Chegou o grande dia...
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Acordamos às 4:30 da manhã e fomos tomar café umas 5 da matina, pois às 6 todos teríamos que sair em direção a fila onde pegaríamos as vans para Machu Picchu. Eu estava emocionado! Sonhei com essa viagem por mais de 30 anos, cheguei a fazer uma promessa com meu melhor amigo de faculdade e combinamos que iríamos juntos para a cidade sagrada dos Incas. Aliás, promessa que não se cumpriu, pois ele a quebrou e eu só fui descobrir depois de uns anos quando vi as fotos no seu Facebook. Mas paciência… Machu Picchu, não sei porquê, sempre exerceu um fascínio sobre mim.
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Chegamos na fila, os funcionários verificaram nossos bilhetes e logo saímos em direção a montanha velha. O caminho era extremamente sinuoso e, olhando de baixo, parecia impossível que um carro pudesse subir aquela enorme escarpa alta e íngreme. Conforme subíamos, o rio Urubamba ia se distanciando e o céu ia ganhando dimensão por sobre nossas cabeças. Saímos de um profundo estreito entre pedras para ganhar as altitudes iluminadas da velha morada.
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Quando estávamos num determinado ponto, o guia da excursão, que por acaso estava do meu lado, apontou para o topo da montanha e disse:
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- Olha lá, já dá pra ver um pedaço da cidade daqui!
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Lembro-me exatamente dessa primeira visão! Era como se a cidade me espiasse, altiva e imortal, sublime e resiliente, secreta e mística, apoiada na beira de uma espécie de parapeito celeste.
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Após uns 30 minutos de deslocamento, chegamos a um pequeno pátio onde as vans despejavam as centenas de turistas que rumavam para a realização de um sonho que imagino ser de muitas pessoas. Juntamos todo o grupo e passamos pela entrada que daria acesso ao Circuito 3: Realeza. Andamos por uma estreita passarela em meio a floresta e logo avistamos uma parede de pedras que chegava até bem próximo do desfiladeiro. Subi uma escada de alguns poucos degraus e, de repente, o sonho de diversas décadas se descortinava em frente a mim. Enfim, após tantos e tantos anos, estava eu em MACHU PICCHU. Tive um repente de emoção e lágrimas.
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O guia Ivan foi nos levando pelas ruínas. Tiramos fotos, visitamos o templo do Sol, o Templo do Condor, os aposentos reais, a escola da cidade, vimos a praça onde aconteciam os escambos, os degraus onde cultivavam os alimentos. A estrutura se debruça sobre um imenso desfiladeiro e é possível ver o Rio Urubamba correndo pequeno por entre os imensos paredões. Que sonho foi ter estado lá!
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A estrutura montada pelos Incas é fantástica, mas tudo se torna ainda mais incrível quando emoldurado pelo local onde a cidade foi construída. A conexão entre a Machu Picchu e a Huayna Picchu, o platô ligando as duas, a floresta que se espalha, a profundidade do Vale, a volta estreita que o rio faz ao longe... Tantas coisas juntas fazem a beleza desse lugar que magnetiza tantas e tantas pessoas de todos os cantos da Terra.
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Eu estava enlouquecido olhando tudo aquilo. Queria absorver o instante, eternizar o efêmero, emoldurar sua atmosfera, tatuar em mim a sensação que fluía, fotografar com os olhos e a máquina tudo o que estava acontecendo naquele átomo pequeno de vida. Andei por todos os cantos e, quando estava sozinho, fiz um vídeo cantando a já citada “Machu Picchu” do Hermes Aquino. Havia prometido fazê-lo para enviar ao meu tio Zé e a minha prima Júlia.
