sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Resenhas 2013 - Delas


De nome Delas e sobrenome “Um acontecimento cênico e musical sobre as desconexões do amor moderno”, este projeto, iniciado em 2010 pela autora Helga Bevilacqua e pelas cantoras e atrizes Cristina Pini e Rose Santana, nos ocupou várias boas noite do segundo semestre de 2013.


A cada ensaio, uma lavagem em todos os presentes, a cada ida, uma nova surpresa, a cada discussão, um novo problema a ser resolvido, a cada palpite uma série de novas possibilidades que se abriam para que pudéssemos trabalhar ainda mais.

Lembro-me da primeira vez que passamos todas as cenas que já tínhamos fechado, intercalando com as músicas já ensaiadas e, ao final do processo, parecia termos passado horas e horas encenando. Diversas pessoas choraram e todos tinham algo bonito a dizer.

Inclusive neste primeiro ensaio completo ocorreu um fato interessante...

Uma das cantoras pediu, de repente, que eu pegasse o violão sem me dizer o porquê. Logo depois começou uma música inesperada por todos, afinal, não tínhamos pensado no que viria após a última cena fechada até aquele momento.

Quando a cantora iniciou, logo eu entendi o clima e segui, e também fui seguido pelo percussionista. Assim fomos até o fim, de improviso, numa música que se tornou um dos pontos altos da peça: a música Barro de Adão do compositor Fábio de Barros.

No momento desta música, a cantora, intuitivamente, pegou as duas atrizes que estavam no chão, caídas, e começou a erguê-las pela cabeça, como se fosse uma espécie de entidade que retirava seus filhos da lama, levando-os a uma nova vida.

Após este ensaio, fiquei bastante tocado pelo acontecido e pelo projeto, ainda mais do que já estava, reforçando minha vontade de conseguir assinar como diretor musical da produção.

Assim, um dia, andando aqui por perto de casa, pensei nos primeiros versos da canção que viria a encerrar a apresentação, a música: Vozes das Águas que, além de fechar o conjunto, ainda ajudou a concretizar o matiz por detrás das diversas cenas esparsas que tínhamos.

Qual não era este ponto, senão aquele que me passou pela cabeça no dia da encenação geral quando a cantora levou as atrizes pela cabeça, cantando:

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“Barro de Adão”


Pode a lágrima então sangrar
Sangria do choro não vai curar
A ferida aberta da solidão

Cantar um canto pr’um orixá
Se ajoelhar perante um altar
Não exorcizará a solidão

Se somos do barro de Adão
Cabeça, ombro, peito e tentação
A lama que nos cobre a feição
É água, é areia e é solidão

Barro é cabeça
É peito, é pé
E é também paixão

Lama é água
Pedra e areia
E é só solidão

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Este conceito era o de usarmos o elemento água como instrumento de limpeza, de renovação, de purificação das almas que passavam por sofrimentos durante a encenação.

Voltando um pouco mais no tempo, acho mesmo que este conceito não nasceu no momento da música, mas quando usamos o documentário Elena como objeto de pesquisa. Daí sim partiu toda a idéia de usar a água, que levou a música Barro de Adão, que levou ao conceito das Orixás femininas, que se concretizou na música de encerramento: “Vozes das Águas”.

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O conceito das Orixás femininas é o seguinte:

Tínhamos quatro mulheres em cena, e a Umbanda trabalha justamente com quatro Orixás mulheres, sendo que todas elas têm ligação com a água.

Seguem os nomes e o que representam:

 - Nanã – que habita o barro, o lodo, o fundo dos rios e os mangues, representando o início e o fim da vida, a velhice, a sabedoria.

 - Iemanjá – que reina na imensidão do mar e representa a maternidade, a fecundidade.

 - Oxum – que reina nas águas doces, rios, cachoeiras e lagoas, e representa a beleza feminina.

 - Iansã – a deusa da tempestade, dos raios e dos ventos, trazendo a mulher guerreira.

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Como é notório, a água está em todas elas.

