De
nome Delas e sobrenome “Um acontecimento cênico e musical sobre as desconexões
do amor moderno”, este projeto, iniciado em 2010 pela autora Helga Bevilacqua e
pelas cantoras e atrizes Cristina Pini e Rose Santana, nos ocupou várias boas
noite do segundo semestre de 2013.
A
cada ensaio, uma lavagem em todos os presentes, a cada ida, uma nova surpresa,
a cada discussão, um novo problema a ser resolvido, a cada palpite uma série de
novas possibilidades que se abriam para que pudéssemos trabalhar ainda mais.
Lembro-me
da primeira vez que passamos todas as cenas que já tínhamos fechado,
intercalando com as músicas já ensaiadas e, ao final do processo, parecia
termos passado horas e horas encenando. Diversas pessoas choraram e todos
tinham algo bonito a dizer.
Inclusive
neste primeiro ensaio completo ocorreu um fato interessante...
Uma
das cantoras pediu, de repente, que eu pegasse o violão sem me dizer o porquê. Logo
depois começou uma música inesperada por todos, afinal, não tínhamos pensado no
que viria após a última cena fechada até aquele momento.
Quando
a cantora iniciou, logo eu entendi o clima e segui, e também fui seguido pelo
percussionista. Assim fomos até o fim, de improviso, numa música que se tornou
um dos pontos altos da peça: a música Barro de Adão do compositor Fábio de
Barros.
No
momento desta música, a cantora, intuitivamente, pegou as duas atrizes que
estavam no chão, caídas, e começou a erguê-las pela cabeça, como se fosse uma
espécie de entidade que retirava seus filhos da lama, levando-os a uma nova
vida.
Após
este ensaio, fiquei bastante tocado pelo acontecido e pelo projeto, ainda mais
do que já estava, reforçando minha vontade de conseguir assinar como diretor
musical da produção.
Assim,
um dia, andando aqui por perto de casa, pensei nos primeiros versos da canção
que viria a encerrar a apresentação, a música: Vozes das Águas que, além de
fechar o conjunto, ainda ajudou a concretizar o matiz por detrás das diversas cenas
esparsas que tínhamos.
Qual
não era este ponto, senão aquele que me passou pela cabeça no dia da encenação
geral quando a cantora levou as atrizes pela cabeça, cantando:
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“Barro de Adão”
Pode
a lágrima então sangrar
Sangria
do choro não vai curar
A
ferida aberta da solidão
Cantar
um canto pr’um orixá
Se
ajoelhar perante um altar
Não
exorcizará a solidão
Se
somos do barro de Adão
Cabeça,
ombro, peito e tentação
A
lama que nos cobre a feição
É
água, é areia e é solidão
Barro
é cabeça
É
peito, é pé
E
é também paixão
Lama
é água
Pedra
e areia
E
é só solidão
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Este
conceito era o de usarmos o elemento água como instrumento de limpeza, de
renovação, de purificação das almas que passavam por sofrimentos durante a
encenação.
Voltando
um pouco mais no tempo, acho mesmo que este conceito não nasceu no momento da
música, mas quando usamos o documentário Elena como objeto de pesquisa. Daí sim
partiu toda a idéia de usar a água, que levou a música Barro de Adão, que levou
ao conceito das Orixás femininas, que se concretizou na música de encerramento:
“Vozes das Águas”.
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O
conceito das Orixás femininas é o seguinte:
Tínhamos
quatro mulheres em cena, e a Umbanda trabalha justamente com quatro Orixás mulheres,
sendo que todas elas têm ligação com a água.
Seguem
os nomes e o que representam:
- Nanã – que habita o barro, o lodo, o fundo
dos rios e os mangues, representando o início e o fim da vida, a velhice, a
sabedoria.
- Iemanjá – que reina na imensidão do mar e
representa a maternidade, a fecundidade.
- Oxum – que reina nas águas doces, rios, cachoeiras
e lagoas, e representa a beleza feminina.
- Iansã – a deusa da tempestade, dos raios e
dos ventos, trazendo a mulher guerreira.
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Como
é notório, a água está em todas elas.
