quinta-feira, 24 de maio de 2007

Texto pro Jornal do C.A...

“Joana diria: eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar”.
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Bem vindos pra “Perto do coração selvagem Clarice Lispector”
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Um título indissociável de seu autor. Não de todo seu autor, mas só daquela parte dele que se escreve. Clarice quando escreve respira com dificuldade no sufoco intenso das criações, porém desabrocha através das linhas com tamanha propriedade que parece ter passado dias intermináveis no equilíbrio perfeito entre razão e emoção. Clarice labuta com perseverança tentando encontrar aquela maneira simples e inusitada de dizer as coisas que mesmo após 63 anos ainda é capaz de sufocar. Não tinha mais que 17 vezes 4 estações quando expandiu sua criação aos olhos de um país que parou. Através de simples agrupamentos de palavras em frases, parágrafos e capítulos, uma menina menor de idade chocou a crítica e fez muitos a compararem aos grandes nomes da literatura mundial. Não tinha como. 17 anos. Clarice não deu escolhas. Com toda sua juventude, tinha a certeza de que só um livro como esse a deixaria livre pra colocar pra fora toda a gama de pensamentos que ela sabia serem nela ainda mais exclusivos e magníficos. O tema escolhido era simplesmente um funil em abertura que poderia deixar escapar através dele todo e qualquer pensamento que contivesse uma sinestesia, uma figura de linguagem amórfica, uma metáfora apavorante. Mas pena de quem pensa que é só isso. Clarice foi além do simples impulso. Ela trabalhou como gente grande por pouco mais de 200 páginas e canalizou seus desvarios juvenis para colocá-los em estrutura legível. Pensamentos raramente fazem sentido aos outros quando recém nascidos, e repensá-los para exprimi-los sem diminuí-los é trabalho penoso. Mas a menina conseguiu. Criou um personagem lindo, Joana, a dona imaginária do coração transplantado de Clarice. Joana é Clarice ao quadrado, ao cubo provavelmente já seria exagero, não por Joana ser pouco, mas por Clarice poder muito. Neste livro, mesmo os personagens menores ainda seriam muito mais intensos que muitos de nós. Joana gera medo. Joana é má. Clarice tinha medo de seu poder destrutivo. Joana gera coisas que Clarice provavelmente não efetivasse porque não poderia fazer em sua vida real. Por isso criou uma realidade, transplantou seu coração num outro ser que morava nela e viveu um tempo embebida daqueles acontecimentos profundamente humanos, porém não muito cristãos. Clarice não propõe diretamente uma revolução, mas a faz dentro de cada um que nós que a lê. Faz sentirmos uma empatia qualquer por uma mulher que se diz má. Intensa, talvez de escorpião. Testa as pessoas, sabe mais delas que elas mesmas. Escolhe o que dizer e sempre tem a possibilidade de lançar a pior frase que pode tocar o pior ponto onde a pessoa não quer chegar. Pode fazer chorar. Sente-se capaz de tudo e ainda sentimos gratos por podermos chegar um pouco mais perto que seja desse coração selvagem. Assim como Joana, Clarice certa vez disse que tinha todas as sensações e realidades dentro dela. Disse que seria capaz de criar tudo, e por incrível que pareça, é melhor não duvidar. Judia mulher! Viajou o mundo atrás de seu marido diplomata. Não sorria pras fotos. Escrevia em papéis velhos jogados pelos cantos da casa. Disse que escrever é duro como quebrar rochas, mas nesse trabalho “voam faíscas como aços espelhados”. Me alertaram sobre os perigos de entrar em contato com sua obra. Estava lendo esses dias que um cara leu tanto Clarice Lispector que não conseguia mais ler ninguém e que fizera teses de mestrado e doutorado sobre a autora tentando digeri-la e diminuí-la em sua vida, mas que infelizmente não estava conseguindo grandes êxitos além dos títulos de mestre e doutor. Ela sufoca, ela faz raiva dentro da gente. Fui devagar. Sabia dos perigos e passei quase ileso. Venci. Mas 17 anos meu deus, como pode uma coisa dessas? Como pode tamanho