quarta-feira, 27 de março de 2013

O CACHORRINHO E A DONA SUA (Revisado)


"Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã". C.D.A



Uma volta. Uma ligeira volta na rua. Um frio de paulistano. Seco. Noite de início. O fluxo de carros era intenso. Corria sempre a vontade de chegar logo. Eu também. Fui comprar crédito na farmácia mais próxima. Nem sinal do sistema. Andei mais alguns momentos procurando outro ponto. Mas o sistema estava realmente: nem sinal. Resolvi. Então. Voltar.

Como se pudera existir em seu ombro um bocado de ternura que arfasse, a dona seguia seu animal pelas ruas escuras do bairro Vila Buarque. Colocou-o no chão, entre travecos, futebol e bêbadas travessuras de universitários de classe média. Seu todo corpo rebaixado, e do tempo que lhe escorria no vão cansaço da consciência, consentia. Ela quase olhava seu cão. Experimentava olhá-lo. Não olhava nada realmente. Resignava não conceber. Reclinava num aspecto de carinho por aquele bichinho pequeno que vestia roupas mais coloridas que as dela, e continuava seu semblante estático pelas ruas lotadas de jovens no início da noite de uma pré-sexta-feira.

Refleti-me dela: o tempo é o senhor da verdade! Disso todos nós saberemos, mais cedo ou mais tarde e, talvez, por apropriação indigesta e embriagada, tentamos nos fazer dele segundo nossas corriqueiras vontades. É a razão e sua escória jogatina. Brinquei uma vez com um amigo de infância sobre sua crença profunda de que não existia Deus e de como seu Niilismo era fanático religioso. A crença no não crer jamais, de maneira alguma, nunca. Ele, por sua vez, vendo minha ironia primitiva, pegou-me de surpresa ao dizer que eu não tinha talento suficiente para uma liberdade descompromissada como aquela. E pra ser sincero, ainda não sei se tinha razão!

O cachorro nunca se desviava de sua falta de compromisso libertino. Quanto talento, meu Deus! Mancava em três pernas. Fixava-se sobre sua própria Trindade. Não tinha rabo e nem porque preservá-lo. Tropeçava em alguma lajota solta, cheirava, lambia alguma poça e continuava seu caminho, guiando a dona sua, cegos da velhice. Arfava de esforço, teimava com ganas de vencer na vida pequena de sua memória instantânea, e ditava, a duras penas, o ritmo da descoberta conjunta. Tentava, por sobremaneira, chegar a qualquer custo monocromático do seu restrito universo de estímulos, e sempre, sempre era capaz de almejar. Um grande vencedor! O macho da casa! O dono da dona!

 - Oww dona, me vê um pão?
 - Não posso. Totó adora o tempero do padeiro!

Um real tempero do desespero. A canil esperança que sobrepuja a hierarquia das espécies. Acredito que esta contra-força meu antigo amigo não conhecia em si. Cachorros que seguem. Humanos que arcam.

Encarregada até as últimas fraquezas com sua falta de gente, continuava a dona acompanhando, sem deixar rastro. Ela também cheirando aqui e ali, ainda que dotada de menos felicidade. Somos muitos iguais! Cutucava uma lata, mexia numa folha, experimentava uma poça. No fundo, todos fazemos isso, com a diferença de que alguns acreditam nas latas, nas folhas e nas poças. Mas ela relutava não latir. Também roía unhas como ato de manutenção independente, coisa que até hoje nunca vira um cão fazer. Restolhos líquidos de uma tátil sanidade roída a custo de solidão. Sua humanidade estava na ponta dos dedos, mas, ainda assim, rosnava de cansaço por algum motivo que lhe afligira há alguns ditames atrás. Ecos da prisão não-verbal e seu calabouço de sensações inconclusas que podem nos levar a balbuciar palavras muito próprias no meio de uma avenida lotada. Era o corpo todo resquício, os seios sem vírgula, a barriga servindo de apoio para as costas, que se apoiavam na barriga, que se apoiava no ventre, que descia aos joelhos e aos não-pés. A personificação do tempo. Era o próprio tempo que ali escorria, sem vírgula, no rosto onde não couber mais. Acalentaria-se, se soubesse, em algum respiro que nunca deu.