Quatro atrizes, quatro Orixás, a idéia vinda do documentário Elena, a música Barro de Adão, tudo isso me ajudou a chegar nos quase 8 minutos de música que encerram o espetáculo, dizendo:


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Vozes das Águas


Intro:

Cris:

Deixa chorar
Deixa sorrir
Deixa cantar
Deixa sentir

Rose:

Deixa escoar
Águas ao mar
Deixa fluir
Vou me banhar

Intro:

Cris e Naty / Rose e Dani (Em duplas)

Deixa chorar / Deixa chorar
Deixa sorrir / Deixa sorrir
Deixa cantar / Deixa cantar
Deixa sentir / Deixa sentir

Wagner e Vitor:

Deixa escoar / Deixa escoar
Águas ao mar / Águas ao mar
Deixa fluir / Deixa fluir
Vou me banhar / Vou me banhar

Wagner e Vitor / Rose, Cris, Naty e Dani (Dois grupos):

E do encanto / E do encanto
Dos encontros / Dos encontros
Muitos cantos compor / Muitos cantos compor 

Nestes versos / Nestes versos
Tão dispersos / Tão dispersos
Mil versões do amor

Cris, Rose, Dani e Naty (Juntas):

Águas e pedras
Chuva que lava o tempo
Tempestade
Desaba o tormento

Vitor e Wagner (Juntos):

Mundo de agora que tanto nos faz tão distantes
Muitos caminhos das águas nos fluem errantes

TODOS:

Mundo de nós
Tantos tão sós
Vários olhares tentando encontrar o caminho mais certo pra se seguir

Intro:

Rose e Dani / Wagner / Cris e Naty / Vitor (4 vozes em cânone):

Deixa chorar / Deixa chorar / Deixa chorar / Deixa chorar
Deixa sorrir / Deixa sorrir / Deixa sorrir / Deixa sorrir
Deixa cantar / Deixa cantar / Deixa cantar / Deixa cantar
Deixa sentir / Deixa sentir / Deixa sentir / Deixa sentir

Deixa escoar / Deixa escoar / Deixa escoar / Deixa escoar
Águas ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar
Deixa fluir / Deixa fluir / Deixa fluir / Deixa fluir
Vou me banhar / Vou me banhar / Vou me banhar / Vou me banhar

Wagner e Vitor / Rose, Cris, Naty e Dani (Dois grupos):

Desencontros / Desencontros
Desencantos / Desencantos
Descaminhos de dor / Descaminhos de dor 

Tentativas / Tentativas
Despedidas / Despedidas
Seja lá onde for

Cris, Rose, Dani e Naty (juntas) / Saudações: Wagner

Lama dos rios (Saluba Nanã Buruquê)
E as ondas do mar que acalmam o peito (Odossiá Iemanjá)
Cachoeiras (Ora Aiê-iê Minha Mãe Oxum)
E os raios do céu (Ieparrê Iansã)

Vitor e Wagner (dividindo vozes):

Tantas palavras não ditas recolhem o mundo
Mundo dos homens que dormem num sono profundo

TODOS:

Mundo de nós
Tantos tão sós

EM CICLOS - W e V / N e C / R e D e W e V – em duas vozes

Vários olhares tentando encontrar o caminho mais certo pra se seguir

SOLO COM VOCALIZES GERAIS

Intro acalmando (Rose vocalize bem agudo)

Rose e Dani / Wagner / Cris e Naty / Vitor (4 vozes em cânone):

Deixa chorar / Deixa chorar / Deixa chorar / Deixa chorar
Deixa sorrir / Deixa sorrir / Deixa sorrir / Deixa sorrir
Deixa cantar / Deixa cantar / Deixa cantar / Deixa cantar
Deixa sentir / Deixa sentir / Deixa sentir / Deixa sentir

Deixa escoar / Deixa escoar / Deixa escoar / Deixa escoar
Águas ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar
Deixa fluir / Deixa fluir / Deixa fluir / Deixa fluir
Vou me banhar / Vou me banhar / Vou me banhar / Vou me banhar

Intro: Rose repetindo: "Vou me banhar", em fade-out...

