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Páscoa 2006 (só pra recordar)
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3 dias, 300 anos ou mais, horas muito longas de sonhos acordados, esperanças confusas, pensamentos que variavam em segundos, sensações desconhecidas, colinas e mais colinas de tropeços e mato abaixo pedra acima, e eu fui fondo naqueles turbilhos de mantras inventados no improviso da certeza absoluta, ladainhas orações enladeiradas que rolavam muito e eu n`eu. Havia abraços de morça – forca muita força, choros como sempre presentes, falações e “devaneios tolos a me torturar”. Eu continuava fundo fondo indo desbravando alguns caminhos e atropelando tantas coisas que nem sei mais. Muitos dos atropelamentos germinavam atalhos e mais labirintos a serem mapeados, muitos dos rodamoinhos continham o diabo no meio dele como disse tantas vezes João (Guimarães Rosa) no meio das veredas. Acho que veredas existiam dentro e fora de todos os lugares que passei. O grande sertão é interno como o mestre também já disse. O grande sertão é quase onipresente, mas sempre existente, no fundo do mais fundo que ninguém chega existe toda a raiz do mal e do bem ou do bem o do mal e o medo beira o pânico. Rança toco pra ver mais fundo, cavulca cavalgadura em montes aos montes pra ver se estabelece toda e qualquer forma de moradia sadia dentro da escravidão da ferramenta de outrem. Sensibilize-se rapaz, mas não muito porque sensibilidade em demasia gera pinel, painel de exorbidades noite afora, rio abaixo, morro acima, gruta a dentro, poço ao fundo, céu ao léu. (Eu me forço a escrever porque se eu for esperar a hora que eu concorde com tudo que estou pensado e escrevendo pra poder escrever acho que eu não vou fazer nada por algum período de tempo). Também não queria ser medíocre e ficar no meio – termo – mau – gosto aguado esperando brotar água de pedra que secou propositalmente pra poder ir além almejando sonhos de seriedade.
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Eu conheço as pessoas da sala de jantar, algumas mais e outras vezes tantas elas sempre voltam pra me fazer sentar a mesa e encarar olhares escuros, mas um deles não tem rosto. Um deles apenas tem uma mancha de sombra na face e ele fica no lado oposto da mesa da Távola - tábua redonda dos banquetes de porcos pros porcos. Mas as pessoas da sala de jantar ainda estão senzala de sonhar, elas aparecem meio que em tentativas de comunicação de pânico, aos poucos eu sempre lembro delas, alguns velhos outros menos, mas todos e cada são muitos. Parece que a vida habita os corpos na forma mais limiar que existe. Uma forma muito mais limiar que essa que existe em nós, nas entrelinhas das palpitações do coração. Essas pessoas são ocupadas em nascer e nunca mais morrer. De pão e circo e arte elas vivem, mas por enquanto sobrevivem. E discussões absurdas fazem parte do corpo calado calejado e latejante dessas. Mas aquele sem rosto e oposto continua mudo na imensidão das palavras em cadeia. A sala de jantar fica no fim do corredor sem fim depois que todas as possibilidades de escuridão se apagaram no breu sem referências.
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300 anos. Cada cantoria dizia tanto que não seria possível lembrar nem se a memória ainda existisse. 300 anos e muito mais ainda. Mas só 3 dias, quem diria que tão pouco que pouco foi, poderia gerar tanto mesmo que esse tanto não seja quase nada.
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Não consigo mais escrever.
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Então:
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Louva – a – Deus O Cavaleiro
Em Guardanapos de Papel
Banhados dO Rouxinol
Que canta pela Janela para o Mundo,
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Mas
E Agora, Rapaz?
Todos nós ainda estamos recém Levantados do Chão
E Os Tambores de Minas já estão a soar.
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Páscoa 2007
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Enfim a nova!!!
