Aquele que dá comida aos pobres
não é detentor de um grande mérito se ele faz isso simplesmente por fazer, ou
sem que haja algum ato verdadeiro de doação, de abnegação, de dispêndio de
alguma parcela de sua energia legítima para o cultivo da caridade. Não é
detentor de grande mérito aquele que realiza ações deste tipo sem que elas exijam
algum sacrifício verdadeiro de seu Eu.
Fazer isso, não é tanto colocar-se
como caridoso, mas simplesmente executar a justiça. Não é um ato de benevolência,
mas simplesmente fazer o necessário. E o necessário tem que ser feito. O
necessário não deve tanto ser aplaudido, mas realizado. Não deve ser considerado
esplendido, já que é óbvio, quase ordinário.
Quero deixar claro que não
pretendo aqui desqualificar ações diversas de doação, de qualquer tipo que elas
sejam. Quero somente revalorizar estas ações. Ações deste tipo têm que ser
feitas. Não é tanto uma questão de escolha, mas de precisão. Doar é uma tentativa
de minimizar as injustiças variadas que se multiplicam neste estágio da
existência das almas.
O MUNDO DOS ENCARNADOS NÃO É
JUSTO!
E talvez a justiça plena também
não esteja logo ali encima, mas muito mais acima do que logo ali acima de nós!
Também é necessário dizer que, piores
do que os que se encaixam no exemplo acima, são aqueles que podem realizar
algum ato minimamente altruísta, sendo ele de que espécie for e, mesmo assim, não
o fazem. Mas esses não são objeto de discussão. Estes estão errados, e em
relação a isso me parece haver certo tipo de consenso crescente.
Mas voltando aos citados mais no
início...
Dar um saco de arroz podendo
comprar outros 10; comprar comida aos pobres com algum dinheiro que já se sabe
que irá sobrar; doar agasalhos velhos ou roupas que ninguém mais quer usar
porque são de modas ultrapassadas; estas, além de outras atitudes que seguem
este mesmo tipo de postura, não demonstram nenhum desprendimento profundo, nenhuma
doação legítima, nenhum ato de grandeza que mereça realmente este título.
Têm seu valor, sim, mas podemos
fazer melhor do que isso!
Além disso, há múltiplas interpretações
a respeito dessas atitudes:
Doar aquilo que não vai fazer
falta pode ser simplesmente um ato de desovar coisas e ganhar mais espaço para
adquirir novas.
Ou mesmo, doar aquilo que não vai
faltar, pode ser somente um ato corriqueiro que ajuda a aliviar a consciência,
já que, em para algumas cabeças, fazer isso é fazer mais do que os outros, e
fazer mais do que os outros te faz melhor que a média. E afinal, quem não quer
ser melhor do que a média?! Ou ainda, por que ser realmente bom se ser um
somente medianamente correto dá menos trabalho?!
Tudo isso é uma grande mentira
maquiada!
Praticar a pseudo-caridade só te
coloca um pouco menos errado: um mero detentor de uma paz quebradiça... Se
ainda para tanto for capaz.
Não é o que se faz, mas como se
faz. Não é o quanto se faz, mas o quanto aquilo que foi feito teve a
participação legítima de teu querer, de teu sentimento, de tua doação profunda.
O tanto não importa... Pode-se doar um pouco de arroz pro vizinho pobre, e isso
ser muito mais representativo para a própria pessoa que dá, do que o caso de um
grande artista que doa Um Milhão para alguma campanha internacional.
Os casos de doação rasa, os
patrocínios interesseiros, as campanhas hiper-aclamadas, ou mesmo o quilo de
sal mais barato que se levou para o show de fulano-famoso, não devem ser
vangloriados, supervalorizados, aplaudidos ou gritados da boca para fora,
porque, mesmo o elogio direcionado ao outro, sem a ação própria da pessoa que
parabeniza, pode ser uma forma de aliviar a consciência ou melhorar a própria
moral individualista perante aqueles que nos cercam.
Ao mesmo tempo, é óbvio que alguns
atos “máximos” de doação, aparentemente inquestionáveis, não devem ser
realizados sem olhar a quem.
“Fazer o bem sem olhar a quem”
não é mais uma máxima tão impoluta assim. A falsidade usa máscaras múltiplas.
Fazer o bem é fazer bem o bem, fazer
o bem de maneira exata, correta, inteligente, e para isso é necessário ponderar
alguns fatores para saber quando, como e principalmente a quem fazer.
Por mais legítimo, belo e
profundo que seja o ato em si, se este ato for feito sem maturidade, com inocência
errada, ele pode gerar o comodismo daquele que recebe, ou o uso indevido do que
recebeu, e assim a intenção não completa seu ciclo de recebimento e realização,
de verdadeira DOAÇÃO!
A caridade medíocre ainda é um
ato de mediocridade. A caridade deve ser realizada sempre acima do possível,
com envolvimento e desprendimento daquele que a realiza. Mas deve ser planejada, bem direcionada, para
ser corretamente valorizada.
Os atos de doação ainda que
realizados, podem ser vazios de significado profundo e tendem a não alimentar
corretamente aquele que realiza. Ao que recebe, não fará tanta diferença a
intenção daquele que doa, mas para o doador, se este tiver sensibilidade
suficiente, ele saberá valorizar em si, o tamanho de sua grandeza.
E quando a grandeza é verdadeira,
ela não precisa de holofotes, aplausos, vozerio, campanhas alarmantes, basta
ser realizada, pois, em grande ou pequena escala, ela se chama e se sabe
simplesmente: GRANDEZA!!!