repertório de sensações? Sapiências do oculto. Como pode trabalhar palavras de uma maneira tão certeira? Experimentar jeitos novos de dizer coisas cotidianas e assim as revelar nuas. Descrever passagens que todos vivemos, mas que nunca sequer exprimimos a nós mesmos. Não fomos capazes de torná-los conscientes no campo dos entendimentos de mundo. E, de repente, num livro, exposto sem importância, está aquela lembrança de uma sensação perdida. E, de repente, numa linha simples, no meio de um aglomerado de iluminações literárias, está lá transcrito aquele detalhe de um ruído na noite, de uma chuva de infância, de criações faceiras e desprovidas de amarras. Clarice escreve sem aprisionar. Eterniza detalhes que já passaram percebidos por nós de outras épocas, mas que agora estão naquele campo das lembranças que só são lembradas se pescadas por outros elementos atuais. Talvez aquele era o momento de transcrever o coração selvagem. Um ponto eqüidistante entre o saber-se criança dos 10 e os arredores do planalto dos 24. Talvez os despertares do olhar menos infantil e da consciência da noção do que é puramente maldade coexistissem com a memória dos detalhes daquela manhã com trilha de panela de pressão e frio instantâneo do que não é coberta. Pensando bem, nas entrelinhas está impresso muito da menina Clarice. Mas nunca seria uma menina qualquer. Às vezes no fluxo achamos que estamos lidando com um enigma indecifrável por detrás das palavras e quando lembramos dos 17 anos as coisas pioram. Talvez também seja necessário a nós achar um ponto eqüidistante entre o envolvimento e a prontidão para poder seguir até o fim. É necessário o envolvimento para a vivência da obra e a prontidão para saber o ponto de saída desses arredores que circundam o tal do coração selvagem. O título talvez possa soar como um aviso: “Esteja apenas perto do coração selvagem, mas, por favor, não o toque”. Talvez ela diria isso. Ela Joana ou ela Clarice, tanto faz. O coração selvagem não pensa o mundo, mas o respira. Inspira, sente, entende e liberta-o. Não é necessário pensamento. Como disse a personagem, ela nunca sabe se sabe alguma coisa, até o momento em que ela sabe. O interior de Joana é uma máquina instantânea processadora de realidades e de pessoas. Uma percepção aguda do entorno que não passa pelo raciocínio, pois esse é lento em todos nós. A sensação do entendimento descarta a utilidade do próprio pensamento. Intuição eterna, clarividência. Uma clara evidência de tudo em tudo e por isso não é necessário à ela pensar as coisas. As coisas vêm prontas, abertas aos olhos que só necessitam saberem-se olhando e nada mais. Esse ponto é interessantíssimo. Mas mais intrigante ainda é pensar que, anterior à essa capacidade extraordinária da personagem, (que ela muito mais do que promete, demonstra) está a capacidade da autora em passar pro papel percepções e opiniões de um ser que não pensa nas coisas porque simplesmente as sente. Ou seja, a autora criou uma personagem que não entende a vida por pensamentos, mas ela Clarice, sim, precisava pensar para demonstrar ortograficamente como era a pessoa que apenas respirava os momentos e assim era-os. Não pensava o que a circulava, apenas sabia de si e de seu entorno. Pensar a fim de anular seus pensamentos para poder colocá-los nos olhos e olhares de uma personagem selvagem e extremamente perceptiva não é para qualquer um, e muito menos para qualquer menina de 17 anos de idade. Acho que no fundo é isso. Acho que a ação pessoal da autora contida neste livro e por isso a instância primeira dele, toscamente se resume em: anular-se para escancarar-se através da intensidade do detalhe que cabe, e só cabe, ao coração selvagem saber e dizer por ele apenas saber ser. Leiam Clarice, mas tenham cuidado. (Wagner Passos - CSOS-8C)

Um comentário:

Anônimo disse...

Um texto meio que um prefácio , cheio de contradiçoes, e ao mesmo tempo resenha de um livro tao significativo que me vejo em partes e te vejo também.
se eu fosse sua professora de literatura, daria nota 10.
bj,