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Uma catarse musical crescente, de vozes se multiplicando, de toques que se presenciavam, do fazer dizer coisas complementares, ou o cantar de frases feitas de almas, o arranjar das harmonias musicais, climas feito mantras, vocalizes livres, vocalizes brincantes, terminando num longo abrandar, fabricando o pleno deleite, no derradeiro da arte, o fim do espetáculo, aquilo que se é quando tudo chega a seus lugares, mesmo que não sendo os lugares que queríamos, ou quando se acostuma que a vida não é justa, e que por isso a morte não existe, ou quando se abranda o coração, supera-se os caminhos mal trilhados, a injúrias, renovam-se os sorrisos, respira-se fundo ainda mais uma vez mais, e novamente de novo, e dá-se mais um passo, mais uma refletida, sentir mais um pouco, saber-se intenso, saber se preservar, e canta-se em conjunto com outros seres, e festeja-se a resignação aquietada, porém cantante, de mais um trabalho feito, de mais uma passagem vivida, de mais um mês de novembro trilhado, de mais uma peça concluída, de tantos amores sentidos, de outras pessoas sendo tocadas, e das coisas fluindo apesar das tempestades ultrapassadas, e vence o balanço das ondas, o lavar das águas, a fecundidade dos leitos, o profundo mistério, a força do raio, aquilo que passa, aquilo que fica, aquilo que perdura, aquilo que mais está, aquilo que envolve, aquilo que faz verdade, aquilo que vence, tudo que se move e que é sagrado, as nascentes de todos os sonhos, o escoar do mundo no leito de Deus, a perpetuação da cresça no palpitar do peito, a mulher, o homem, a criança, os vazios, os preenchimentos, o teatro, a música, a composição, o beijo, o abraço, o cantar arfante, a lágrima da encenação, o olhar do público, o olhar dos do palco, as luzes que brincam, a água que reflete, o caminhar, o dormitar das profundezas dos oceanos, a água salgada que acaricia o peito, a leveza da feminilidade, o complementar da masculinidade, o jogar-se, o preservar-se, o tamanho que é próprio de cada um, o risco, o resto, o gesto, o calar-se, o cuidado, o carinho, o não caminho, o andar para outro canto, andar para outro ponto, ouvir conselhos, fazer besteiras, trilhar desventuras, refazer o traçado, cercar a palavra, pensar o pensamento, pesar o sentimento, compensar o coração, a sensação malcuidada, o escape covarde, a covardia mais corajosa, o deitar no peito, o deitar as armas, o deitar para dormir, o deixar sonhar, o acordo prostrado, o acertado irresoluto, o semblante ferido, o feito instante, converter desatinos, a humanidade, o mundo, o muito, o pouco, o nada, o tudo, o ventre, o vento, o absoluto, o amor e o que ainda está além!





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Não houve uma só apresentação que fizemos que uma pessoa não chorou!

Todos os dias, na hora dos agradecimentos, alguém estava enxugando as lágrimas, ou soluçando ou com os olhos vermelhos!

Eram oito cenas intercaladas com músicas cantadas ou simplesmente instrumentais.

Havia cenas picantes, cenas de traição, cenas de extrema doçura, cenas de revolta, sempre dialogando com a parte sonora.

A música complementava o que a cena dizia, ou trazia novas ações que incrementavam o espetáculo.

Este espetáculo foi um marco para meu segundo semestre de 2013!

Senti que fui amadurecendo a cada reunião, a cada apresentação, a cada opinião, a cada proposta que levava para tentar solucionar o conjunto!

O tema da mulher contemporânea, o amor, o sofrimento e a superação vinda do se limpar nas águas encantadas das Orixás, me envolveu dos pés a cabeça!

Realmente foi muito especial fazer parte deste projeto!


