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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

JORNADA AO CORAÇÃO DA AMÉRICA ANDINA

DIÁRIO

DA

VIAGEM

FEITA

PARA

ARGENTINA, 

BOLÍVIA, 

PERU

E

CHILE

ENTRE

OS

DIAS

26/12/2025

E

14/01/2026

Dia 01 - 26/12 - Sexta-feira

Acordei as 7:30, terminei de ajeitar as minhas malas, comi o resto do almoço que sobrou da ceia de Natal e fui até a farmácia para verificar se as bagagens ultrapassavam o limite de 23 kilos. Felizmente, o peso estava um tanto abaixo do limite e, dali mesmo, já pedi o transporte para o local de embarque.
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Cheguei no Hotel Panamby às 10:15 da manhã e quase todo o grupo já estava no saguão. O guia verificou meus documentos e logo me sentei perto de duas senhoras muito simpáticas chamadas: Jô (Joseli) e Estér. A Ester é advogada e um pouco mais tímida, já a Jô é super extrovertida, professora de educação infantil e adora contar histórias engraçadas. Gostei das duas de cara e, com algum atraso, os dois ônibus chegaram até o local para começarmos o embarque geral: malas e mais malas, caixas com mantimentos, mochilas, estoque de água e outras tantas coisas que não consegui definir o que era.
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Partimos na direção sul para vencer os mais de 10.100 quilômetros a serem percorridos ao longo de vinte dias. Logo abri meu primeiro livro de viagem: “Os Caminhos de Nelson Mandela” do jornalista Richard Stengel que acompanhou Madiba por mais de três anos e o ajudou a escrever sua autobiografia. O começo já me tocou bastante porque o autor não santifica o grande líder da luta antiapartheid, mas o coloca de maneira franca e esférica, mostrando ser Mandela, sim, um homem de imensa humanidade, mas dotado de algumas pontuais contradições.
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Depois de uma hora e meia, paramos em um Graal para o almoço. Nessa refeição, a Jô já havia se enturmado com outra senhora e tivemos um papo muito interessante. Descobrimos que a Jô e a Ester possuem filhos com TDAH. O filho da Jô é artista plástico, tem seu ateliê dentro de uma ocupação do MTST, já o filho da Estér é adotado e começou a faculdade há pouco. Adorei essa coincidência que nos aproximou e humanizou mais a conversa.
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Depois do almoço, seguimos por mais quatro horas, indo em direção ao oeste, entrando, ainda mais, no interior do estado de São Paulo. Tentei continuar por mais um tempo em companhia do Mandela, mas não consegui, pois o sono me pegou. Mais tarde, paramos para tomarmos um café e comprarmos os mantimentos para a longa jornada noite adentro. Passaremos esta madrugada em trânsito, pegando pessoas em: Londrina (21:30), Maringá (23:30), Cascavel (3:30) e Foz do Iguaçu (7:00). No momento, não sei onde estou. O exterior está todo escuro e a internet não funciona. Sigamos em direção ao ventre da América Latina, o centro do Cone Sul.
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Dia 02 - 27-12 - Sábado

Depois de muito dormir e acordar, depois de muito balançar com a velocidade do ônibus, depois de muito “não saber onde estava”, o segundo dia de viagem começou a raiar. Logo o guia passou chamando a todos e avisando que estávamos a quinze minutos do local do café. Ajeitei-me, coloquei a bota, arrumei a coberta, coloquei a poltrona na vertical e saí para o refeitório. Comemos algumas coisas e fomos buscar os últimos integrantes do grupo. 
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Enfim, com o grupo completo, fomos para a entrada do Parque Nacional das Cataratas, uma das sete maravilhas naturais da humanidade. Eu estive no parque há quase 30 anos atrás e não me lembrava de alguns detalhes, ou talvez alguns elementos nem sequer existissem  nos meados dos anos 90.
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Pegamos a longa fila de entrada e depois entramos no ônibus para chegar ao início da trilha. Estava quente, muito úmido e o barulho das águas aumentava cada vez mais. Quando olhei um pedaço das quedas entre a vegetação, tive a impressão de estar vendo uma miragem. Foi uma sensação rápida, mas real. Olhei um pedaço das quedas ao longe e parecia algo distante da realidade, como uma tela de cinema montada no meio da mata ou um holograma, tamanha era a beleza daquele lugar.
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Continuamos caminhando pela trilha e, quanto mais chegávamos perto da garganta principal, mais a beleza aumentava. O local estava muito cheio e havia congestionamento de pessoas indo e vindo. Andei bastante tempo junto com algumas companheiras de expedição, nos molhamos muito, o que ajudou a refrescar. Depois subimos os vários degraus para voltarmos ao local do ônibus e sairmos do parque.
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Nos dirigimos para o almoço na Churrascaria Rafain. Lá havia um buffet enorme, carne à vontade e um preço bastante salgado, mas tudo bem. Terminando o almoço, fomos, enfim, depois de quase 30 horas, para um quarto de hotel, tomar banho e descansar um pouco. Dividi o local com dois manauaras super simpáticos: Altair, professor universitário de 48 anos e Raimundo Hélio, tabelião de 67 anos.
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Ficamos batendo tanto papo que quase nos atrasamos para o evento de boas vindas. Nele, os avisos de conduta foram reiterados e o itinerário repetido. Depois recebemos o kit com o roteiro detalhado, garrafa de água, copo para café, uma camiseta da empresa e uma bolsa. Terminada a reunião, voltei ao quarto, coloquei minha sunga e subi para a piscina. Estava uma tarde quente e fiquei até anoitecer conversando com uma das dezenas de mulheres que vieram sozinhas fazer a expedição. 
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Aliás, eu estou impressionado com a quantidade de gente que veio fazer essa viagem sozinho. Acho que 90% do grupo veio solo, 80% é mulher e já conheci pelo menos uns dez professores entre ensino básico, médio e superior. Quando anoiteceu, desci para o quarto, tomei outro banho, conversei mais com meus colegas de quarto e fomos dormir numa cama de verdade, depois de 40 horas longe desse conforto.
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Dia 03 - 28-12 - Domingo