O que seriam aquilo?! Cabelos mal tingidos. Raízes brancas de grosso calibre. Mãos inválidas, mas firmes. A derradeira humanidade. Do cachorro ela não se escaparia... Mas nunca completava. Não consegui captar seu olhar, tamanha a distância que lhe parecia existir entre seu mundo e este outro que não é de ninguém. Já o cachorro era o rei. Animalzinho que alavancava uma felicidade o mais profundo que pudesse. Era todo ele um êxtase que demarcava seu território reinado. Encontrou qualquer coisa que o satisfez e seus olhos brilharam no meio das sombras noturnas das árvores ainda possíveis. Assim puderam de novo prosseguir e passaram por mim.

Eles vadiavam no vazio da idade daquele bairro tão conhecido por todos nós. O cachorrinho labiríntico e os subsequentes de si, a dona seguinte, a próxima e a outra, e ele, e mais uma nova, e ainda outra que não se lembrava de nenhuma das suas nas quais ela mesma havia se sentido. Os desdobramentos imediatos do vocabulário sublingual tão comum aos que se esquecem de como se faz para lembrar. Todos dois tão quase iguais, tão diametralmente infelizes. Iam indo, sem se haverem para outros de nós.

Fiquei olhando, só. Já estavam longe por aquelas grades todas enferrujadas da Praça do Rotary. Um grande corrimão do desvão fastio naqueles arredores. O desvão bemol. Era o fumódromo mais soberano e/ou o mictório mais sagrado. As cercanias do cão e sua senhora que ali não restaram, perto da Biblioteca Monteiro Lobato, num país São Paulo que se faz de homens-livros que vencem: futuros velhos de estimação adotados por seus bichos. O tempo é mesmo o senhor da verdade. Mais cedo, saberemos disso mais tarde!

Depois que os senti, não havia mais crianças e nem jovens jogando bola, nem universitários, nem travecos, nem bares. Nem pressa. Não havia mais ninguém. Havia somente uma pessoa de casaco preto que passava de madrugada e agora escreve. Fez-se o fim em mim!

 - Quantos anos tinha o cachorro?! Não sei. Talvez a mesma idade dela! Existe aquela fórmula humano-canina de multiplicar por sete a idade do animal pra descobrir quanto ele teria se fosse gente. Paralelos temporais. Mas isso é mentira, pois se fosse gente já teria morrido igual a senhora. Só acredita viver porque é cachorro e tem a covardia de crer num Niilismo feliz que se esgueira por entre buracos, poças e lixos jogados na calçada de uma praça desvão. Meu amigo venceu! Eu. Não...

O cachorro prosseguiu até o ponto de táxi mais próximo. Eu olhava de longe e a velha sempre olhava assim: de longe. Perguntou algumas coisas pros taxistas passados que não estavam mais. Virou a esquina, e indo, se foi. Só eu estive lá. Latia. Seu cachorro queria continuar. E ela obedeceu. Eu também. Não os vejo nunca mais. E pra dizer a verdade, às cinco da manhã de sexta-feira, nem sei se eram realmente de se existir.




Prefácio revisado: "Nasce uma flor daqui"