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Ficha Técnica:

Direção: Juliano Barone
Texto: Helga Bevilacqua
Direção Musical: Wagner Passos
Direção de Elenco: Bruna Longo
Figurino: Victoria Moliterno
Cenografia: Lucas Fabrizzio
Iluminação: Andre Alves
Elenco: Daniela Mota, Nathalia Neme, Cristina Pini, Rose Santana, Wagner Passos, Vitor Meneghetti
Produção Executiva: Lucas Lentini

Duração: 60 min
Classificação: livre
Sala Piscina do Espaço Viga




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Resenhas 2013 - Clara Nunes – Guerreira da Utopia (Post 1200)




Uma biografia da mineira guerreira, nascida em Paraopeba, que perdeu os pais ainda pequena e foi criada pelos irmãos mais velhos. A filha de Iansã que, apesar dos esforços e da paixão pela maternidade, morreu sem conseguir ter filhos, após complicações de uma cirurgia de varizes. O escritor é o meu quase xará: Vagner Fernandes.

São mais de 300 páginas com muitas fotos e uma história tocante contada em ordem cronológica, mostrando os esforços de uma garota nascida numa família simples para conseguir tornar-se uma cantora famosa.

Clara me pareceu muito humana, humilde, inquieta, trabalhadora e extremamente simpática.

Foi impressionante a quantidade de relatos de pessoas da época que gostavam dela, que disseram ser ela uma pessoa iluminada, aberta para aprender, para procurar seus fundamentos espirituais, de um carisma que cativava a todos, de muita ajuda ao próximo e de trabalho com comunidades tradicionais do Rio de Janeiro, como foi o caso da Portela.

Obviamente que isso não significa ter sido ela uma pessoa impoluta nas suas posturas, afinal esta é sua biografia e, portanto, por ser parcial. Mas, mesmo assim, me impressionaram as várias passagens contadas em que Clara procurou ser caridosa, evitar o conflito, ajudar outras pessoas, conciliar-se.

Prova desta abertura é o fato de Elis Regina, que sabemos ter tido uma personalidade muito forte, gostar tanto de Clara e de Paulo César Pinheiro, seu marido, que chegava em horas inesperadas na casa dos dois e por lá ficava por alguns dias, pois precisava de alguém para escutá-la, um ombro amigo e etc, e Clara assim fez por várias vezes!

Aliás, é bom que se valorize também a figura de Paulo César Pinheiro, homem que firmou com Clara uma parceria na arte e na vida. Paulo foi produtor dos maiores discos de Clara. Auxilio-a no gerenciamento de sua carreira, deu apoio a uma Clara ainda insegura, e foi amparando-a neste amadurecimento. Clara realmente me pareceu, por vezes, bastante ingênua!

Pareceu-me que, sem ele, ela nunca teria chegado aonde chegou. Em diversas situações de conflito ele esteve ao seu lado, se mostrando um homem presente, amparando e sendo o braço direito daquela que chegou a ser a cantora de maior sucesso no seu tempo.

Vale também dizer da beleza de Clara, notável desde pequena. Ela sempre encantou as pessoas ao redor por isso, e serviu de padrão para mulheres de sua geração. No livro são mostrados vários catálogos de moda da época que tinham Clara como modelo. Revista tidas como feitas para as mulheres modernas, traziam reportagens com Clara. Clara em Cannes, relatos de suas viagens a África, a Cuba, suas preferências cotidianas, sua visão do amor, suas roupas preferidas e coisas do tipo.

E, para quem não sabe, a mineira iniciou sua carreira como cantora romântica, mas foi com o samba de raízes africanas que ela conquistou o grande público.

Ganhou muitos prêmios e vendeu milhares de cópias ano após ano, numa seqüência de álbuns formidáveis, recheados de sucessos que cantamos até hoje em barzinhos e churrascos.

Ela foi uma artista diferenciada dentro de sua geração. Enquanto muitas passeavam por vários estilos, como Elis (sua amiga), Bethânia, Gal, Clara dedicou-se quase que exclusivamente a um universo riquíssimo, de fundamentos musicais reconhecidos que é o samba, nossa maior herança musical para o mundo.

Se Clara fosse viva, gostaria de conhecê-la!


