Desço as escadas
Passo pelos andares
Fluo por entre o movimento dos seres
Seus compromissos corriqueiros
E suas formas próprias
De ocupar o intervalo entre o nascimento
E o momento de se esvair
Adentro o subterrâneo desta construção
Abro a porta de seu recanto musical
E lá dentro
Estou eu mesmo
Quieto menino
Me esperando solitário
Vou então em minha direção!
Chego calmo
Me olho vasto
Sento-me mínimo defronte ao instrumento
Amigo sonoro
E espelho deste instante tão único
Neste local de luzes esparsas
Que clareiam meu ser profundo
E delimitam minha pequena consciência de mundo
A dimensão dos ruídos ressoa ao longe
Meus iguais prosseguem remexendo seus cotidianos
Meus divergentes pouco me importam
E a velocidade da infinita realidade torna-se fútil
Pois agora quero estar somente aqui
Quero somente estar defronte a mim
Desligo-me do universo externo
Do turbilhão desconexo
Rebaixo minha fronte em direção a fonte dos sons
Estou recôncavo em minha ânima
O canto de minha interioridade
Ressoa nas galerias de meu inconsciente
Ecos longínquos de tantas coisas
E neste interim próprio
Me embalo de todas elas
Para me encontrar naquilo
Que em mim quero conhecer
Minhas mãos procuram uma melodia familiar
Uma intuição pueril
Que me assalta de recônditos passados
Feito uma base vivida e vívida
Que se me leva adiante
Tateio velhos caminhos pitorescos
Onde uma doce canção infantil
Serviu de álibi para cantar
E pelejo com meus erros e acertos
Até conseguir completá-la
- Não é assim também com a vida?! – Pergunto-me
Sem que eu tenha consciência
Neste momento tão nuclear
Eu sou a metáfora de todo meu ser
Eu sou a metáfora de minha existência em expansão
Neste momento tão nuclear
Sem que eu realmente saiba
Tudo o que agora estou
É a representação física
De um menino defronte à vida
De um homem defronte à Deus!
Agora eu sou
A tentativa íntima
A labuta própria
O momento da sutil interioridade
Agora eu sou
A realidade e seus ruídos
A busca pela cadência interna
A procura por afinar a vital melodia
Agora eu sou
A minha biografia em construção
Os sons que devo emitir ou calar
O início, o fim e o meio
Agora eu sou inteiro naquilo que estou
AGORA EU SOU UM ESPÍRITO
DENTRO DA MACROESTRUTURA DE TUDO
Encosto minha face no punho cerrado
Dando apoio a mim mesmo
E por sobre meus ombros
Possibilidades transversais de um futuro
Perpassam rápidas
Neste momento
Mil realidades se me delimitam
Num horizonte que sempre virá
Mas elas nem chegam ao meu campo do verbal
Não consigo detê-las em vocábulos
Não consigo apanhá-las pelos ares
Mas pressinto inconscientemente
Estar senhor de uma outra pulsação
Mexendo minhas mãos sobre teclas de metal
Jogo os búzios de uma outra dimensão
E prevejo
Sem tomar plena conhecimento
Que existe um lugar mais amplo
Dentro deste meu ser de tão pouca idade
Por que o poeta não me revela o que agora vê?
Por que ninguém agora vem ao meu encontro
Trazendo em suas mãos
As chaves da interpretação deste isto que não sei?
Estou sozinho
Sou menino tão só
Sinto frio e quietude
Me sinto vasto
Porém indefinível nesta amplidão
O que me espera no futuro?
Serei feliz ou somente humano?
Viajarei por inúmeros lugares
Ou a vida não me será tão ampla?
Terei amores
Ou minguarei na solidão
De mundo pós-moderno em desconstrução?
Caminharei com meus iguais
Ou dormirei estanque
Numa clausura silenciosa e imutável?
Eu não sei!
Eu não sei!
Eu não sei!
- Oh poeta, por que me abandonaste?