quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Palavras para Benita Carneiro



Texto feito a pedido da Secretaria de Turismo de Itanhandu - MG


Benita Carneiro é uma figura única na cidade de Itanhandu. Ela retrata, em seu modo de ser, de se portar, e também de sonhar, uma época em que nosso município vivia uma efervescência cultural, que, a meu ver, era muito mais intensa do que a que presenciamos nos dias atuais. Benita é a memória viva de um tempo em que o Festival da Canção contava com a presença de todas as classes sociais; grandes bailes e encontros literários aconteciam no CRI, atraindo para a cidade artistas de vários ramos, como: poetas, atores, atrizes, músicos, além de políticos e empresários.

Esta poeta é o retrato vivo de uma nostalgia, de um Brasil onde as cabeças não se aglomeravam nos grandes centros e nem se perdiam da paz necessária para nascer a criação. Um passado onde os artistas não perseguiam o reconhecimento imediatista, não se colocavam a qualquer proposta que lhes aparecessem. Um Brasil de arte mais legítima, de poemas com mais poesia, de romances com menos pressa de acabar para serem lidos, de música com mais toque e encanto, de teatros com menos patrocínios tremendos que privilegiam os que não precisam mais serem privilegiados, de obras que visavam mais a expressão do artista e menos a reprodução de fórmulas de sucesso para que este mesmo e angustiante sucesso seja ansiosamente alimentado, já que, viver sem ele, parece insuportável.

Benita não traz isso. Benita é o oposto disso. Ela é de outro tempo. Benita se resguarda calmamente, ainda que de maneira sempre intensa, num passado recente, mas já tão distante de nossa realidade contemporânea.  

Foi, por muitos anos, professora de datilografia, ensinando gerações a, se não a arte do poema, pelos menos os meios para que estes possíveis poemas viessem ao mundo. Mora, e sempre morou, numa casa bastante humilde e aconchegante na periferia da cidade e traz poesias organizadas a décadas em livros imaginados por ela, vivos em seu dia-a-dia.

Num mundo em que personalidades têm suas biografias preparadas, por outros, pela simples iminência de sua morte, sonhar por anos e anos a fio com a realização de uma obra, e aguardá-la no aconchego do saber solitário de suas presenças, é ir na contramão de uma realidade volátil, pretensiosa e desumana. E é justamente neste resguardo sonhador que seu mundo se alimenta e se atualiza. Um mundo de um tempo próprio e intrigante que nos convida silenciosamente a se aproximar e tomar contato. E, por mais inusitado que pareça, esta senhora de mais de 80 anos mantém-se extremamente atualizada e jovial, pois seu espírito assim o é, e por isso vai adiante.

Benita, apesar de ter concluído seus estudos já com idade bastante avançada, nunca deixou de escrever seus poemas sonhados, construindo assim, ao longo dos anos, uma vasta obra, de linguagem simples e acessível, com mais de 20 livros de poemas adultos e infantis. No entanto, a despeito desta vasta produção, apenas dois de seus títulos foram publicados, sendo que seus exemplares se perderam com o passar dos anos.

Sua literatura é da simplicidade das raízes, dos sonhos nobres, de uma Itanhandu diferente, com menos loucura e mais liberdade. Uma Itanhandu que não se perdia, que ouvia mais e julgava menos. Uma Itanhandu menos careta. Palavras de um tempo em que as montanhas falavam coisas para aqueles que ainda paravam para ouvir. Palavras metrificadas e rimadas, por seu coração, e de forma natural. E é assim que acontece com a Benita, pois, como ela mesma diz: “Eu já nasci com a métrica e a rima dentro de mim. Quando penso num verso, ele já vem metrificado”.

Além disso, acredito piamente que sua maneira de escrever, por estar em contraste com a produção poética atual, mantendo um caráter simples, interiorano e tendo, em diversos pontos, referências primordiais, bem como por trazer de volta uma tradição de oralidade já perdida na poesia contemporânea, forma um material extremamente rico e interessante que, juntamente com a figura da autora, se fazem num todo tocante e de vasta sensibilização.

Se nós, seus conterrâneos, não soubermos valorizar o que no solo de nossa terra brotou, que valor podemos pedir que os outros nos deem. E é sempre muito bom que este valor seja dado em vida! Que este valor seja falado, conversado, discutido, valorizado, pois esta artista merece este espaço. Além disso, conhecer Benita Carneiro e outros que viveram e fizeram a história de nossa pequena cidade, pode servir de referência para que novas gerações se espelhem e inspirem em exemplos vívidos de nosso lugar!


Wagner Passos – 17/10/2013

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