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Já acabei de ler Sagarana a mais de um mês. Foi bem rápido, mais ou menos uma novela por noite, mas estava enrolando pra escrever sobre o livro aqui no blog.
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A obra foi lançada em 1946 contendo mais de 400 páginas em 9 novelas (contos) que se apresentam nesta ordem:
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O Burrinho Pedrês
A volta do marido pródigo
Sarapalha
Duelo
Minha Gente
São Marcos
Corpo Fechado
Conversa de Bois
A hora e vez de Augusto Matraga
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Já esqueci muitos detalhes, mas vou tentar falar alguma coisa sobre cada uma delas.
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O burrinho Pedrês (o mais extenso) é fantástico pelas descrições dos bois, a maneira de atribuir palavras à boiada, contar características sobre os animais como se fossem meio gente, cada qual com sua personalidade, homens e animais num misto antropo-zoo-mórfico. Gostei muita da descrição do chefe da fazenda, um homenzarrão troncudo e gordo de olhos pequenos que sempre ria. Quando bravo era riso grave, quando alegre riso aberto, e quando normal riso quieto. Guimarães Rosa tem uma maneira própria de estabelecer tipos que é um encanto.
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A volta do marido pródigo possui um personagem principal de uma malandragem impressionante que resolve sair pelo mundo pra curtir com mulheres e noitadas e por isso abandona sua parceira e seu passado. Quando volta, depois de anos, tudo está mudado, mas, por sua sagacidade, consegue jogar muito bem com as situações e assim se restabelecer ainda melhor do que quando saiu. As artimanhas são muito bem escritas e mostram um domínio muito grande do autor sobre a trama.
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Sarapalha, o conto que Guimarães menos gosta nesta obra, é uma conversa entre dois senhores bem idosos sobre amores de suas vidas, sobre a morte e a nostalgia do passado. Se passa num povoado exterminado por uma peste e, não se sabe por que, estes dois homens resistiram à doença, se negaram a sair de lá e vivem constantemente se achando prestes a desencarnar. É um conto parado habitado de cachorros sarnentos, poeira, sol escaldante, moscas e desânimo.
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Duelo é a decisão de um homem traído de se vingar. Mas a vítima também resolve perseguir a assim, por meses (ou anos), ambos se procuram mutuamente cada qual com seus motivos, até que um deles, o mais forte, se cansa, desiste da caçada e vai pra São Paulo tentar a vida. Coisas acontecem neste tempo, mas a missão é passada para um garoto franzino que leva a cabo os desígnios de seu bem feitor. É fantástico imaginar a cena travada sobre os lombos dos cavalos e que vai desembocar na tragédia.
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Minha gente se passa entre familiares e suas tramas. Alguns tentando iniciar carreira política, buscando o apoio de coronéis, outros mais preocupados em conquistar o amor de uma mulher, de uma prima, coisas de família do interior.
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São Marcos é de uma riqueza de nomes de plantas absurda. São listados centenas de árvores, arbustos, flores, ervas num acúmulo vocabular fantástico. Para o escritor essa foi a peça mais difícil do livro, segundo uma carta que ele próprio escreveu a um amigo. No meio de todo esse rico universo da botânica se desenrola um caminho de um carro de bois e dois personagens que vão nele. É bonita a maneira como o narrador nomeia intensamente o ambiente de uma riqueza que parece infinita e às vezes quebra este clima para colocar diálogos quebrados e minimalistas travados entre os dois homens. Que eu me lembre, também acontece uma tragédia nesta novela, uma vingança, uma justiça.
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Corpo fechado conta uma troca feita para se fechar o corpo de um homem e assim ele poder realizar um feito de extrema bravura. É maravilhoso como Guimarães coloca o estado e o comportamento do homem ao estar com o corpo protegido e a bravura nas alturas. Há personagens que aparecem ou são citados em mais de uma novela do livro e, pelo que consigo me lembrar, o vilão deste conto também é colocado em algum outro. Também tive a impressão de que duas cenas de duas partes diferentes se cruzam, mas não estou certo disso. Acredito que a própria tragédia do Burrinho Pedrês é lembrada em outra passagem.
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Conversa de bois coloca bois como personagens agentes. Bois falantes, outros mais quietos. O maravilhoso é a maneira precisa que o autor consegue fazer bois falarem. É fantástico o linguajar dos animais, alguns monossilábicos, outros eloqüentes, mas de uma eloqüência não humana. Foi um dos que eu mais gostei e, apesar de um amigo ter advertido que por algum motivo a novela seria confusa, para mim soou muito divertido e fluiu muito bem. Os bois eram muito simpáticos.
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A hora e a vez de Augusto Matraga é a saga de um homem na busca por ser bom, se redimir de um passado de maldades que o levaram a ser quase morto. Cuidado por um casal de velhos humildes, o personagem se redime e passa a praticar a caridade e a viver na simplicidade lutando contra seu lado sanguinário, aprofundando-se na paz sob vontade. Mas certas essências permanecem escondidas até mesmo de nós, esperando apenas uma oportunidade para vir a tona e ela apareceu. O auge desta peça está nas palavras gentis que os assassinos recíprocos trocam no momento da morte. A hora e a vez de Augusto Matraga encerra Sagarana com chave de ouro justamente pela beleza do poder das palavras sertanejas colocadas nas bocas com exatidão, o que, pra mim, confere uma força ímpar ao momento. Quase chorei. Gentileza, respeito, firmeza e amizade entre homens que se matam. Foi emocionante.
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Alguns dizem que Sagarana foi o rascunho de Grande Sertão: Veredas que viria a ser lançado 10 anos depois em 1956. Eu tenho por mim que essa consideração é pertinente. Mas convenhamos, o rascunho para o maior romance da literatura brasileira não poderia ser pouca bobagem. Guimarães já mostra aqui um domínio muito grande das letras. A diferença é que em Grande Sertão a densidade é ainda maior pela presença mais constante de enredos menos variados, assuntos que se repetem, como: Deus/Diabo, Diadorim, Otacília, o Sertão, a jagunçagem, as guerras, as paisagens e Riobaldo, o personagem constante por detrás de tudo isso. Sagarana seriam doses homeopáticas deste universo do interior colocado numa gama maior de situações, o que o faz brilhar de uma maneira diferente.
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Adorei demais!!!
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Depois de Sagarana li Teoria da música de Bohumil Med. Não tenho muito o que dizer. Vale a pena ler, mas porque depois o leitor ganha mais noção de onde procurar suas dúvidas sobre teoria musical, grafia, acordes, escalas, tipos de instrumentos. Alguns porquês são respondidos, como: de onde vem os nomes das notas, como chegou-se a este padrão de grafia e nomenclatura utilizados hoje em dia. Como surgiu a clave de so, de fá, de dó, coisas assim.
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Agora estou na segunda parte de Dom Quixote. Em geral estou adorando, mas o livro é bem grande e às vezes cansa. De qualquer maneira, o personagem Dom Quixote é super simpático e consegue tirar umas gargalhadas do leitor, no caso: eu...
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Mais pra frente vou escrever sobre essa obra. Já tenho pessoas que querem ler a resenha.
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