.
.
I
.
.
Às vezes queria sentir menos
Sentir mais leve
Sentir mais preciso
Sentir mais constante
Sentir mais correto
.
Em momentos atuais
Extremos tão radicais
Se digladiam em meus pensamentos
Elevam-me às alturas
Ou me jogam ao fundo
Com a força que não detenho
.
Sinto agora a melancolia
Da casca do tédio
De um poeta cansado
Na tristeza de uma alma sem cor
.
Deixei minha escrita de lado
Minha música sem dono
Meus dias esvaindo-se
.
Deixei minhas criaturas caladas
Meu destino quebrado
Minhas horas mais medíocres
.
Deixei minha voz secar
Minha mão enrijecer
Meus olhos obscurecerem
.
Deixei meu entusiasmo de criação
Ir sendo esquecido
Esmorecendo a cada preguiça
Minguando a cada noite
Em cada momento que desisti de fazer
.
Mas fiz isso
Pois precisei arranjar sustento
Precisei de descanso
Um término exaurido de tentativas
.
E assim foi feito
Pois o tempo infindo
Demais me angustiava
Para que pudesse sempre
Encará-lo de frente
.
Fixado contrário virei as costas
Aos mistérios que me intrigavam
Já que não havia mais forças
Para continuar prosseguindo
.
.
II
.
.
No entanto
Percebi lenta e dolorosamente
Que minhas instâncias mais profundas
Tornaram-se carentes de arte
Tornaram-se resquícios
Daquilo que mais me pertence
.
Se algumas se alimentaram
Outras ainda melhores
Foram ficando tristes dentro de mim
.
Meu lado pulsante mais pessoal
Se acovardou pela falta do hábito
Pelo descaso do dono
Pela valorização do ócio
.
Nunca tive medo de escrever
Nunca tive preguiça de tecer palavras
Nunca neguei uma inspiração
Nunca deixei de lado uma boa frase
.
Escrevia em qualquer canto
Em qualquer hora
Levantava de noite para registrar coisas
Andava pelas ruas rimando
Rascunhava sempre alguma bela inspiração
Que me convencesse a persegui-la
.
Volumes e mais volumes de frases
Textos iniciados a qualquer hora
Ideias de canções
Poemas e versos picados
Esperavam o momento de terminá-los
E assim fiz por tantos e tantos anos
.
.
III
.
.
Mas isso me foi sucumbindo
E acabei soterrando-me de ideias
Entupindo-me de criações
Pois não sabia o que fazer com elas
Não sabia onde mais colocá-las
Como terminá-las
Como dar a elas uma finalidade
.
Por isso parei
Cansado
Perdido
Condenado
Vencido
.
Fechei meus olhos
Desfiz meu corpo
Guardei rabiscos
Limpei arquivos
Joguei cadernos
.
Lancei no fundo das gavetas
No fundo das pastas virtuais
Diversos pedaços de mim
Que o tempo se encarregou de esquecer
.
E foram ficando distantes
Foram sendo tragados ao esquecimento
Foram tornando-se menos presente
Foram fechando minhas veias
.
Menos pensamentos me ocorreram
Menos frases me seguiram
Menos músicas me ecoaram
Menos vozes eu cantei
Menos notas fiz tocar
Menos gente eu fui
.
.
IV
.
.
Mas hoje vejo que
O que se faz de mais glorioso
Na criação
É o próprio ato de criar
.
O próprio ato de criar
Ainda que poucas pessoas dele se toquem
É o momento mais válido
Do fazer artístico
.
O mais lindo dos dias
É exatamente o se perpetuar
Lançar ideias por onde for
Registrar a instância
Colocar-se dentro do caminho
.
O mais lindo dos dias
É realizar o movimento redentor
Desaguar a nascente
Receber os fluxos
Transpirar as volúpias
.
O mais lindo dos dias
É concretizar o inesperado
Vociferar o verbo
Vingar a vida
Vencer a morte
.
.
V
.
.
Eis um poema de pouca poesia
Mas dotado de interioridades
Que me solaparam o rosto
Com necessárias verdades
.
Sei que o presente texto
Não pretende ser conclusivo
Trata-se apenas de um desabafo sincero
Deste tempo que agora vivo
.
Reles poema do criador perdido
Soterrado finado desabado estado: Eu
Minha própria criatura sem sentido
.