É interessante como este livro, desde muito antes de lê-lo, desde muito antes de conversar pessoalmente com sua autora, chamava-me a atenção. Foi uma identificação instantânea com o título. Achei simples, forte, convidativo. Promessas de uma boa leitura... E assim aconteceu!
Não busco aqui explicações para tamanha afeição e magnetismo sentidos por mim, pois o que nos toca, toca, e isso basta. Mas, se não bastasse esta empatia, quis o destino, e a escritora, que fosse eu a pessoa a escrever o presente prefácio, selando mais um dos felizes acasos da vida. Senti tal pedido como uma bela oportunidade para acrescentar, uma pétala que fosse, nesta flor literária.
O próprio título já é um sutil convite: “Nasce uma flor aqui”. É como se estivesse subentendida uma continuação, uma assinatura: “Nasce uma flor daqui” - Venha presenciar seu nascimento!
Ou, talvez, também seja algo além... Parece-me que o título, “Nasce uma flor daqui”, pode ser mais que um simples batismo de obra. O livro seria, em si, uma busca que faz florescer, e não uma referência a uma flor que nasceu. O próprio processo de busca pela flor faz nascer a flor enquanto processo de busca: o livro. O local da flor é o livro. Ele é a própria flor que nasce e renasce aí, aqui, na mão do leitor.
Este livro e seu título formam um constante ciclo de semeadura e desabrochar. Ciclo este que, assim como toda a obra da autora, é um processo extremamente pessoal. Isso fica evidente pela intensa presença do “Eu” que a lança constantemente dentro de sua literatura. O criador entorna-se em sua própria criatura. Esta constância faz transparecer sua franqueza poética, ao mesmo tempo frágil e corajosa. Assim, Benita Carneiro se coloca num ponto intermediário entre a menina moça e a mulher experiente. Ou talvez seja, sempre e sempre, a eterna garota a rimar suas iluminações em versos de simplicidade profunda.
Neste uni-verso a parte, a nostalgia é cíclica: o dourado natural das lembranças passadas, a infância e a inescapável comparação do atual frente àquilo que já se viveu, a saudade do que não volta jamais. Neste contexto, a figura paterna se faz presente em dois pontos do livro, e a mãe, “perdida” quando a autora ainda era muito pequenina, surge num singelo poema de desfecho tocante. Além desses dois ícones naturais, personagens lendários de uma Itanhandu que não existe mais, bem como sua avó, que se esquecia das coisas com facilidade, estão aqui em poemas intitulados por nomes próprios.
No entanto, talvez a pilastra mais profunda seja mesmo o Cristianismo, perpassando o Supremo e seu Filho, gerando a simbiose cíclica culpa-perdão, fé-alento, pois é a este arcabouço religioso que Benita recorre diante das dores. Fato nada incomum para a maioria de nós, porém muito caro à nossa autora, a quem o refúgio da solidão, ainda que por vezes cercada de amigos, se fez no papel, na caneta e também nas orações mineiras de um povo tão místico. Assim, nesta oração poética, Deus e Jesus são os dois personagens que mais vezes a salvam dos males. Jesus pela sua missão de perdão e Deus por possuir todo o poder e ser o dono profundo de nossos destinos.
Sendo plural, por vezes positiva e crendo num mundo melhor que virá, noutras um pouco pessimista, Benita é uma sonhadora convicta, ou talvez uma senhora que se entrega conscientemente a uma partícula de ilusão, procurando suprir o desencaixe da realidade que se ameniza pela divina beleza da arte e da natureza.
Também há algumas nuances de cultura oriental, a sabedoria colocada em coisas simples, animais ou insetos, um detalhe perfeito que faz o momento transcender e se fazer inspiração poética registrada, levando-a, num curto e suspiro compasso, para longe dos sofrimentos cotidianos.
E, por fim: o AMOR. Amor confessado, diversas vezes colocado com uma espécie de dor irrealizável ou algo simplesmente belo e superior. Às vezes fechado, outras vezes como uma grande entrega, uma libertação ou um sacrifício. São muitas as confissões amorosas que mostram a coragem da poeta. Como esta, no final do poema Xilogravura, quando diz que: “... todo artista/ É muito egoísta/ No jeito de amar”.
E é por meio desta pluralidade de visões sobre o mais inspirador dos sentimentos humanos, que a autora, num ápice sucinto, nestes versos que, para mim, são o centro da obra, registra: “... que o amor e a flor/ São dois complementos/ Muito indispensáveis/ Em meus sentimentos”. Como seria bom se todos fôssemos assim!
Eis a flor-amor que nasce/ E se nos convida/ Enquanto processo/ De literatura sentida// Um manual registro/ De amplificada sobrevivência/ A catarse secreta/ Em sua mais ventral essência// Escritos de uma senhora/ Que como parte de nós/ Prefere manter seu sonho/ Seu sonho em sua hora// Para poder se transpor/ Absorver a ferida/ “Buscando na flor/ A essência da vida”.



segunda-feira, 18 de março de 2013

... 8 anos 8 anos 8 anos 8 anos 8 anos 8 anos 8 ...




