Saio a caminhar
Por essa estrada
De luminosas estrelas enlamaçadas
E grandes heróis derrotados
Arregaçados, triturados
Que quando éramos pequenos
Eram heróis, sim!
Seres da mais pura perfeição
Mas, o discernimento,
Companheiro da vivência
Fez-nos ver que, de heróis,
Não tinham nada
Não eram coisa alguma
E que heróis mesmo
Éramos e somos nós
Que estamos a caminhar
A lutar e persistir
Nessa lida diária.
Saio a caminhar
Por essa estrada
De cabeça baixa,
Não por vergonha,
Mas pra ver onde piso!
Carros estacionados nos cantos
Barracas, fumaças
Pessoas cumprimentam-se:
- Oi, como vai?
- Bem, anda, anda e nunca vai.
- Como vai?
- Vou andando.
Luzes de postes
Neblina a baixar
Encobre e estrada
O caminho a se ir.
Pensamentos perambulam
Fazem a cabeça dos pensamentos.
Some o caminho
Mas caminho!
Anda estrada infinitezimal
De numerais romanocardinais
Numera e conta a tudo
Espalha e toma conta de tudo.
És infinito como
As estrelas enlamaçadas.
Cadê meu fim, oh infinito?
Alguém já chegou aí?
E continuo a caminhar
E pensar!...
Oh humanidade
Seja a humanidade
Humano sem idade.
Flutuante massa de multidões
De poderes inumerais.
Grande fraternidade
Aglomeração de aglomerados
Homens soldados
Manipulados do sistema
Exclusão dos que não se encaixam
Não maleabilidade de
compartimentos.
Ofuscação da visão ao fosco
noturno
Queima de olhar
Réplica da luz, não iluminável
Luz misteriosa, luz negra.
- Vai anoitecer?!
- Precisamos passar nossos protetores
noturnos!
Luzes artificiais
Sóis a 5 metros de altura
A iluminar o caminho.
Cadê o caminho por aonde vim?!
Já estou nesta estrada
A caminhar: sempre ou quase
A sorrir: quase ou nunca
A lutar: sempre, só sempre
Nunca quase; ou nunca nunca!
Terminaram as capacidades sólidas
De áreas onde se pisa com firmeza
A areia e lama já afogam os dedos
Mais inferiores que o inferno.
Já nos é afundado até o fim das
pernas
E a descida gradativa da
esperança
Desespera os olhos que se
debulham
E aumentam a solução de águas e
terras.
A descida continua
Até quando não tenho certeza.
Qual será a exata hora do
afogamento?
A ladeira que vai dar em coisa
alguma
Submersa em coisa que é nada.
Estrada de horizontes horizontais
Perpendicular ao beijo do céu e
mar
Infinitos quilômetros de um
caminho sem fim
Que vai em direção de não sei
onde.
Mas vai, sempre em um fluxo
eterno
De cabeça em direção do Próprio.
Seres completamente acabados
Tirando forças de não sei onde
Pra não sei o que.
Por quê?!
Olhos sem brilho algum
Carne sem sangue veloz
Pois o propulsor coração já não
existe.
Um caminho que se estreita
Um monte que se amontoa
Tentando entrar, no final da
existência,
Na bola de fogos, incan-decentes,
ascendentes.
Em sua proximidade os olhos se
queimam
E no aperto final já somos apenas
levados
Pela gravidade da massa tão
volumétrica
Que nos engolem, e todos somem.
Etapas do caminho que começou por
começar
Passos temerosos que passaram sem
passar
Estrelas enlamaçadas que se mudam
sem cessar
Sóis a 5 metros que iluminam sem
iluminar
Fazes da viagem da existência
unicelular
Dores mentalizadas pela falta do
raciocinar
Humanidade sem humildade pela
carência do amar
Complexidade de conhecimentos, só
porque “Saio a caminhar”.
25/09/2000 – (Voltando da
exposição de madrugada)