.
Sibilante invólucro sonoro
Que se infiltra pela atmosfera etérea
Deste apartamento em ressonância
Convidando-me a algo que ainda não sei
.
Constante e cadenciado burilar de pétalas líquidas
Que me lembra de tantas experiências longínquas
Esquecidas no porão das memórias renegadas
Mas que me agarram os calcanhares
.
Desfolhar denso e descendente da lótus celestial
Que, em sua polirritmia, acalma corações e mentes
Neste desenrolar constante da noite em escuridão
E que me instiga o imaginário neste momento
.
Auscultando o coração da madrugada
Que se ventila nesta cortina invisível em sua liquidez
Coloco-me prostrado defronte aos vocábulos
Esperando a deliciosa agonia da inspiração
.
PARTE II
.
Faço-me pouco neste instante
E resigno-me neste amálgama de espaços
Para pulsar calidamente minha interioridade
E reacender espaços inexplicáveis
Entranhas de um vasto inexprimível
Salões incalculáveis de minha autocaverna
.
Minimalizo-me como que numa concha invisível
Lançando minha imaginação voluntariamente
Rumo a um passado de dor e criação
E tento tragar por meio destas palavras
O fôlego motriz capaz de me colocar
Novamente em ebulição
.
Procuro desesperadamente espelhar-me
Nestas singelas gotas altivas
Que recaem expandidas em coragem
Lançando-se de encontro ao chão do mundo
Fecundando o seio da terra de tamanhos erros
Mas que continua sendo
Nosso único e inescapável destino
.
PARTE III
.
Preciso-me assim
Anseio-me por ser gota de coragem
Pranteio-me de tentativas
Revolvo-me em contorcências
.
Mas, qual o que?!
.
Falta-me tudo e tanto e tato
Falta-me a força, a fé e o foco
Portanto
Canso-me de mim
Desisto-me assim
E retorno-me outrossim
À lamentação que me encharca
.
CHEGA DE PROCURAR INSPIRAÇÃO!
Vou apenas falar do que tenho aqui dentro agora...
.
PARTE IV
.
Oh tampa de mediocridade
Que se deitou por sobre minha cabeça
Enclausurando meus pensamentos disformes
Que não conseguem mais se alimentar
Da expansão revolucionária da livre imaginação
.
Oh dor de negação das capacidades
Que se sobrepõe à convicção da qualidade própria
E me faz não gostar daquilo que posso fazer
E que, por isso mesmo, não me alimenta
No caminhar cambaleante do literato instante
.
Deveras irrisório é o poema que de mim parte
Repartindo-me em postas mínimas
E sem brilho capaz de reluzir aos olhos de outrem
.
Inconclusas formas literárias de dor
Recendendo uma inútil insistência fétida
Agora saem pelas pontas dos meus dedos
Em frases oblíquas de poética inepta
Mas que prefiro dolorosamente expandir
Como fosse um autosadismo
Ou talvez um disfarçado vitimismo
.
Persevero nesta colocação ferina
Na esperança de me contrair ao tamanho real
Na busca por me colocar humildemente
Na minguada envergadura exata
Que a inércia passada me condenou
.
PARTE V
.
Sou
O zero absoluto
De um processo
Que há tantos anos
Se iniciou
Mas
Que se refreou
Pela incredulidade geral
Ou pela crença
De que ele
Não me levaria
A lugar algum
.
Sou
Neste instante
O tamanho exato
Daquilo
Que não me fiz
.
Sou
Nesta hora morta
A forma derretida
De uma proposta
Apartada no tempo
Esquecida no espaço
Esvaída no vácuo
Carcomida no caos
Atrofiada pelos dias
Atropelada pela rebeldia
Afogada pelo materialismo
Desmantelada pelo cotidiano
E morta em alguma lembrança
Que não consigo mais resgatar
.
PARTE VI
.
Enfim
Neste instante sem par
Não pude responder dignamente
Ao convite que a chuva se me lançava no ar...
.
.