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Deixe-me falar sobre uma coisa que me aconteceu no terceiro domingo de Agosto deste ano, dia 15. Sei que foi o terceiro porque aconteceu exatamente uma semana depois do segundo domingo daquele mês, data de comemoração do dia dos pais.
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Neste dia, pela primeira vez, eu perdi uma pessoa que realmente era próxima de mim. Já perdi minha bisavó, que era muito chegada, mas, na época, eu tinha apenas 6 anos de idade e a noção de morte não me era tão clara. Lembro que chorei, senti sua falta, e até me aconteceu um episódio diferente no meio da noite de sua morte, quando acordei chorando, de repente, num horário próximo de seu óbito, mas, excluindo essas coisas, não foi uma morte tão presente.
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O que não foi o caso, desta vez...
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Já há 40 dias meu avô Menote Pinto de Sousa (na ocasião do registro de óbito, descobrimos que seu Sousa TAMBÉM não era com Z, como o de minha mãe, o meu, da minha tia e de meus primos, ao contrário do que pensávamos) estava muito mal, na UTI de São Lourenço, sobrevivendo somente devido à ajuda de aparelhos.
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Na sexta-feira, dia 13 de agosto, uma entidade do centro de Umbanda que freqüento, havia me dito que ele já estava bem mais inclinado ao plano espiritual, que ao plano carnal e que entes queridos já o esperavam, o que indicava que ele desencarnaria em breve.
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Mas realmente nós, da família, já estávamos bem apaziguados em relação à possibilidade disto acontecer.
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No sábado, dia 14, fui a um festival de Jazz no Ibirapuera. Estava tomando umas cervejas com alguns amigos quando minha mãe me ligou e avisou que meu avô estava muito mal e que era bem provável que ele não resistisse. Fiquei alerta!
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Nesta mesma semana, uns dias antes, minha mãe resolveu levar minha avó para visitá-lo na UTI, porque todos acreditávamos que ele estava somente esperando a visita de sua GRANDE companheira de uma vida toda, para poder ir embora. Minha avó, quando estava do lado dele, lhe disse que poderia ir e que tudo ficaria bem. Segundo minha prima, nessa ocasião ele balançou a cabeça, afirmativamente, como se, mesmo do fundo daquele coma aparente, ele tivesse ouvido e entendido o recado.
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À partir daí ele começou a piorar totalmente, numa velocidade muito maior!
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Mas mesmo com tudo isso, a notícia da morte é pesada. Mesmo com o todo o cenário que foi se montando ao longo dos 40 e poucos dias de internação, ouvir a notícia é um baque...
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Voltando ao dia 14. Acabado o festival de Jazz, fui pra casa, deitei na cama e, perto das 11 e pouco da noite, meu celular tocou. Era minha mãe me dando a notícia de que meu avô Menote, o GRANDE Menote (quem o conhece sabe como ele era um grande homem), tinha morrido.
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Eu ouvi, disse que iria pra Itanhandu logo cedo, no dia seguinte, desliguei o celular e chorei por alguns minutos. Mas choro sem dor, choro sem lamentação, nem revolta. Era só um choro de tristeza silenciosa.
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Conversei um pouco mais com a pessoa que estava comigo e, depois de um tempo, dormimos...
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No dia seguinte, logo cedo, toca meu telefone, era meu pai me avisando que um tio estava saindo pra Itanhandu em algumas horas. Ajeitei-me, e fui.
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Lá chegando, fui direto pra casa, deixei minhas malas, e fui pra casa da minha avó. Ela estava lá, toda de preto, muito elegante, como sempre. Eu a abracei, falei pra ela ter força, abracei minha prima que estava com os olhos inchados e fui pro velório municipal.
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Era, apesar de tudo, um dia lindo! Muito claro, um vento forte, um ligeiro friozinho e a cidade estava em festa. Era a abertura da exposição de gado do município. Achei aquilo bonito! O dia da morte do meu avô era um dia de festa, de alegria, afinal, ele sempre havia sido um homem que trazia alegria para todos. São apenas significações que nos passam pela cabeça e que ajudam a embelezar as passagens da vida.