Discografia:

1966 - A Voz Adorável de Clara Nunes
1968 - Você Passa, Eu Acho Graça
1969 - A Beleza Que Canta
1971 - Clara Nunes (Odeon) 158.710 cópias vendidas
1972 - Clara Clarice Clara (Odeon) 164.542 cópias vendidas
1973 - Clara Nunes (Odeon) 250.120 cópias vendidas
1974 - Brasileiro Profissão Esperança (Odeon) 219.010 cópias vendidas
1974 - Alvorecer (Odeon) 784.028 cópias vendidas
1975 - Claridade (Odeon) 1.125.410 cópias vendidas
1976 - Canto das Três Raças (EMI-Odeon) 1.285.058 cópias vendidas
1977 - As Forças da Natureza (EMI-Odeon) 809.047 cópias vendidas
1978 - Guerreira (EMI-Odeon) 1.011.005 cópias vendidas
1979 - Esperança (EMI-Odeon) 900.485 cópias vendidas
1980 - Brasil Mestiço (EMI-Odeon) 2.002.450 cópias vendidas
1981 - Clara (EMI-Odeon) 811.587 cópias vendidas
1982 - Nação (EMI-Odeon) 1.254.998 cópias vendidas

Fonte: Wiki


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Resenhas 2013 - Show do João Bosco

  
Sempre quis assistir a um show deste artista.

Adoro várias e várias composições dele, como:

Papel Marchê
Jade
Incompatibilidade de Gênios
Quando o amor acontece
Memória da Pele
Kid Kavaquinho
O bêbado e o equilibrista
O mestre sala dos mares
Corsário
Siboney
Tiro de Misericórdia
Agnus Sei
O Cavaleiro e os moinhos
De frente pro crime
Escadas da Penha
Jardins da Infância
Gagabirô
Nação
Desenho de Giz
O ronco da cuíca
Falso Brilhante
Bala com Bala
Um por todos
Porter de Tafeta
Rancho da Goiabada
Parati
Jandira da Gandaia
Bodas de Prata
Caça à Raposa
Dois prá lá, dois prá cá

E outras mais que não me lembro... Mas é claro que ele não cantou todas estas!

Agora, um show do João Bosco, só voz e violão, com ele sentado num banquinho a pouquíssimos metros do público, foi muito especial!

O violão dele é um ser a parte! Torna-se um personagem tão importante do conjunto que peguei várias pessoas assoviando frases que não eram cantadas, mas tocadas. Além disso, tem arranjos que ele desenvolveu que são inseparáveis das canções, como é o caso do início da música Nação, ou as puxadas da música Corsário, ou mesmo a cadência cromática da segunda parte d’O Bêbado e o equilibrista.

Foi simplesmente fantástico!

Achei que ele teria uma postura mais fechada, mais enjoada, mas não foi bem assim! Conversou, contou histórias, tocou músicas de outros compositores como Águas de Março de Tom Jobim, alguma do Milton...

Tudo isso aconteceu no Centro Cultural Banco do Brasil, ao lado da Praça da Sé.

Antes de iniciar a apresentação ficamos sentados na porta lateral, tomando cerveja e observando o cenário miserável que se estendia daquele prédio luxuoso até a principal praça da maior cidade brasileira e uma das maiores do mundo.

Foi tão intrigante ver que não havia nada que separasse realmente um monte de mendigos e alguns marginais deitados numa calçada suja, de um dos maiores violonista e compositores do Brasil. A porta estava aberta, não havia catraca ou seguranças impedindo a entrada de ninguém, principalmente naquela entrada lateral que foi onde estivemos sentados até o início. Mas, mesmo assim, cinqüenta metros separavam duas realidades concomitantes que não se tocavam, nem sequer sabiam da existência uma da outra e a outra da uma.

Foi surreal imaginar aquela latência de proximidade que poucos sentiam, que poucos conseguiam observar. Dois mundos inseridos em suas realidades, impedidos de se espalharem, se toarem, sem que realmente nada os impedisse.

Obviamente que um mendigo mal vestido seria impedido de entrar naquele espaço, mas, os bêbado do bar da esquina, onde foram compradas as cervejas, por exemplo, poderiam entrar, mas nem se davam conta do que estava para acontecer ali dentro.

João Bosco é aclamado por gente do mundo inteiro, tem uma mão direita que espanta violonista de várias e várias gerações, e ele estava ali, de graça. No entanto, nada de dentro tocou o que estava fora e nada de fora tocou aquilo que acontecia lá dentro.

