PARTE 1
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Ainda que a manhã demorasse a vingar
Naquele vasto horizonte de escuridão
Nós, suplicantes clarividentes
Pressentíamos gotas de esperança
Decaindo das altivas trevas
Como uma leve chuva noturna
Feita de lágrimas abstratas
Mas que ainda assim
Eram capazes de nos trazer algum alívio
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- Estávamos em ato contínuo de transformação!
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Ainda que o mar dos dias
Balançasse seus restos de vida
Entre as insistentes marés
Que teimavam em nunca se concluir
Nós, mínimos vertebrados animalescos
Tentávamos alcançar a praia derradeira
Onde poderíamos afinal repousar
E deixaríamos nossos corpos
Secarem lentamente
Ao embalo da suave brisa
Que nos faria enfim adormecer
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- Estávamos em nado instável de arribação!
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Mas ainda éramos um povo apartado
Fazíamo-nos feito feras arredias
Um grupo imenso de almas
Que se excluíam dolorosamente
Vagando umas distantes das outras
Feito imãs iguais que se repelem
Justamente pela semelhança
Ou pela incapacidade
De se virarem em reajuste
Atraindo-se solidariamente
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- Pois que nos viremos, então!
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Nas mais distantes terras e mares
Homens, mulheres e crianças
Vermes, pedras e bichos
Deixavam suas faces voltadas aos céus
Tremulantes de um raquitismo medíocre
Suplicantes de uma nova coisa qualquer
Famintos por um maná incólume
Sedentos pela emanação das águas
Um despejo divino que saciaria nossas sedes
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- Pois que nos encharquemos, então!
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Nas mais silenciosas casas
Podia-se presenciar
A suplica de todos nós
Transbordando o ambiente privado
Enovelando a aldeia global
Costurando um futuro comum
Por meio de ritos e mantras mentais
Que sabíamos todos décor
Mas que não mais ousávamos profanar
Por medo da mudança inevitável
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- Pois que nos mudemos, então!
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PARTE 2
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Em cada gesto
Estava o pulsar de muitos
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Em cada átomo
Dormitavam os ancestrais das estrelas
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Em cada canto
Flutuava a voz de um povo
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Em cada lamentação
Todos os homens se manifestavam
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Em cada transpiração
Saltava a vida de um planeta
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Em cada suspiro
Dilatava-se o pulmão do mundo
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Em cada afago
Todos os sentidos se encaixavam
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Em cada palavra
Cabia o significado do ulterior silêncio
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Em cada emoção
Uma veia unida saltava em tantos
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Em cada horizonte
A esperança nos acenava amigável
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Em cada cântico
Ressoava uma reação em cadeia
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Em cada sorriso
Estava a luminescência do futuro
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Em cada músculo
Pulsava a força de uma espécie
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Em cada olhar
Vislumbrava-se o semblante da humanidade inteira
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Em peregrinação perpétua
Caminhávamos os homens
Passo a passo
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Gesto a gesto
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Braço a braço
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Vida a vida
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Ombro a ombro
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Lado a lado
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Jeito a jeito
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Fome a fome
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Dor a dor
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Mente a mente
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Olho a olho
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Dente a dente
Em nossas exaustivas jornadas
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PARTE 3
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A massa mutante
Transpirava a esperança e a dor
O egoísmo e a carência
O materialismo e o vazio
Paradoxal semente do amanhã
Que em tenra terna terra
Esperava ser depositava
No ato instante de nos permitirmos cair
Desvaindo-nos em solo sagrado
Arado pelos nossos próprios passos passados
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Mas a semente homem
Precisa de humildade
Para que se deixe derrubar no chão
Precisa de paciência
Para que se faça fixar em germinação
Precisa de esperança
Para que se permita banhar pelo tempo
E precisa de Deus
Para que se molde e cresça com alento
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E é assim que vejo o instável instante atual
Uma enorme dificuldade açabarcante
Que nos fará acreditar novamente
Que nos fará exercitar um sorriso mais forte
Que nos fará tentar um novo gesto
Que nos dará ao planeta um novo norte
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Um novo norte, uma nova direção
Feito uma pétrea resultante quase póstuma
Semeadura universal vindoura
A ser profundamente depositada
Em todos os corações
A ser mundialmente festejada
Em Romaria de 7 Mil Milhões
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