quinta-feira, 11 de março de 2021

Poema para Vozes Femininas (Ode a Shakespeare)


DESCORTINAR
 
PRIMEIRA MULHER:
Prostramo-nos agora com entusiasmo
Diante do futuro que neste instante geramos 
Diante da celebração que neste momento nos abduz 
Ao abrirmos os volumes destes livros ancestrais
Ao adentrarmos os sutis pórticos da dramaturgia

SEGUNDA MULHER:
E, enfim, desenclausurarmos, pois, as palavras
De um conto tão pouco por outrem contado
Tão pouco por outrem encenado
Um solo de espaços movediços 
E que, por isso, desvirginamos com necessária cautela

TERCEIRA MULHER:
Pendemos nossos olhos para outra realidade
E vos convidamos a acompanhar 
Este despretensioso e efêmero encontro
Que em instantes, neste local, irá se iniciar
Para tão logo, novamente, se esvair

QUARTA MULHER:
Oh língua morta, linha vida
Mas não poderíamos dar vazão a tal acontecimento
Sem antes saldar sua fonte preambular  
O homem de inúmeras quimeras atemporais
Nosso mais doce Bardo

PRIMEIRA MULHER:
Tu cravaste em definitivo 
No sublime panteão dos Deuses da Arte
A dramaturgia dos tempos e dos temperamentos

SEGUNDA MULHER:
Sublimando para além das eras e dos homens
O TEATRO:
Templo da realização humana que mais vivifica 
A amplitude do exercício de nossa temporária condição

TERCEIRA MULHER:
Tu foste a pedra angular 
Daquilo que viríamos a ser
Daquilo que iríamos nos transformar

QUARTA MULHER:
Somos forças motrizes 
Da energia SAPIENS exercida sob vontade 
O ser palpável em seu esgarçar constante 
De nascimento, de morte e de seus gerúndios intermediários

PRIMEIRA MULHER:
Cunhaste a base para a imitação da nossa própria condição
Moldando-a, eternizando-a pela palavra escrita 
E que, talvez, somente por isto
Ela nos permita brincar de Deuses

SEGUNDA MULHER:
Brincar de controlar nossas interioridades 
Jogar com o fluxo vivo das claritudes e escuridões 
Intrínsecas a todos nós
Pulsantes em cada um de nós 

TERCEIRA MULHER:
Acredito naquilo que faço
E faço porque quero, porque gosto
Gosto do gosto do risco de me jogar
Risco o rosto com o traço 

QUARTA MULHER:
No intuito de me transformar
Me transmutar naquelas tantas possibilidades 
Que minha alma resguarda e revive
A meu bel prazer 

UMA MULHER EM CADA FRASE:
1) Oh língua morta, linha vida, 
TODAS - Nosso mais doce Bardo
2) Peço permissão para adentrarmos teu caudaloso universo
3) De heróis, vilões ou simplesmente humanos
4) E que possamos, 
TODAS - Ainda mais uma vez
1) Transfigurar nossa insistente realidade 
2) Numa luminosidade outra 
3) Fugaz, pequena, incompleta, quase irrisória
TODAS - Mas única e nossa
4) Única, nossa e sincera
1) E que ela seja capaz de fazer 
2) Aqueles que aqui se encontram
3) Guardarem o que desejarem 
4) Se as vossas almas ensejarem
TODAS - Um bocado de amor


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