terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mãos

.
As mãos são uma espécie de altar próprio, itinerante e indivisível de nós. É nelas que colocamos e retiramos, louvamos e descartamos, elevamos e denegrimos elementos que, em suma, nos fazem ao nos fazermos neles.
.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Primeiridade-Consciência-Liberdade-Orientalismo-Semiótica

Tratam-se de estados de disponibilidade, percepção cândida, consciência esgarçada, desprendida e porosa, aberta ao mundo, sem lhe opor resistência, consciência passiva, sem eu, liberta dos policiamentos do autocontrole e de qualquer esforço de comparação, interpretação ou análise. Consciência assomada pela mera qualidade de um sentimento positivo, simples, intraduzível.

.

Lúcia Santaella (Livro: O que é semiótica)

.



.

domingo, 27 de setembro de 2009

Tarde demais para um texto assim (fragmento)

.

... Tudo é passível de perversão, mas medíocre é o homem que perverte aquilo que o faz ou pode lhe fazer bem. Não pensaste que fosse tão difícil simplesmente ser a si mesmo. Palavras bonitas não necessariamente são carregadas de beleza aparente. Nem tudo soa com brilho. O brilho está mais na criação do que na recepção, por isso todos deveriam criar do jeito que forem criar. Se crias com respeito e brilho próprio, isso será mais brilhante que qualquer respiração dos que tragarem tua perversão. Ainda que teu contato seja intenso, não será igual à criação, pois não perpetuaste nada além de ti. Se mínguas naquilo que te fazes sentido total, tu não estás sendo o total. Só se realiza-se no outro. Não míngües por medo, pois isso não vale à pena. Não vale a pena ser pela metade, mesmo no erro. Deixe fluir as melodias desafinadas, pois assim serão melodias. Quantas das nossas foram certas, erradas, medíocres? Não te importes. Um mínimo de censo não há de fazer mal, mas deixe estar, como uma harmonia sintetizada que perdura na duração dos dedos que quiserem. Questione, mas não míngüe. Não se deixe minguar. Chorar só se for por perdão, por beleza, por emoção em catarse de pequeninices. Catarse de tudo se pode ser em si. Estou certo disso. Tenho pena do que acaba, mas não do que vem, ou pelo menos deveria vir. Seria assim suficiente? Tenho certeza que sim. E por que tenho? Simplesmente tenho. Não descarto pensamentos como irrelevantes, os guardo até o momento de não os levar a sério, mas não quero esquecer nenhumas das possibilidades que pensar. Certamente esquecerei, mas não esqueço que lamentar é o passo pra não ter de si o melhor. Não poderia ser diferente. Quase tudo não poderia ser diferente. Se não poderia, pelo menos não deveria. Ou, se não devesse, pelo menos que creiamos que não devesse...

.

Sempre que chove



.
“Sempre que chove, tudo faz tanto tempo”
.
Os azulejos se tornam fluxos
As panelas cantam ritmos
Os guarda-roupas nos chamam de canto
Pra falar besteiras sem pudor
Estantes e livros desbravam mares
Enfrentam corredeiras
As vidraças rebentam prantos
E nossas lágrimas já estão livres antes do choro
Sempre que chove
Os poemas saem por osmose
Como se o espaço necessitasse de arte
E os vãos escoassem minguantes
Pedintes de vocábulos
O declamar se entorna frágil
O olhar se torna longe
O horizonte menos linear
Os prédios estão mais tímidos
A lua ignora seu arco
E as nuvens brincam de nós dizer: olá!
Sempre que chove
Os passos escorregam de preguiça
E o sono se embala em gotas de chuva
Sonhos nadam sincronizados
Os romances pedem bis
E o violão calado retoca o silêncio
O ranger dos minutos passam despercebidos
O relógio se nega seguir
E o pulsar do coração é mais discreto
Almas saem pra se molhar
Sempre que chove
A cabeça recosta com mais sossego
O dia não chega a ser
As horas escorrem sem vertigem
E quando me detenho
Já é hora novamente de não me ter
.
Sempre que chove, tudo faz tanto!!!
.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Há mais ou menos dois anos

