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- Não, minha mãe.
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Eu não posso te contar o que passei
no oitavo mês deste ano de 2017. E eu não posso te contar porque você não merece
saber das barbáries nas quais foram capazes de lançar teu único filho. Não,
minha mãe, eu não teria coragem de te narrar o que passei, o que pensei, o que
senti, pois tu ficarias muito temorosa e preocupada com o estado de tua cria.
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Sei que sentiste meu estado, minha devassidão,
minhas olheiras, meus desânimos, meu olhar pesaroso e profundo. Minha magreza! Há
décadas não pesava tão pouco. Sei que sentiste que teu filho não estava bem,
mas sei que tu te calaste voluntariamente, pois intuíste que o caso, desta vez,
não seria também para ti. Desta vez, minha mãe, o meu caminho era solitário e
eu deveria passar por mim mesmo. Só!
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Minha mãe, o teu filho lutou, por
dias e dias a fio, por madrugadas e madrugadas insones, contra criaturas de não
se ver, contra imaginações de não se pensar, contra fatos de não se crer. Minha
mãe, por semanas eu não fui mais eu mesmo, eu não fui teu filho, pois teu filho
não seria o que eu me tornei em tamanho baixio de vibrações.
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Minha mãe, eu não te contaria sobre
o que passei, pois não se conta à uma mãe passagens em que seu filho lutou
contra inimigos invisíveis, inimigos mais fortes do que ele, inimigos de não se
crer. Não, minha mãe! Não se conta a uma mãe a realidade de seu rebento quando
este é retorcido sem piedade por forças que não vingam na eternidade. Não se
conta a uma mãe o lamaçal de ideias no qual seu filho se contaminou, se sujou,
se desfez e se perdeu.
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Minha mãe, eu tremia como um
silencioso pecador em meio às súplicas e orações fervorosas que insisti em
balbuciar nas madrugadas, enquanto tentei vencer meus inimigos somente com
orações. E como disse Aldir: “só quem tentou sabe como dói”!
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E como me doeu insistir nas orações
que meus avós me ensinaram. Como me doeu tentar desesperadamente alcançar uma
vela piedosa, arrastar-me ensandecidamente em direção ao meu altar e ainda, sem
poder sentir os pés firmados, ter de firmar minha carta de luz a fim de
conseguir alguma proteção naquele vácuo caótico de inconclusões no qual eu fui
lançado contra a minha vontade e contra a minha culpa.
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Não, minha mãe, eu não tive culpa!
Não desta vez!
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Desta vez eu estava correto.
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Minha mãe, eu senti o pior que
existe dentro dos piores mundos. Os pesos assentavam doloridamente em calores
que me inundavam as costas e só me restava imaginar-me dentro de redomas de
amor inquebrantáveis onde eu, ainda eu pecasse, teria o perdão indelével dos
que se fazem acima dos céus.
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Minha mãe, os pesos se assentavam
em meus olhares e em meus pensamentos logo após longos momentos em que eu pedia
misericórdia. Após longas orações, eu sentia pousar sobre meus ombros o rumor
silencioso dos horrores: os horrores que nenhum homem merece sentir. Nem mesmo
os piores de nós, minha mãe!
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Mas devo te dizer, se pudesse
contar, que senti tuas lágrimas correndo quando olhaste dentro dos meus olhos
num daqueles dias e sei que tu sabias, ainda que a distância, o que mais ou
menos se passava comigo. Seu filho estava não sendo gente de vida.
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Teu filho não era mais teu filho!
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Minha mãe, eu perdi minhas essências.
Eu perdi minha arte, eu perdi minha voz, eu perdi meu piano, minha mãe. Eu
perdi meu amor pelas crianças, meu amor pela arte de ensinar, pela missão de
levar a arte a todos os pequeninos que me aguardam todas as manhãs.
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Minha mãe, eu perdi minha
literatura que cultivo, insistentemente, ao longo de tantos e tantos anos. Eu
perdi minha poesia, eu perdi meu passo, minha mente, meus sonhos, meu olhar. Eu
não conseguia olhar um pouco mais adiante, eu não conseguia elevar meu
semblante e fitar o horizonte.
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Eu só podia perambular pelas ruas e
pelas madrugadas esgueirando feito uma não-pessoa que tentava escapar da prisão
de não querer estar dentro de si mesmo. Eu andava perdidamente pelas calçadas,
parando meu olhar e minha ansiedade em cantos diversos procurando esquecer
aquilo tudo que gritava dentro de minha cabeça.
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Eu tive medo de fechar meus olhos!
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Eu tive medo do que estava dentro
de mim.
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Eu quis ter pensamentos de
ensandecer a razão!
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Eu quis destruir todas as coisas.
Eu quis querer o que eu não queria. Eu tive meu querer modificado. Eu tive
minhas profundidades mexidas. Eu duvidei de minha índole.
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E eu, que tanto gosto e aprecio os
momentos de silêncio e introspecção, não conseguia mais gostar de estar silente
e alimentando meus longos e ricos monólogos internos que a tantas e tantas e
tantas belas conclusões já me elevaram.
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Eu não queria estar dentro de mim
mesmo. Eu não queria ser eu mesmo, não queria ser quem eu estava, quem eu era,
onde eu habitava.
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Não queria trabalhar onde trabalho,
não queria estar dentro de meu corpo, não queria ter a história que tenho, não
queria ter os olhos que me vejo, os cabelos que me cobrem, a boca que me
expressa, os pensamentos e as capacidades que tenho.
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Minha mãe, eu não queria ter as
pernas que me levam, a barriga que me preenche, as curvas que me habitam, as
mãos que me definem.