Acordamos às cinco da manhã, tomamos banho, subimos para o refeitório e lá sentei com alguns integrantes diferentes do grupo que ainda não havia conversado. Após o café da manhã, fomos embarcar para mais um dia inteiro de viagem. Nesse terceiro dia, que ainda está acontecendo, afinal estou escrevendo às 23:49 do dia 28, percorremos um total de 1.500 quilômetros, sendo o maior trajeto sem pausa do circuito andino. 
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Mas voltando ao relato cronológico, meia hora após sairmos do hotel, paramos numa longa fila de carros para passar pela aduana da Argentina. Pessoalmente, achei uma baita burocracia o processo de entrada num país que se diz irmão da nação brasileira. Mas, enfim… Depois de toda demora, seguimos viagem por mais duas horas até o almoço e aproveitei para tirar um cochilo. Paramos na churrascaria Matias em San Ignácio, um restaurante familiar que funciona desde 1978. A comida estava bem gostosa!
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Terminados os trâmites de pagamento, seguimos viagem por mais seis horas. Fui acompanhando o trajeto pelo Maps e notei que estávamos descendo paralelos ao Rio Paraná. Passamos horas e mais horas por uma longa estrada que cortava os Pampas Argentinos e me impressionou a quantidade de regiões alagadas bem como a quantidade de terras improdutivas. O solo é plano, bem servido de água, a grama nasce com facilidade, mas os terrenos estão vazios. Uma pena! De qualquer maneira, a paisagem era linda e essa é uma das vantagens de se viajar com os pés no chão: observar o caminho e não somente o destino. 
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Após horas e horas andando em paralelo ao Rio Paraná sem poder vê-lo e, já tendo ele encontrado com o Rio Paraguai, enfim, entre as cidades de Corrientes e Resistência, passamos pela ponte que cruza o grande rio. Fiz dois vídeos de um minuto e meio cada um e ainda não havíamos terminado de cruzar seu leito, tamanha a largura e volume de água deste gigante da bacia do Prata que é uma das grandes riquezas fluviais da América do Sul.
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Cruzando o rio, seguimos até um shopping na cidade de Resistência. Chovia bastante quando descemos do ônibus e subimos para a praça de alimentação. Eu e alguns do grupo comemos uma lasanha, passamos no banheiro e fomos de volta para o veículo enfrentar mais dez horas de deslocamento… Agora são 0:56 da manhã e estou em algum lugar próximo de um lugarejo chamado Pampa del Infierno, situado na região norte da Argentina. 
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Mudando de assunto, terminei agora a pouco o livro "Os Caminhos de Mandela" do jornalista Richard Stengel que já havia citado nos dias anteriores. Emocionei-me no fim com os exemplos práticos que demonstram a grandeza dessa lenda da política humanista mundial. Também fiquei pensando sobre o árduo trabalho de catalogação do jornalista que recolheu 70 horas de entrevistas com o líder africano, escreveu um diário com mais de 120.000 palavras, conviveu com Mandela por três anos ajudando ele a escrever sua famosa autobiografia e, depois de tudo isso, concentrou essa grande bagagem em capítulos organizados que demonstram facetas singulares e inspiradoras do grande Madiba. Isso não é nada fácil! Como extrair de um ser humano mortal, suas facetas imortais, sobre-humanas e grandiosas que saíram de maneira descompromissada ao longo de alguns anos de convivência?
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Como organizar momentos vividos sem roteirização e juntá-los sob algumas óticas escolhidas? Como decupar o convívio em temas coerentes capazes de ensinar o leitor por meio de exemplos práticos dados por Mandela? E mais, como fazer isso não soar uma mera bajulação vazia que visa tirar proveito da situação de privilegiado convívio? Richard saiu-se muito bem e fez uma obra sincera, apaixonada pelo Tata Nelson, mas com sobriedade e ponderação. Fez jus a seu julgamento e lançou uma luz muito interessante sobre o que talvez seja o maior político africano desde Cleópatra, pelo menos dentre os que são mais falados no Ocidente. Nelson Mandela é o herói de real grandeza que temporalmente mais próximo está destes nossos turbulentos dias do primeiro quarto do século XXI.
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Dia 04 - 29-12 - Segunda-feira

Depois de mais uma longa noite em trânsito, chegamos por volta das 8:30 da manhã em Salta. Descemos todos num grande posto de gasolina situado no centro da cidade e após o café, rumamos para o município de Cafayate, margeando o rio de Las Conchas. O local é assim chamado porque é possível encontrar uma grande quantidade de conchas marinhas no local, afinal, toda a região já esteve localizada no fundo do oceano. 
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A geografia da região é linda! As montanhas possuem um perfeito delineamento das camadas geológicas que foram sendo reveladas pela erosão ao longo dos anos. É possível notar, muito claramente, as diversas linhas paralelas que desenham todos os morros e montanhas que se apresentam na paisagem. Nunca havia visto, em toda minha vida, um local onde isso ficasse tão evidente.
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Após quatro horas de viagem, chegamos a Cafayate, uma cidadezinha pacata que parece ser o cenário perfeito para um filme do Almodóvar. Fomos até um restaurante localizado à beira de uma grande praça e lá pedimos o Menu Turístico com: entrada (2 empanadas), prato principal (parmegiana com purê de batata), suco (limonada) e sobremesa (queijo com marmelada e nozes). Estava chique!
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Depois da refeição, fomos para a vinícola Vasilla Secreta, uma antiga fazenda de produção de vinhos. Experimentamos três tipos e o grupo foi unânime em preferir o primeiro: vinho branco, entre seco e suave. Vimos também os enormes parreirais que se estendiam pelo planalto da região. Achei a cidade de Cafayate muito charmosa, um lugarejo pacato voltado ao turismo, cheio de restaurantes, espaços de arte e artesanato. 
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Na volta, passamos novamente pelas paisagens do cânion da Quebrada de Las Conchas mas, dessa vez, paramos em dois locais: primeiro no Anfiteatro e depois na Garganta do Diabo. Trata-se de dois bolsões esculpidos nas rochas ao longo de milhares de anos de erosão. No Anfiteatro, havia um músico andino que tocava a flauta típica da região e um Charango, instrumento de quatro cordas que se parece com um Ukulelê. A acústica ajudava a apresentação, o local era enorme e cheio de linhas paralelas nas paredes de pedra; seu desenho era sinuoso, assimétrico e muito bonito.
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Passamos então para a Garganta do Diabo, onde senhoras vendiam alguns artesanatos e sinos com temas andinos. A Garganta era menos interessante do que o Anfiteatro mas, mesmo assim, o grupo tirou centenas de fotos no local. Turista é tudo igual! Depois desse último lugar, retornamos para Salta, onde fizemos, após mais de 36 horas de atividades, o check-in num novo hotel e pudemos deitar numa cama de verdade. 
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Tomamos banho, jantamos e fomos dormir. Apaguei completamente durante as quatro horas que tivemos de sono… Agora são 7:52 da manhã do dia 30/12 e estamos iniciando o quinto dia da expedição.
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Dia 05 - 30-12 - Terça-feira