.
Fui pra Juquehy, e acho que foi provavelmente nos dias 15 e 16 de setembro de 2007. De sábado pra domingo, bebi pra CARALHO (tava bebendo muito nessa época) e, enquanto estava dormindo, tive um sonho maravilhoso. Achei estranho ter sonhado tendo ido dormir bêbado. Isso não acontece geralmente comigo. O sonho foi bem nítido.
.
Eu estava no mundo (neste nosso mundo) e fui levado pra cima por seres que eu não via. Sabia que estava sendo levado porque não poderia ir sozinho e me sentia acompanhado. Fui subindo até sair do mundo, foi quando eu vi dois seres imaturos apertando uma bolha que era uma espécie de atmosfera do mundo, mas mais do que a atmosfera de gases, era a atmosfera do plano físico, a limite do plano físico. Era tipo uma sacola com gel e o mundo estava dentro deste gel.
.
Esses dois seres disputavam empurrando a bolha e assim influenciavam nas coisas do mundo sem realmente tocar na realidade, tocar no mundo. Só empurrando muito eles conseguiriam relar no mundo, assim mesmo ainda haveria o plástico entre o dedo destes seres que tinham formas humanas e a Terra. Além disso, a própria densidade da matéria era um empecilho. Era necessário força para mover.
.
Havia um certo divertimento naquilo, os seres se entretinham naquele processo, mas havia uma leve disputa de poder também. Era como jogar um jogo. Uma rixa infantil como acontece num cabo de guerra, nada de muito profundo, mas apesar de imaturos, não eram ignorantes. Havia maldade sim e bondade também. Havia intenção de causar mal e de fazer o bem.
.
Esses seres homens meio crianças, que talvez fossem deuses, estavam treinando, brincando de serem deuses, brincando de mexer na realidade. Aprendendo a serem deuses, enquanto eram olhados por um deus maior que era tipo um pai e daí já era um só, não tinha um par oposto. Esse outro Deus, que ficava mais alto, olhava com muita paciência e firmeza enquanto os seres cutucavam a bolha com intenções diferentes.
.
Depois de olhar aquela situação toda, eu comecei a subir e saí de perto daquele estágio, passei por este pai que olhava por elas (que não tinha um par oposto, era um) e continuei subindo passando por diversos seres ainda maiores, com mais luz que ofuscavam a minha visão. Uma hierarquia talvez ou simplesmente estágios próprios de cada um.
.
E subi um tempo, e a luminosidade aumentava até que eu parei de subir e olhei pra cima e vi uma luz absuuuuuurda que ofuscava o olho muito lá no alto, mas talvez não estivesse tão longe. Era uma bola feito um sol mesmo, e eu senti que não poderia chegar até lá. Eu não enxergaria nada se chegasse lá. Só me restava olhar de longe. Não estava preparado para tamanha energia, talvez. Ou melhor, talvez eu ainda dependesse muito do olhar para ver, e lá os sentidos são outros.
.
Daí eu fui voltando e acordei devagar com uma sensação boa e tranqüila. Estava deitado de lado olhando pra parede. Fiquei um tempo pensando sobre aquilo, depois voltei a dormir.
.
O que entendi é que o nosso mundo seria um treinamento de deuses, ou de uma dupla de bem e mal. Havia intenções de maldade e bondade em cada um dos lados, mas isso era tolerável, pois os superiores sabiam que aquilo era um processo necessário às individualidades. Vi que, acima daqui, os lados se unem num ponto comum. Se unem naquilo que é firme, justo, não simplesmente bom ou mau, mas o que é correto, o balanceado, o único, o indivisível, aquilo que é o mais possível.
.
Mais ou menos 40 dias depois, eu estava pisando pela primeira vez o solo sagrado da Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá.
.