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Mãe, minhas mãos perderam a
riquezas de suas linhas! Minhas mãos tiveram seus traços apagados e minha palma
tornou algo esbranquiçado e sem definições. Minhas possibilidades viventes
foram manchadas de vazios sem história. Minha origem e meu destino foram
lançados ao limbo dos homens sem batismo!
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Minha mãe, eu não quis ser quem eu sou
e peço lhe perdão pelo que senti!
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Eu queria ser outra coisa. Eu
queria me transmutar em múltiplas possibilidades de seres que seriam os ideais que
eu construía dentro de mim ao imaginar o que estas pessoas poderiam ser nos
diferentes aspectos que englobam os seres encarnados. Eu quis ser muitos erros,
eu quis me jogar a desatino.
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Minha mãe, eu perdi meu nome. Eu
perdi minha idade. Eu perdi minha voz interna. Eu perdi minha pulsação. Eu
perdi tudo.
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Minha mãe, eu morri!
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Minha mãe, eu morri!
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Minha mãe, eu morri!
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Minha mãe, eu descri de minha
bondade, de minha Cristandade. Eu descri de tantas e tantas capacidades de
sentimentos belos que já vivifiquei dentro de mim. Eu descri de minhas raízes,
de meus avós e de suas fés que em mim vingaram enquanto reversão de doenças
incuráveis. Eu descri das orações que já haviam sido feitas por mim.
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Minha mãe, eu não sei onde cheguei.
Me desculpe por isso!
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Minha mãe, eu senti o que nenhum
homem digno deve sentir. Nenhum ser encarnado é indigno o suficiente para
merecer sentir o que eu senti. Eu cheguei a locais internos dentro de meu ser
que nenhum homem de bem deve chegar. Nenhum ser que habita um corpo merece
passar pelo que se instaurou dentro de mim.
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Minha mãe, eu senti vergonha de ti,
de meu pai e de todos os que me antecederam nessa imensa e bela hierarquia na
qual eu tanto faço questão de me inserir: a hierarquia das belas almas que me
antecederam.
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Minha mãe, tua cria virou bicho. Teu
filho virou oposto, virou o que eu nunca fui! Virou o que você nunca me ensinou
a ser.
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Mas minha mãe, eu saí de lá!
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E eu fui ao encontro daquilo que eu
sabia que nunca mudaria e, quando cheguei em frente, eu disse:
- Eu vim aqui para ver que tem coisas que não
mudam nunca! E também hoje sei que, depois que visualizamos a verdadeira face
do medo, entendemos que há coisas que não são tão amedrontadoras assim!
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Minha mãe, foram aproximadamente 40
dias abaixo das coisas vivas!
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Minha mãe, foram demasiadas coisas...
Mas eu saí de lá!
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Eu saí com a ajuda dos que me
guardam e me regem no ainda mais profundo que ainda mais se aprofunda dentro do
mais profundo imenso mundo que se me habita dentro de minha tão surrada alma!
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Minha mãe, meus espaços são
infinitos e redimíveis ainda mais além do que eu pensei que fossem. Eu sou
ainda mais múltiplo e reestruturante do que jamais pensei que seria.
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Eu sou maior do que eu imaginei que
eu era. Eu sou mais forte do que sequer algum dia eu achei que fosse capaz de
ser.
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Minha mãe, eu fui fênix!
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Minha mãe, eu sou escorpiano!
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Minha mãe, eu sou assim, eu sou
ainda mais assim do que eu já fui algum dia.
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Minha mãe, eu renasci das cinzas.
Eu renasci das cinzas surradas de um solitário indigno que, apesar de tudo, não
se afastou de sua fé.
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Minha mãe, a cada manhã que eu
vencia uma noite de provações, eu dedicava minha aguerrida luta de orações aos
meus avós que se me olham de meu altar.
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Eu dediquei cada manhã descortinada
às almas que me antecederam.
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Eu dediquei cada força retirada,
cada força inventada, cada força parida a fórceps, cada uma das forças geradas
a ferro e fogo eu dediquei aos meu ancestrais.
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Eu dediquei cada amanhecer àqueles que
firmaram os passos que acabaram fazendo, por acaso, destino ou desatino, eu me
tornar quem eu sou.
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Dediquei àqueles que viveram e
adormeceram na esperança da salvação.
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E eu dediquei cada aurora adentrada
em nome da esperança de poder um dia também estar junto de todos os que me geraram.
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E não adianta surrar, pois a fé é
feita daquilo que se quer fazer de si. A fé é feita daquilo que se vai fazendo
de si do jeito que sua própria vontade quer. A fé persiste porque quer. A fé
insiste porque é da natureza da fé ser assim. A fé não é razão, mas ela se
alimenta da razão. A fé também não é sentimento, mas ela se alimenta dos
sentimentos, assim como serve de alimento para eles. A fé é uma pulsação
incandescente que os mais sãos dentre os insanos preferem manter. A fé é nela
mesma. A fé talvez seja a coisa que mais existe em si mesma, sobrevivendo de
si. A fé é feita de migalhas inquebráveis, átomos sem divisão que vamos
amontoando constantemente ao longo da vida, simplesmente porque é assim que
queremos fazer. A fé se faz porque o sujeito da fé quer fazê-la enquanto fé e
não enquanto compensação. A fé se faz da própria fé. A FÉ APENAS É!
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E eu senti a renovação diária
miraculosa que se efetuou dentro de mim, enquanto eu lutava bravamente para me agarrar
nas esparsas novidades brilhantes que iam se me plantando nos dias de
Setembro.
Minha mãe, eu saí de lá, mas saiba
que ainda estou em processo.
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Acredito, minha mãe, que a maioria
de minhas vergonhas já as coloquei para fora, mas o caminho é imenso.
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O caminho é gigantesco, mas, como
disse João: o que a vida quer da gente é coragem!
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E isso, você me ensinou a ter,
minha mãe!
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