Levantei cedo, depois de um sono sem sonhos, tamanho era o cansaço. Tomamos café, entramos novamente no ônibus para continuarmos a viagem, saindo de Salta e indo rumo à Bolívia, tendo como destino final a cidade de Uyuni. Aproveitei para ler bastante o segundo livro (Líderes e discursos que revolucionaram o mundo), olhar as paisagens andinas e as cidades pequenas que apareciam pelo caminho.
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Depois de algum tempo de deslocamento, chegamos a Humahuaca, um povoado onde aconteceu uma batalha muito importante para que a Argentina conquistasse sua liberdade. Passamos pelo monumento aos heróis da independência, caminhamos pelas ruas pacatas e comemos algumas tortillas, afinal, não teríamos parada para o almoço.
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Entramos novamente no ônibus e continuamos o caminho pelo interior da Argentina. As paisagens eram lindas! A geologia da Quebrada das Conchas se repetia: as camadas de sedimentos, as cercanias áridas e o rio sinuoso. Paramos na aduana entre Argentina e Bolívia para sermos revistados e todos desceram para passarmos no scanner. Depois de atravessada a cancela, trocamos dinheiro num povoado extremamente pobre, já do lado boliviano.
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Seguimos ganhando altitude e, aos poucos, fomos sentido o tal do SOROCHE. Senti, principalmente, a falta de ar e alguma pressão na lateral da cabeça. Chegamos a atingir os 4.242 metros de altitude num determinado ponto do trajeto. Após algum tempo lendo, resolvi parar um pouco para ouvir umas músicas e, como não poderia deixar de ser, ouvi o tema “Machu Picchu” do Hermes Aquino que canto desde jovem com meu tio. Foi emocionante estar nos Andes, rumo a cidade sagrada dos Incas, ouvindo essa música que fala justamente sobre aquilo que eu estava vivendo. A tarde caía e me senti dentro de uma cena de cinema!
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Depois de escutar incessantemente a música citada, ouvi algumas do álbum “Caju” da Liniker, ouvi o “Dark Side of the Moon” do Pink Floyd, depois passei pro “The Division Bell” também da mesma banda e logo já estávamos em Uyuni. Acho que a música me curou da falta de ar e da dor de cabeça. Esqueci totalmente das sensações ruins que estava sentindo e cheguei bem tranquilo no destino final daquele dia. Paramos no hotel, fomos pro quarto deixar as malas e logo descemos pro refeitório. Fizeram uma mesa enorme pro grupo e, olhando o tamanho da cozinha e a simplicidade do local, achei que não conseguiriam servir a todos nós mas, felizmente, me enganei. Terminamos o jantar e fomos dormir.
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Uma coisa que me chamou atenção nesse dia foi a simplicidade das pessoas do norte da Argentina e do sul da Bolívia, assim como a enorme pobreza que eles vivem. Esses cenários me comovem muito por aquilo que imagino que eles passam e também pela integridade que suas figuras nos transmitem. Adoro observar pessoas!
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Dia 06 - 31-12 - Quarta-feira

