Aos pés do prédio em que vivo
Tentando encontrar matéria para uns trocados
Que o permita sobreviver por mais uns dias
.
Seu esforço é tremendo
E suas pancadas ecoam por toda noite
Enquanto seu corpo se curva num esforço enorme
E as pedras fabricadas pelo homem
Teimam em resistir aos seus golpes
.
Tua face não me é visível
Mas posso pressentir sua agonia
Frente a resistência do material
Que guarda dentro de si
O metal que ele muito almeja
.
Dentro destas pedras feitas por humanos
Está o café da manhã de uma nova alvorada
A quantidade alucinógena de um novo trago
Ou os mililitros sedentos de um futuro gole
.
Dentro do concreto armado
Está seu “pão nosso de cada dia nos daí hoje”
Que teima em escapar cada vez mais fundo
Quanto mais ele tira em lascas
As camadas que redomam o maior de seus tesouros
.
Dentro daquela cápsula feita para resistir ao tempo
Concretamente reside sua esperança
Seu caminho para vencer a fome que gruda em suas entranhas
Sua vida que permanece sem conclusão
Suas noites que se arrastam sem descanso
E seu itinerário que nunca alcança um destino
.
Dentro daquele pedaço de concreto
Está ele mesmo
Seu amanhã dourado
Sua felicidade esquecida
E seu futuro distante numa eternidade luminosa
.
Dentro daquele resto de construção
Está o pecado original da humanidade
Que enquanto eu escrevia
Gritou anunciando sua libertação
E o homem se iluminou
Junto ao fim de sua carnal escravidão
.