema há mais de 20 anos já que, ele, como o personagem, possui um filho “especial”.
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Tudo se inicia no momento em que a mulher sente que é chegado a hora de dar a luz e então começa a ser desenrolado um fio profundo de crueldades e dores num romance dotado de digressões no tempo e paralelos narrativos entre as estórias do pai no passado e as passagens vividas com o filho num passado mais recente.
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Este pai se apresenta como um ser extremamente agoniado, fugitivo de si e, ao receber a notícia do problema do menino, reage com grande amargura, cogitando, por vezes, fugir da família e tentar a vida em outro lugar. Em outras passagens imagina a possibilidade do filho não ter retardo mental, mas somente as características físicas da síndrome, como acontece em alguns casos. Numa outra passagem demonstra entusiasmo ao constatar que não existem Downianos velhos e, assim sendo, o filho morreria logo. Essas passagens de uma crueldade enrustida incomodam e povoam principalmente o início do romance.
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Mas os anos vão se passando, a rotina vai se estabelecendo e a presença do filho na trama vai se tornando maior até se tornar praticamente, ele mesmo, o novo e doce personagem principal que enche de ternura a atmosfera carregada pelas páginas de divagação do pai. Felipe, como é chamado o filho, chega aos poucos como um ator sincero, protagonista de passagens visivelmente encenadas, porém sinceramente vividas, já que o portador da síndrome vê na imitação sua mais profunda e completa realização enquanto ser social, algo que todos nós temos, mas que, no Felipe, fica muito mais evidente por ele ser extremamente entregue, mesmo em suas teatralizações do cotidiano.
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Assim, aquele pai do início vai se contaminando aos poucos pela doçura da aberração (para usar uma combinação verbal que o personagem provavelmente usaria) posta na sua vida sem, no entanto, deixar com facilidade seu lado amargurado de lado. Sua transformação é lenta, tão lenta quanto de seu filho, mas, em ambos os casos, ela acontece. O pai passa, então, a aceitar a nova rotina e, mesmo analisando as coisas por sua ótica aguda, reconhece, naquele ser tão especial (desta vez sem aspas) colocado em sua vida, um afeto sem limites, chegando mesmo a se desesperar com o sumiço do menino numa das passagens.
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Felipe não possui noção de ontem, hoje e amanhã, assiste incessantemente desenhos animados, rabisca estórias em quadrinhos, adora futebol e ficar em casa dentro do seu mundo suficiente. O pai, que é o próprio escritor condensado no pior de si, vê seus romances sendo aos poucos publicados, sua vida colocada em rotina agradável e, mesmo com toda dura análise que lhe é característica, vê em Felipe suas razões de firmeza e afeto, só que, desta vez, sem máscaras.
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Felipe é afeto, ele conclui. Amor, amor, amor, entrega, sinceridade, olhos rasos.
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Felipe é um profundo teste à tolerância justamente por não ser, em si, teste nenhum. Felipe é uma entrega brutal não lapidável, mas lapidante. É o bruto lapidando inalterado. É o bruto que já nasce pronto para agir nos outros exatamente por não ser preparado para nada. É o sem armas ou amarras que enfrenta e desata sem saber. Felipe é instrumento inalterável de modificação profunda que abala pela fragilidade inabalável. Uma maravilhosa contradição a promover conclusões no alheio, sem, no entanto, necessitar de nenhuma delas, pois, em si, já está acabado, concluído. Veio concluído em sua inconclusão. Veio concluído por ser inconclusão. É perfeito em seu estado bruto. Um diamante inalienável. Uma doação centrada em si. O narcisismo como forma do mais secreto e profundo altruísmo possível.
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– Destituo-me profundamente de mim para que te tu te resgates a ti mesmo – diria ele se dissesse.
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O título do livro se justifica numa passagem em que o autor diz que o personagem parou de fumar e reduziu a bebida, pois não poderia morrer antes de seu filho, uma eterna criança. Daí o filho eterno.
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Pensando em linhas mais gerais, acredito que o autor trabalha o embrutecimento da narrativa para que depois a docilidade não pareça clichê, e ele toma cuidado para que isso não aconteça. Sua intenção não é colocar o filho para o leitor, mas o filho para o pai amargurado e isso funciona muito bem. Cristovão Tezza é um grande escritor de prosa consistente que corre num fluxo bom e, pelo menos neste caso, não soou difícil em momento algum. Gostei demais!!!
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Vamos agora a Sagarana, novamente Guimarães Rosa. Acho que dessa vez vou demorar um pouco mais já que estou lendo outras coisas sobre outros assuntos, mas, acabando, coloco alguma coisa aqui.
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Sagarana foi considerado um dos 100 livros essenciais da literatura brasileira pela revista Bravo. Grande Sertão também, obviamente. A lista começa com 2 Machados, o que não é de se espantar. Depois segue com Graciliano, Euclídes, Rosa, Drummond, Bandeira, Nassar, Lispector, Andrade e por aí vai. Vou ler essa revista.
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