Dia de Salar!!!
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Dia de visitar o maior deserto de sal do mundo, com mais de 12.000 quilômetros quadrados de extensão e chegando a até 126 metros de profundidade de puro sal. Saímos às 10:00 horas do hotel e rumamos para o Cemitério de Trens. Trata-se de um local onde foram abandonados vários vagões e locomotivas que faziam parte do primeiro grupo ferroviário de transporte de minerais desta localização para os portos do Chile.
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Essa região do Uyuni possui as maiores reservas mundiais de Lítio, mineral crucial para a indústria de baterias. Além do Lítio, a área é rica em Sal (Cloreto de Sódio), Potássio, e depósitos de minerais metálicos como: Estanho, Cobre, Prata, Chumbo e Zinco. O cemitério fica num espaço na periferia de Uyuni e o local parece saído de um filme apocalíptico. Ficamos meia hora lá e depois fomos para a feira de artesanatos de Colchani. Comprei, como não poderia deixar de fazer, um ímã de geladeira e uma caneca com temas bolivianos.
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Depois dessa rápida passagem, nos encaminhamos para o grande SALAR DE UYUNI. Aos poucos, conforme os veículos foram se aproximando do local, pudemos observar, ao longe, uma imensidão branca e algumas montanhas distantes que pareciam flutuar. Senti a potência da beleza do local e seu conjunto geológico que se apresentava como uma miragem, um cenário quimérico apartado do entorno. Fiquei cada vez mais enlouquecido com aquela imensidão que aos poucos chegava mais perto e se deixava observar pelas janelas dos carros. Era como se estivéssemos vendo um espaço sem fim, um campo sem bordas, um horizonte quase marítimo, só que estávamos em grande altitude, no meio da mais extensa cordilheira de montanhas do mundo.
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Passamos por algumas cancelas, pegamos umas galochas para não molharmos os pés no espelho d'água e rumamos em direção ao Monumento do Dakar, construído pelos organizadores do Rali Paris-Dakar. Depois passamos pela Praça das Bandeiras, um local onde pessoas do mundo inteiro amarram bandeiras de diversos países, estados e até times de futebol. O espaço parecia um cenário de filme de ficção científica ou pertencente a um planeta diferente, de geologia inusitada, situado nalgum canto qualquer do Universo.  O vento constante, a imensidão branca, o reflexo do céu no chão e seus espelhos d'água, tudo parecia um grande sonho. De repente, tomei consciência de que estava num dos locais mais bonitos que já visitei na minha vida! 
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Continuamos adentrando "EL GRAN SALAR", como dizia nosso guia Pedro. Os carros, ônibus e caminhões, todos meio distantes, mas com suas rotas paralelas, rumando para um mesmo destino; a aceleração dos motores, o cenário saído de um livro de Garcia Marques, tudo isso me fez sentir dentro de um filme como “Mad Max: Estrada da Fúria”. Após mais de uma hora correndo sobre toneladas de puro sal, chegamos à Ilha dos Cactos. Trata-se de um conjunto de pedras que já habitaram o fundo do mar, mas que agora fazem morada para uma floresta de cactos. O solo é uma mistura de rochas com corais fossilizados e é possível notar as diversas camadas dos materiais de diferentes origens.
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Fizemos o circuito que dava a volta na ilha e chegava até seu ponto mais alto. Quanto mais subíamos, mas era possível enxergar a imensidão do Salar. Os cactos passavam dos sete metros de altura e tinham como moldura o fundo branco do grande campo de sal que se estendia até quase se perder de vista por todos os lados. Depois dessa volta, fomos todos almoçar sobre o mineral branco. Montaram uma enorme mesa para mais de 60 pessoas e todos fomos comer alguns pratos típicos da Bolívia. Terminado o almoço, fomos nos preparar para o grande espetáculo do dia: o Pôr do Sol no Salar.
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Paramos num ponto próximo a um grande espelho d`água e tiramos algumas fotos super divertidas que brincavam com a perspectiva, a profundidade e a falta de referência de distância, típicas da geografia do local. Depois dessas várias fotos, entramos num imenso espelho d'água que refletia a luz do sol que se aproximava do horizonte... MEU DEUS!!!
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Era um gigantesco campo dourado com uns dez centímetros de água que saía do Sol, passava por nós e seguia adiante em direção à escuridão da noite que se adensava sob nossos pés, elevando-se por sobre nossas costas. Ficamos enlouquecidos com a beleza absurda da paisagem. Acho que este foi o pôr do sol mais bonito que já vi na minha vida! Fizemos diversos vídeos legais, interagimos bastante, cantamos, dançamos e tomamos vinho. Alguns de nós aproveitou para agradecer pelo ano que se encerrava. Rezei um pouco e fiquei emocionado com tudo que aquele momento envolvia. 
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Aproveitei para relembrar meu ano de 2025, desde o réveillon em SP, a viagem para a Índia e o Nepal, o início do ano letivo, a remontagem de Tatuagem, o Carnaval,  as passagens densas da Quaresma, a Semana Santa em Minas, Maio e os ensaios para o musical João, a temporada na Cia da Revista cheio de amigos, os processos de Junho e suas cores, as férias em SP, o périplo do Ibirapuera, a natureza e o profundo silêncio que ela me traz, os enfrentamentos e mudanças de Agosto, a silenciosa limpeza de Setembro, as mudanças em relação a minha saúde, o prêmio Bibi ganhado em Outubro, o inferno astral que antecedeu meu aniversário em Novembro, a linda festa cheia de amigos na Cesário, as organizações para as apresentações de fim de ano, o término do período letivo, os últimos dias no colégio, a ida para o Natal em Minas e a saída para a viagem na qual me encontro. Apresentei minha retrospectiva e também emanei os pedidos para 2026.
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Conforme o sol descia, mais bonito e avermelhado ficava o ambiente. Logo veio o frio, algumas partes do céu ficaram roxas e todas as cores eram multiplicadas pelo reflexo do espelho d'água que circundava todo o grupo. A beleza era incansável e eu poderia viver alguns dias naquele estado de espírito que o local me convidava! Mas, infelizmente, tudo tem seu fim e, com a queda da noite e da temperatura, os guias nos chamaram para partir, os jipes ligaram seus motores e O PÔR DO SOL MAIS BONITO DA MINHA VIDA chegava ao fim.
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Seguimos por mais uma hora em direção à saída do Salar. Um comboio de jipes indo em direção à escuridão da noite, deixando aquele espetáculo inesquecível e efêmero que se esvaia vagarosamente pelos contornos das montanhas ao fundo: o último pôr do sol de 2025! Chegamos a portaria, fomos devolver as botas teoricamente impermeáveis e rumamos para o hotel. Cheguei tão cansado que não queria nem comer. Tomei banho, belisquei alguma coisa e caí na cama tentando vencer a dor na perna que se intensificava por conta da altitude e do cansaço. Mas valeu demais!!! O que vivi no GRANDE SALAR DO UYUNI ficará guardado pra sempre dentro de mim…
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Dia 07 - 01-01 - Quinta-feira

