sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Homo Erráticus

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I (3 x 5)
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Do tanto que a vida nos oferta
Tão pouco é a parte que sorvemos
Mui parca é a inspiração que registramos
Os amores que sentimos 
A imensidão que vislumbramos
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Do tanto que a vida nos oferta
Mínimo é o sentido que entendemos
Restritos são os caminhos desbravados
Tantos gostos se deixam esquecidos
Pelas estradas, inconclusos e agoniados 
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Do tanto que a vida nos oferta
É ralo o traçado que deixamos
São tolas as histórias que vivemos
Opaco é o intelecto que moldamos
Na ilusão do ego que crescemos
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II (3 x 13)
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Sinto a vida
Como uma imensidão catastrófica
Uma explosão de ruídos intocáveis
Cavernas extensas 
Com demasiadas galerias
Nascentes de significados 
Que brotam em distintas direções
Sem
No entanto
Podermos realmente sorver 
Sua pureza inicial 
Sua luminescência divina
Suas exponenciais catarses 
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Sinto a vida
Como um planisfério 
Infinito e agoniante
Catastrófico e divino
Reles e magistral
Que se nos é entregue
Esgarçadamente 
Sem margens 
Sem meios
Sem rótulos
Sem compreensões fixas
Sem propósitos concretos
Nem diretrizes inquestionáveis
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Sinto a vida
Como uma esfera infinita
Uma lua de tamanho universal 
E indo ainda além
Talvez um globo açambarcante 
Onde se caminha por onde se quiser
Nunca chegando a beirada nenhuma
Sementes de significados
Esperando para serem plantadas
Num canteiro imaterial
Que homem nenhum será capaz
Em tempo algum disponível
De colher todos os frutos
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III (3 x 6)
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Pois é extremamente pequena
E cerzida no tempo
A nossa capacidade 
De converter 
A bela selvageria divina
Em medida vitruviana
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Pois é insolentemente amena
A dimensão corpórea
Do bicho-homem
Frente a vastidão do tempo
Frente as explosões dos raios
A energia que do cosmos emana
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Pois é tristemente terrena
A minimalidade 
Do Homo Sapiens
Imerso aos cúmulos
Em sua cegueira diurna
De sua mente bichana
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IV (3 x 13)
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Todo o plano da fisicalidade
São energias disponíveis 
Massas vis esperando
Pacientemente
O toque do raciocínio
O abraço da sensação
O experimento do desejo
A conversão do gozo
A transmutação de sua disponibilidade
Em algo mais ordenado
Algo menos vão
Algo que seja mais humano
E menos naturalesco
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Todo o plano da fisicalidade
Tenta se justificar em seu propósito divino
Por meio de nossas micro-vivências
Eternos tateantes de possibilidades
Cavaleiros de erráticos descampados 
Incapazes de abraçarmos nossa plenitude
Seres medíocres
Destituídos da liberdade máxima
Destruídos constantemente pelo cotidiano
Surrados pela rotina inutilizável  
Condenados por um pecado ulterior
Absolvidos por um passado romanesco
De Avatáres que não conhecemos
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Todo o plano da fisicalidade
É um profundo caos inominável 
A agonia expansionista de Deus
A tentativa auto-significativa do Criador
O excesso que enfeita o mistério
A fim de parecer-nos mais interessante
A eternidade em suas partículas
Cortar o infinito em fatias
Numa busca por torná-lo tolerável 
O exagero divino em sua forma primeira
O primordial berro da pseudo-onipotência 
Que se nos condenou a consciência 
Sem tocar diretamente nossas mãos 
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