Mundos vizinhos reais que não co-existiram, tornando-se um a ficção esquecida na memória do outro, a miragem inexistente, o logo ali longínquo, o portal trancafiado, a margem inconcebida, fronteiras subconscientes, o nada realmente! 






Resenhas 2013 - Capitão Phillips


Um filme baseado em fatos reais.

Richard Phillips, interpretado brilhantemente por Tom Hanks, é encarregado de capitanear um navio na costa leste da África, perto da costa da Somália, região onde são comuns os ataques de piratas a embarcações internacionais.

O filme inicia-se com cenas do capitão conversando com sua mulher, mostrando a rotina familiar do personagem. Paralelamente são mostradas cenas do recrutamento de jovens somalis que, encontrando-se completamente sem perspectiva de vida, lançam-se em missões piratas sem nenhuma segurança, a fim de conseguir mudar suas realidades.

E assim o filme vai se desenrolando cronologicamente, sem grandes conflitos, até o momento do primeiro encontro do navio com os bandidos que, neste ponto, ainda não conseguem adentrar a embarcação.

Logo se inicia a segunda seqüência de ataques, que leva os piratas a conseguirem furar as manobras de proteção do navio.

A partir daí, a tensão prossegue numa longa crescente delicada onde fica claro o choque de dois mundos tão distantes, cada qual com suas armas sejam elas o raciocínio ou o desespero.

O capitão consegue manter uma calma monástica durante um longo período, e isso vai acumulando uma energia tremenda encima da figura que parece inabalável, até que ele entra em choque e se desespera num assombro de interpretação de Tom Hanks.

A situação toma proporções internacionais, levando os Estados Unidos a levarem um navio, uma grande quantidade de soldados, atiradores de elite, helicópteros, médicos e outros profissionais até o local.

No final, o capitão entra no navio para ser tratado, pois está em estado de choque. E mais uma vez Tom Hanks comove pela bela interpretação. Um homem de meia idade, experiente na profissão, centrado, controlado, mostra suas fragilidades mais profundas, chorando, tremendo, com o olhar perdido, sem conseguir falar nada, resignando-se a simplesmente deitar e entregar sua vida nas mãos de uma médica, pois ele mesmo não era mais capaz de lutar por ela.

Foi comovente!!!



Curiosidades segundo o site Adoro Cinema:

O filme é baseado no livro "A Captain's Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea", escrito pelo verdadeiro Richard Phillips.

Em abril de 2009, o capitão Richard Phillips e a tripulação do navio Maersk Alabama foram realmente sequestrados por piratas somalis.

A produção tentou conseguir o navio Maersk Alabama para as filmagens, mas acabou utilizando um porta-contêineres bastante similar ao original e a equipe filmou durante 60 dias a bordo de um navio.

Em entrevista, Tom Hanks revelou que o seu primeiro contato com os intérpretes dos piratas foi somente na hora de realizar as filmagens.

Para criar uma história autêntica, mais próxima da realidade, o diretor Paul Greengrass decidiu filmar perto dos atores, com a câmera nos ombros.


Diretor: Paul Greengrass

Atores:
Tom Hanks - Capitão Richard Phillips
Catherine Keener - Andrea Phillips
Barkhad Abdi - Personagem: Muse
David Warshofsky - Mike Perry
Corey Johnson - Ken Quinn
Max Martini - SEAL Commander
Omar Berdouni - Nemo
John Magaro - Dan Phillips


Produção
Produtor - Scott Rudin
Coprodutor - Christopher Rouse
Produtor - Dana Brunetti
Produtor de set - Kevin Spacey
Produtor - Michael De Luca

Roteiro
Autor da obra original - Richard Phillips
Roteirista - Billy Ray

Equipe técnica
Compositor - Henry Jackman
Montador chefe - Christopher Rouse

Co-produção - Trans Lux Inc.
Co-produção - Trigger Street Productions
Distribuidor brasileiro - SONY PICTURES
Produção - Michael De Luca Productions
Distribuidor no exterior - Sony/Columbia

Co-produção - Scott Rudin Productions




quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Resenhas 2013 - Cabarecht, um recital brechtiano



Espetáculo vencedor do prêmio Myriam Muniz/Funarte 2012.