Levantamos às 3:30 da manhã para começarmos um longo deslocamento de mais de 25 horas em direção a Cusco, no Peru e fiquei novamente impressionado com a pobreza do interior da Bolívia. Todos os lugares que passamos eram extremamente precários, muitas ruas sem calçamento, praticamente todas as casas não tinham reboco e as cidades eram um grande amontoado de construções marrons inacabadas. As pessoas também aparentavam ser muito pacatas e desacreditadas. Pareciam viver aquela situação como algo normal, uma sentença de vida da qual seus pais tinham vivido, elas também e seus filhos também iriam viver. Já visitei alguns países da América do Sul, mas a Bolívia foi o que mais me chocou nesse sentido. 
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Ao longo do dia de deslocamento, passamos perto de La Paz, mas não fomos até a cidade. Os guias preferiram nos levar até o aeroporto da capital para almoçarmos, alegando que as opções eram melhores mas, mesmo o aeroporto, não tinha tantas possibilidades. Era um lugar pequeno, com uma praça de alimentação contendo umas cinco opções de lanchonete e só. Isso porque estamos falando do principal aeroporto do país. Comi um misto-quente com suco e logo voltamos para continuarmos a jornada. Depois de mais um tempo de estrada, conseguimos ver um grande lago, perguntei ao guia se era o Titicaca e ele confirmou. 
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Os Andes de mil detalhes, os diferentes solos, as paisagens semiáridas, os animais característicos, enfim, tudo aquilo que se passava em frente aos olhos era, justamente, o cenário imaginado por mim durante décadas. Sonhei, ao longo de muitos anos, com o momento de poder estar em meio a tudo aquilo que naquele instante eu estava vivendo. Parei, então, de ler e comecei a ouvir algumas músicas que achei que iriam ser a trilha sonora certa para aquela ocasião. Escutei temas como: Sueno con Serpientes (Milton e Mercedes), Los Hermanos, Gracias a la vida (Elis) e, após muito lago Titicaca na paisagem da direita, chegamos, enfim, na aduana entre Bolívia e Peru. 
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Preenchemos as declarações, levamos os passaportes e todos os quase 50 integrantes foram passando. O frio do lado de fora era intenso, estávamos numa altitude muito grande e era possível sentir algumas alterações no corpo, na cabeça e nos ouvidos. Depois dessa burocracia chata, continuei ouvindo mais músicas. Ouvi Liniker, Pink Floyd, mais Milton Nascimento, mais Elis Regina e a noite foi caindo por sobre os Andes. Paramos na rodoviária da cidade de Puno para jantarmos numa senhora muito simples e caprichosa que nos agradou bastante. Comi um omelete bem feito, tomei um suco e aproveitei o tempo restante para andar pelo lugar. 
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Caminhando sem rumo pela estação, reparei numas flores que estavam espalhadas pelo chão. Parei, quase sem querer, na frente de uma moça muito simpática e perguntei o que seriam aquelas pétalas amarelas que faziam o contorno dos estabelecimentos comerciais presentes na rodoviária. A mulher me abriu um franco sorriso, eu senti uma sensação muito boa e ela me disse que aquilo era uma forma de reverenciar a querida Pachamama. Então, eu questionei se era uma forma de agradecer pelo ano que passou ou se aquelas pétalas tinham o intuito de pedir graças pelo novo ano que estava se iniciando? Ela sorriu novamente e disse só se deve agradecer a Pachamama, pois ela já nos dá tudo aquilo que precisamos para viver. Fiquei impressionado com a sensação que aquela mulher me transmitiu. Ela me pareceu realmente inspirada a dizer aquelas palavras.
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Andei mais um pouco e comprei um gorro azul e preto com o nome da cidade escrito na frente. A noite prometia ser fria, então, coloquei várias roupas, arranjei mais uma coberta, peguei outro travesseiro que não estava sendo usado e consegui me ajeitar. Fomos avisados que passaríamos por um ponto muito alto na divisão entre as cidades de Puno e Cusco e, coincidentemente, eu acordei no meio da noite, na hora em que estávamos passando por ele. Levantei sem querer, com vontade de ir ao banheiro e, por estar com uma sensação estranha nos ouvidos, resolvi abrir o Maps e lá estávamos nós a mais de 4.800 metros de altitude. Acho que nunca havia estado num ponto de terra tão alto. Voltei pro meu assento no fundo do ônibus e logo já estava dormindo novamente.
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Adendo de narrativa repetida: quando estava ouvindo as músicas, é claro que não era poderia faltar o tema Machu Picchu que já cantei diversas vezes com meu tio Zé Nilton. Essa música sempre foi um dos inúmeros motivos de eu querer fazer essa viagem. Ela fala sobre atravessar os Andes de mil detalhes e era justamente isso que eu estava fazendo enquanto ouvia a gravação. Baita momento bonito!
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Segue a letra da canção:
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Faço a mala depressa
Uma promessa
Não vou quebrar
Sigo pela avenida
Aeroporto, vou viajar
Atravessando os Andes de mil detalhes
Me sinto bem
Vou para Machu-Picchu
Ouvir as flautas
De muito além
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Uma desilusão
No meu coração
Se fez de repente
No meio da montanha
Um Hotel enorme
Cheio de gente
Fotos, chiclets, coca
Uma massaroca
Prá lá e prá cá
Nem um Deus
Uma prece
Era o progresso
Chegando lá
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Ah! meu Machu-Picchu
Ninguém segura
Esse meu delírio
Ah! olhos vermelhos
Cuca cansada
De mil colírios
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Volto pra casa
E esquento o café no fogão
Tomo um café brasileiro
E vejo o futebol na televisão
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Dia 08 - 02-01 - Sexta-feira

Depois de longas horas cruzando os Andes, chegamos à capital do Império Inca: Cusco. Como os ônibus não podem entrar no centro histórico, pegamos uma Van e fomos pro hotel San Augustin Internacional. Deixamos as malas na recepção, tirei as diversas camadas de roupas que me ajudaram a esquentar o frio da madrugada e fomos tomar café. 
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Após o café, saímos para um Tour. Passamos pelo Palácio da Justiça, viramos na Avenida El Sol, vimos a prefeitura e trocamos dinheiro numas casas de câmbio. Seguimos para a Praça das Armas e seus monumentos que documentavam a luta dos Incas contra a dominação espanhola. Passamos também pela Catedral de Cusco, tiramos fotos de todo o grupo neste local emblemático, vimos a pedra dos 12 ângulos e fomos para um atacado de produtos peruanos super baratos. A loja era gigante, tinha de tudo e os preços eram sensacionais. 
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As mulheres da excursão ficaram loucas com o espaço. Eu comprei um casaco muito bonito com temas típicos, imãs de geladeira, caneca e sei lá mais o que. Tiramos fotos com roupas típicas na frente da loja, toquei flauta andina e um outro instrumento de corda que não me lembro o nome, mas que pode se tratar de um Charango. O grupo estava super animado e fizemos uma grande bagunça no espaço.
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Próximo do meio-dia, voltamos para o hotel para deixarmos as coisas nos quartos e fomos almoçar, eu e o sr. Moacir, no mercado San Pedro, uma espécie de mercado municipal da cidade. O lugar é uma loucura. Tem artesanato, suco, ervas, queijo, doces, pratos típicos, sanduíches e etc. O sr. Moacir pediu uma vitamina de quinoa com maçã, eu pedi um hambúrguer e um suco. O lugar é a pura essência da verdadeira Cusco e do povo do Peru. Adorei lá! Voltamos debaixo de chuva pro hotel e pudemos, enfim, depois de muitas e muitas horas, descansarmos nos quartos. Aproveitei para tomar um banho, afinal, eu estava precisando.
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Às 13h45,  o grupo estava pronto na recepção e as vans vieram nos buscar para o nosso City Tour da tarde. Fomos visitar quatro sítios arqueológicos: Muyuqmarka, Cruzmoqo, Pukapukara e outro que não me lembro o nome. As construções Incas são impressionantes! Num dos sítios, haviam paredes de pedras que pesavam mais de 30 toneladas e elas estavam, umas sobre as outras, perfeitamente encaixadas. É maravilhoso pensar que eles quebravam, transportavam e poliam as pedras usando os materiais extremamente precários que existiam há mais de 500 anos atrás. Uma loucura!
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Voltamos para o hotel por volta das seis da tarde e saí com alguns colegas para comer lasanha e tomar Chicha Morada. Voltei para o quarto, conversei com os colegas e dormi muito mal por causa da falta de ar. :-(
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Dia 09 - 03-01 - Sábado