Quatro
atrizes, quatro Orixás, a idéia vinda do documentário Elena, a música Barro de
Adão, tudo isso me ajudou a chegar nos quase 8 minutos de música que encerram o
espetáculo, dizendo:
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Vozes das Águas
Intro:
Cris:
Deixa chorar
Deixa sorrir
Deixa cantar
Deixa sentir
Rose:
Deixa escoar
Águas ao mar
Deixa fluir
Vou me banhar
Intro:
Cris e Naty / Rose
e Dani (Em duplas)
Deixa chorar / Deixa
chorar
Deixa sorrir / Deixa
sorrir
Deixa cantar /
Deixa cantar
Deixa sentir / Deixa
sentir
Wagner e Vitor:
Deixa escoar / Deixa
escoar
Águas ao mar / Águas
ao mar
Deixa fluir / Deixa
fluir
Vou me banhar / Vou
me banhar
Wagner e Vitor /
Rose, Cris, Naty e Dani (Dois grupos):
E do encanto / E
do encanto
Dos encontros / Dos
encontros
Muitos cantos
compor / Muitos cantos compor
Nestes versos / Nestes
versos
Tão dispersos / Tão
dispersos
Mil versões do
amor
Cris, Rose, Dani
e Naty (Juntas):
Águas e pedras
Chuva que lava o
tempo
Tempestade
Desaba o
tormento
Vitor e Wagner
(Juntos):
Mundo de agora
que tanto nos faz tão distantes
Muitos caminhos
das águas nos fluem errantes
TODOS:
Mundo de nós
Tantos tão sós
Vários olhares
tentando encontrar o caminho mais certo pra se seguir
Intro:
Rose e Dani /
Wagner / Cris e Naty / Vitor (4 vozes em cânone):
Deixa chorar / Deixa
chorar / Deixa chorar / Deixa chorar
Deixa sorrir / Deixa
sorrir / Deixa sorrir / Deixa sorrir
Deixa cantar /
Deixa cantar / Deixa cantar / Deixa cantar
Deixa sentir / Deixa
sentir / Deixa sentir / Deixa sentir
Deixa escoar / Deixa
escoar / Deixa escoar / Deixa escoar
Águas
ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar
Deixa fluir / Deixa
fluir / Deixa fluir / Deixa fluir
Vou me banhar / Vou
me banhar / Vou me banhar / Vou me banhar
Wagner e Vitor /
Rose, Cris, Naty e Dani (Dois grupos):
Desencontros /
Desencontros
Desencantos /
Desencantos
Descaminhos de
dor / Descaminhos de dor
Tentativas /
Tentativas
Despedidas /
Despedidas
Seja lá onde for
Cris, Rose, Dani
e Naty (juntas) / Saudações: Wagner
Lama dos rios
(Saluba Nanã Buruquê)
E as ondas do
mar que acalmam o peito (Odossiá Iemanjá)
Cachoeiras (Ora
Aiê-iê Minha Mãe Oxum)
E os raios do
céu (Ieparrê Iansã)
Vitor e Wagner
(dividindo vozes):
Tantas palavras
não ditas recolhem o mundo
Mundo dos homens
que dormem num sono profundo
TODOS:
Mundo de nós
Tantos tão sós
EM CICLOS - W e V / N e C / R e D e W e V – em duas
vozes
Vários olhares
tentando encontrar o caminho mais certo pra se seguir
SOLO COM
VOCALIZES GERAIS
Intro
acalmando (Rose vocalize bem agudo)
Rose e Dani /
Wagner / Cris e Naty / Vitor (4 vozes em cânone):
Deixa chorar / Deixa
chorar / Deixa chorar / Deixa chorar
Deixa sorrir / Deixa
sorrir / Deixa sorrir / Deixa sorrir
Deixa cantar /
Deixa cantar / Deixa cantar / Deixa cantar
Deixa sentir / Deixa
sentir / Deixa sentir / Deixa sentir
Deixa escoar / Deixa
escoar / Deixa escoar / Deixa escoar
Águas
ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar / Águas ao mar
Deixa fluir / Deixa
fluir / Deixa fluir / Deixa fluir
Vou me banhar / Vou
me banhar / Vou me banhar / Vou me banhar
Intro:
Rose
repetindo: "Vou me banhar", em fade-out...
