Texto feito a pedido da Secretaria de Turismo de Itanhandu - MG
Benita
Carneiro é uma figura única na cidade de Itanhandu. Ela retrata, em seu modo de
ser, de se portar, e também de sonhar, uma época em que nosso município vivia
uma efervescência cultural, que, a meu ver, era muito mais intensa do que a que
presenciamos nos dias atuais. Benita é a memória viva de um tempo em que o
Festival da Canção contava com a presença de todas as classes sociais; grandes
bailes e encontros literários aconteciam no CRI, atraindo para a cidade artistas
de vários ramos, como: poetas, atores, atrizes, músicos, além de políticos e
empresários.
Esta
poeta é o retrato vivo de uma nostalgia, de um Brasil onde as cabeças não se
aglomeravam nos grandes centros e nem se perdiam da paz necessária para nascer
a criação. Um passado onde os artistas não perseguiam o reconhecimento
imediatista, não se colocavam a qualquer proposta que lhes aparecessem. Um
Brasil de arte mais legítima, de poemas com mais poesia, de romances com menos
pressa de acabar para serem lidos, de música com mais toque e encanto, de
teatros com menos patrocínios tremendos que privilegiam os que não precisam
mais serem privilegiados, de obras que visavam mais a expressão do artista e
menos a reprodução de fórmulas de sucesso para que este mesmo e angustiante
sucesso seja ansiosamente alimentado, já que, viver sem ele, parece
insuportável.
Benita
não traz isso. Benita é o oposto disso. Ela é de outro tempo. Benita se
resguarda calmamente, ainda que de maneira sempre intensa, num passado recente,
mas já tão distante de nossa realidade contemporânea.
Foi,
por muitos anos, professora de datilografia, ensinando gerações a, se não a
arte do poema, pelos menos os meios para que estes possíveis poemas viessem ao
mundo. Mora, e sempre morou, numa casa bastante humilde e aconchegante na
periferia da cidade e traz poesias organizadas a décadas em livros imaginados
por ela, vivos em seu dia-a-dia.
Num
mundo em que personalidades têm suas biografias preparadas, por outros, pela
simples iminência de sua morte, sonhar por anos e anos a fio com a realização
de uma obra, e aguardá-la no aconchego do saber solitário de suas presenças, é
ir na contramão de uma realidade volátil, pretensiosa e desumana. E é justamente
neste resguardo sonhador que seu mundo se alimenta e se atualiza. Um mundo de
um tempo próprio e intrigante que nos convida silenciosamente a se aproximar e
tomar contato. E, por mais inusitado que pareça, esta senhora de mais de 80
anos mantém-se extremamente atualizada e jovial, pois seu espírito assim o é, e
por isso vai adiante.
Benita,
apesar de ter concluído seus estudos já com idade bastante avançada, nunca
deixou de escrever seus poemas sonhados, construindo assim, ao longo dos anos,
uma vasta obra, de linguagem simples e acessível, com mais de 20 livros de
poemas adultos e infantis. No entanto, a despeito desta vasta produção, apenas
dois de seus títulos foram publicados, sendo que seus exemplares se perderam
com o passar dos anos.
Sua
literatura é da simplicidade das raízes, dos sonhos nobres, de uma Itanhandu
diferente, com menos loucura e mais liberdade. Uma Itanhandu que não se perdia,
que ouvia mais e julgava menos. Uma Itanhandu menos careta. Palavras de um
tempo em que as montanhas falavam coisas para aqueles que ainda paravam para
ouvir. Palavras metrificadas e rimadas, por seu coração, e de forma natural. E
é assim que acontece com a Benita, pois, como ela mesma diz: “Eu já nasci com a
métrica e a rima dentro de mim. Quando penso num verso, ele já vem metrificado”.
Além
disso, acredito piamente que sua maneira de escrever, por estar em contraste
com a produção poética atual, mantendo um caráter simples, interiorano e tendo,
em diversos pontos, referências primordiais, bem como por trazer de volta uma
tradição de oralidade já perdida na poesia contemporânea, forma um material
extremamente rico e interessante que, juntamente com a figura da autora, se
fazem num todo tocante e de vasta sensibilização.
Se
nós, seus conterrâneos, não soubermos valorizar o que no solo de nossa terra
brotou, que valor podemos pedir que os outros nos deem. E é sempre muito bom
que este valor seja dado em vida! Que este valor seja falado, conversado,
discutido, valorizado, pois esta artista merece este espaço. Além disso,
conhecer Benita Carneiro e outros que viveram e fizeram a história de nossa
pequena cidade, pode servir de referência para que novas gerações se espelhem e
inspirem em exemplos vívidos de nosso lugar!
Wagner
Passos – 17/10/2013
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