Depois de conseguir dormir somente das 22:30 à meia-noite, saímos da cama às cinco da manhã, tomamos banho, café e ajeitamos as malas para a parte que, para mim, era o trecho mais importante da viagem: o caminho até Machu Picchu. Deixamos nossas malas num espaço do hotel e levamos somente o mínimo para os próximos dois dias que se iniciavam. 
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Pegamos as vans, começamos a subir rumo a periferia de Cusco e logo paramos num lugar chamado Manos de la Comunidad. Nesse espaço, o grupo alimentou os quatro tipos de camelídeos sul-americanos, que são: os guanacos, as vicunhas, as lhamas e as alpacas. Vimos também um viveiro enorme com três grandes condores e posso dizer que o bicho é feio, mas seu tamanho é impactante. Vimos também umas senhoras tecendo tapetes em teares andinos e, por fim, entramos numa galeria linda, cheia de objetos artísticos com a temática da região. Os quadros, as tapeçarias e as roupas eram de primeira qualidade e, como era de se esperar, os preços também eram de primeira grandeza. Um dos ponchos lá exposto custava quinze mil dólares.
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Após essa primeira parada, continuamos andando pelo Vale Sagrado dos Incas e fomos ao Mirante de Taray. Esse era um trecho da viagem que eu não me atentei em saber como era e me surpreendeu positivamente. O vale continua sendo cultivado pelos descendentes dos Incas, as planícies são todas coloridas, bem cuidadas e o Rio Urubamba reina soberano entre a população por séculos e séculos. Depois desse trecho, fomos para o sítio arqueológico de Pisac que é cheio das escadarias de plantação nas suas montanhas.
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Paramos num restaurante muito chique chamado: The 14 Inkas. Entrou tanta gente no restaurante que pensei que a equipe não fosse dar conta de repor toda a comida do buffet, mas tudo correu bem. Fomos então adiante, nos aprofundando mais e mais no Vale Sagrado dessa que foi, em número de pessoas e extensão territorial, a maior civilização das Américas.
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Chegamos, enfim, ao último sítio arqueológico do dia: Ollantaytambo. As ruínas subiam longamente as altas montanhas e as construções eram cheias de significados místicos e científicos. Além disso, pedaços altíssimos das montanhas estavam entalhados ou modificados pelo homem, delineando rostos voltados para os solstícios ou silos de armazenagem de alimentos para a população do Império do Sol. Embarcamos, então, no trem para Águas Calientes ou Machu Picchu Pueblo. A fila se formava no meio de uma rua pequena e era possível ver pessoas do mundo inteiro, uns atrás dos outros, esperando o momento de embarcar.
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Foi uma grande festa! Um grupo de jovens vestidos de Incas dançavam alguns temas típicos e tocavam umas conchas marítimas que soavam notas altas e longas pelo espaço. O grupo brasileiro ficou, quase que inteiro, no primeiro vagão que era bastante envidraçado, o que facilitava a visão do espaço ao redor e, após alguma espera, enfim, o trem partiu. No começo do trajeto, a paisagem era bastante parecida com as outras partes do Vale Sagrado que havíamos visto nesse mesmo dia mas, conforme fomos aprofundando e descendo a encosta leste do Andes, o espaço entre as montanhas foi de afunilando, a vegetação foi se tornando mais tropical e as montanhas foram crescendo em tamanho. 
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Havia pontos em que, ao olharmos para a frente, parecia que o vale acabava de repente, não havendo espaço de passagem entre as montanhas mas, no entanto, conforme o trem ia adiante, notava-se que os caminhos continuavam por entre os espaços estreitos que restavam no meio das gigantescas pedras que delimitavam o leito do Rio Urubamba. Foi um passeio fantástico! Senti-me seguindo um caminho secreto, adentrando um recanto sagrado das partes altas da bacia amazônica, me aproximando de um possível eldorado fantástico, um rincão do interior da Terra, uma passagem secreta guardada pelas altas magias dos Incas.
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Imaginações à parte, acho que o fascínio exercido por Machu Picchu vem também deste trajeto tão lindo que os turistas têm que percorrer para chegar até ela. A mudança de cenário é drástica. Saímos de um terreno amplo e seco para um estreito e profundo vale equatorial. O recôncavo derradeiro de uma natureza em seu estado primitivo, o último espaço mais possível de um mundo que desterra suas belezas fundamentais, o útero onde tentarão resistir os elementais guardiões da Biosfera... Não sei direito, mas aquele lugar tem uma magia!!!
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Depois de duas horas cruzando uns dos vales mais lindos que já vi na minha vida, chegamos ao fim da linha na cidade de Águas Calientes ou Machu Picchu Pueblo. Trata-se de um vilarejo puramente turístico, onde não se chega de carro, as ruas são estreitas, íngremes, com pessoas de todos os cantos do mundo se cruzando numa estrutura encravada no meio de imensas rochas, fontes de águas termais e um rio caudaloso. Uma atmosfera fascinante.
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Fomos para o hotel, deixamos as malas e, às 20 horas, fomos a um restaurante com karaokê para comermos e festejarmos o dia que se iniciaria em algumas poucas horas. Tomamos Pisco Sour, jantamos e logo todo o espaço era brasileiro. Cantamos samba, MPB, funk, axé e outros gêneros; pessoas de outras partes do mundo se juntaram a nós e ficamos até o momento em que o dono desligou o microfone. Que delícia cantar! Estava precisando fazer isso para poder vencer a caseira, relaxar e me preparar para o objetivo maior dessa viagem: conhecer a cidade sagrada de Machu Picchu.
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Dia 10 - 04-01 - Domingo

