I
Saiu de casa para ver a vida
E nunca mais voltou
Saiu de casa para desejar caminhos
E jamais ao fim findou
Saiu de casa para sentir perícias vitais
E da vida delas viveu
Saiu de casa para evitar fazer rascunhos
E do caos se escreveu
II
Tornou-se eterno de si
Num riso que rindo se ri
III
Um descaso do destino
Um inesperado instante
Uma incontida revolta
Uma palpitação irritante
Uma santidade às avessas
Um não calado expectorante
Uma debilidade sinérgica
Uma epilepsia itinerante
Um tanto feito criança
Outro mais feito mutante
Um desatino repensado
Um jorrar-se agonizante
Um berreiro descampado
Um profundo trago suspirante
Um acalmado de profundezas
Uma reciclagem sufocante
Sucedeu cardíaco caótico que:
IV
Desinquieto do que vinha
Instável de suas amarras familiares
De seus passatempos eternos
De seus respiros de velhos ares
Resolveu próprio desembainhar passos
Pelas trilhas da vida a fora
Nas correntes de se ver o amanhã
O tudo, o nada, e o oposto, agora
Foi vicejar a pulsação do ventre
Deixar vagar os olhos por onde se queria
Colher frutos da tempestade
Organizar a vida com suficiente revelia
Redistribuir seus amores pelos cantos
Cantar feito pássaro irredimível
Rebentar qualquer arco de razão
Que ameaçasse teu peito sensível
V
Desembestar arrastão
Sem nenhum plano
Sem nenhuma revolução
Sem nenhum traçado no rosto
Sem pensar maldição
Sem sentir-se oposto
Sem mínima repreensão
VI
Fluxos e latências
No corpo
Na face
No próprio peito
Na alma
No gesto
No justo jeito
Coro de impacto
Na pele
No pulso
No posto deposto
Nos olhos
Nos lábios
No rosto proposto
VII
Foi indo como água
Que aglomera correnteza
E baseia-se sua mais alta lei
Na gravidade e na leveza
Foi então desenhar sua caricatura
No cerne da realidade
Cultivar seus desvãos
Minimizar a sanidade
Ouvir seus estalos internos
Seus ruídos no envolvente futuro
Uma revelação coloquial qualquer
No meio do semblante escuro
A tentativa de ir ainda em frente
No submundo que pulsa vitalício
O enrodilhado dos lábios envolvente
Cercar teu reconhecido precipício
E assim quase nunca mais voltou
Para seus longínquos idos anteriores
Desfez absolutamente o ontem
Pulverizando recalcitrantes dores
Caminhou em chão de terra
Deitou nos quartos crescentes
Pisou os passos pessoais
Gosto gentil geral de gentes
Inverteu a lógica do mundo
Revelou o negativo desespero
Escalou a montanha do ontem
Ceifou qualquer casto cativeiro
Embainhou o vértice do momento
No horizonte reviveu os amanhãs
Acariciou da lua a soberania
Propôs tuas múltiplas penas pagãs
Nas paredes imprimiu intensos gestos
Da areia se fez vento de embalar
O invisível por seus pés soltaram vozes
E a tarde por sua mão dormiu no mar
VIII
Mas o tempo passou sem destino
E o instante iniciado ainda menino
Fez-se feito num volume gigante
Então o homem que andava de impulsos
Embebeu-se numa tarde em soluços
Balançou seu pensar de caminhante
Sentiu como tanto andou impensado
Figurou-se do olhar tão mau olhado
E os desejos de por nada impressionar
Coleção de longeva libertinagem
Estridentes arredores sem coragem
De permitir num carinho se assentar
Por que tanta reunião de tantos nadas?
Por que nunca pressentiu vozes abafadas?
Por que pouco deu valor ao seu vazio?
Por que as fugas para alhures do deserto?
Por qual motivo foi tão certo do incerto?
Por que sempre muito mais lançar-se ao frio?
IX
Ser tão vácuo
Ser tão inócuo
Ser tão desajustado
Ser vil conspícuo
Reles profícuo
Servente indesejado
Não querer ser pronto
Não querer ser muito
Não querer ser passado
Não querer ser tanto
Não querer ser outro
Só querer ladino lado
Não ouvir sermão
Não prestar perdão
Não sentir aconchego
Arrastar-se no desvão
Negativa obsessão
Apegar-se ao desapego
X
Veio a pausa ríspida do vago tempo que espanta
Na mão do destino o seu silencio se agiganta
A auto-piedade de um passado que se suplanta
Verte o eterno retorno do filho mais errado
A cabeça baixa por um peito mais calado
Ao entrar na casa do jardim mais renegado
E bater na porta pra pedir nova abertura
Querer abraço daqueles seres da infância pura
E enfim falar dos riscos novos de tua boa e velha armadura
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