.
Algumas centenas de sensações se revezam velozmente em meu corpo e mente, numa velocidade tão absurda que nem mesmo consigo distinguir cada uma delas, se passam e passam e passam, uma, duas ao mesmo tempo, sensações sentimentos, talvez até três juntos, quebrados e entremeados de si, um que não dura nem um segundo, outro que tento contornar, mas acaba me fazendo chegar em outro pior, sentimentos, sensações, nenhuma razão é grande o suficiente para se instaurar absoluta dentro de mim, tudo logo é negado e quebrado, demolido pelo consecutivo-conseqüência inevitável quando se encontra no desencontro instaurado, as cadeias racionais, são infinitas e incansáveis, nunca todos os pensamentos e sensações terão suas possibilidades de existência ou combinação esgotados, sempre haverá uma inovação num canto do mundo, num canto de um ser, em qualquer lugar, uma nova experiência, isso leva a isso, que leva a isso, que me faz sentir isso, que me faz pensar nisso, mas nisso não se deve pensar, então troco para aquilo que não é tão bom assim e me trás tal sensação que me embaraça naquele outro pensamento e depois é logo encaminhado para outro ainda que não vale a pena e daí penso em outra coisa que não me é tão clara assim e logo depois numa quinta coisa que me remete a outra do início que me faz sentir aquilo que eu já havia sentido antes e o antes me remete a passado e o passado me trás os dias vividos e os dias vividos são banais, e o que é banal não me estimula a ir adiante, mas parar me estimula ao erro do marasmo que me trás preocupação pelo não fazer, que me põe numa espiral descendente que tento quebrar com alguma vigilância sensata, mas não é tão forte assim minha constância, não que um pouco não dê, mas tentar boiar permissivamente em meio a um maremoto só é possível por alguns instantes, logo mais já me debato “sem amarras, barco embriagado ao mar”, e assim novamente nadando, nadando, e nadando de novo e mais ainda sem limites, sem fundo, sem dar pé, sem dar nada, sem relevância, sem direção, sem afeto, sem voz nem ouvidos e caio na espiral e nas quebradeiras dos caminhos da cabeça que se bifurcam loucamente em quantos tantos quando forem criados e para tanto basta apenas vislumbre mínimo e logo me enveredo cegamente pelo espaço em guerra, o vazio abarrotado, o erro sem permissão, o destroço, o vácuo conturbado, a emoção sem definição, um estado sem centro, sem base, sem dentro nem fora, sem margens, miragens que seguem convictas a trair a visão, e o fazem com orgulho, não vai restar nada neste caminho, não vai restar pedra, nem tropeço, não vai restar meu pequeno reino conquistado em tantas tardes, não vai restar nem eu pra contar a história, por isso me apresso em delatar os não-acontecimentos acontecidos, tenho pressa de deixar registrado o minimamente são que se concentra no fundo da minha consciência, na parte de trás da cabeça, longe de qualquer porta dos sentidos, todos os cinco ou seis gritam de longe a minha atenção, mas não presto-me a nenhum deles, todos são apenas portas de uma realidade já tão surrada que a não rotina já é rotineira, os caminhos são todos desexploráveis com tanta facilidade que nem me arremedo em querer gostar de um ou de outro, afinal todos são portais para cá e para lá, para todos os cantos do mundo de mim, e vou, faço, aconteço, volto, desdenho, não quero comprar, mas se quisesse compraria, invento um novo numa tarde sem nada, e vou um pouco, mas que merda, não era bem isso que eu queria, daí volto e viro de novo pra outro canto a dormir, e vou de novo, pra outros mundos, num outro estágio, e não é mais isso nem aquilo, nem nada, daí finjo uma estação de paz até que a vontade de guerra se faça dentro de mim novamente, e geralmente todo final de semana é estação de guerra, a guerra que berra por ruas e mais ruas de uma capital iniciática de muitas besteiras toleráveis pelos que minimamente se contêm, mas pelos que devem retornar com ainda muito mais do que vieram como é o caso de uns e outros, a capital se perde translucidamente numa clarividência ofuscante de dor e gozo espalhafatoso que encaminha-se por esquinas e mais viadutos e praças e manhãs e tardes e noites e manhãs e tardes e noites e quantos mais ciclos sua pobre carcaça agüentar, ler o lido nos teus olhos é tão turvante por ser simplesmente óbvio, óbvio como aquela pinga que iria me fazer fechar os olhos de nojo daquilo que comprei por um real num boteco de merda, num canto de nada, do vale do Anhangabaú, já era noite de novo e mais um ciclo haveríamos de iniciar, afinal de contas, no fim das contas não me desfaço por tão poucos e ruins bocados, e enquanto houverem ruas haverão passos e mais passos e não me fecho por medo, nem muito menos por descaso, me fecho pois a vida não é para se deixar aberto em demasia, e as guerras estão por aí de tempos em tempos, há de se fechar um pouco, mas também me proponho guerras internas constantes porque sou casca grossa, sou do baixio, sou dos esgueiros, também dos cantos assim proponho-me qualquer maneira de estar sendo, um desencanto que desmorona as coisas, aliás, se desmoronas todas as tuas coisas e isso se faz intrínseco a teu ser, tu estás condenado à escuridão, e “acreditar na existência dourada do sol, mesmo que em plena boca nos bata o açoite continuo da noite” não é simples, cuida-te de ti, descuida-te com cuidado, guerreia com a paz profunda, não percas tuas balanças, teus espelhos, escreva, escreva e escreva por favor, todas as vezes que teus ruídos internos se tornarem exagerados e estridentes demais, conserva-te em guerra se queres, mas nunca deixe a escuridão dos ataques fazer você se esquecer do aconchego do calor do sol da manhã de segunda-feira que sempre é um bom início. Estamos aqui para isso. Assinado: As palavras... Fique bem...
.