Chegou o grande dia... 
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Acordamos às 4:30 da manhã e fomos tomar café umas 5 da matina, pois às 6 todos teríamos que sair em direção a fila onde pegaríamos as vans para Machu Picchu. Eu estava emocionado! Sonhei com essa viagem por mais de 30 anos, cheguei a fazer uma promessa com meu melhor amigo de faculdade e combinamos que iríamos juntos para a cidade sagrada dos Incas. Aliás, promessa que não se cumpriu, pois ele a quebrou e eu só fui descobrir depois de uns anos quando vi as fotos no seu Facebook. Mas paciência… Machu Picchu, não sei porquê, sempre exerceu um fascínio sobre mim. 
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Chegamos na fila, os funcionários verificaram nossos bilhetes e logo saímos em direção a montanha velha. O caminho era extremamente sinuoso e, olhando de baixo, parecia impossível que um carro pudesse subir aquela enorme escarpa alta e íngreme. Conforme subíamos, o rio Urubamba ia se distanciando e o céu ia ganhando dimensão por sobre nossas cabeças. Saímos de um profundo estreito entre pedras para ganhar as altitudes iluminadas da velha morada. 
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Quando estávamos num determinado ponto, o guia da excursão, que por acaso estava do meu lado, apontou para o topo da montanha e disse: 
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 - Olha lá, já dá pra ver um pedaço da cidade daqui!
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Lembro-me exatamente dessa primeira visão! Era como se a cidade me espiasse, altiva e imortal, sublime e resiliente, secreta e mística, apoiada na beira de uma espécie de parapeito celeste.
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Após uns 30 minutos de deslocamento, chegamos a um pequeno pátio onde as vans despejavam as centenas de turistas que rumavam para a realização de um sonho que imagino ser de muitas pessoas. Juntamos todo o grupo e passamos pela entrada que daria acesso ao Circuito 3: Realeza. Andamos por uma estreita passarela em meio a floresta e logo avistamos uma parede de pedras que chegava até bem próximo do desfiladeiro. Subi uma escada de alguns poucos degraus e, de repente, o sonho de diversas décadas se descortinava em frente a mim. Enfim, após tantos e tantos anos, estava eu em MACHU PICCHU. Tive um repente de emoção e lágrimas.
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O guia Ivan foi nos levando pelas ruínas. Tiramos fotos, visitamos o templo do Sol, o Templo do Condor, os aposentos reais, a escola da cidade, vimos a praça onde aconteciam os escambos, os degraus onde cultivavam os alimentos. A estrutura se debruça sobre um imenso desfiladeiro e é possível ver o Rio Urubamba correndo pequeno por entre os imensos paredões. Que sonho foi ter estado lá! 
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A estrutura montada pelos Incas é fantástica, mas tudo se torna ainda mais incrível quando emoldurado pelo local onde a cidade foi construída. A conexão entre a Machu Picchu e a Huayna Picchu, o platô ligando as duas, a floresta que se espalha, a profundidade do Vale, a volta estreita que o rio faz ao longe... Tantas coisas juntas fazem a beleza desse lugar que magnetiza tantas e tantas pessoas de todos os cantos da Terra.
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Eu estava enlouquecido olhando tudo aquilo. Queria absorver o instante, eternizar o efêmero, emoldurar sua atmosfera, tatuar em mim a sensação que fluía, fotografar com os olhos e a máquina tudo o que estava acontecendo naquele átomo pequeno de vida. Andei por todos os cantos e, quando estava sozinho, fiz um vídeo cantando a já citada “Machu Picchu” do Hermes Aquino. Havia prometido fazê-lo para enviar ao meu tio Zé e a minha prima Júlia.  
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Depois dessa viagem ao passado, ficamos um pouco sentados pensando na vida ou meditando. Eu aproveitei para rezar e agradecer por estar naquele sítio que tanto sonhei. Fechei os olhos, respirei fundo e me aprofundei na consciência para decantar, em definitivo, aquele marco da minha vida. Saímos, então, pela mesma passarela estreita que entramos e o grupo quis ir embora. Eu disse que ficaria mais um pouco, afinal, não gostaria de me despedir tão cedo daquele local tão sonhado. Resolvi fazer uma hora na parte de fora: tomei sorvete, fiquei vendo as pessoas e as filas que se formavam para entrar e sair. 
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Logo o tempo começou a fechar. Aliás, os guias dos diversos subgrupos  nos disseram que tivemos muita sorte porque, nos outros dias, no mesmo horário, a cidade estava coberta de névoa e não era possível visualizar toda a estrutura. Senti que era melhor descer do que ficar tomando chuva na fila de espera para a van da volta. Entrei no veículo com um outro subgrupo da excursão e descemos para Machu Picchu Pueblo. Lá fomos almoçar no mesmo restaurante do karaokê do dia anterior. 
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Após o almoço, caminhamos por outras ruas, subimos até a entrada das termas, passamos no mercado e logo rumamos pro hotel para pegarmos as mochilas e ir para a estação. Pegamos o mesmo vagão da ida, alguns voltaram conversando, outros dormindo e alguns batendo fotos do lindo vale... Ao chegarmos de volta em Ollantaytambo, pegamos as vans e retornamos pelo Vale Sagrado dos Incas até a cidade de Cusco. Chegando em Cusco, fomos pro mesmo hotel, deixamos as coisas nos novos quartos e alguns foram para a pizzaria que ficava ao lado. Comemos uma pizza de quinoa, tomamos uns vinhos e depois fomos para os quartos descansar. 
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O principal objetivo da viagem havia sido cumprido numa bela jornada! Sair de Cusco, adentrar os caminhos do Vale Sagrado dos Incas, chegar a Ollantaytambo, pegar o trem, embrenhar-se pelos estreitos do vale do Urubamba, assentar estadia em Águas Calientes, cantar para espantar o cansaço da noite mal dormida, aprender a usar o protetor anti ruído, levantar após poucas horas mas com mais disposição, embarcar nas vans, olhar a construção ao longe, subir as montanhas, cruzar a passarela, virar a esquerda, olhar a obra-prima do Império do Sol, atingir o objetivo máximo de todo o trajeto e depois fazer todos os caminhos da volta. Uau!
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Agora, vendo com mais distância, sinto que Machu Picchu foi o grande ponto de virada da viagem. Pareceu-me uma espécie de peregrinação, um tipo de provação, um arraste de coisas que precisavam existir e estar dentro de mim para que todo o processo fosse ainda mais significativo. Um dia antes, eu estava totalmente cansado pelas noites mal dormidas, minha energia estava baixa, meus olhos fundos, minha paciência menor… Eu estava aquietado, guardando as poucas energias que me restavam. 
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Passando a cidade sagrada, a chave virou e eu ganhei outro ânimo. Os dias ficaram mais tranquilos e eu, por ter aprendido a usar o protetor de ouvido, consegui lidar melhor com o ronco dos dois colegas de quarto. Além disso, também me acostumei a dormir melhor no ônibus, consegui ir melhor no banheiro e deixei fluir as coisas como elas deveriam ser. Mas que bom que tais dificuldades se apresentaram no processo, pois estes perrengues deixaram tudo mais bonito. 
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A vitória tornou-se maior e a vida, à sua maneira, mostrou-se novamente mais bela do que um roteiro alquebrado qualquer. O fluido do repente fluiz fez-se mais fascinante do que um complexo e longo poema planejado, porém esquecido nas gavetas mentais por ser correto demais. O caminho foi mais colorido do que um conto ou romance exageradamente calculado e que, por isso, segue esperando o momento exato de nascer. 
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A vida superou a arte, a realidade superou a possibilidade e a peregrinação até Machu Picchu suplantou a espera de mais de trinta anos!
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Dia 11 - 05-01 - Segunda-feira - (SEGUNDA METADE DA VIAGEM)

