Alucinante romance de 475 páginas narradas em primeira pessoa pelo personagem Zeca (José Carlos).
Mas os acontecimentos não são simplesmente contatos por ele mesmo, como geralmente acontece nos romances que se utilizam desta forma de narrativa. A obra é também escrita pelas suas próprias mãos, com pausas para um mijo, uma carreira, uma ressaca e outras coisas mais.
Num contexto mais amplo, é como se, hipoteticamente, não houvesse o autor oficial.
Seria apenas uma espécie de diário construído no calor dos acontecimentos e que depois seria enviado para alguém, no caso, nós leitores, já que, o próprio personagem diz que vai mandar as aventuras por email para um você que nunca se define. Ou seja, este “você”, na minha leitura, era eu, não do outro será o outro e assim por diante.
Viajando um pouco, é quase como se Reinaldo Moraes, o verdadeiro autor, tivesse encontrado e publicado uma obra escrita por outro.
Este outro, o Zeca, que conversa com os leitores pelas longas verborragias escrachadas, é um putanheiro, cheirador, maconheiro, malandro, corno, traidor, cineasta marginal de um único sucesso “Holisticofrenia” e mais outros filmes de putaria e/ou publicidade.
Fissurado por sexo, buceta, drogas, noitadas, álcool e seus derivados, Zeca, que tem seus 40 e poucos anos, entra num fluxo de perversão em que ele, ao mesmo tempo, se leva e é levado, gerando uma trama de crescente embaraço e problemas diversos com outros personagens que cruzam seu caminho.
Fantasticamente bem escrito!
Uma literatura sem rodeios, com palavrões a rodo, nomes de drogas, narrativas de trepadas com alguns tipos de seres vivos, marginalidade roçando a nuca da classe média, volúpia carnal, desregramento de princípios, perversão de condutas, fastio da moralidade, fuga desvairada, polícia corrupta, mortes de inocentes, gravidez, traição.
Acho que este romance se aproxima de algo Kafkiano, em alguns episódios! O contexto tresloucado de alguns fluxos narrativos, conseqüências que saem totalmente do controle dos personagens, propostas irreconhecíveis, por vezes injustas, que englobam e fecham as possibilidades de redenção. Isto é Kafkiano!
E, nesta obra, o Kafkiano está a solta nas ruas de São Paulo. Algumas passagens se dão até bem próximas da minha casa. Digo isso não pelos nomes das empresas, edifícios, bares e boates relatados, que são fictícios, ou quase; mas pelas ruas, as mixórdias e contextos presentes, no universo ficcional e que também habitam o centro expandido desta cidade.
O final não poderia ser outro: péssimo, trágico, insano. No entanto, não há tentativa de se redimir. O escracho continua até a última linha. O bom-humor avariado resiste até o beco do fundo do poço nesta epopéia pornográfica da modernidade.
Achei um livro muito bem planejado, até o seu des-planejamento libertino!
Tá na moda!!!
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Segue o primeiro parágrafo da contra-capa:
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Vivendo na base do improviso, sem dinheiro, Zeca precisa rodar um vídeo institucional sobre embutidos de frango. Sem saber ao certo por onde começar, no entanto, ele acaba entrando numa espiral de sexo, bebidas e drogas. Esse é o ponto de partida do romance de Reinaldo Moraes, que escreveu um livro de excessos para a era dos excessos.
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E segue o primeiro parágrafo do livro:
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"Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor." . Tem um pedaço maior nesse endereço:
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