Com direção musical de Cida Moreira, uma referência brasileira quando o assunto é o dramaturgo, poeta e compositor alemão Bertold Brecht, Cabarecht faz um apanhado das canções brechtianas que tanto influenciaram gerações de artistas ligadas aos mais diferentes ramos.

A direção e o roteiro são de Humberto Vieira. Ao longo de quase uma hora, quatro atores: a própria Cida Moreira (que também toca piano enquanto fuma seu charuto), Sandra Dani (uma personagem decadentista perfeita), Antônio Carlos Brunet e Roberto Camargo, se revezam e se agrupam num universo que retrata a ruína de uma sociedade que pode ser aquela da época do escritor, ou mesmo a nossa contemporânea. 


Além da decadência, o humor e a ironia são elementos constantes e auxiliam na construção deste painel boêmio feito de pessoas que se colocam tão a margem, mas ao mesmo tempo tão imersas nos percalços do mundo. São os artistas de qualquer tempo que se rebelam diante de uma realidade que não sabe se modificar e não sabe se entender pois não consegue se ver. E, como fruto deste cenário, os artistas se negam a serem inseridos nisso, e vêem suas vidas se desenrolarem a margem de um sistema incapaz de sustentá-los, pois não sustenta a si mesmo.

Foram apenas quatro apresentações entre os dias 12 e 14 de setembro no Teatro MuBE Nova Cultural, em São Paulo.

Um misto de riso e espanto!

Uma experiência bem diferente para quem não conhecia quase nada de Brecht!





quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Resenhas 2013 - Cabaré Brasil


Um espetáculo com Máscaras Balinesas e cenas envolvendo os famosos personagens da Commedia Dell Arte, como: Arlequín, Brighella, Colombina, Dottore, Os Enamorados, Pagliaccio e Pantalone.

A Commedia Dell Arte foi uma forma teatral que teve início no século XV na Europa, mais especificamente na Itália e tinha como grande característica a improvisação, onde os atores seguiam um roteiro pré-estabelecido, mas tinham liberdade para improvisarem suas falas a fim de fazer acontecer o enredo planejado. Eram trupes itinerantes, com palcos improvisados que podiam ser: praças, espaços abertos, ruas ou onde mais fosse possível encenar.

Alguns dizem que os artistas da Commedia Dell Arte foram os primeiros a conseguirem sobreviver de sua própria arte. Tenho cá minhas dúvidas se foram realmente os primeiro, mas, como pessoas, com mais experiência, afirmam este fato, quem sou eu para duvidar!

A peça foi o resultado de meses de pesquisa do diretor Augusto Marin junto aos alunos que participaram do Projeto Teatro Cidadão do Commune Coletivo Teatral e do “Ponto de Cultura”, realizado também pelo Commune, em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo e do MinC.

Com duração de uma hora e meia, onde os personagens se revezavam no palco contando histórias cômicas de seus cotidianos, esta peça me impressionou pela magia das máscaras usadas. É impressionante como a máscara tem força expressiva e envolve, transformando qualquer pessoa, às vezes sem muita preparação, num gigante em cena.

Por transformar a face do ator em algo encoberto, velado, misteriosos, isso nos retira um pouco a noção das expressões humanas que nos são tão conhecidas e que às vezes nos apegamos tanto para julgar se tal ator é bom ou ruim.

Ao mesmo tempo, por cima do mistério que a máscara encobre, existe a força do grotesco imutável retratado nelas. Quem já viu uma máscara de Commedia Dell Arte sabe como são bizarras suas formas. E por tanto que se faça em cena, aquele objeto imóvel, sobre o rosto do ator, torna-se uma espécie de uma entidade artística que incorporou naquela pessoa. Não vemos mais as pessoas, mas sim seres mágicos ganhando vida no meio do palco!