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O velório foi enchendo de gente, enchendo mais e mais. Empregados, que haviam trabalhado com meu avô no posto, choravam, familiares se abraçavam, amigos de pescaria, o próprio prefeito municipal, parentes distantes. Na rua os cavalos desfilavam, os carros de bois carregados de crianças rangiam longamente pela avenida principal. Ventava muito, levantando rodamoinhos no meio da rua.
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Foi chegando a hora de ir para a missa e fechar o caixão.
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Pode até parecer que não, mas estava um clima muito leve no velório. Uma calma pairava no ar. Um silêncio de respeito. Manifestações de carinho, abraços, beijos, muitas conversas, a cidade se esvaziando, após a passagem da comitiva, um clima de paz até que chegara a hora de partir.
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O caixão foi fechado, houve choro e despedidas. Eu, meu primo Eric e minha mãe Heleni fizemos questão de carregá-lo até o carro que o levaria até a igreja. O carro partiu e nós o seguimos logo atrás. Fui de mãos dadas com minha mãe. Na minha cabeça passavam significados bonitos pra todo aquele ritual de passagem tão necessário e inevitável a todos nós.
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A cidade em silêncio, só o vento se fazia ouvir. Uma claridade imensa, algumas portas semi-abertas daqueles comércios que abrem aos domingos. O cortejo em passos lentos. A ritualística da vida quando se encerra.
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Chegada à igreja, eu e meu primo, novamente, fizemos questão de carregar o caixão até a frente do altar. Sentei-me do lado da Benita Carneiro, minha amiga e ouvi toda a missa com atenção. A igreja estava cheia. Devia ter umas 400 pessoas, ou mais, nos bancos. A maestrina do coral municipal, Marialva, e o Luiz Fernando, outro grande cantor da cidade, cantaram as músicas: Ave Maria e Canção da América. Até meu tio Zé Nilton, irmão do meu pai, cantou.
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A Ave Maria foi maravilhosa, e soou no tempo exato para todas as pessoas que comungaram naquela ocasião.
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Eu olhava sempre minha avó, minha mãe e minha tia. Ocupava-me em observar e pensar na beleza da vida que eles construíram juntos. Eu não ficava procurando pensar em coisas bonitas, significações belas para tudo aquilo. Eu simplesmente pensava. Era natural pra mim, naqueles instantes, pensar coisas bonitas. O que nem sempre acontece!
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Depois da missa, ajudamos novamente, eu e meu primo, a carregar o caixão na saída da igreja. Saída foi um momento de extrema beleza que, mesmo a simples lembrança, já me emociona.
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Era aquele entardecer sereno, o vento forte balançando as árvores, o dia claro que se encerraria em algumas horas. Era lindo! Todas as pessoas saindo em silêncio, o sol iluminando a igreja inteira pelos vitrais e também pelas portas principais, a praça vazia, as ruas se enchendo com as pessoas do cortejo.
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Avistei minha professora de piano e lhe dei um abraço.
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Segui para o cemitério. Uma fileira enorme de carros, as pessoas subindo a ladeira, estacionando os veículos. Cheguei até bem perto do túmulo e fiquei observando.
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Eu sentia paz!
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Permaneci abraçado com meu pai e minha mãe. A Gláucia, minha prima, minha tia Enedir e minha avô Cândida estavam juntas. O Eric permanecia próximo, junto da sua namorada.
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O coveiro que é meu amigo e tem o apelido de Febre, um punk muito loko, mas de um coração imenso, nos olhava e só sabia repetir: É foda, né, Wagner!
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Foi subindo a mureta, concretando a última visão do caixão. As pessoas foram saindo. Eu fui um dos últimos a sair. Já estava bem próximo de começar a anoitecer.
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Desci a ladeira do cemitério, entrei no carro, em uma hora eu deveria voltar pra São Paulo, pois tinha um artigo para terminar e enviar por email até a meia noite do domingo, além de um outro trabalho que deveria ser terminado e entregue na segunda.