Dia livre em Cusco. Dia de desacelerar… Fui tomar café mais tarde e encontrei com diversos integrantes da expedição que não haviam comprado os passeios opcionais. Combinamos de sairmos juntos e ver diversos museus da cidade. 
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Começamos pelo Museu Histórico Regional que retrata um pouco da pré-história da região, os agrupamentos pré-incaicos, o apogeu da Civilização do Sol, a repentina e devastadora chegada dos espanhóis, sua dominação e sua influência nas artes e nos costumes. A cronologia do espaço ainda avança mais, chegando até a independência do Peru que foi conquistada graças à influência de Inca Garcilaso de la Vega que denunciou, para a Europa, o extermínio da população local posta a cabo pelos colonizadores das terras transatlânticas.
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Depois desse museu, fomos ao Museu do Chocolate, simpaticamente apelidado de Choco Museu. Comemos algumas coisas esperando que ele abrisse e subimos para experimentar chocolates feitos com cacau de diversas partes do Peru, chocolate com folha de coca, chocolate com pimenta, chocolate ao leite, chocolate com 50, 70 e 100% de cacau. Muito interessante!
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Saímos e fomos pro Museu de Arte Popular onde estavam pinturas e esculturas feitas em diversas épocas, inclusive objetos artísticos produzidos há alguns anos atrás. Muita coisa engraçada estava exposta! Caricaturas de seres humanos com pescoços de lhama, esculturas que zombavam de figuras históricas espanholas e máscaras grotescas que ridicularizavam algumas temáticas pertencentes à região. 
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Continuamos andando pela cidade, passamos novamente pela pedra dos doze ângulos e retornamos à loja Asunta para fazermos mais compras. Após mais algumas gastanças, deixamos as coisas no hotel e fomos pro Mercado San Pedro para almoçarmos. Comemos sanduíche, tomamos suco, andamos por outras áreas de comércio, entramos em algumas igrejas que estavam abertas e o dia começou a cair na capital do Império Inca. 
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Me despedi do pessoal e rumei pro Centro Qosqo de Arte Nativa para ver uma apresentação de dança e música típicas do país. Achei lindo! Tudo tão simples, feito por pessoas da localidade, com senhoras e senhores de mais idade tocando e dançando os ritmos andinos que tanto me encantam. Terminada a apresentação, fui para um restaurante classudo que alguns da excursão queriam ir. Comida boa, farta e ótima companhia! 
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O dia havia sido excelente, repleto de boas trocas e cheio de novidades mas, o melhor ainda estava por vir… Estávamos quase indo embora quando resolvi passar no banheiro. Confesso que adoro visitar os banheiros dos lugares quando vou pela primeira vez e, foi lá que ouvi, esgueirando-se por uma pequena janela vermelha do lado oposto da rua, um filete de Jazz... Pensei comigo: “vou lá ver o que é”!
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Perguntei se alguém queria ir e só  a Regina se animou. Subimos por umas escadarias antigas guiados pelo som e logo entramos num espaço super apertado, cheio de peruanos e estrangeiros. No palco, uma cantora que depois eu vim a saber que tinha o mesmo nome da minha mãe, cantava temas americanos e outros temas da música popular da América Andina. O momento Mercedes Sosa foi lindo! Para encerrar o show, ela cantou três músicas próprias e, então, disseram que o palco estava aberto. Me remexi todo…
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Um violonista muito bom, com ares exóticos, fez alguns temas swingados chamando, logo em seguida, sua amiga para cantar umas Bossas brasileiras. Fiquei na expectativa. O espaço se agitou, o ambiente estava ruidoso e, quando eles puxaram “Wave” do Tom Jobim, a mulher não conseguiu dar a entrada correta na nota. Pensei que, enfim, havia chegado a minha hora. Tomei coragem, me levantei de repente, aproximei um pouco mais do palco e pedi para cantar com ela. Ela assentiu com simpatia. 
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Fizemos a prometida Wave com divisão de estrofes improvisadas na hora. Cantamos juntos e separados, o cara do violão solou por sobre a harmonia, depois voltamos nas vozes e terminamos abrindo um divisão. A plateia aplaudiu bastante, pediram um bis e, como não poderia deixar de ser, fizemos o hino atemporal do Brasil no mundo: Garota de Ipanema. Agradeci o convite, abracei meus colegas de arte, desci do pequeno espaço e eles seguiram cantando outros temas. 
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Um segundo violonista muito simpático passou pelo palco e, quando estava quase fechando, pedi para tocar algumas músicas, afinal, o espaço já estava meio vazio e isso me deu mais coragem. Pensei rápido no que poderia apresentar e resolvi fazer “Velha Infância” dos Tribalistas. Terminando essa primeira, bateu-me algo na cabeça e, explicando a importância desse tema para a minha ida até aquele país, cantei a trilha sonora principal dessa viagem: “Machu Picchu”. O pessoal restante gostou e a cantora com a qual fiz o dueto pediu as referências da música. Eu lhe disse seu título, mas não me lembrei do nome de seu autor e, como estava sem internet, fiquei devendo a ela essa informação. Que noite deliciosa, que momento repentinamente organizado e cheio de boas surpresas!
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Depois desse dia longo e bom, voltamos para o hotel e fomos dormir.
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