sexta-feira, 18 de julho de 2014

74) Saio a caminhar


Saio a caminhar
Por essa estrada
De luminosas estrelas enlamaçadas
E grandes heróis derrotados
Arregaçados, triturados
Que quando éramos pequenos
Eram heróis, sim!
Seres da mais pura perfeição
Mas, o discernimento,
Companheiro da vivência
Fez-nos ver que, de heróis,
Não tinham nada
Não eram coisa alguma
E que heróis mesmo
Éramos e somos nós
Que estamos a caminhar
A lutar e persistir
Nessa lida diária.

Saio a caminhar
Por essa estrada
De cabeça baixa,
Não por vergonha,
Mas pra ver onde piso!
Carros estacionados nos cantos
Barracas, fumaças
Pessoas cumprimentam-se:
 - Oi, como vai?
 - Bem, anda, anda e nunca vai.
 - Como vai?
 - Vou andando.

Luzes de postes
Neblina a baixar
Encobre e estrada
O caminho a se ir.
Pensamentos perambulam
Fazem a cabeça dos pensamentos.
Some o caminho
Mas caminho!

Anda estrada infinitezimal
De numerais romanocardinais
Numera e conta a tudo
Espalha e toma conta de tudo.
És infinito como
As estrelas enlamaçadas.
Cadê meu fim, oh infinito?
Alguém já chegou aí?
E continuo a caminhar
E pensar!...

Oh humanidade
Seja a humanidade
Humano sem idade.
Flutuante massa de multidões
De poderes inumerais.
Grande fraternidade
Aglomeração de aglomerados
Homens soldados
Manipulados do sistema
Exclusão dos que não se encaixam
Não maleabilidade de compartimentos.

Ofuscação da visão ao fosco noturno
Queima de olhar
Réplica da luz, não iluminável
Luz misteriosa, luz negra.
 - Vai anoitecer?!
 - Precisamos passar nossos protetores noturnos!
Luzes artificiais
Sóis a 5 metros de altura
A iluminar o caminho.
Cadê o caminho por aonde vim?!

Já estou nesta estrada
A caminhar: sempre ou quase
A sorrir: quase ou nunca
A lutar: sempre, só sempre
Nunca quase; ou nunca nunca!

Terminaram as capacidades sólidas
De áreas onde se pisa com firmeza
A areia e lama já afogam os dedos
Mais inferiores que o inferno.
Já nos é afundado até o fim das pernas
E a descida gradativa da esperança
Desespera os olhos que se debulham
E aumentam a solução de águas e terras.
A descida continua
Até quando não tenho certeza.
Qual será a exata hora do afogamento?
A ladeira que vai dar em coisa alguma
Submersa em coisa que é nada.

Estrada de horizontes horizontais
Perpendicular ao beijo do céu e mar
Infinitos quilômetros de um caminho sem fim
Que vai em direção de não sei onde.
Mas vai, sempre em um fluxo eterno
De cabeça em direção do Próprio.
Seres completamente acabados
Tirando forças de não sei onde
Pra não sei o que.
Por quê?!

Olhos sem brilho algum
Carne sem sangue veloz
Pois o propulsor coração já não existe.
Um caminho que se estreita
Um monte que se amontoa
Tentando entrar, no final da existência,
Na bola de fogos, incan-decentes, ascendentes.
Em sua proximidade os olhos se queimam
E no aperto final já somos apenas levados
Pela gravidade da massa tão volumétrica
Que nos engolem, e todos somem.

Etapas do caminho que começou por começar
Passos temerosos que passaram sem passar
Estrelas enlamaçadas que se mudam sem cessar
Sóis a 5 metros que iluminam sem iluminar
Fazes da viagem da existência unicelular
Dores mentalizadas pela falta do raciocinar
Humanidade sem humildade pela carência do amar
Complexidade de conhecimentos, só porque “Saio a caminhar”.


25/09/2000 – (Voltando da exposição de madrugada)

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