Num velho casarão de uma cidade abandonada havia alguém. Alguém velho ou novo, alguém sem jeito, alguém trêmulo, alguém que não se distinguia de si mesmo. Era um alguém nenhum. Não se satisfazia de além. O próprio lugar era um entorno só, apenas um pretexto de localização que não necessitava ser aqui. Os aquis, lá, ondes não relevavam, não conseguiam fazer estar. Não era da natureza deste, estar. Era sem maneira o existir, o pensar, o respirar, o tremular. Uma constante vibração. Não há estático para o que vibra, não há constantemente para o absoluto. Há o que se há mesmo sem estar, simples assim. Um todo de si alojado no canto esquecido do monólogo das ruas. Um paralelepípedo após o outro naquela constância monótona, monóloga, ladeiras de sem ser, vielas de não estarem, corregozinhos e pontos espaçados entre a inconstância das terras de lá. Tufos de ligeireza permeavam por entre esquinas. O barro marcado pelo pneu que não passou. O barro ainda espera naquele mesmo descalçado. E o casarão do algum em si. Lá havia vida, noutros lugares o talvez hipnotizasse o olhar, mas nada seria realmente provado. A prova estava naquela casa do canto. Entre tralhas e telhas caídas, entre papéis psicografáveis que esperavam uma mão que de si faria. Essa era a regra e nela reside a trama. Uma mão que não viria, não fosse a procura cercada de si mesma. As luas não passavam naquela não referência. Dias e mais dias se perdiam no pêndulo. O tempo se inebriava por si e não sabia mais em que ponto estaria. Vai e vem sempre. Contava inocentemente as horas pela vibração de seu tremular. Estava em si o algum convencido de que assim se pode levar, mas bastavam alguns instantes para que a contagem se dispersasse por entre pensamentos e tudo se iniciava novamente como o olho que acredita estar amanhecendo apenas porque o vento está fresco. Necessitava pensamento domado. Necessitava criar a maneira de sulcar a passagem do tempo por entre as coisas para que aquilo tudo, no seu envelhecer, determinasse a sua progressão. Mais a progressão nasceria de si. Necessitava libertar o existível. Tinha ânsia de movimento, mas enquanto não houve horas, dias, semanas e derivados, o verbo não poderia se executar. Não havia como saber quantos vibrares estava ali. Milhares deles. Espasmos escassos diversos já havia fixado em sua percepção, mas nada daquilo era suficiente para realmente abrir campo para a ação. A ação se faz no tempo, o tempo se faria no algum, e somente esse poderia ser o sentido da própria existência que ainda não existia, já que também ela se faz no tempo. Como inventar a consciência da passagem e mais passagem e mais outras para se libertar do formato atemporal que a matéria tem em si? Era necessário uma história para isso. Era necessário quem a escrevesse, era necessário que alguém reconhecesse a possibilidade do algum e assim, no auxilio mútuo, a liberdade de ambos se tornaria o próprio desenrolar da vida. Era necessário palavras para enfim possibilitar, em si, o verbo da criatura.
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