Com todo respeito: SAGARANA

.
Já acabei de ler Sagarana a mais de um mês. Foi bem rápido, mais ou menos uma novela por noite, mas estava enrolando pra escrever sobre o livro aqui no blog.
.
A obra foi lançada em 1946 contendo mais de 400 páginas em 9 novelas (contos) que se apresentam nesta ordem:
.
O Burrinho Pedrês
A volta do marido pródigo
Sarapalha
Duelo
Minha Gente
São Marcos
Corpo Fechado
Conversa de Bois
A hora e vez de Augusto Matraga
.
Já esqueci muitos detalhes, mas vou tentar falar alguma coisa sobre cada uma delas.
.
O burrinho Pedrês (o mais extenso) é fantástico pelas descrições dos bois, a maneira de atribuir palavras à boiada, contar características sobre os animais como se fossem meio gente, cada qual com sua personalidade, homens e animais num misto antropo-zoo-mórfico. Gostei muita da descrição do chefe da fazenda, um homenzarrão troncudo e gordo de olhos pequenos que sempre ria. Quando bravo era riso grave, quando alegre riso aberto, e quando normal riso quieto. Guimarães Rosa tem uma maneira própria de estabelecer tipos que é um encanto.
.
A volta do marido pródigo possui um personagem principal de uma malandragem impressionante que resolve sair pelo mundo pra curtir com mulheres e noitadas e por isso abandona sua parceira e seu passado. Quando volta, depois de anos, tudo está mudado, mas, por sua sagacidade, consegue jogar muito bem com as situações e assim se restabelecer ainda melhor do que quando saiu. As artimanhas são muito bem escritas e mostram um domínio muito grande do autor sobre a trama.
.
Sarapalha, o conto que Guimarães menos gosta nesta obra, é uma conversa entre dois senhores bem idosos sobre amores de suas vidas, sobre a morte e a nostalgia do passado. Se passa num povoado exterminado por uma peste e, não se sabe por que, estes dois homens resistiram à doença, se negaram a sair de lá e vivem constantemente se achando prestes a desencarnar. É um conto parado habitado de cachorros sarnentos, poeira, sol escaldante, moscas e desânimo.
.
Duelo é a decisão de um homem traído de se vingar. Mas a vítima também resolve perseguir a assim, por meses (ou anos), ambos se procuram mutuamente cada qual com seus motivos, até que um deles, o mais forte, se cansa, desiste da caçada e vai pra São Paulo tentar a vida. Coisas acontecem neste tempo, mas a missão é passada para um garoto franzino que leva a cabo os desígnios de seu bem feitor. É fantástico imaginar a cena travada sobre os lombos dos cavalos e que vai desembocar na tragédia.
.
Minha gente se passa entre familiares e suas tramas. Alguns tentando iniciar carreira política, buscando o apoio de coronéis, outros mais preocupados em conquistar o amor de uma mulher, de uma prima, coisas de família do interior.
.
São Marcos é de uma riqueza de nomes de plantas absurda. São listados centenas de árvores, arbustos, flores, ervas num acúmulo vocabular fantástico. Para o escritor essa foi a peça mais difícil do livro, segundo uma carta que ele próprio escreveu a um amigo. No meio de todo esse rico universo da botânica se desenrola um caminho de um carro de bois e dois personagens que vão nele. É bonita a maneira como o narrador nomeia intensamente o ambiente de uma riqueza que parece infinita e às vezes quebra este clima para colocar diálogos quebrados e minimalistas travados entre os dois homens. Que eu me lembre, também acontece uma tragédia nesta novela, uma vingança, uma justiça.
.
Corpo fechado conta uma troca feita para se fechar o corpo de um homem e assim ele poder realizar um feito de extrema bravura. É maravilhoso como Guimarães coloca o estado e o comportamento do homem ao estar com o corpo protegido e a bravura nas alturas. Há personagens que aparecem ou são citados em mais de uma novela do livro e, pelo que consigo me lembrar, o vilão deste conto também é colocado em algum outro. Também tive a impressão de que duas cenas de duas partes diferentes se cruzam, mas não estou certo disso. Acredito que a própria tragédia do Burrinho Pedrês é lembrada em outra passagem.
.
Conversa de bois coloca bois como personagens agentes. Bois falantes, outros mais quietos. O maravilhoso é a maneira precisa que o autor consegue fazer bois falarem. É fantástico o linguajar dos animais, alguns monossilábicos, outros eloqüentes, mas de uma eloqüência não humana. Foi um dos que eu mais gostei e, apesar de um amigo ter advertido que por algum motivo a novela seria confusa, para mim soou muito divertido e fluiu muito bem. Os bois eram muito simpáticos.
.
A hora e a vez de Augusto Matraga é a saga de um homem na busca por ser bom, se redimir de um passado de maldades que o levaram a ser quase morto. Cuidado por um casal de velhos humildes, o personagem se redime e passa a praticar a caridade e a viver na simplicidade lutando contra seu lado sanguinário, aprofundando-se na paz sob vontade. Mas certas essências permanecem escondidas até mesmo de nós, esperando apenas uma oportunidade para vir a tona e ela apareceu. O auge desta peça está nas palavras gentis que os assassinos recíprocos trocam no momento da morte. A hora e a vez de Augusto Matraga encerra Sagarana com chave de ouro justamente pela beleza do poder das palavras sertanejas colocadas nas bocas com exatidão, o que, pra mim, confere uma força ímpar ao momento. Quase chorei. Gentileza, respeito, firmeza e amizade entre homens que se matam. Foi emocionante.
.
Alguns dizem que Sagarana foi o rascunho de Grande Sertão: Veredas que viria a ser lançado 10 anos depois em 1956. Eu tenho por mim que essa consideração é pertinente. Mas convenhamos, o rascunho para o maior romance da literatura brasileira não poderia ser pouca bobagem. Guimarães já mostra aqui um domínio muito grande das letras. A diferença é que em Grande Sertão a densidade é ainda maior pela presença mais constante de enredos menos variados, assuntos que se repetem, como: Deus/Diabo, Diadorim, Otacília, o Sertão, a jagunçagem, as guerras, as paisagens e Riobaldo, o personagem constante por detrás de tudo isso. Sagarana seriam doses homeopáticas deste universo do interior colocado numa gama maior de situações, o que o faz brilhar de uma maneira diferente.
.
Adorei demais!!!
.
Depois de Sagarana li Teoria da música de Bohumil Med. Não tenho muito o que dizer. Vale a pena ler, mas porque depois o leitor ganha mais noção de onde procurar suas dúvidas sobre teoria musical, grafia, acordes, escalas, tipos de instrumentos. Alguns porquês são respondidos, como: de onde vem os nomes das notas, como chegou-se a este padrão de grafia e nomenclatura utilizados hoje em dia. Como surgiu a clave de so, de fá, de dó, coisas assim.
.
Agora estou na segunda parte de Dom Quixote. Em geral estou adorando, mas o livro é bem grande e às vezes cansa. De qualquer maneira, o personagem Dom Quixote é super simpático e consegue tirar umas gargalhadas do leitor, no caso: eu...
.
Mais pra frente vou escrever sobre essa obra. Já tenho pessoas que querem ler a resenha.
.