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Uma catarse
musical crescente, de vozes se multiplicando, de toques que se presenciavam, do
fazer dizer coisas complementares, ou o cantar de frases feitas de almas, o
arranjar das harmonias musicais, climas feito mantras, vocalizes livres,
vocalizes brincantes, terminando num longo abrandar, fabricando o pleno
deleite, no derradeiro da arte, o fim do espetáculo, aquilo que se é quando
tudo chega a seus lugares, mesmo que não sendo os lugares que queríamos, ou quando
se acostuma que a vida não é justa, e que por isso a morte não existe, ou quando
se abranda o coração, supera-se os caminhos mal trilhados, a injúrias, renovam-se
os sorrisos, respira-se fundo ainda mais uma vez mais, e novamente de novo, e
dá-se mais um passo, mais uma refletida, sentir mais um pouco, saber-se
intenso, saber se preservar, e canta-se em conjunto com outros seres, e festeja-se
a resignação aquietada, porém cantante, de mais um trabalho feito, de mais uma
passagem vivida, de mais um mês de novembro trilhado, de mais uma peça
concluída, de tantos amores sentidos, de outras pessoas sendo tocadas, e das
coisas fluindo apesar das tempestades ultrapassadas, e vence o balanço das
ondas, o lavar das águas, a fecundidade dos leitos, o profundo mistério, a
força do raio, aquilo que passa, aquilo que fica, aquilo que perdura, aquilo
que mais está, aquilo que envolve, aquilo que faz verdade, aquilo que vence, tudo
que se move e que é sagrado, as nascentes de todos os sonhos, o escoar do mundo
no leito de Deus, a perpetuação da cresça no palpitar do peito, a mulher, o
homem, a criança, os vazios, os preenchimentos, o teatro, a música, a
composição, o beijo, o abraço, o cantar arfante, a lágrima da encenação, o
olhar do público, o olhar dos do palco, as luzes que brincam, a água que
reflete, o caminhar, o dormitar das profundezas dos oceanos, a água salgada que
acaricia o peito, a leveza da feminilidade, o complementar da masculinidade, o
jogar-se, o preservar-se, o tamanho que é próprio de cada um, o risco, o resto,
o gesto, o calar-se, o cuidado, o carinho, o não caminho, o andar para outro
canto, andar para outro ponto, ouvir conselhos, fazer besteiras, trilhar
desventuras, refazer o traçado, cercar a palavra, pensar o pensamento, pesar o
sentimento, compensar o coração, a sensação malcuidada, o escape covarde, a
covardia mais corajosa, o deitar no peito, o deitar as armas, o deitar para
dormir, o deixar sonhar, o acordo prostrado, o acertado irresoluto, o semblante
ferido, o feito instante, converter desatinos, a humanidade, o mundo, o muito,
o pouco, o nada, o tudo, o ventre, o vento, o absoluto, o amor e o que ainda
está além!
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Não houve uma só
apresentação que fizemos que uma pessoa não chorou!
Todos os dias,
na hora dos agradecimentos, alguém estava enxugando as lágrimas, ou soluçando
ou com os olhos vermelhos!
Eram
oito cenas intercaladas com músicas cantadas ou simplesmente instrumentais.
Havia
cenas picantes, cenas de traição, cenas de extrema doçura, cenas de revolta,
sempre dialogando com a parte sonora.
A
música complementava o que a cena dizia, ou trazia novas ações que
incrementavam o espetáculo.
Este
espetáculo foi um marco para meu segundo semestre de 2013!
Senti
que fui amadurecendo a cada reunião, a cada apresentação, a cada opinião, a
cada proposta que levava para tentar solucionar o conjunto!
O
tema da mulher contemporânea, o amor, o sofrimento e a superação vinda do se
limpar nas águas encantadas das Orixás, me envolveu dos pés a cabeça!
Realmente foi
muito especial fazer parte deste projeto!
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Ficha
Técnica:
Direção:
Juliano Barone
Texto:
Helga Bevilacqua
Direção
Musical: Wagner Passos
Direção
de Elenco: Bruna Longo
Figurino:
Victoria Moliterno
Cenografia:
Lucas Fabrizzio
Iluminação:
Andre Alves
Elenco:
Daniela Mota, Nathalia Neme, Cristina Pini, Rose Santana, Wagner Passos, Vitor
Meneghetti
Produção
Executiva: Lucas Lentini
Duração:
60 min
Classificação:
livre
Sala
Piscina do Espaço Viga