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Um lindo sol surgindo por entre as chuvas, ilumina de renovação o meu fim de páscoa boa. Depois de 40 dias de muitas provações, um sacrifício triplo de não fumar, não beber e não cortar a barba, um pós-carnaval infernal de insônia pela falta da nicotina, umas semanas de perna quebrada que exigiam de mim boas forças de vontade pra todas as tarefas mais banais, depois de tantas coisas que nem sei mais, vejo me banhado do sol amarelo que reflete educadamente pelo meu quarto, de paredes limpas de alegria de por do sol de sacrifício bom de música animada de coisas todas de mais em mais. Um ritmado de batidas que me embalam e rebatem contra os cantos desse quarto lavrado no branco esculpido retirado do fundo de tudo que estabelecia-se como maduro por entre as gretas porcas, mas que agora cantam o amarelo do sol, o perfume das boas coisas, a leveza do renascer, a majestade de coisas tão imperceptíveis para o mim de hoje que nunca, ainda que por pena, não será mais o passado, não há mais condições, nem o que fora há um ano, nem o que era a mais tempos de outrem, sei lá. Não me importa, que me importa, quem se importa, agora digo que não, talvez daqui há minutos sim, mas agora não. Achou que homem pode ser tudo, menos simples, simples é meio difícil. É meio simples demais. Simplicidade é achável, mas nunca condição intrínseca a nós. Hoje quando tirei quase 50 dias de barba não me reconheci, juro por Deus. Parecia que ia tirando um pedaço do meu rosto conforme ia fazendo a barba. Desfazendo da face pra fazer outra por detrás, esculpindo como esculpi meu quarto num processo de calefação. As paredes escorrendo e caindo por água abaixo, meus pedaços se desfazendo restando um olhar obscuro encantado, indagativo, inquieto que me olhava por destras do espelho embaçado. O quarto se desfez em muito mais, espaços, caveiras filtros dos sonhos indo embora enquanto soava “Manuel, o audaz” na minha cachola, alma livre, corpo livre e tudo ia escorrendo pelo carpete com gritando o sangue de quem é arrancado na hora necessária. Como não haveria de ser assim. Foram alguns dias de lapidação química pra chegar até essa hora. Músicas presentes que agraciam o espaço, que soam em milhões de freqüências, dizendo-me coisas ocultas que ainda devem dormir, mas um dia serão bradadas bravas por serem óbvias, mas que se resignam muito bem no aconchego dos glóbulos e das pituitárias. Bradando os bárbaros, eles se rebelam contra si mesmos, calando os sábios eles geram a incongruência do interior em chamas, carente, que sai pra comer terra e barro na caminhada do caminho que se faz em presença do caminhante. Alguns me disseram coisas lindas, é lindo ouvir coisas de outros melhores que nós, nós faz tão pouco e é muito bom ser pouco, mas ser inteiro, magnificamente grande naquele vão livre reservado pra nós. Minhas instâncias se desmoronam num misto de música e cara estranha do espelho. Desligo a tela do computador só pra ver se me reconheço, mas ainda não me vi em mim. Estranho, algumas horas sem barba e nem por isso estou comigo, face a face. Estou com uma cara de muito novo. É impressionante como sou outro. Não por dentro, por dentro menos. Mas por fora, meus olhos não acreditam no que vêem. Quantas instâncias fariam um instante? Há coisas que unitárias ou infinitas fazem algumas outras únicas que se passam por vez, esse é a vida. Escrever por imprecisão é como gritar até ficar rouco e ainda sim prosseguir adiante sem dó, mas a voz se refaz quantas vezes forem necessárias até o impulso dormir aconchegante no fundo do que não é facilmente tocável. Multiplicidades, palavras com sonoridades e outras tantas conjunções que se entrelaçam nessa Páscoa. Eu sabia que não haveria de falhar, não haveria de ser diferente. O mundo desabrocharia, pelo menos o meu mundo desabrocharia mais um pouquinho. Não me engano por pouco, é xik ser assim hoje em dia, lúcido e tenaz. Mas não é por isso que digo isso, digo porque realmente é fortalescente e neologístico o que digo agora. A páscoa condizente com tudo está aí, soando nos grotões das entranhas mesmo urbanas, ainda que menos pulsante, mas ainda humanas e encruzilhantes entre as formas de estar por aqui. Formas dos meios ditos que dizem tanto que nem seria necessário ser outro alguém, talvez nem eu, mas com certeza óbvio. Só restava mirar e ver hermano. Rapsódia diária da sarcástica urbanidade desde florescente entardecer amarelado blasé como tantos outros que se desmistifica da caraça engomada e me refaz num total sem capas de unhas ou pensamentos inacabados. As capas esvoaçam na direção da música que ouço no memento. Acordes maiores sucessivos que crescem um após o outro vão embalando palavras que já quiseram engomar num englobo do globo, mas agora estão se festilizando num escampado de possibilidades onde a escrita não é pensamento nunca ainda que sempre. A escrita é simplesmente uns dedos que se mexem. Assim seja. Ave Páscoa. Amém.
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Não consigo mais escrever.
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Então:
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Oh, Louva – a – Deus cavaleiro, sempre.
Seja em Guardanapos de Papel
Seja no canto dO Rouxinol
Que canta para a Janela pelo Mundo.
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Mas,
Agora sim né, Rapaz!!!
Todos nós prosseguimos ainda que arrastantes
Pois estamos apenas recém Levantados do Chão
Como não seria assim!?!?!?
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Mas, pense bem,
Veja pelo lado bom,
Os Tambores de Minas ainda estão a soar.
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Uma curiosidade: esses escritinhos do fim dos dois anos são feitos encima de nomes de músicas do CD tambores de Minas do Milton Nascimento.
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Boa Páscoa pra todos...
Um comentário:
"Não me engano por pouco, é xik ser assim hoje em dia, lúcido e tenaz."
Não que esta parte retirada do texto tenha mais significado pra mim. O texto inteiro é lindo, está lindo e eu relembrei do texto de páscoa de 2006, infelizmente.
Gostei desta frase.
Interessante o poema feito com os nomes das músicas. muito bom!
...E os Tambores de Minas ainda estão a soar...
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