sábado, 19 de setembro de 2009

O ideal, o possível

.
Acho que não quero mais falar
Não quero mais pensar
Só quero sentir coisas boas
Quero simplesmente abraçar e beijar
Andar de mãos dadas
Encostar a cabeça no peito
Balbuciar notas rente ao coração
Dançar a noite toda até cair de felicidade
Ou será simplesmente serotonina?
Dormir e sonhar coisas belas
Rir de tudo
Chorar com calma
Chorar simplesmente pela beleza
Degraus sem poréns
Viajar sem rumo com amigos melhores do que eu
Encantar-me com coisas pequenas
Escrever poemas em fluxo
Ou libertar-me na cadência do não verbal
Tocar naquela volúpia do som eterno
Sentir a companhia da noite
Ouvir jazz bêbado
O anterior da música
O útero da vibração
A onda que te toma
O agudo e o grave
A dissonância e suas impressões instantâneas
A introdução e o acorde final
O gozo e o etéreo
Ser sem fim
E nunca o não gostar
Sempre mais sem desvios
Deixar estar
Valer a pena sem pena
Não pensar, não pensar
Não comedir
Deixe, deixe estar
Não seja assim
Há de se poder
Tente novamente
E mais uma vez
E mais uma
E mais um
E
...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Espero não parecer simplesmente racional!!!

.
Um experimento chamado amor
.
O amor nasce como uma suposição
Uma proposta que preferimos realçar
Não chegamos direto a amar alguém
Amamos primeiro a idéia de amar
Depois amamos amar a tal pessoa
Para enfim,
Se sorte tivermos,
Amar a pessoa em si.
.
O amor nasce enquanto processo
Inclinação interna independente
E muito da sua força está neste ponto próprio do agente
O amor até pode ser a arte do encontro
Embora seja antes
A arte de se encontrar no outro proposto
Se colocar ao lado daquele
Que cremos amar.
.
O amor é banal e legítimo
Simplesmente por ser amor
O amor é, em si,
A criação que domina o criador
A abolição da liberdade que sorridentes
Nos assinamos
É lei que se crê invicta
É filosofia que esnoba a razão.
.
O amor é equação do segundo grau
Que não importamos em nos aplicar
Seremos variáveis do zero
Mas o que é o zero senão o resumo do infinito
Ao pó voltaremos, mas nos antecipamos quando amamos
Resolvo-me de mim por aplicar-me tangente outro
Recosto-me na reta rente a meu umbigo circular
Curvando-me para um pouco mais com ela estar.
.
O amor é processo de envolvimento simultâneo
Mais que um sólido, palpável e indestrutível diamante
Ele é antes água clara e incontrolável
Que ao escorrer das quatro mãos comuns
Os corpos vão e se banham sem medo
Pois a fonte se renova, não tem fim
E o próprio descuido saudável
Faz-se prova da transcendente comunhão
.
O amor é:
Um terceiro e único coração!!!
.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um brinde!!!

.


Um brinde ao fim de agosto!!!


.