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Fiquei pensando sobre a importância de viver esses rituais de passagem. Me lembro que não fui ao enterro do meu avô Chichico, pai do meu pai e isso me fez muita falta.
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Parti para São Paulo com a certeza de ter feito minha parte que era velar o corpo do meu avô, levá-lo até a sepultura, estar junto com meus parentes e, principalmente, da minha avô, sua companheira de uma vida inteira.
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Foi muito bonito! Se tivesse sido feio, dolorido, intragável, eu não teria escrito aqui.
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Parecia-me que eu estava numa cena de um dos filmes do Fellini. Uma atmosfera meio Amarcord, comunidade interiorana, uma realidade banhada de arte, a ritualística da vida e da morte.
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Pensei muito, durante aquelas horas, que não havia nada o que lamentar, pois temos a plena, PLENA convicção de que nada se acabou. Tudo terá uma continuidade em algum outro lugar. A história escrita por ele, Menote Pinto de Sousa, foi bela, extremamente bela. Passou-me pela cabeça que nós, seus parentes mais próximos, que ficamos aqui na Terra, devemos manter a honra do seu nome, continuar seguindo seu exemplo de vida, fazendo valer, respondendo e preservando sua imagem de homem.
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Isso me fez chorar por algumas vezes durante aquelas horas. Chorei pela beleza da vida de um homem que tenho o orgulho e o privilégio de chamar de meu avô.
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Não havia quem não gostasse dele.
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Me lembro da última vez que ele foi cortar cabelo. Havia um menino, de uns 13 anos, sentado lá no barbeiro. Meu avô logo que chegou, sentou perto do garoto e começou a puxar assunto. O garoto não deu muita bola de início, mas meu avô não se intimidou. Continuo a fazer piadas e brincadeiras, até que ele foi se soltando, se soltando e, em 15 minutos, ele estava conquistado. Ao ir embora, o próprio rapazinho se adiantou em despedir e cumprimentar meu avô.
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Agora, o mais comovente foram suas últimas palavras...
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Umas semanas antes de ele morrer, eu, o Eric e a Gláucia (os 3 netos) fomos ao hospital para vê-lo. Nessa ocasião, ele já estava muito mal e estava meio sedado pra não sofrer com as dores causadas pelas feridas abdominais que ele tinha. Quando ele foi sair da UTI para entrar na sala de operações, a médica parou a maca, ele abriu os olhos, estava completamente debilitado, nem sei se ele tinha consciência de onde estava, de quem eram aquelas pessoas em volta dele, mas, MESMO ASSIM, ele virou, e disse uma coisa bonita, agradável e de bom humor. Nos elogiou dizendo que ali havia muitas pessoas bonitas. Não sei se sabia que éramos seus netos, não sei se tinha consciência do espaço, o que passou na cabeça dele, mas isso não importava. Tocou-me o fato de, mesmo antes de entrar numa mesa de cirurgia, estando completamente debilitado, ele disse uma coisa bonita, pura e que nos fez bem.
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A última frase dele foi: “Nossa, quanta gente bonita!” Depois disso acho que ele nunca mais falou... Essa foi a última frase que ouvi dele, um elogio!!!
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Lindo demaaaaais!!!
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Os rituais de passagem
Deixar que o rio curta seu percurso
Indo além de onde podemos acompanhar
É a ritualística da vida
Os limites do espaço e do tempo
Os limites das fases que pertencemos
Somos sem fim e devemos assim crer
Um ciclo feito vida
O maior de todos os rituais
O homem enquanto templo de sua jornada
A alma enquanto resultado de si mesma
Ela que antes estabelecida dentro de um casulo
Fez-se mais e melhor
Foi capaz de tanto
Até que este casulo se desfaz
Descartável pelos momentos de crescimento
Desnecessário em pontos mais distantes
Dá-se a passagem
Saltos maiores são lançados
São os rituais de passagem
Os rituais de passagem
Rituais de passagem
De passagem
Passagem
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Passou!!!
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Mas aqui dentro sempre ficará!!!
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