.
I
.
.
Às vezes queria sentir menos
Sentir mais leve
Sentir mais preciso
Sentir mais constante
Sentir mais correto
.
Em momentos atuais
Extremos tão radicais
Se digladiam em meus pensamentos
Elevam-me às alturas
Ou me jogam ao fundo
Com a força que não detenho
.
Sinto agora a melancolia
Da casca do tédio
De um poeta cansado
Na tristeza de uma alma sem cor
.
Deixei minha escrita de lado
Minha música sem dono
Meus dias esvaindo-se
.
Deixei minhas criaturas caladas
Meu destino quebrado
Minhas horas mais medíocres
.
Deixei minha voz secar
Minha mão enrijecer
Meus olhos obscurecerem
.
Deixei meu entusiasmo de criação
Ir sendo esquecido
Esmorecendo a cada preguiça
Minguando a cada noite
Em cada momento que desisti de fazer
.
Mas fiz isso
Pois precisei arranjar sustento
Precisei de descanso
Um término exaurido de tentativas
.
E assim foi feito
Pois o tempo infindo
Demais me angustiava
Para que pudesse sempre
Encará-lo de frente
.
Fixado contrário virei as costas
Aos mistérios que me intrigavam
Já que não havia mais forças
Para continuar prosseguindo
.
.
II
.
.
No entanto
Percebi lenta e dolorosamente
Que minhas instâncias mais profundas
Tornaram-se carentes de arte
Tornaram-se resquícios
Daquilo que mais me pertence
.
Se algumas se alimentaram
Outras ainda melhores
Foram ficando tristes dentro de mim
.
Meu lado pulsante mais pessoal
Se acovardou pela falta do hábito
Pelo descaso do dono
Pela valorização do ócio
.
Nunca tive medo de escrever
Nunca tive preguiça de tecer palavras
Nunca neguei uma inspiração
Nunca deixei de lado uma boa frase
.
Escrevia em qualquer canto
Em qualquer hora
Levantava de noite para registrar coisas
Andava pelas ruas rimando
Rascunhava sempre alguma bela inspiração
Que me convencesse a persegui-la
.
Volumes e mais volumes de frases
Textos iniciados a qualquer hora
Ideias de canções
Poemas e versos picados
Esperavam o momento de terminá-los
E assim fiz por tantos e tantos anos
.
.
III
.
.
Mas isso me foi sucumbindo
E acabei soterrando-me de ideias
Entupindo-me de criações
Pois não sabia o que fazer com elas
Não sabia onde mais colocá-las
Como terminá-las
Como dar a elas uma finalidade
.
Por isso parei
Cansado
Perdido
Condenado
Vencido
.
Fechei meus olhos
Desfiz meu corpo
Guardei rabiscos
Limpei arquivos
Joguei cadernos
.
Lancei no fundo das gavetas
No fundo das pastas virtuais
Diversos pedaços de mim
Que o tempo se encarregou de esquecer
.
E foram ficando distantes
Foram sendo tragados ao esquecimento
Foram tornando-se menos presente
Foram fechando minhas veias
.
Menos pensamentos me ocorreram
Menos frases me seguiram
Menos músicas me ecoaram
Menos vozes eu cantei
Menos notas fiz tocar
Menos gente eu fui
.
.
IV
.
.
Mas hoje vejo que
O que se faz de mais glorioso
Na criação
É o próprio ato de criar
.
O próprio ato de criar
Ainda que poucas pessoas dele se toquem
É o momento mais válido
Do fazer artístico
.
O mais lindo dos dias
É exatamente o se perpetuar
Lançar ideias por onde for
Registrar a instância
Colocar-se dentro do caminho
.
O mais lindo dos dias
É realizar o movimento redentor
Desaguar a nascente
Receber os fluxos
Transpirar as volúpias
.
O mais lindo dos dias
É concretizar o inesperado
Vociferar o verbo
Vingar a vida
Vencer a morte
.
.
V
.
.
Eis um poema de pouca poesia
Mas dotado de interioridades
Que me solaparam o rosto
Com necessárias verdades
.
Sei que o presente texto
Não pretende ser conclusivo
Trata-se apenas de um desabafo sincero
Deste tempo que agora vivo
.
Reles poema do criador perdido
Soterrado finado desabado estado: Eu
Minha própria criatura sem sentido
.
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