Há exatos 8 anos atrás, às 9:45 da noite de 18 de Março de 2005, este blog recebia seu primeiro texto: o “Início do Fim.”

Lembro-me exatamente do momento, do quarto na Vila Mariana, do computador antigo, e de como pensei bastante antes de criá-lo. Lembro-me de como tentei elaborar motivos que me parecessem profundos e que pudessem se perpetuar pelo tempo, sem que me fizessem arrepender de certas tentativas. Lembro-me também de como procurei encontrar simbologias que serviriam, por muitos e muitos anos, como balizadoras deste espaço contido.


Acredito que eu tenha achado os motivos e as simbologias necessárias e suficientes, afinal, 8 anos depois, eu ainda estou aqui!


Escolhi “Viajantes do Infinito” primeiro pelo próprio significado das palavras nele contidas, e segundo, mas nunca menos importante, porque assim, eu rendi homenagens ao primeiro livro que me marcou na vida. 


Viajantes do Infinito foi o primeiro livro que me trouxe emoções novas, emoções que eu não conhecia no dia-a-dia, o primeiro que me mexeu por dentro, que me mostrou um medo fictício que não fazia parte dos meus muitos medos verdadeiros. 


Mas ao mesmo tempo também me trouxe prazer em ler. Lia toda noite um pouco. A casa escura, todos dormindo, o silêncio da rua de Itanhandu, aquela estória de fantasmas, garotos adentrando dimensões paralelas, planos diferentes, extra-terrestres, e a amizade que os fortalecia e que proporcionou o resgate de um deles. 


E hoje, 18 de Março de 2013, 1.131 postagens depois, este canto, que foi denominado de Infinito, ainda que seu dono tenha mudado bastante suas concepções sobre o Senhor Inconcebível, completa seu oitavo ciclo, justamente o número que representa a palavra contida no seu título inicial: o INFINITO.


Confesso que ando escrevendo muito pouco para os padrões de anos atrás. Ando mais cauteloso, ou talvez mais medroso ao me expressar. Encurtam-se as experimentações, aprofundam-se os traços. 


Mas, ainda assim, o blog não pára!!!


Meu compromisso de mantê-lo está selado comigo, e pretendo cumpri-lo pro resto da vida.


Este blog já é e continuará sendo como uma espécie de diário, não de uma vida cronologicamente determinada, mas de uma mente que admira o exercício do pensar. 


E, por vezes, sente vontade de registrá-lo. 


Isso será feito, para SEMPRE, enquanto eu viver!!!




terça-feira, 12 de março de 2013

Inspirus Outrem


Mandei para amigos os dois textos de Fevereiro deste ano, para ver o que eles achavam.

O texto do cigarro, especialmente, inspirou um dos que receberam, e o fez produzir sua própria continuação.

Segue abaixo:

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Sim, aquela vontade de diminuir nosso tempo aqui. Largar esta capa pesada chamada viver, que, por vezes, tanto nos pesa. Fica sendo uma quantidade tola de anos a fio, sem querer, como um fardo imposto.

Queremos nos permitir encurtar existências tão tolas quanto longas.

Pra que?

Por que?

Que o tabaco e o álcool levem-me, leve, cansado desta trilha tola, de tanto e sim e não e nãos...

Terra querida, rica, me trague o quanto antes. Liberte meu espírito, e alimente-se desta carne cansada. Trago na boca o sabor do tabaco, tanto quanto trago no peito minhas dores, amores que se foram.

Dores infinitas.

“O Deus dos desgraçados que não me escuta”...

Dê-me o direito de renunciar, no trago do meu cigarro e leve, me leve, feito um doce trago de Gudang.

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Hideraldo Pinheiro de Souza