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Depois dessa viagem ao passado, ficamos um pouco sentados pensando na vida ou meditando. Eu aproveitei para rezar e agradecer por estar naquele sítio que tanto sonhei. Fechei os olhos, respirei fundo e me aprofundei na consciência para decantar, em definitivo, aquele marco da minha vida. Saímos, então, pela mesma passarela estreita que entramos e o grupo quis ir embora. Eu disse que ficaria mais um pouco, afinal, não gostaria de me despedir tão cedo daquele local tão sonhado. Resolvi fazer uma hora na parte de fora: tomei sorvete, fiquei vendo as pessoas e as filas que se formavam para entrar e sair.
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Logo o tempo começou a fechar. Aliás, os guias dos diversos subgrupos nos disseram que tivemos muita sorte porque, nos outros dias, no mesmo horário, a cidade estava coberta de névoa e não era possível visualizar toda a estrutura. Senti que era melhor descer do que ficar tomando chuva na fila de espera para a van da volta. Entrei no veículo com um outro subgrupo da excursão e descemos para Machu Picchu Pueblo. Lá fomos almoçar no mesmo restaurante do karaokê do dia anterior.
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Após o almoço, caminhamos por outras ruas, subimos até a entrada das termas, passamos no mercado e logo rumamos pro hotel para pegarmos as mochilas e ir para a estação. Pegamos o mesmo vagão da ida, alguns voltaram conversando, outros dormindo e alguns batendo fotos do lindo vale... Ao chegarmos de volta em Ollantaytambo, pegamos as vans e retornamos pelo Vale Sagrado dos Incas até a cidade de Cusco. Chegando em Cusco, fomos pro mesmo hotel, deixamos as coisas nos novos quartos e alguns foram para a pizzaria que ficava ao lado. Comemos uma pizza de quinoa, tomamos uns vinhos e depois fomos para os quartos descansar.
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O principal objetivo da viagem havia sido cumprido numa bela jornada! Sair de Cusco, adentrar os caminhos do Vale Sagrado dos Incas, chegar a Ollantaytambo, pegar o trem, embrenhar-se pelos estreitos do vale do Urubamba, assentar estadia em Águas Calientes, cantar para espantar o cansaço da noite mal dormida, aprender a usar o protetor anti ruído, levantar após poucas horas mas com mais disposição, embarcar nas vans, olhar a construção ao longe, subir as montanhas, cruzar a passarela, virar a esquerda, olhar a obra-prima do Império do Sol, atingir o objetivo máximo de todo o trajeto e depois fazer todos os caminhos da volta. Uau!
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Agora, vendo com mais distância, sinto que Machu Picchu foi o grande ponto de virada da viagem. Pareceu-me uma espécie de peregrinação, um tipo de provação, um arraste de coisas que precisavam existir e estar dentro de mim para que todo o processo fosse ainda mais significativo. Um dia antes, eu estava totalmente cansado pelas noites mal dormidas, minha energia estava baixa, meus olhos fundos, minha paciência menor… Eu estava aquietado, guardando as poucas energias que me restavam.
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Passando a cidade sagrada, a chave virou e eu ganhei outro ânimo. Os dias ficaram mais tranquilos e eu, por ter aprendido a usar o protetor de ouvido, consegui lidar melhor com o ronco dos dois colegas de quarto. Além disso, também me acostumei a dormir melhor no ônibus, consegui ir melhor no banheiro e deixei fluir as coisas como elas deveriam ser. Mas que bom que tais dificuldades se apresentaram no processo, pois estes perrengues deixaram tudo mais bonito.
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A vitória tornou-se maior e a vida, à sua maneira, mostrou-se novamente mais bela do que um roteiro alquebrado qualquer. O fluido do repente fluiz fez-se mais fascinante do que um complexo e longo poema planejado, porém esquecido nas gavetas mentais por ser correto demais. O caminho foi mais colorido do que um conto ou romance exageradamente calculado e que, por isso, segue esperando o momento exato de nascer.
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A vida superou a arte, a realidade superou a possibilidade e a peregrinação até Machu Picchu suplantou a espera de mais de trinta anos!
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