Cobrindo principalmente a região dos olhos e deixando a parte da boca de fora, o ator não é mais ele mesmo, mas um personagem histórico do imaginário popular, que se confunde com a trajetória do teatro no final da Idade Média. E como a magia está em tudo, provavelmente estes entes teatrais devem se fazer sentir por meio destes objetos. Mais uma das mágicas misteriosas que a arte nos presenteia!

Não sei qual é a verdade por detrás disso tudo, mas, pelo menos, eu acredito ter sentido alguma coisa diferente nesta peça. Foi uma experiência surreal!

Assim como no Projeto Delas, neste caso também fiquei responsável pela parte musical, assinando a direção, coordenando o repertório, ensaiando as cantoras e tocando piano no momento da apresentação que aconteceu no dia 12/12/2013.

As músicas foram: Abre Alas; Isso aqui o que é; Se acaso você chegasse; A história de Lily Braun; Quem te viu, quem te vê; O mundo é um moinho; Falsa Baiana e Jou Jou, meu balangandã.

Seguindo as festividades, após o encerramento, todo o teatro se transformou numa grande festa com DJ’s, muita música eletrônica dos anos 80, Samba Rock e assim por diante!

Foi uma experiência incrível!

Como estava muito perto dos atores, dentro do palco, pude sentir com mais força o encanto do universo da Commedia Dell Arte.

Certas manifestações não permanecem vivas e fortes por mais de 400 anos a toa, e pude ter certeza disso ao ver o quão tocante ainda podem ser personagens criados nos séculos XVI e XVII, num outro contexto histórico, num outro mundo humano, num outro país, mas, ainda assim, possuem força para nos absorver a uma realidade paralela: a realidade do palco!!!



Resenhas 2013 - @M@R


Este é o livro que contém os textos que deram origem ao espetáculo “Delas, um acontecimento cênico-musical”, do qual eu fui pianista e diretor musical.

Esta obra, de autoria da escritora e advogada Helga Bevilacqua, procura abarcar inspirações extraídas de seu cotidiano, de suas observações das pessoas e principalmente das figuras femininas que viviam e vivem próximas ou mesmo dentro da autora.

E foi extraindo delas que moram dentro dela que surgindo se firmou o espetáculo e, quase simultaneamente, este livro de textos rápidos, diretos, de linguagem simples, de fácil entendimento, porém com profundidade e uma riqueza de assuntos que, acredito eu, veio da despretensão do tempo de escrita, afinal, tudo começou como uma simples brincadeira esparsa.

Trata-se de um livro múltiplo onde ficção e realidade se misturam. Sendo assim, não sabemos o que foi vivido pela artista, ou o que, simplesmente foi vivido enquanto ela os imaginou no individual ato da criação.

São diversos os casos de amor e desamor que se desenrolam ao longo das quase 130 páginas, onde muitas mulheres comuns, viventes neste mundo Pós-Moderno, sofrem, gostam, desgostam, tentam, se frustram, mas renascem e seguem adiante.

Além do prefácio, escrito pela própria autora, o livro possui os seguintes textos:


  1. @M@R (que dá nome a obra)
  2. Sujeito a guincho
  3. Veloz
  4. Amor na terceira pessoa do singular
  5. Partida
  6. Vazios
  7. Manteiga
  8. Menino da chuva
  9. Ele e sua coca-cola
  10. Quadrilha Moderna
  11. O conto do abismo
  12. Rivotril
  13. Antônia
  14. Sobre a mesa
  15. A camisa
  16. A qualquer preço
  17. Amargo
  18. O beijo
  19. A raiva é um sentimento de unhas bem vermelhas
  20. Tango
  21. Cinema
  22. A sorrir
  23. Luna


Não há seqüência cronológica. O intuito foi simplesmente dar vazão a uma vontade que por tanto tempo ficou reprimida num cotidiano de um mundo corporativo, até o momento em que ela decidiu dar um basta, largar tudo e investir pesado no projeto para viver este sonho que se concretizou também por meio deste livro.

Uma leitura muito gostosa!!!



domingo, 19 de janeiro de 2014

Ideal


 - De quantas coisas a arte é a redenção?