Foram
dançadas duas coreografias:
Ter_Alado
(“Ter ao lado”)
Nesta
coreografia, há constantemente o princípio de uns guiando outros colocando suas
mãos sobre suas cabeças, bem como encaixes de corpos e um constante testar e
trocar de intenções que se dá principalmente pelo toque, pelo apoio e muito
pelo suporte que um corpo pode dar ao outro, proporcionando a outrem o alar-se,
o soltar de si mesmo.
Achei
bem interessante, mas, dotado de uma narrativa demasiadamente aberta, com pouca
concatenação de elementos, deixando o todo disperso demais e sem um foco que
poderia, não restringir, mas implementar uma singularidade objetiva através de
uma mensagem mínima, indo além do simples mote de colocar corpos dançando uns
com os outros!
O
coreógrafo defendeu a idéia da não linearidade, ou mesmo da ausência de um
ciclo, temporalmente organizado, de ação e conseqüência, mas não me agradou
totalmente, pelo já dito aqui.
T.A.T.O
(Tecidos Abertos por Tensões Opostas)
Nos
dois espetáculos de dança do Balé que fui ver em 2012, a segunda coreografia
era mais bonita! E eles estão certíssimos de colocar dessa maneira!
A
“T.A.T.O” me deu novamente a impressão que outra coreografia deste corpo de
dança me passou: há idéias que são melhor traduzidas pela dança, mais do que por
qualquer outro tipo de arte!
Idéias
amplas que, se verbalizadas, por exemplo, pela Literatura, pelo Cinema, pelo
Teatro, pela Ópera, pela Poesia, pela Canção Popular, tenderiam, bastantemente,
a restrição da liberdade imaginativa de cada um que tomasse contato com a obra!
Também
não caberiam numa pintura, pois precisaria do movimento para expressar a
narrativa, a busca, a conquista, a modificação de algo mais profundo!
E
a música, a dita rainha de todas as artes, perderia também neste contexto, pois
careceria da imagem humana, do arquétipo básico do corpo do homem e sua
contextualização comunal de movimento e expressividade!
Já
a dança, liberta-se do verbal restringente, da pintura estática e da música
pouco imagética real!
Ou
seja, tem coisas que a só a dança pode expressar!
A
T.A.T.O abre um painel amplo sobre as relação com a morte, os entes queridos, o
trabalho energético que se dá pelos pêndulos posicionados sobre o palco.
Fiquei
super encantado!
Foi
interessante reparar como a movimentação dos pêndulos era difícil antes da
superação da morte. Já após as cenas fatais, os dançarinos passaram a
movimentar suas bases com muito mais facilidade, num indicativo de
transcendência dos limites palpáveis do entorno físico quando instigados pelo
mistério ou talvez quando alimentadas suas resignações pela certeza do
desencarne!
Houve
muito os gestos dos bailarinos tentado se libertar de algo, crescer além do
próprio peito, soltar de algumas amarras corporais e esgarçar a realidade à
qual eles (Nós) estavam todos encarcerados.
A
figura dos pêndulos no palco ilustrava justamente a ritualística sutil que guia
o descobrir humano das energias superiores, bem como a construção de pontes que
nos satisfaçam nossa necessidade de contato com o além!
Os
pêndulos foram diversas vezes movimentados, às vezes chegando próximos de
outros corpos, por vezes se elevando e distanciando do plano onde se
encontravam os bailarinos, outras vezes eram tocados diretamente fazendo-os
girar, parar, balançar.
Agora,
como representar idéia de uma sutileza tamanha, senão pela dança, apoiada pela
música?!
Fiquei
emocionado pela cena final, onde um bailarino está caído (morto) debaixo de um
pêndulo e outro solitário numa outra extremidade do palco, inicia, lentamente,
o arraste da base pendular, a fim de tocar o outro corpo, de estabelecer a
ponte entre a vida e a morte, e assim as luzes se apagaram e as cortinas se
fecharam, no momento final do contato entre as duas realidades pungentes!
Por
último, não posso tentar dizer sobre a música desta coreografia, por isso deixo
o link para audição:
Todos
aplaudimos de pé por um bom tempo! Muito muito emocionante!
Balé
da Cidade de São Paulo
Ter_Alado
- T.A.T.O.
Theatro
Municipal de São Paulo
13
qui 21h, 14 sex 21h, 15 sab 20h e 16 dom 17h
Balé
da Cidade de São Paulo (duração total com 1 intervalo 1h20’)
“Ter_Alado”
23’
Música
– Heitor Villa Lobos
Coreografia
– Renato Vieira
Figurinos
– João Pimenta
Desenho
de luz – Binho Schaefer
(intervalo
20’)
“T.A.T.O.”
35’
(estreia
de nova coreografia, com a participação da Orquestra Sinfônica Municipal)
Música
– A. Schoenberg: “Noite Transfigurada” op. 4
Coreografia
– Jorge Garcia
Regência
– Luís Gustavo Petri
Cenografia
– La Tintota
Desenho
de Luz – Ari Buccioni
Figurino
– João Pimenta